quarta-feira, 2 de abril de 2008

Este país não é para comediantes

É legítimo que a nata intelectual portuguesa, habituada a reflectir sobre assuntos de superioridade, acuse os jornais desportivos de muita coisa.
Pegue-se no termo sensacionalismo, e há todo um carnaval de sinónimos possíveis que, seguramente, terão a sua razão de ser. Mas é na fusão com um género habitualmente ligado a outros temas que os "desportivos" primam pela excelência: o bom-humor. E, portanto, é pouco perceptível o porquê de tanto alarido verificado ontem, ao saber-se que a Comissão Disciplinar da Liga de Futebol notificou o FC Porto na sequência do processo Apito Final (baptismo dado pelos tribunais desportivos ao processo homólogo que corre nos civis, denominado Apito Dourado).
Certamente que aquele organismo da Liga, devoto praticante da contenção de despesas – religião instituída pelo governo de José Sócrates há três anos – nada fará contra o FC Porto. Pelo contrário, reinará a solidariedade. Ninguém com o mínimo de sensatez pensará que os actuais campeões nacionais, com a festa de revalidação do título marcada para o próximo sábado, perderão seis pontos neste campeonato. O prejuízo seria incalculável. O FC Porto comprou árbitros em dois jogos respeitantes à época 2003/2004? Parece que sim. Mourinho ganhou o segundo título com umas ajudas? Provavelmente. Mas nada disto teria o impacto de se esbanjar o rio de dinheiro entretanto já gasto pelos “azuis e brancos” em champagne, cheerleaders (oponho-me com incontida veemência neste plano) e outros estrangeirismos que terão custado mais aos "dragões" do que, certamente, o que pediram emprestado há quatro anos – esquecendo-se posteriormente de o devolver. Um lapso de memória, que acontece a todos. Agora desperdiçar este investimento, depois de o nosso primeiro-ministro ter comovido os portugueses ao reduzir o IVA em 1%, é insensato. E pensar que o Benfica poderá ficar a 10 pontos do FC Porto, desenhando-se o cenário de ser o cabeçudo na conquista do tricampeonato portista, daqui a três jornadas, imberbe. Pouco espirituoso, este país, no dia anterior ao segundo do mês de Abril.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Um dia destes ele explode



ninguém me avisou, e já tinha uns meses de vida, que havia um norte-americano a literalmente fornicar com o seu piano em Tokyo.

sexta-feira, 28 de março de 2008

"Você só ganha o que você merece"



Ontem dormi mal. Tive pesadelos. Era já de manhã - lembro-me de ter olhado para o relógio minutos antes - quando ouvi alguém falar em Portishead. Entrei em transe. Tentei virar-me. Esticar o meu braço direito epiléptico. Tocar no que me parecia ser um bilhete. Mas não conseguia. Aliás, não conseguia sentir nada. Era como se, envolto numa cápsula de outro tempo, fosse só alma neste em que vivemos. E deu-me toda a impressão de abanar-me a cabeça, todo eu alma tive essa impressão na certeza de que já não conseguiria agarrar bilhete algum.

quarta-feira, 19 de março de 2008

He's jazzed up and ready to go


Há qualquer coisa de muito evidente num pardal que mia. Precisa de ajuda. Não ele, claro. Aquele que acreditar nisso.

Há coisas maiores que o seu tamanho. Cheias que transbordam. Tanto para dar. Hoje quero dizer o quanto acho brilhante que um violinista inglês, ao misturar lamentos árabes, jazz e música clássica, consiga redimir o mundo numa canção.
Oh... “song for world forgiveness”. Matamo-nos, é só ligar a televisão. Talvez por isso a conta da luz cá em casa esteja cada vez mais baixa. E depois Nigel Kennedy redime-nos em pouco mais de sete minutos. Última faixa de “blue note Sessions”, disco de 2006 onde o violinista inglês faz-se acompanhar por músicos como Joe Lovano ou Raul Midón.

“The piano it’s just there. It makes a very decent noise whatever you do on it.”

Pode parecer insolente que alguém queira organizar o nosso caos, e depois celebrá-lo em tão pouco tempo. Mas há os génios. É tão bom falar de coisas simples. Génio é aquele que tudo simplifica, e a quem nós respondemos “é isto, claro!" - quando nunca o pensámos antes. Há coisas que são nossas. Há fotografias que já tirei em locais onde nunca estive. Nem estarei. Mas já lá tirei inúmeras fotos. E garanto que são lindas.

“I’m so conscious that jazz is a live music.”

Não é exactamente fácil encaixar um perfil em Nigel Kennedy. Aos 51 anos, o violinista britânico tem um corte de cabelo mais próximo de quem anda pelos 20 - e já era um prodígio aos dez. Tocava Vivaldi, o que é pelo menos assustador numa idade em que devia esfolar os joelhos na rua. Atrás de uma bola. E tem uma figura descabelada que lembra, por vezes, um quixotesco Jack Nicholson a voar sobre o seu ninho de cucos.
Kennedy nasceu na Inglaterra profunda, berço de classe operária – mas faz sotaque Mockney. Aquele que fica bem. “É postiço”, entoa em conjunto meia Inglaterra. Gera poucos consensos, é certo, e não ajuda nada ao suportar a sua música na fusão de géneros intocáveis. Não aparece nas revistas, em festas girérrimas. Não procura a objectiva babada por um ângulo que dê furo de capa. E contudo, assalta-nos de violino em punho com uma confiança que rapidamente nos varre a dúvida. Sermão? Seja, mas ninguém encontrará um dedo indicador apontado nesta canção. Esse, garante o próprio Kennedy, está bem direccionado ao teatro predilecto (porque vermelho) das televisões. Israel.

“I was shocked to see these walls, it’s a new apartheid, barbaric behavior: How can you impose such a collective punishment and separate people? After all, we are all living on the same planet. It seems do me the world should have already learned from what happened in South Africa. And a country that hasn’t learned should be boycotted, so that’s why i don’t perform in your country.”

Quando ouvimos esta "song for world forgiveness", e este disco, não é exactamente fervor o que se sente. É paz, o que por vezes sabe melhor.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Os Capuchinhos

Sugestão de acompanhamento musical:
I feel pretty - West Side Story Soundtrack

O jornalista Rui Santos foi alvo de tentativa de agressão por três rapazes encapuzados na madrugada de segunda-feira. Tudo se terá passado no parque de estacionamento da SIC à saída do “Tempo extra” - programa onde o comentador desportivo tem por hábito divulgar coisas de valor durante 90 (no-ven-ta) minutos. Rui Santos falava e Luis Costa Branco, pivô do programa, ouvia atentamente. Depois saltaram para dentro das suas viaturas quando viram três barrotes de madeira a dirigir-se na sua direcção, embalados pelo citado trio de maltrapilhos. Não houve feridos, e a rapaziada fugiu perante a chegada de um segurança. Depois de se rever no espelho retrovisor, para em seguida esticar-se e fazer o mesmo no do lado esquerdo, Rui Santos terá abanado a cabeça e seguido caminho a ouvir Chopin.

Entretanto, o país reagiu com solidariedade: houve sms de apoio à vítima e por pouco não se fez um cordão humano semelhante ao verificado no Euro 2004. Sobre esta possibilidade, Rui Santos considerou-a “nada menos que um esboço de dimensão equitativa à energúmenidade de um acto contra a minha pessoa que nada deve à verosimilhança num país que outrora já soube o que significa o dever ético e moral para com as entidades públicas de mérito reconhecidamente incontornabilérrimo.”

Não é fácil olhar para esta história e ver algo que não seja o Rui enquanto Santo. Mas sugiro que nos debrucemos sobre os lamentos que o ex-cronista d`A Bola dirigiu à imprensa sobre o caso. Talvez corramos o risco de perceber o que se terá passado naquela madrugada, arrisco que com algum detalhe.
“Puxaram-me para fora do meu automóvel. Eu resisti. Eu protegi-me entre a porta da minha viatura e os agressores, eu não deixei que me tocassem e eu enfiei um pontapé com toda a força num deles”, disse o profissional de emissão, que assina religiosamente um artigo diário no Record cuja versão siamesa em suporte online tem uma fotografia sua com tanto destaque como o texto. Sendo que a dimensão deste varia, podendo ser menor consoante critérios de natureza jornalística.
E contemplando essa imagem, será possivel apreciar a forma poética como o aprumado Rui Santos trata do seu cabelo, sempre cristalino e vivo como o cotão em casa de estudantes. Na verdade, a receita passa por um tratamento cuidado à base de laca e gel-para-pessoas-com-um-cabelo-especial, produto cujo preço varre aproximadamente 1/5 do que o Rui Santos ganha por mês e consideravelmente mais do que o salário mínimo de qualquer português. Corre o rumor de que o laboratório onde o comentador desportivo adquire este produto tem um ambiente de trabalho bastante agradável.

Posto isto, não será preciso grande investigação para perceber o que se passou no parque de estacionamento da SIC. Os três capuchinhos carregavam demasada inveja pela permanente do Rui Santos, porque se andavam encapuzados é porque certamente queriam esconder alguma entrada que chegou antes de tempo. Arrisco que haverá por ali muita pele em contacto directo com o respectivo capuz, experiência pela qual terei a possibilidade de passar dentro de alguns anos. E tanto os capuchinhos se roeram ao ver a brilhantina do nosso estimado Rui, que naquela madrugada saíram à rua para despenteá-lo.
O que não vai nada bem, sendo portanto com algum sentido de justiça que o emissor Rui Santos aplicou o valor do seu pontapé nos ossos da rapaziada. Esta juventude.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Pente fino, por favor

Sugestão de acompanhamento musical
Wild Honey Pie - The Beatles

Chamava-se Benjamin Barker, tinha-se por Sweeney Todd e todos o conheciam como "o barbeiro”. Acabara de chegar a Londres - muitos anos depois de lhe violarem a alegria, cujo nome era Lucy. Ela raptada e ele de coisa alguma acusado e logo deportado para a Austrália pelo poderoso Juíz Turpin, que então lhe levara também a filha recém-nascida.
No sombrio regresso a Fleet Street, à casa onde exercera o seu ofício, Sweeney Todd embalou a sua sede de vingança com o de sobrevivência de Mrs. Lovett: uma cadavérica amiga, de outros tempos, que alí vendia empadas de pouca virtude. Constava-se que a concorrência apostava na carne de gato. E foi de bom tom que, percebendo os tempos difíceis, logo o barbeiro e a cozinheira ficaram amigos e, pegando no desejo de vingança de um, se fez o lucro da outra com empadas de carne humana. O negócio cresceu à medida que o famoso barbeiro ia despachando a clientela.
A pente fino.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Menina e moça

Sugestão de acompanhamento musical:
Bom conselho – Chico Buarque

Estava eu a curtir uma menina-moca de 37,9 de febre quando, pela segunda vez em cinco minutos, escondi o termómetro debaixo do sovaco. Esperei impacientemente pelo pi-pi-pi-pi até que o ruído chegou e espreitei os números, debaixo dos lençóis. Como estou a escrever por cima destes, convém deixar claro que a temperatura do meu corpo era a mesma, tendo aumentado para 38,3 nos minutos seguintes após doentias repetições. No primeiro teste não tinha perdido o papelinho informativo, embora assim o pensasse. Procurava-o na cama, quando ele nunca tinha saído da caixa - que estava na mesa de cabeceira. Mas no seguinte, consegui mesmo fazê-lo desparecer. E não me lembrava como. 38,7.
Magia deve ser qualquer coisa assim. E foi sem saber do paradeiro dele que, nos perigos do escuro, aproximei as minhas desajeitadas mãos do telemóvel e liguei sem querer a um jornalista do Público. Ele não atendeu, mas reparei que eram 02h26 e hum... há três dias que andava assim, tinha de me tratar.
Pensei que 20 euros seria suficiente. Táxi, consulta e ainda devia chegar para levantar um cheirinho da receita. Outra abordagem é que não tinha mais dinheiro. Fiz as contas e logo desisti pelo que, sem pensar muito, liguei para a central e dentro de cinco minutos teria o meu motorista prostituto à porta de casa.

“Será que levo o mp3? Da última vez - olha deve fazer por agora um ano - levei o Ipsilon numa altura em que ele era Y e tinha o corpo perto dos 40 graus. Se é para `tar com febre, que seja à grande. Ah, o táxi chegou, não levo nada.
Já `tive melhor disposto, esta viagem vai ser longa. Bem, parece que vai ser mais longa ainda, já que este gajo `tá a levar-me pelo estúpido que no momento sou: sei que `tou a ser enganado no caminho e não digo nada. Talvez não me contenha e lhe vomite em cima numa curva apertada, de protesto. Chegámos, quanto é a multa, chefe? 4.95 euros? Mas eu vejo 4,15 euros alí no contador. Ah é de noite, `tá certo, não precisa de me olhar assim. É a febre. Simpático".

Tropecei pelo hospital adentro e, ao chegar ao check-in, fiquei encantado. O preço da consulta seria 11, 50 euros. Lembrei-me do taxista e do protesto. Explicando o encanto, tenham-no mais por delírio que outra coisa, mistura de feitiço e dor de barriga. Fiz as contas e, claro, não cheguei a conclusão alguma. Como não estava alí para comprar orgãos e só queria que a febre falecesse, fuzilei o senhor do check-in com os olhos. Encolheu os ombros. Depois sorri-lhe e ele assustou-se. Fui esperar longe.
O médico que me viu era daqueles que não sentem falta das pessoas. O nosso primeiro contacto teve cinema francês. Disse-lhe: "desde que cheguei, já me enganei três vezes na porta onde era suposto dirigir-me, pareço o Tati". Ele não achou piada e dois minutos depois já me via pelas costas, depois de me receitar cinco medicamentos para que a febre falecesse.

- Cinco, senhor doutor?
- Este é para fazer baixar a febre. Este é para que ela não reapareça. Este é para o bem-estar da fauna patagónica. Este é para o mau olhado.
- Mas eu não acredito nessas coisas, senhor doutor.
- Jelzebu, macanabu, em patas de rã se transforme esse rabu.
- Rabu?
- Era para rimar. Tenha uma boa noite.

É certo que andar a 37 km/h mexe com o sistema nervoso do mais budista. Mas agora já não pensei em protestar com este taxista, ia ter de lhe pedir que me deixasse a meio da Almirante Reis. Com pouco dinheiro e muito suor, lá lhe sugeri que parasse aos quatro euros – o que seria alí mesmo. Não me preocupei com a distância tanto quanto poderia. Naquele momento pensava na estação da Baixa-Chiado, quando em sete carruagens do metro escolhemos a quarta e, ao sairmos, perdemos quase muito tempo a decidir para que lado caminhar. O meio pode ser tão virtuoso como insolente.
A primeira boa notícia daquela noite era que a farmácia do Chile estava “aberta”. Aberta às minhas preocupações biólogas, recém-induzidas pelo médico que não sente falta das pessoas. Senti-me o sultão dos doentes, lenda do termómetro tardio. Sem luzes, mas com o sinal “aberta” que tanto me empurrou no caminho para casa - onde ia buscar os 15 euros que me restavam para os próximos dias. Cheguei, um dos meus colegas de casa continuava a falar pelo skype com a namorada, tal como na última vez que o tinha visto, às 02h31.
Peguei no dinheiro e voltei para a farmácia aberta.
Cheguei, vi e esperei. Acompanhei o meu primeiro toque na campaínha com um sorriso febril mas terno, próprio de quem sabe estar no melhor dos mundos se pensarmos que está a nascer o dia. Como ninguém apareceu, toquei pela segunda vez e com maior intensidade. E como não há duas sem três, veio a quarta e “filho da puta que não apareces”.

A Sophie no aeroporto, de regresso a Nova Iorque dentro de poucas horas. A febre, sem rival. Pouco dinheiro, muitos medicamentos para levantar. E a novidade de, naquela noite, ter aprendido que uma farmácia aberta pode estar fechada.