sexta-feira, 28 de março de 2008

"Você só ganha o que você merece"



Ontem dormi mal. Tive pesadelos. Era já de manhã - lembro-me de ter olhado para o relógio minutos antes - quando ouvi alguém falar em Portishead. Entrei em transe. Tentei virar-me. Esticar o meu braço direito epiléptico. Tocar no que me parecia ser um bilhete. Mas não conseguia. Aliás, não conseguia sentir nada. Era como se, envolto numa cápsula de outro tempo, fosse só alma neste em que vivemos. E deu-me toda a impressão de abanar-me a cabeça, todo eu alma tive essa impressão na certeza de que já não conseguiria agarrar bilhete algum.

quarta-feira, 19 de março de 2008

He's jazzed up and ready to go


Há qualquer coisa de muito evidente num pardal que mia. Precisa de ajuda. Não ele, claro. Aquele que acreditar nisso.

Há coisas maiores que o seu tamanho. Cheias que transbordam. Tanto para dar. Hoje quero dizer o quanto acho brilhante que um violinista inglês, ao misturar lamentos árabes, jazz e música clássica, consiga redimir o mundo numa canção.
Oh... “song for world forgiveness”. Matamo-nos, é só ligar a televisão. Talvez por isso a conta da luz cá em casa esteja cada vez mais baixa. E depois Nigel Kennedy redime-nos em pouco mais de sete minutos. Última faixa de “blue note Sessions”, disco de 2006 onde o violinista inglês faz-se acompanhar por músicos como Joe Lovano ou Raul Midón.

“The piano it’s just there. It makes a very decent noise whatever you do on it.”

Pode parecer insolente que alguém queira organizar o nosso caos, e depois celebrá-lo em tão pouco tempo. Mas há os génios. É tão bom falar de coisas simples. Génio é aquele que tudo simplifica, e a quem nós respondemos “é isto, claro!" - quando nunca o pensámos antes. Há coisas que são nossas. Há fotografias que já tirei em locais onde nunca estive. Nem estarei. Mas já lá tirei inúmeras fotos. E garanto que são lindas.

“I’m so conscious that jazz is a live music.”

Não é exactamente fácil encaixar um perfil em Nigel Kennedy. Aos 51 anos, o violinista britânico tem um corte de cabelo mais próximo de quem anda pelos 20 - e já era um prodígio aos dez. Tocava Vivaldi, o que é pelo menos assustador numa idade em que devia esfolar os joelhos na rua. Atrás de uma bola. E tem uma figura descabelada que lembra, por vezes, um quixotesco Jack Nicholson a voar sobre o seu ninho de cucos.
Kennedy nasceu na Inglaterra profunda, berço de classe operária – mas faz sotaque Mockney. Aquele que fica bem. “É postiço”, entoa em conjunto meia Inglaterra. Gera poucos consensos, é certo, e não ajuda nada ao suportar a sua música na fusão de géneros intocáveis. Não aparece nas revistas, em festas girérrimas. Não procura a objectiva babada por um ângulo que dê furo de capa. E contudo, assalta-nos de violino em punho com uma confiança que rapidamente nos varre a dúvida. Sermão? Seja, mas ninguém encontrará um dedo indicador apontado nesta canção. Esse, garante o próprio Kennedy, está bem direccionado ao teatro predilecto (porque vermelho) das televisões. Israel.

“I was shocked to see these walls, it’s a new apartheid, barbaric behavior: How can you impose such a collective punishment and separate people? After all, we are all living on the same planet. It seems do me the world should have already learned from what happened in South Africa. And a country that hasn’t learned should be boycotted, so that’s why i don’t perform in your country.”

Quando ouvimos esta "song for world forgiveness", e este disco, não é exactamente fervor o que se sente. É paz, o que por vezes sabe melhor.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Os Capuchinhos

Sugestão de acompanhamento musical:
I feel pretty - West Side Story Soundtrack

O jornalista Rui Santos foi alvo de tentativa de agressão por três rapazes encapuzados na madrugada de segunda-feira. Tudo se terá passado no parque de estacionamento da SIC à saída do “Tempo extra” - programa onde o comentador desportivo tem por hábito divulgar coisas de valor durante 90 (no-ven-ta) minutos. Rui Santos falava e Luis Costa Branco, pivô do programa, ouvia atentamente. Depois saltaram para dentro das suas viaturas quando viram três barrotes de madeira a dirigir-se na sua direcção, embalados pelo citado trio de maltrapilhos. Não houve feridos, e a rapaziada fugiu perante a chegada de um segurança. Depois de se rever no espelho retrovisor, para em seguida esticar-se e fazer o mesmo no do lado esquerdo, Rui Santos terá abanado a cabeça e seguido caminho a ouvir Chopin.

Entretanto, o país reagiu com solidariedade: houve sms de apoio à vítima e por pouco não se fez um cordão humano semelhante ao verificado no Euro 2004. Sobre esta possibilidade, Rui Santos considerou-a “nada menos que um esboço de dimensão equitativa à energúmenidade de um acto contra a minha pessoa que nada deve à verosimilhança num país que outrora já soube o que significa o dever ético e moral para com as entidades públicas de mérito reconhecidamente incontornabilérrimo.”

Não é fácil olhar para esta história e ver algo que não seja o Rui enquanto Santo. Mas sugiro que nos debrucemos sobre os lamentos que o ex-cronista d`A Bola dirigiu à imprensa sobre o caso. Talvez corramos o risco de perceber o que se terá passado naquela madrugada, arrisco que com algum detalhe.
“Puxaram-me para fora do meu automóvel. Eu resisti. Eu protegi-me entre a porta da minha viatura e os agressores, eu não deixei que me tocassem e eu enfiei um pontapé com toda a força num deles”, disse o profissional de emissão, que assina religiosamente um artigo diário no Record cuja versão siamesa em suporte online tem uma fotografia sua com tanto destaque como o texto. Sendo que a dimensão deste varia, podendo ser menor consoante critérios de natureza jornalística.
E contemplando essa imagem, será possivel apreciar a forma poética como o aprumado Rui Santos trata do seu cabelo, sempre cristalino e vivo como o cotão em casa de estudantes. Na verdade, a receita passa por um tratamento cuidado à base de laca e gel-para-pessoas-com-um-cabelo-especial, produto cujo preço varre aproximadamente 1/5 do que o Rui Santos ganha por mês e consideravelmente mais do que o salário mínimo de qualquer português. Corre o rumor de que o laboratório onde o comentador desportivo adquire este produto tem um ambiente de trabalho bastante agradável.

Posto isto, não será preciso grande investigação para perceber o que se passou no parque de estacionamento da SIC. Os três capuchinhos carregavam demasada inveja pela permanente do Rui Santos, porque se andavam encapuzados é porque certamente queriam esconder alguma entrada que chegou antes de tempo. Arrisco que haverá por ali muita pele em contacto directo com o respectivo capuz, experiência pela qual terei a possibilidade de passar dentro de alguns anos. E tanto os capuchinhos se roeram ao ver a brilhantina do nosso estimado Rui, que naquela madrugada saíram à rua para despenteá-lo.
O que não vai nada bem, sendo portanto com algum sentido de justiça que o emissor Rui Santos aplicou o valor do seu pontapé nos ossos da rapaziada. Esta juventude.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Pente fino, por favor

Sugestão de acompanhamento musical
Wild Honey Pie - The Beatles

Chamava-se Benjamin Barker, tinha-se por Sweeney Todd e todos o conheciam como "o barbeiro”. Acabara de chegar a Londres - muitos anos depois de lhe violarem a alegria, cujo nome era Lucy. Ela raptada e ele de coisa alguma acusado e logo deportado para a Austrália pelo poderoso Juíz Turpin, que então lhe levara também a filha recém-nascida.
No sombrio regresso a Fleet Street, à casa onde exercera o seu ofício, Sweeney Todd embalou a sua sede de vingança com o de sobrevivência de Mrs. Lovett: uma cadavérica amiga, de outros tempos, que alí vendia empadas de pouca virtude. Constava-se que a concorrência apostava na carne de gato. E foi de bom tom que, percebendo os tempos difíceis, logo o barbeiro e a cozinheira ficaram amigos e, pegando no desejo de vingança de um, se fez o lucro da outra com empadas de carne humana. O negócio cresceu à medida que o famoso barbeiro ia despachando a clientela.
A pente fino.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Menina e moça

Sugestão de acompanhamento musical:
Bom conselho – Chico Buarque

Estava eu a curtir uma menina-moca de 37,9 de febre quando, pela segunda vez em cinco minutos, escondi o termómetro debaixo do sovaco. Esperei impacientemente pelo pi-pi-pi-pi até que o ruído chegou e espreitei os números, debaixo dos lençóis. Como estou a escrever por cima destes, convém deixar claro que a temperatura do meu corpo era a mesma, tendo aumentado para 38,3 nos minutos seguintes após doentias repetições. No primeiro teste não tinha perdido o papelinho informativo, embora assim o pensasse. Procurava-o na cama, quando ele nunca tinha saído da caixa - que estava na mesa de cabeceira. Mas no seguinte, consegui mesmo fazê-lo desparecer. E não me lembrava como. 38,7.
Magia deve ser qualquer coisa assim. E foi sem saber do paradeiro dele que, nos perigos do escuro, aproximei as minhas desajeitadas mãos do telemóvel e liguei sem querer a um jornalista do Público. Ele não atendeu, mas reparei que eram 02h26 e hum... há três dias que andava assim, tinha de me tratar.
Pensei que 20 euros seria suficiente. Táxi, consulta e ainda devia chegar para levantar um cheirinho da receita. Outra abordagem é que não tinha mais dinheiro. Fiz as contas e logo desisti pelo que, sem pensar muito, liguei para a central e dentro de cinco minutos teria o meu motorista prostituto à porta de casa.

“Será que levo o mp3? Da última vez - olha deve fazer por agora um ano - levei o Ipsilon numa altura em que ele era Y e tinha o corpo perto dos 40 graus. Se é para `tar com febre, que seja à grande. Ah, o táxi chegou, não levo nada.
Já `tive melhor disposto, esta viagem vai ser longa. Bem, parece que vai ser mais longa ainda, já que este gajo `tá a levar-me pelo estúpido que no momento sou: sei que `tou a ser enganado no caminho e não digo nada. Talvez não me contenha e lhe vomite em cima numa curva apertada, de protesto. Chegámos, quanto é a multa, chefe? 4.95 euros? Mas eu vejo 4,15 euros alí no contador. Ah é de noite, `tá certo, não precisa de me olhar assim. É a febre. Simpático".

Tropecei pelo hospital adentro e, ao chegar ao check-in, fiquei encantado. O preço da consulta seria 11, 50 euros. Lembrei-me do taxista e do protesto. Explicando o encanto, tenham-no mais por delírio que outra coisa, mistura de feitiço e dor de barriga. Fiz as contas e, claro, não cheguei a conclusão alguma. Como não estava alí para comprar orgãos e só queria que a febre falecesse, fuzilei o senhor do check-in com os olhos. Encolheu os ombros. Depois sorri-lhe e ele assustou-se. Fui esperar longe.
O médico que me viu era daqueles que não sentem falta das pessoas. O nosso primeiro contacto teve cinema francês. Disse-lhe: "desde que cheguei, já me enganei três vezes na porta onde era suposto dirigir-me, pareço o Tati". Ele não achou piada e dois minutos depois já me via pelas costas, depois de me receitar cinco medicamentos para que a febre falecesse.

- Cinco, senhor doutor?
- Este é para fazer baixar a febre. Este é para que ela não reapareça. Este é para o bem-estar da fauna patagónica. Este é para o mau olhado.
- Mas eu não acredito nessas coisas, senhor doutor.
- Jelzebu, macanabu, em patas de rã se transforme esse rabu.
- Rabu?
- Era para rimar. Tenha uma boa noite.

É certo que andar a 37 km/h mexe com o sistema nervoso do mais budista. Mas agora já não pensei em protestar com este taxista, ia ter de lhe pedir que me deixasse a meio da Almirante Reis. Com pouco dinheiro e muito suor, lá lhe sugeri que parasse aos quatro euros – o que seria alí mesmo. Não me preocupei com a distância tanto quanto poderia. Naquele momento pensava na estação da Baixa-Chiado, quando em sete carruagens do metro escolhemos a quarta e, ao sairmos, perdemos quase muito tempo a decidir para que lado caminhar. O meio pode ser tão virtuoso como insolente.
A primeira boa notícia daquela noite era que a farmácia do Chile estava “aberta”. Aberta às minhas preocupações biólogas, recém-induzidas pelo médico que não sente falta das pessoas. Senti-me o sultão dos doentes, lenda do termómetro tardio. Sem luzes, mas com o sinal “aberta” que tanto me empurrou no caminho para casa - onde ia buscar os 15 euros que me restavam para os próximos dias. Cheguei, um dos meus colegas de casa continuava a falar pelo skype com a namorada, tal como na última vez que o tinha visto, às 02h31.
Peguei no dinheiro e voltei para a farmácia aberta.
Cheguei, vi e esperei. Acompanhei o meu primeiro toque na campaínha com um sorriso febril mas terno, próprio de quem sabe estar no melhor dos mundos se pensarmos que está a nascer o dia. Como ninguém apareceu, toquei pela segunda vez e com maior intensidade. E como não há duas sem três, veio a quarta e “filho da puta que não apareces”.

A Sophie no aeroporto, de regresso a Nova Iorque dentro de poucas horas. A febre, sem rival. Pouco dinheiro, muitos medicamentos para levantar. E a novidade de, naquela noite, ter aprendido que uma farmácia aberta pode estar fechada.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Febre de segunda à noite - I

Sugestão de acompanhamento musical:
One, two, three, four - Feist

O ministro distraído

1940 - Os alemães tinham entrado em Paris. No palácio de Buckingham, a notícia fora recebida por rostos sérios e deformados por um riso controlado. Urgia, contudo, ser mais forte que o passado: o futuro poderia bombardear o Reino Unido a qualquer instante. Perturbado, o General desabafou com o ministro.

- Precisamos de aviões.
- É de nariz no ar que levaremos com uns torpedos no rabo.
- É de rabo protegido que levaremos chumbo em cima.
- Quem é aquela jornalista?
- Parece séria, que idade tem?
- Os franceses devem `tar com um ganda melão.
- O rabo.
- Acho que tem menos de 25.
- Legião Condor.
- Legião Condom.
- Precipitas-te. Liga para Lockhead, preciso de aviões para sete esquadras.
- Eu?
- És o ministro, porque não trazes os aviões da América?
- Andaste a beber?
- Era uma boa opção.
- Beber?
- América, aviões v-v-v-v-v-v-v-t-t até aqui.
- Despenhavam-se a meio caminho, é muito longe.
- Diz-lhes que meter gasolina é uma boa ideia.
- O avião tremia e depois caía de nariz.
- Vamos levar chumbo em cima se não fizeres a chamada.
- Não tenho dinheiro no telemóvel.
- Hum? (queixo do General levantado)
- A-ham (tosse)
- Catxá-Catxá-Catxá (barba do General coçada)
- Eu disse tél..?
- Disseste. Tú aí, operador de câmara, o ministro disse telemóvel – não foi?
- Disse que eu ouvi, aqui a maquilhadora pode confirmar.
- Telemóvel.
- Ah-haham (muita tosse).
- Catxá-Catxá-Catxá (pêlos do nariz do General coçados)

(Corta)


Eliseu e Henriqueta

Entrada principal do Fórum Picoas, 29 pessoas reunidas pelas 14h da tarde. O Eliseu, 30 verões de copos (dir-se-ia que nasceu a beber), já tinha topado a Henriqueta: morena, modos brutos e sorriso sincero – deveria, tinha ele como certo, trabalhar na Cultura. O trabalho do Eliseu como segurança era um pouco chato e, não raramente, era possível vê-lo percorrer as secções daquela Redacção em busca das pernas perdidas. O Eliseu gostava muito de mulheres. Nessa tarde estava ele com o amigo Matias, quando viu a Henriqueta: modos brutos, sorriso sincero e bafo latifundiário. Aproximou-se.

- Deviam fazer salas de fumo.
- lolololol.
- Matias (sussurrou), o que é isto?
- (incrédulo) Não faço a mínima ideia.
- Vou tentar de novo.
- Isso, faz isso.
- Tens um nome bonito, Henriqueta, será que o Shakespeare gostaria desta Lei?
- looooooooooooooooooooooooooool.
- Matias (voltou a sussurrar), socorro.
- Vais ver que a coisa melhora. Dá-lhe tempo.
- Esta noite não durmo e a culpa vai ser tua.
- Vá, queres voltar já p`rá cancela e “boas, senhor director?”
- Sim, realmente.
- Vá, ela tem um sorriso sincero, bafo latifundiário e poesia.
- Poesia?
- Sim, poesia contemporânea.
- lol?
- “São novíssimos dias”.
- J. P. Simões é uma boa pomada.
- Coragem, dá-lhe outra oportunidade.
- Há uma nova Lei que decreta dias específicos para a prática do sexo.
- lolololololol.
- Matias vai à merda (ele bem tentou sussurrar).
- (ele já não) Continua pá, agora é que isto aquece.
- Fareis amor à segunda, quarta e sábado.
- Super hiper loooooooooooool.
- E se vos entusiasmardes à sexta, tereis a senhora ASAE a bater à porta.
- Mega lolada.
- Vou pegar no maço e ligar directamente à central a dizer que pequei.
- looooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooool.
- lol (desistindo).
- Fútil.
- Atão mas..?
- És fútil, um homem feito... tss-tss.
- Mas.. mas `tavas a dizer o mesmo, pensei que eram “novíssimos dias”!
- Já não se fazem homens como antigamente, adeus.
- Matias!

sábado, 29 de dezembro de 2007

Sonho de uma noite de Inverno

Sugestão de acompanhamento musical:
As time goes by - Dooley Wilson

Vivi – Avó
Maluquinha – Mãe
Pai – Pai
Miguel – Irmão
Rui – eu
Carlos – Tio
Olga – Tia
Carlitos – Primo-girafa mais velho
Ricardinho – Primo-girafa mais novo

O ar estava saturado. Não me lembrava de uma véspera de natal tão pouco véspera de natal cá em casa, do pouco que a minha memória ainda não foi bebida.
Os fritos, outrora feitos no dia 23, não deixavam qualquer tipo de rasto sensorial. A coisa não melhorava no que toca a embrulhos: estavam reduzidos a menos de metade face a 2006 e inclusive a minha conta já andava a ser consumida há algum tempo. Embrulhá-la-ia a minha mãe, horas mais tarde e perto da ceia. Para fechar o quadro anti-natalício, estavam já as janelas fechadas como acto da tolerância zero que temos para com o entardecer portimonense (seguramente o mais quente da história para 90% do país invernil) e a casa deserta.
A nossa casa na véspera de natal deserta e com as janelas fechadas.
Os motivos eram vários. O meu Pai ainda tinha dois clientes no bar e de lá parecia não conseguir saír; a Maluquinha passara a manhã no ginásio e estava com uma gripe histérica, patologia a que chamarei "esquizofrenia natalícia"; o Miguel tinha uma ressaca dantesca em cima e encarava a descida do quarto para a cozinha como sair à noite no Porto; a Vivi, eterna mãe do nosso natal, acabara de regressar das urgências do hospital Barlavento - com dores e rija que nem o pêro do outro (de acordo com os médicos). Perante tamanho arco-íris, corri ao telefone e liguei ao meu tio Carlos.

- Moce, inda `tas ém Ólhão?
- Tão cabeçude, sim `tô de volta das sapatêras.
- Ótime. Téns Charlie Parker?
- Ténhe.
- Téns Chet Baker?
- Ténhe sim, hóme.
- Téns Gillespie?
- Ténhe éss`s gajes tôds.
- Na os dêx`s ém casa atãum, té lógue.

Tinha bem presente que, até os meus primos começarem a dar pontapés na porta (forma como – carinhosamente - anunciam a sua chegada sempre que vêm cá a casa), haveria um buraco silencioso de 60 e tal quilómetros entre Olhão e Portimão que teria de ser tapado a todo o custo. Aos meus olhos, então, senti que tinha a cumprir uma missão: tornar uma tarde profundamente chata num magnífico e postiço natal. Convenhamos, por vezes ninguém tem mesmo culpa se as coisas não correm como o esperado e então alguém tem de, por e simplesmente, por as coisas a funcionar. Foi o que tentei.
A primeira etapa passou por correr à sala e sintonizar a rádio na antena 3. Pela casa fora, durante cerca de 15 minutos, ouviram-se músicas de natal góticas, techno e de heavy metal. Não era bem aquilo que tinha em mente. O passo seguinte foi invadir a cozinha e ligar a televisão no Cirque du Soleil, não exactamente para que o modo vesgo tomasse conta dos nossos sentidos mas antes para borrifar a palidez daquelas paredes com música cheia de magia. E por fim, ganhei coragem e sentei-me à mesa para ajudar a minha engripada mãe na cozinha (sem o fazer a duas divisões de distância, a despachar como de incompetente costume). Descasquei alhos até o Carlos chegar mais os míudos e se este raciocínio deixar alguém na encruzilhada “ele descascou tantos alhos assim ou é simplesmente um nabo?”, pois que saibam a nobreza do meu carácter ao confessar o que a Maluquinha me disse, logo que ofereci o valor dos meus préstimos: “descasca aí duas ou três de cabeças.”
Pontapés na porta, chegaram.
Para variar muito pouco, os meus tios trouxeram na sua carripana um centro comercial inteiro de prendas e, com a nossa ajuda, despejámos aquilo junto à árvore de natal. E passámos ao jazz.
Ele não se esqueceu do nosso grunhido telefónico e trouxe 5 ou 6 colectâneas com os grandes mestres do bop, mais um disco do Brian Ferry. "Mas que raio estaria aquele mel peganhento a fazer ali..", pensei. A resposta chegou logo que o cabeçudo do Carlos me viu com aquele álbum na mão, olhando feito gnú para a cara de coelhinho abandonado do senhor Ferry, estampada na capa.
Começou por me dizer que tudo ia bem e que havia uma malha espantosa nesse “As time goes by”. Demos corda ao bicho. “Carrega aí na número sete não é esta experimenta a dois mas vai daí acho que é e portanto será definitivamente a quatro embora não seja e tenha acertado ao lado então esquece vamos tomar uma cervejinha e ouvi-lo todo que é muito bom”.
Varremos este disco de covers dos anos 30 a dançar pela casa, e ao perceber que os meus pés se atropelavam com jazz do Brian Ferry, percebi que o natal tinha, enfim, chegado. Estávamos a dançar Brian Ferry. Missão a caminho do sucesso.
Entretanto a cozinha entrara num alvoroço que, pessoalmente, me agrada. A Olga e a Maluquinha de volta da comida enquanto descascavam na vida dos outros, os míudos ajudavam-nas mas não descascavam e o meu pai e o Miguel eram os actores principais de uma trama cuja banda sonora era dançada por mim e pelo cabeçudo do Carlos - com o volume perto do máximo.
Não demorou muito até a Vivi irromper pela sala adentro, pregando que "não admitia música de putedo". O Miguel acabara de lhe dizer que música "clássica" tinha essa matrícula atrelada e a Vivi encavalitou-se no Renault (canadianas) e rebentou em cima de nós. Que não admitia "que se ouvisse putedo" e aliás seria música pimba a salvação. Todos nós sabemos que o Miguel se estava a meter com ela, mas a minha avó é muito querida e não percebe as coisas. Eu e o Carlos estávamos a bater o pé e assim continuámos, rimos muito e corremos atrás dela para lhe dar beijinhos e despentear o cabelo novo.
A Maluquinha acha-me esquisito. Desde que saí de casa rumo a estudos de boa vida em Lisboa que ela me acha cada vez mais esquisito. Naquela noite era porque oiço jazz e não pagaria para ver Scorpions. A Olga, mulher do Carlos, foi para Lisboa uns dias antes com 3 amigos para ver os Scorpions e chegou a casa às 04h00 - com o Carlos a hibernar cheio de fé. O meu tio chama-lhe lustrosa e andam sempre à zaragata mas está tudo muito bem até – aparências aparte.
O Carlos acha que o que levamos da vida são prazeres como os de comer, beber e “cobrir”. Este último, vontade exacerbada de um amigo seu nos últimos tempos e denunciada pelo próprio Carlos à mesa, seria, de acordo com a minha avó, bem melhor que “ganir”. E com vontade de “ganir” estava a minha tia Ana Paula, o que a minha mãe ficou a saber quando falou ao telefone com ela para desejar bom natal à família que está em Espinho. "Ganir fazem os cães e nós não somos animais que isso não tem jeito nenhum"! – disparava a Vivi enquanto defendia que a vontade de "cobrir" do amigo do Carlos “tinha mais preceito” que a de “ganir”.
O debate sobre jazz continuava entre mim e o Carlos, que tinha toda a vontade em me apresentar um tal combate no Savoy Hotel entre o Chuck Webb e um amigo de sorrisos jazzísticos. Não encontrámos coisa nenhuma que se parecesse sequer com isso.

O pessoal do jazz nesta altura sorria muito, é qualquer coisa.

Finda a ceia e após uns fantasmas mudos terem planado sobre a nossa mesa, o Carlos perguntou que se bebia naquela casa. 10 segundos volvidos já eu lhe trazia uma bela amarguinha de 17 anos que tínhamos ido buscar à cave fazia poucos dias. E que não sabia lá muito bem. Até acho que podia ter doenças. Mas bebemos sem hesitar até que começámos a falar de traques.
A Maluquinha tem um trauma com traques, porque quando era menina dormiu muitas vezes entre familiares de idade e que perfumavam. Ela não gosta que perfumem e também não gostou quando a Vivi corrigiu que não era traque mas sim peidinho.
Muito tonta, a minha mãe. Fica bêbada com dois golos de vinho. Mas isso só dura 10 minutos. São 10 minutos de National Geographic. Não consigo explicar melhor.
O Ricardinho já é escritor. Ou pelo menos, assim pensou a Vivi quando pelas 02h – mesmo antes de descer aos seus aposentos – teve um encontro imediato com “A boca do Inferno”, do Ricardo Araújo Pereira e dirigiu-se-me num doce “Oh filho `tá aqui o nome do Ricardinho, ele já escreve?” O Carlos regressara, entretanto, a um tintol São Domingos da Bairrada e foi esticado no sofá que aterrou num sono profundo, após uma extenuante luta de cócegas com o Ricardinho. Seriam, talvez, 23h37. O meu tio adormece sempre antes da 00h00 na noite de natal. O irmão mais velho do Ricardinho é o Carlitos e está triste com as prendas que recebeu da mãe. Tem 16 anos e eu também já os tive pelo que, ao reparar no facto, solidarizei-me com o moço e disse-lhe “`tás na idade parva. Também já passei por isso, hás-de sobreviver”.
Ele ficou pior.

Tenho a garganta armada em parva. O Ricardinho parece uma girafa, cresce que não pára.
- `Tás pequeno! – atiro-lhe
- Tenho onze – devolve-me
Yabadabadu.