quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Febre de segunda à noite - I

Sugestão de acompanhamento musical:
One, two, three, four - Feist

O ministro distraído

1940 - Os alemães tinham entrado em Paris. No palácio de Buckingham, a notícia fora recebida por rostos sérios e deformados por um riso controlado. Urgia, contudo, ser mais forte que o passado: o futuro poderia bombardear o Reino Unido a qualquer instante. Perturbado, o General desabafou com o ministro.

- Precisamos de aviões.
- É de nariz no ar que levaremos com uns torpedos no rabo.
- É de rabo protegido que levaremos chumbo em cima.
- Quem é aquela jornalista?
- Parece séria, que idade tem?
- Os franceses devem `tar com um ganda melão.
- O rabo.
- Acho que tem menos de 25.
- Legião Condor.
- Legião Condom.
- Precipitas-te. Liga para Lockhead, preciso de aviões para sete esquadras.
- Eu?
- És o ministro, porque não trazes os aviões da América?
- Andaste a beber?
- Era uma boa opção.
- Beber?
- América, aviões v-v-v-v-v-v-v-t-t até aqui.
- Despenhavam-se a meio caminho, é muito longe.
- Diz-lhes que meter gasolina é uma boa ideia.
- O avião tremia e depois caía de nariz.
- Vamos levar chumbo em cima se não fizeres a chamada.
- Não tenho dinheiro no telemóvel.
- Hum? (queixo do General levantado)
- A-ham (tosse)
- Catxá-Catxá-Catxá (barba do General coçada)
- Eu disse tél..?
- Disseste. Tú aí, operador de câmara, o ministro disse telemóvel – não foi?
- Disse que eu ouvi, aqui a maquilhadora pode confirmar.
- Telemóvel.
- Ah-haham (muita tosse).
- Catxá-Catxá-Catxá (pêlos do nariz do General coçados)

(Corta)


Eliseu e Henriqueta

Entrada principal do Fórum Picoas, 29 pessoas reunidas pelas 14h da tarde. O Eliseu, 30 verões de copos (dir-se-ia que nasceu a beber), já tinha topado a Henriqueta: morena, modos brutos e sorriso sincero – deveria, tinha ele como certo, trabalhar na Cultura. O trabalho do Eliseu como segurança era um pouco chato e, não raramente, era possível vê-lo percorrer as secções daquela Redacção em busca das pernas perdidas. O Eliseu gostava muito de mulheres. Nessa tarde estava ele com o amigo Matias, quando viu a Henriqueta: modos brutos, sorriso sincero e bafo latifundiário. Aproximou-se.

- Deviam fazer salas de fumo.
- lolololol.
- Matias (sussurrou), o que é isto?
- (incrédulo) Não faço a mínima ideia.
- Vou tentar de novo.
- Isso, faz isso.
- Tens um nome bonito, Henriqueta, será que o Shakespeare gostaria desta Lei?
- looooooooooooooooooooooooooool.
- Matias (voltou a sussurrar), socorro.
- Vais ver que a coisa melhora. Dá-lhe tempo.
- Esta noite não durmo e a culpa vai ser tua.
- Vá, queres voltar já p`rá cancela e “boas, senhor director?”
- Sim, realmente.
- Vá, ela tem um sorriso sincero, bafo latifundiário e poesia.
- Poesia?
- Sim, poesia contemporânea.
- lol?
- “São novíssimos dias”.
- J. P. Simões é uma boa pomada.
- Coragem, dá-lhe outra oportunidade.
- Há uma nova Lei que decreta dias específicos para a prática do sexo.
- lolololololol.
- Matias vai à merda (ele bem tentou sussurrar).
- (ele já não) Continua pá, agora é que isto aquece.
- Fareis amor à segunda, quarta e sábado.
- Super hiper loooooooooooool.
- E se vos entusiasmardes à sexta, tereis a senhora ASAE a bater à porta.
- Mega lolada.
- Vou pegar no maço e ligar directamente à central a dizer que pequei.
- looooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooool.
- lol (desistindo).
- Fútil.
- Atão mas..?
- És fútil, um homem feito... tss-tss.
- Mas.. mas `tavas a dizer o mesmo, pensei que eram “novíssimos dias”!
- Já não se fazem homens como antigamente, adeus.
- Matias!

sábado, 29 de dezembro de 2007

Sonho de uma noite de Inverno

Sugestão de acompanhamento musical:
As time goes by - Dooley Wilson

Vivi – Avó
Maluquinha – Mãe
Pai – Pai
Miguel – Irmão
Rui – eu
Carlos – Tio
Olga – Tia
Carlitos – Primo-girafa mais velho
Ricardinho – Primo-girafa mais novo

O ar estava saturado. Não me lembrava de uma véspera de natal tão pouco véspera de natal cá em casa, do pouco que a minha memória ainda não foi bebida.
Os fritos, outrora feitos no dia 23, não deixavam qualquer tipo de rasto sensorial. A coisa não melhorava no que toca a embrulhos: estavam reduzidos a menos de metade face a 2006 e inclusive a minha conta já andava a ser consumida há algum tempo. Embrulhá-la-ia a minha mãe, horas mais tarde e perto da ceia. Para fechar o quadro anti-natalício, estavam já as janelas fechadas como acto da tolerância zero que temos para com o entardecer portimonense (seguramente o mais quente da história para 90% do país invernil) e a casa deserta.
A nossa casa na véspera de natal deserta e com as janelas fechadas.
Os motivos eram vários. O meu Pai ainda tinha dois clientes no bar e de lá parecia não conseguir saír; a Maluquinha passara a manhã no ginásio e estava com uma gripe histérica, patologia a que chamarei "esquizofrenia natalícia"; o Miguel tinha uma ressaca dantesca em cima e encarava a descida do quarto para a cozinha como sair à noite no Porto; a Vivi, eterna mãe do nosso natal, acabara de regressar das urgências do hospital Barlavento - com dores e rija que nem o pêro do outro (de acordo com os médicos). Perante tamanho arco-íris, corri ao telefone e liguei ao meu tio Carlos.

- Moce, inda `tas ém Ólhão?
- Tão cabeçude, sim `tô de volta das sapatêras.
- Ótime. Téns Charlie Parker?
- Ténhe.
- Téns Chet Baker?
- Ténhe sim, hóme.
- Téns Gillespie?
- Ténhe éss`s gajes tôds.
- Na os dêx`s ém casa atãum, té lógue.

Tinha bem presente que, até os meus primos começarem a dar pontapés na porta (forma como – carinhosamente - anunciam a sua chegada sempre que vêm cá a casa), haveria um buraco silencioso de 60 e tal quilómetros entre Olhão e Portimão que teria de ser tapado a todo o custo. Aos meus olhos, então, senti que tinha a cumprir uma missão: tornar uma tarde profundamente chata num magnífico e postiço natal. Convenhamos, por vezes ninguém tem mesmo culpa se as coisas não correm como o esperado e então alguém tem de, por e simplesmente, por as coisas a funcionar. Foi o que tentei.
A primeira etapa passou por correr à sala e sintonizar a rádio na antena 3. Pela casa fora, durante cerca de 15 minutos, ouviram-se músicas de natal góticas, techno e de heavy metal. Não era bem aquilo que tinha em mente. O passo seguinte foi invadir a cozinha e ligar a televisão no Cirque du Soleil, não exactamente para que o modo vesgo tomasse conta dos nossos sentidos mas antes para borrifar a palidez daquelas paredes com música cheia de magia. E por fim, ganhei coragem e sentei-me à mesa para ajudar a minha engripada mãe na cozinha (sem o fazer a duas divisões de distância, a despachar como de incompetente costume). Descasquei alhos até o Carlos chegar mais os míudos e se este raciocínio deixar alguém na encruzilhada “ele descascou tantos alhos assim ou é simplesmente um nabo?”, pois que saibam a nobreza do meu carácter ao confessar o que a Maluquinha me disse, logo que ofereci o valor dos meus préstimos: “descasca aí duas ou três de cabeças.”
Pontapés na porta, chegaram.
Para variar muito pouco, os meus tios trouxeram na sua carripana um centro comercial inteiro de prendas e, com a nossa ajuda, despejámos aquilo junto à árvore de natal. E passámos ao jazz.
Ele não se esqueceu do nosso grunhido telefónico e trouxe 5 ou 6 colectâneas com os grandes mestres do bop, mais um disco do Brian Ferry. "Mas que raio estaria aquele mel peganhento a fazer ali..", pensei. A resposta chegou logo que o cabeçudo do Carlos me viu com aquele álbum na mão, olhando feito gnú para a cara de coelhinho abandonado do senhor Ferry, estampada na capa.
Começou por me dizer que tudo ia bem e que havia uma malha espantosa nesse “As time goes by”. Demos corda ao bicho. “Carrega aí na número sete não é esta experimenta a dois mas vai daí acho que é e portanto será definitivamente a quatro embora não seja e tenha acertado ao lado então esquece vamos tomar uma cervejinha e ouvi-lo todo que é muito bom”.
Varremos este disco de covers dos anos 30 a dançar pela casa, e ao perceber que os meus pés se atropelavam com jazz do Brian Ferry, percebi que o natal tinha, enfim, chegado. Estávamos a dançar Brian Ferry. Missão a caminho do sucesso.
Entretanto a cozinha entrara num alvoroço que, pessoalmente, me agrada. A Olga e a Maluquinha de volta da comida enquanto descascavam na vida dos outros, os míudos ajudavam-nas mas não descascavam e o meu pai e o Miguel eram os actores principais de uma trama cuja banda sonora era dançada por mim e pelo cabeçudo do Carlos - com o volume perto do máximo.
Não demorou muito até a Vivi irromper pela sala adentro, pregando que "não admitia música de putedo". O Miguel acabara de lhe dizer que música "clássica" tinha essa matrícula atrelada e a Vivi encavalitou-se no Renault (canadianas) e rebentou em cima de nós. Que não admitia "que se ouvisse putedo" e aliás seria música pimba a salvação. Todos nós sabemos que o Miguel se estava a meter com ela, mas a minha avó é muito querida e não percebe as coisas. Eu e o Carlos estávamos a bater o pé e assim continuámos, rimos muito e corremos atrás dela para lhe dar beijinhos e despentear o cabelo novo.
A Maluquinha acha-me esquisito. Desde que saí de casa rumo a estudos de boa vida em Lisboa que ela me acha cada vez mais esquisito. Naquela noite era porque oiço jazz e não pagaria para ver Scorpions. A Olga, mulher do Carlos, foi para Lisboa uns dias antes com 3 amigos para ver os Scorpions e chegou a casa às 04h00 - com o Carlos a hibernar cheio de fé. O meu tio chama-lhe lustrosa e andam sempre à zaragata mas está tudo muito bem até – aparências aparte.
O Carlos acha que o que levamos da vida são prazeres como os de comer, beber e “cobrir”. Este último, vontade exacerbada de um amigo seu nos últimos tempos e denunciada pelo próprio Carlos à mesa, seria, de acordo com a minha avó, bem melhor que “ganir”. E com vontade de “ganir” estava a minha tia Ana Paula, o que a minha mãe ficou a saber quando falou ao telefone com ela para desejar bom natal à família que está em Espinho. "Ganir fazem os cães e nós não somos animais que isso não tem jeito nenhum"! – disparava a Vivi enquanto defendia que a vontade de "cobrir" do amigo do Carlos “tinha mais preceito” que a de “ganir”.
O debate sobre jazz continuava entre mim e o Carlos, que tinha toda a vontade em me apresentar um tal combate no Savoy Hotel entre o Chuck Webb e um amigo de sorrisos jazzísticos. Não encontrámos coisa nenhuma que se parecesse sequer com isso.

O pessoal do jazz nesta altura sorria muito, é qualquer coisa.

Finda a ceia e após uns fantasmas mudos terem planado sobre a nossa mesa, o Carlos perguntou que se bebia naquela casa. 10 segundos volvidos já eu lhe trazia uma bela amarguinha de 17 anos que tínhamos ido buscar à cave fazia poucos dias. E que não sabia lá muito bem. Até acho que podia ter doenças. Mas bebemos sem hesitar até que começámos a falar de traques.
A Maluquinha tem um trauma com traques, porque quando era menina dormiu muitas vezes entre familiares de idade e que perfumavam. Ela não gosta que perfumem e também não gostou quando a Vivi corrigiu que não era traque mas sim peidinho.
Muito tonta, a minha mãe. Fica bêbada com dois golos de vinho. Mas isso só dura 10 minutos. São 10 minutos de National Geographic. Não consigo explicar melhor.
O Ricardinho já é escritor. Ou pelo menos, assim pensou a Vivi quando pelas 02h – mesmo antes de descer aos seus aposentos – teve um encontro imediato com “A boca do Inferno”, do Ricardo Araújo Pereira e dirigiu-se-me num doce “Oh filho `tá aqui o nome do Ricardinho, ele já escreve?” O Carlos regressara, entretanto, a um tintol São Domingos da Bairrada e foi esticado no sofá que aterrou num sono profundo, após uma extenuante luta de cócegas com o Ricardinho. Seriam, talvez, 23h37. O meu tio adormece sempre antes da 00h00 na noite de natal. O irmão mais velho do Ricardinho é o Carlitos e está triste com as prendas que recebeu da mãe. Tem 16 anos e eu também já os tive pelo que, ao reparar no facto, solidarizei-me com o moço e disse-lhe “`tás na idade parva. Também já passei por isso, hás-de sobreviver”.
Ele ficou pior.

Tenho a garganta armada em parva. O Ricardinho parece uma girafa, cresce que não pára.
- `Tás pequeno! – atiro-lhe
- Tenho onze – devolve-me
Yabadabadu.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

O Pátio do Linólio

Sugestão de acompanhamento musical
Getting Better - The Beatles

Saí de um curso onde eram ministradas aulas de cabeçada anti-sanguinária a todos aqueles que gostam de arriscar a sua vida pela dos outros. Falo da profissão de duplo.
A sala era pequena e os alunos, é bom dizer, jamais sangravam independentemente da vontade partilhada para que tal acontecesse. E vontade, garanto-vos, não faltou naquele recinto. Foi no calor desta candura que – num assomo de Heidi – aproximei-me da janela e vi o Linólio. Aquela figura esbranquiçada, distribuída por 3,14 metros de pilantrismo – feio como um abutre feio, raíz de sebo, babuíno. O Linólio, no pátio.

Atenção que talvez seja este o momento em que tenha de me retratar, ataques pessoais deste tipo não se coadunam em nada com o espírito deste Castelo.

Talvez esteja a ser duro com o Linólio. Talvez nem seja este o seu nome e a privacidade da pessoa em causa esteja salvaguardada. Talvez me digam que não é assim, falha no sistema – erro tipográfico. Aceito tudo isso embora tal não invalide o facto de o rapaz ter uma falha entre os dentesguerreiro (importa dizer que nada tenho contra a mesma) pela qual são constantemente projectados esguichos de saliva em massa contra o rosto dos seus interlocutores. Julgo que propositadamente, tal a mira.
- Ah tenho dentesguerreiro..
Desculpas! Todos nós conhecemos os Linólios que por aí andam, a fazer uso dos seus poderes maléficos contra pessoas indefesas. Quantas vezes já não tiveram a amabilidade de ceder passagem a um Linólio, numa carruagem de metro inundada por pessoas ávidas de sair na estação seguinte – sentindo a posteriori o agradecimento dele na pele, com saliva? Talvez nenhuma mas isso também não vem agora ao caso.
Entretanto a bola, com a qual eu estava a jogar ao pé da janela, tombou para o pátio. Olhei para trás, fitei os meus colegas e como sugeri de entrada, pedi desculpa pela urgência em retirar-me sob o pretexto de estar duas horas atrasado para um jantar de família. Ao sair porta fora, voei pela janela.
A viagem foi curta e, para ser honesto, pouco entusiasmante. Lembrei-me da cama voadora do Kusturica em “A Vida é um Milagre”, na certeza de que tudo era possível e que faria turismo por várias culturas de insectos acolhedores. Mas tudo ficou longe disso.
Desci do edifício onde eram ministradas aulas de cabeçada anti-sanguinária que nem uma folha de amendoeira, planando lentamente ao largo daquilo que me pareceu uma zaragata entre vespas. Não queria acreditar mas, ao chegar junto da confusão, confirmei que os ânimos estavam exaltados e discutia-se qual – entre elas – teria o “ferrão mais capaz”. Intervi.

- Olhem, não pude deixar de reparar que vocês estão a discutir qual das duas terá o ferrão mais capaz.
- Fantástico Einstein, agora salta daqui para fora que eu sou a vespa do ferrãopetit e mordo quando ladro.
- Não ligues forasteiro, ela é tipo abelha. Uma mordidelazinha e bate logo as botas, é tudo fachada. Eu é que sou a vespa do ferrãopetit.
- Eu!
- Eu!
- Calma, calma meninas. Só passei para vos dizer que enquanto vós putas andais aqui a discutir quem é o chulo, acabei de ver o Linólio alí em baixo. E olhem que ele hoje parece estar com o salão dos dentesguerreiro particularmente aberto, dia de perigo público.
- Contra os quais nada tens, correcto forasteiro? Pois seja, que já consta em alguns círculos de insectos que aqueles dentes são mais letais que o meu ferrãopetit! Ao ataque! – e lá foram as vespas, testando a capacidade do seu ferrão num fim chamado Linólio.
Já eu, pelo que me tocou, aterrei no terraço de um piso onde encontrei um bar parecido com o da minha universidade. Entrei e avistei caras familiares à minha vida académica: Pus-me na conversa com o J.P.C (que comia uma sopa de aspecto duvidoso), a S. (que bebia café) e o namorado (que estava atrás dela). A avó da S. acha que eles não andam, pelo menos a neta assim o põe.
Ao grupo juntou-se também o P., que fez a barba e agora noto que por trás dele, no enfiamento da sua encerada popa, encontra-se o J.A a trocar argumentos com pessoas aparentemente daquelas assim muito importantes. Em pano de fundo, um ecrã mudo e gigante com imagens de Underworld.
De seguida reencontrei-me com a rua, agora deslinolizada pelo ferrão das vespas. Acabei por sair pelo rabo do edifício sem rumo algum e deparar-me com uma ladeira empinada que descia para onde me convinha (pois subir cansa e não me apetecia). Manifesto pró-preguiça. Contornei a curva e lá em baixo, imponente, o ferrari (Renault Clio) da minha avó liderado pela filha e desprovido de mais soldados. A minha mãe no ferrari, à minha espera com ar reprovativo, a minha mãe embora eu tenha mentido ao pessoal do curso sobre o jantar. “Que raio fazes na minha mentira?”, penso –
Passo por ela, digo que “cheira a anos 90” e é com a rua deserta que me apercebo de que o sol devia andar com insónias visto serem 22h00 e de escuridão nem sinal.
Sinto o bolso vibrar, vou ao motivo electrónico e mensagem da Sónia. Sorrio, diz que acordou e fico na dúvida. Será que ontem ela me sussurou qualquer coisa ao ouvido como “força do mal” ou está mesmo a fechar este sonho? Tal é a dúvida daquele cuja mão direita tremeu, à instantes, ao despejar chocolate em pó no leite - ainda que o mesmo tenha atracado no cais devido.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

O Duelo

Sugestão de acompanhamento musical:

Guilty - Yann Tiersen

É que hoje cheguei a casa e vi um pombo a fazer-se a uma fêmea no terraço do prédio diante do meu, insinuando-se com a cabeça junto à plumagem cinza-clara do seu peito e logo começaram aos trambolhões. Ora toda esta rua seria libertinagem animal não fosse o caso de outro pombo, chamemos-lhe "Corno", ter aparecido diante deles em voo picado e com uma linguagem corporal ameaçadora. Não havia duvidas, tínhamos Corno. Os "pombinhos" largaram o trambolhão e o macho (Jumentino) sugeriu à fêmea (Jumentina) que se afastasse, pois “aquilo seria assunto de Pombos".
Pombôs - aliás - visto serem franceses.
E foi com o bico coberto de baba – que poderia ser de raiva mas aliás era apenas pouco cuidado na relação entre saliva e francês - que o Jumentino se virou para o Corno e ambos sentiram o peso do momento. Prédio abaixo, apenas a dois andares daquele que tinha todo o aspecto de se vir a tornar o teatro de um duelo texano, um animado grupo de jovens praticava um ritual sonoro a que poderemos chamar de "sirene esquizofrénica de bombeiros". O grito colectivo era vomitado de uma janela bem espreguiçada, para onde era sugerível que contemplássemos o interior charmoso de um ar não respirável, Lisboa como Londres. Mas sem fog, nem Londres. Nem charme. Era mesmo só muita droga.
Seria então aquela melodia, tão doce, afinal um prenúncio cirúrgico de tragédia vindoura? Haveria duelo de pombos pistoleiros? Será que o Chavéz ouve Kings Of Convenience?
A resposta a estas dúvidas chegou num acordo tácito sobre os trâmites do duelo shakespeariano pelas penas da pomba amada, que aliás nunca foi tida nem achada no assunto. Ambos voltaram as costas ao respectivo opositor, recuaram 10 passos e a Jumentina chorava com a alma realizada por ter a sua plumagem disputada pelo Jumentino e pelo Corno. O que se seguiu foi intenso, profundo, dramático - foi épico. Ambos foram ao chão buscar uma pedra afiada e desenharam o jogo da macaca no terraço do prédio diante do meu, batalhando em seguida por um lugar no coração da Jumentina através da prática do jogo referido. Petrificada com a falta de músculo evidenciada pelo momento, afinal pouco romântico, deu meia volta e voou para Norte. "Onde ainda se fazem pombos como antigamente" - atirou - enquanto fugia "da macaca" num dia triste, em que o sol faltou ao trabalho. O facto não pareceu importar muito aos pombos beligerantes, que se mantiveram a brincar o resto da tarde e a dividir palmadinhas na cauda - “ah, malandro, falhaste um saltinho alí” - bastante denunciadoras de uma crescente e comovedora cumplicidade entre ambos. E já que falo nisto, parece-me que ainda ali estão mas esconderam-se atrás de qualquer coisa cujo movimento de silhueta lembra um pêndulo ininterrupto.

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Esquerda e Direita

Sugestão de acompanhamento musical:
sapateado, gaita e tambor (experimentem tudo ao mesmo tempo)

Alguns anos de convívio e espionagem social e uma hora de sonhos em transportes públicos dão-me o desplante de, aos 24, julgar que descortino tendências de identidade no espectro direita-esquerda, radicalismos à parte. Nunca fui muito de rótulos mas este caso merece caricatura.
Como tenho para mim que a política é uma área que emana um odor duvidoso, invisto pelo quotidiano comum das nossas vidas. Na certeza de que me engano muitas vezes e frequentemente tenho dúvidas, o auditório gigantesco de três leitores do nosso Castelo é evidentemente livre de não concordar com as propostas adiante formuladas:

O indivíduo de direita ganha mais dinheiro que o de esquerda.
O de esquerda ri-se mais vezes.
O de direita gosta de filmes de terror.
O de esquerda não gosta de chuva.
O de direita quando tira a carta pensa “um dia vou ter um porsche ou um ferrari”.
O de esquerda gostava de tirar a carta e, conseguindo-o, parece-lhe bem um carocha.
O de direita é do Benfica.
O de esquerda diz ser do Sporting mas só conhece o Ricardo (que já lá não está).
O de direita utiliza “eu” em 76% das frases.
O de esquerda não faz a cama há dois meses.
O de direita tem os livros arrumados por ordem alfabética de acordo com os títulos.
O de esquerda não sabe onde eles andam.
O de direita ganha ao de esquerda num sprint de 60 metros, ao snooker e no PES.
O de direita estuda economia e/ou direito.
O de esquerda cozinha bem.
O de direita não sai porque tem uma borbulha na testa: “ Estou engripado/a”.
O de esquerda está engripado, dói-lhe a cabeça e sai na mesma.
O de direita ouve música que lhe entristece ou deixa furioso.
O de esquerda ouve música que não passa na rádio, nem na televisão.
O de direita gosta de ler coisas que existem.
O de esquerda gosta de ler coisas que não existem (para os de direita).
O de direita vai ao ginásio.
O de esquerda gostava de ir, mas aborrece.
O de direita compra revistas de carros ou moda consoante sexo ou inclinações afectivas.
O de esquerda lava a cabeça menos vezes.
O de direita espreita-se ao espelho com maior frequência que o de esquerda.
O de esquerda goza com o bigode do Hitler.
O de direita não acha piada ao do Che Guevara.
O de esquerda tem 45 garrafas de água espalhadas pelo quarto e não sabe porquê.
O de direita adormeceu a ver “uma verdade inconveniente”, em frente ao computador.
O de esquerda bocejou muito no cinema, mas aguentou-se até ao fim.
O de direita tem 756 fotos no hi5 e 99% são de si mesmo, sozinho ou cortando a foto.
O de esquerda diz que tem mas não o utiliza, embora passe por lá regularmente.
O de direita leu e adorou o Código da Vinci.
O de esquerda leu, também gostou, mas roga-lhe pragas se houver pessoas por perto.
O de direita, de verão, sai com camisa aberta até ao umbigo (ou decote) e gola eriçada.
O de esquerda sai de noite com a mesma roupa com que saíu de dia.
O de direita conduz o carro xuning, aquele com luzes de néon e kisomba aos berros.
O de esquerda acha que o Titanic é o pior filme da história dos piores filmes.
O de direita gosta de dançar.
O de esquerda prefere falar.
O de direita é mais bonito/a de noite.
O de esquerda é mais bonito/a de dia.
O De DiReItA eXcReVe AxIm NaS mEnXaGeNx.
O de esquerda foge do Algarve em Agosto.
O de direita é o Algarve em Agosto.
O de direita, no dia de natal, diz que recebeu 27 prendas depois de ir à missa do galo.
O de esquerda, ressacado, diz que o vinho estava óptimo.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Um Quarteto no País das Maravilhas

Sugestão de acompanhamento musical:
The Koln Concert – Keith Jarrett

I

À chegada para a sessão das 21h15, o átrio do Quarteto enquadra-nos numa espécie de América perdida. Lembra um qualquer café da route 66, cheio de vidas que já não são e algum estoico bebendo as suas desventuras ao balcão de um bar. La Niebla en las Palmeras é o filme que escolhemos da amostra de novo cinema espanhol, que o festival audiovisual número-projecta exibe nas salas do Quarteto. O Ricardo, com quem fui, pagou o meu café porque evidentemente levei o cartão jovem e não o do multibanco. Chávena pousada, casa de banho para refrescar a garganta com água, sala 3.

Mas eis que recebemos silêncio e escuro. Alí - num teatro onde a luz sempre brilha no início de um trailer abafado pelas piadas de algum esperto que sempre sonhou em ser comediante - silêncio e escuro. Julgamos que não haverá sessão, a sala tem um aspecto fúnebre e agora, que reparo nisto, também achei os corredores diferentes e aliás tristes. Mas de tristeza não é feita esta história que segue o novelo mágico do Cinema Paraíso. Já diz o povo: sala de projecção aberta, invasão pela certa.
- E a saúde dessa máquina, chefe?
- Nunca deu problemas em 30 anos! E nos grandes centros comerciais é a mesma!
Sorrimos e pedimos para espreitar mais um pouco a janelinha mágica que mergulha na sala dos sonhos e “saiam que o filme vai começar”. É mais a vontade que nós temos de pintar bonito do que, claramente, a simpatia daquele projeccionista. Mas tem de ser como no cinema. São ligadas as luzes baixas e o ecrã exibe uma imagem detida, com stop e play como opções visíveis no canto superior direito.
- Ei, será que..?
- Não, `tás maluco Rui – isso nunca acontece.
E respirei fundo, para entrar cedo no enredo. Li a sinopse, “isto fala sobre fragmentos biográficos de um físico-historiador-fotógrafo que nasceu em 1905 e aparentemente ainda vive: a narrativa repousa em acontecimentos marcantes da sua vida, fazendo uma revista do século XX através do jogo entre o valor da imagem e a memória”, parece interessante.

1) O filme está mesmo em formato DVD: Play
2) É projectada uma dança flutuante com figuras geométricas e um frenezim psicadélico
3) (Hummm mas a sinopse dizia que...)
4) O projeccionista entra pela sala e pede desculpa pelo formato não ser o adequado
5) O filme recomeça, procuro traços da sinopse – zero, mas esta alienação é terapeutica
6) Surrealismo desenfreado, com o rosto de uma mulher metamorfozeado em romãs
7) (Desconfio que este filme.. hummm..)
8) Aterra uma voz à Leonard Cohen, fala em “cavernas verdes, gotas eléctricas”
9) (Continuo a ach...)
10) A pancada cósmica do Syd Barrett era de menino ao pé deste realizador
11) Já não acho nada, levaram-me (deixei-me levar)
12) O filme termina com “A gravidade é uma maldição da qual nos livramos ardendo”
13) O DVD volta ao início, não há sinal de luzes baixas e a viagem recomeça. Ficamos.
14) 10 minutos depois saímos e o projeccionista aproxima-se
15) “Desculpem houve um contratempo e passámos Tira tu reloj al agua – gostaram?”
16) “Sim já que fala nisso apetece-me explodir num cubo mágico habitado por duendes”
17) “Vieram pela sinopse do outro? Amanhã exibimo-lo, estão convidados!”
18) “Ah, `tá tudo - cá estaremos!”

II

E estivemos. No dia seguinte chegámos ao Quarteto com o imaginário preenchido por uma passadeira vermelha, meninas escandalosas com champagne e bolos. Afinal de contas, tínhamos o nosso nome na guest-list (papel rasgado de um bloco A5 e com os nossos nomes escritos em diagonal). Fomos directos ao senhor da bilheteira, que de imediato nos reconheceu. "Façam favor, sala 2!"
Tudo corria, assim, pelo melhor, se eu não tivesse reparado que, ao nosso lado, dois portugueses e uma espanhola trocavam ideias sobre o filme que ainda desconheciam que não iriam ver. Fiz a minha boa acção do dia, ela - natural de Granada (local de rodagem de Tira tu reloj al agua) - lamentou a troca não alertada de fitas (DVD`s, perdão) de que o senhor da bilheteira tinha perfeito conhecimento, e “que va, entonces vamos a ver que ofrese esa Niebla en las Palmeras de que hablas con tanta chispa”.
É um facto que achei a sinopse muito interessante.
Mas ao dirigirmo-nos para a sala, um rapaz com barba por fazer-feita adverte-nos para um ligeiro atraso na exibição do filme face à hora previamente marcada.
- Temos um ligeiro problema com o som, daqui a nada chamar-vos-emos.
- Tudo bem chefe, vamos ao café.
Devolvo ao Ricardo a cortesia do café pago e sentamo-nos. 15 minutos volvidos, o sinal esperado com uma mão a chamar-nos de polegar encolhido e os restantes quatro dedos num vaivém nervoso. Pertencia ao mesmo rapaz de barba por fazer-feita.
- Ah não sei se sabem mas o filme de ontem é o que vai passar hoje.
- Sim já sabíamos e aqui a espanhola de Granada e seus amigos acabaram de saber.
Entramos, e ao sentar espreguiço-me sem maneiras e já nem estranhamos o Play e o filme começa. Uma bela e unida família, era a foto a tirar àquele quadro.
O filme é interessante e colorido, vemos que o surrealismo bizarro de ontem está mais calmo com voz e existem pelo menos projectos de um fio condutor na narrativa. O realizador vive obcecado pela morte, quer fugir dela mas também deste mundo e nunca esqueceu o seu primeiro amor de infância.
É um romântico. Acaba o 4º capítulo, vamos virar para o 5º que se intitula “cor” e..., e..., e nada. A imagem pára.
Pergunto ao Ricardo se aquilo será tipo free-jazz e o realizador teve vontade de parar o filme porque sim de forma a que os intelectuais depois, a discutir o tema em sítios sem vida, lhe chamem arte e ele seja tido como artista - o que não é necessariamente uma e a mesma coisa. Ele acha que eu tenho razão, mas começo a estranhar a coisa e o grupo com a espanhola também portanto saio da sala e chamo o projeccionisa. O anjo surge de imediato, envergando uma camisola que diz “ganhei o óscar vitalício de maior tromba do universo vivo e nem sei como se lembraram de associar o verbo viver ao meu focinho vegetal.”
- Olhe desculpe, o filme está com algum problema - sugiro.
- Não tem nada que ver com isso – atira-me o senhor, com algum carinho
- Não? Então tem que ver com o quê? – devolvo, com cara de nenuco
- Não tem nada que ver com isso – e fechou atrás de si a porta que dá entrada para o seu pequeno império e aliás na minha cara.

Feliz e contente, voltei à sala e presenciei um espectáculo aos trambolhões de erase and rewind que culminava, invariavelmente, na imagem parada relativa ao início do 5º capítulo intitulado “cor”. E não foi senão cerca de dez minutos volvidos que o senhor dos dedos nervosos, com barba feita-por fazer, entrou pela sala e dissertou sobre causas e nem tanto sobre consequências.
- Temos dois dvd`s com este filme, pode ser um problema no leitor de DVD`s porque ele já passou aqui e não deu problemas. Nenhuns, mesmo! Vou tentar outro leitor, aguardem só um momento.
De regresso pouco depois - e com o filme a patinar a preto e branco pelo 4º capítulo que eu e o Ricardo já fazíamos por adivinhar a cada plano repetido - o senhor dos dedos nervosos perguntou quanto tempo demorava cada um e se não valeria a pena tentar que ele chegasse naturalmente ao corte para o 5º, intitulado "cor". Foi aí que não pude deixar de observar que tudo corrreria pelo melhor se o capítulo em questão não se chamasse "cor" e que aquele mesmo plano apresentava, à instantes, uns vermelhos bem arrojados junto à porta que também lá estava - de tez acastanhada e próxima de uma lâmpada de luz baixa que a mim e ao meu amigo me pareceu reflectir um lilás-figo maduro – algo que agora não acontecia.

Após uma pausa colorida de rosto avermelhado para digerir a informação cromática, o senhor certificou-se de que estava a ouvir bem e perguntou-me se o filme estaria a preto e branco, ao que respondi “sim” e ele voltou à pausa colorida do avermelhado rosto.
E assim se manteve. Percebendo a ideia, o Ricardo e eu levantámo-nos e saída ao que logo atrás seguiram de perto os comoventemente bem-dispostos portugueses com a espanhola natural de Granada, que se tinha dirigido ao Quarteto para ver Tira tu reloj al agua, rodado em Granada, e acabava de saír antes do final de La niebla en las Palmeras porque nenhum dos DVD`s funcionava.
Entre o riso e o cansaço, escorregámos em passo-chaplin para a saída, sempre na expectativa de que a pausa colorida do senhor dos dedos nervosos fosse apenas um tranpolim para uma dissertação (que nos parecia adequada) sobre consequências.
Mas quando o senhor da bilheteira nos viu, na expectativa que tal acontecesse, rapidamente investiu que nós não tínhamos comprado bilhete e portanto nada nos haveria a ser ressarcido, ao contrário do que acontecia com a espanhola e seus amigos.
Despedimo-nos deles com um sorriso de quatro euros, um filme bizarro imposto e 2/3 do visado, soubemos ainda qual era a função do tal senhor que mantinha uma pausa colorida e de rosto avermelhado - quando alguém lhe disse “desenrasca-te com os bilhetes, o director do festival és tú” e voltámos para casa satisfeitos com mais uma aventura no Quarteto.


III

Bem, a verdade é que não estávamos propriamente a rebolar no chão e às gargalhadas de mãos na barriga com o sucedido mas eu e o ricardo parecíamos teimar em rir da coisa. Como um amigo de quem verdadeiramente se gosta e, como tal, se acha piada aos defeitos ao invés de se lhes apontar o dedo de censura. E o Quarteto é isso, um amigo de rua, atracado ao seu passado estrutural e experiente na técnica do desenrasca de modo a que o maior número de fitas ou DVD`s inéditos passem à frente dos irrisórios pares de olhos que os testemunham.
Hoje recebi no meu e-mail um terno convite de amizade directamente de Pristina, através de uma pessoa cujo My Space entra com o riso incessante e maquiavélico de vampiros sobre um fundo negro, com bonecos negros e letras a dar para o escuro e que só não eram mesmo negras porque nada se veria. Buh.
Kosovices à parte, a ASAE (ou melhor, asae – como uma amiga minha refere que a entidade em questão deve ser tradada) fechou o Quarteto e a famosa Tasca da Ginjinha, no Rossio. Não haverá mais aventuras, por tempo indeterminado, nem possibilidade de acharmos piada aos defeitos do nosso amigo Quarteto. Lisboetas e turistas tiram fotos a uma fachada sem vida, em vez de pedir a ginja com ou sem fruto. Does PIDE ring a bell?

IV

Se duvidas houvesse de que estive a sonhar este tempo todo, eis senão quando na passada sexta-feira, dia 09 de Novembro de 2007, a TVI encerra o Jornal Nacional com a notícia “David Lynch vai estar em Portugal”. E com honras de directo no Casino Estoril, na sequência da gala de encerramento do festival europeu de cinema que ali decorreu entre os dias 08 e 17 de Novembro.
Tenho ainda marcas no dedo indicador direito das mordidelas que desferi no referido coto, não estivesse eu a planar noutro mundo. E a prova de que tal, de facto, sucedia - é que logo de seguida entrou em cena O Prédio do Vasco, logo seguido do thriller diário de Um Casamento de Sonho. Foi aí que pude respirar fundo, com a consciência de que tudo estava onde esteve.

R.C

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

2084

Sugestão de acompanhamento musical:
Un dernier verre (por la route) - Beirut

Foi numa noite de inverno-verão que a minha avó, sempre disposta a farejar algo que teima em nos escapar entre os olhos, viu uma nave espacial a descer sobre o quintal do vizinho. Como diz um frequentador assíduo da rua Morais Soares, em Arroios-Lisboa, “o dia do juízo final estava aí”. Os “escaravelhos gigantes” que ele vira “ao ler o Apocalypse” - com os quais eu fazia festas de gozo privado enquanto acenava que sim – tinham chegado.

Ou não.

Cinco trolhas saíram da nave e correram na nossa direcção, com vontade evidente de causar estragos. Atrás seguia um senhor baixo, calvo (dir-se-ia que mais volume abundava nas suas sobrancelhas do que propriamente no couro, de tal forma pouco cabeludo) nariz vermelho e achatado. Era o empreiteiro, talvez sexagenário.
Ao ritmo ginasta e autoritário do indicador direito, suado e sempre a varrer a testa alagada, este homem incentivava os trolhas a invadir as propriedades da vizinhança sem que algo os pudesse deter. Estes obedeciam de pronto, irrompendo também pela minha num processo feroz, esmagando tudo o que fosse tomado como obstáculo à sua empresa: “estamos à procura de irregularidades” – esclarecera-nos o senhor empreiteiro.
Ali perto, do outro lado da rua, uma senhora estancou – assustada – enquanto escondia a sua filha-criança por dentro do casaco de cabedal que era longo e que era negro e que lhe corria os contornos das pernas até morder o chão. Carregava em si um pânico visível, que lhe enchera de tal forma os pulmões com ar que, ao dar-se conta de quem ali estava, nem conseguiu devolvê-lo à atmosfera numa só golfada.
Os trolhas continuavam, lavrando tudo o que lhes cheirava a irregularidades - sem sorte até ao instante proposto. Enquanto isso, a senhora dirigiu-se ao meu encontro e questionou-me se aquela equipa "seria de cá". Respondi-lhe que provavelmente não, pelos modos e disposição física aqueles indivíduos de porte loiro e gigantesco deveriam ser de uma zona situada mais a leste, “a Polónia”.
Ao ouvir este nome, o grupo travou o trabalho e a discórdia sobre origens emergiu como traço primeiro e transversal. Uma facção dizia ser de Viseu, outros reclamavam ter nascido em Algoz e o próprio senhor empreiteiro reivindicava que seriam todos de Abrantes, terra onde teria inclusive um café na avenida expo`98 chamado O Gil é gay. Nem me dignei a perguntar por que razão não poderia ter, cada um, nascido num sítio diferente – gente maluca.
Por essa altura, cerca de 30 minutos após a aterragem da nave espacial, os cinco trolhas saíram das cinco casas que compõem a minha vizinhança com zero provas de irregularidades por nós efectuadas. “Reparámos em alguns desvios, mas nada de grande relevo senhor empreiteiro” – disseram ao chegar junto a nós, grupo de vizinhos que rodeava o indivíduo em questão.

Visivelmente satisfeito com o facto, o senhor-do-dedo-indicador-ginasta foi ao bolso direito do seu casaco de flanela azul e tirou um maço de tabaco: em seguida enxutou os seus trolhas de volta para a nave espacial, acendeu um cigarro e sugeriu que estes passassem o resto da noite a investigar irregularidades em pontos-chave da noite lisboeta, como "o Elefante Rosa”. E reiterou, após o anúncio contestado, que iria dormir ali na rua - naquela noite, porque "tinha sentia a falta de respirar num sítio puro como aquele – vasto de poesia selvagem e gente boa que nunca estragou a alma com os demónios que por aí andam a traír a doutrina”.

Os vizinhos dispersaram, a minha avó não e tive para mim que tudo aquilo era muito estranho.
Ainda assim, enquanto espectador batido de fábulas várias mas com estômago, o que me lembrou de momento foi comer uma bela ceia bem regada, pois todo eu era fome. Convidei o senhor do dedo a entrar na minha casa, feita em mil e um cacos regulares.
- Bucha e cervejinha, senhor empreiteiro?
- Venha ela, camarada.
- E eu filho, sou verde!?

R.C