
Interlocutores
Cavalheiro 1
Cavalheiro 2 – amigo do cavalheiro 1
Cavalheiro 3 – cliente habitual da casa
Cavalheiro 4 – cliente e amigo do cliente habitual da casa
Cavalheiro 5 – empregado de mesa
(A cena passa-se numa tasca lisboeta. A Turquia acabara de garantir o acesso às meias-finais do Euro 2008, batendo a Croácia nas grandes penalidades após o empate a um golo registado no periodo regulamentar. Finda a contenda, discutiam-se os méritos).
Cavalheiro 3 – Bem feito. Os croatas já festejavam a vitória e esqueceram-se que o jogo ainda não tinha acabado. Ainda bem que ganharam os turcos.
Cavalheiro 2 – Isso mesmo (gargalhada sonora).
Cavalheiro 1 – Isso mesmo nada – corrigiu - que eu não posso com os turcos. E os curdos também, é tudo da mesma laia. Não posso com eles - declarou. Ouvindo aquela confissão, e ainda que não conhecesse o Cavalheiro 1 nem o seu amigo, o Cavalheiro 4 não deixou de ficar particularmente curioso e entrou na conversa.
Cavalheiro 4 – Porque é que não pode com os turcos? – perguntou-lhe.
Cavalheiro 1 – Porque não. Você é turco?
Cavalheiro 4 – Não. Mas porque razão não pode com eles?
Cavalheiro 1 – Porque não posso.
Cavalheiro 5 – Olha – dirigindo-se ao Cavalheiro 3 - não pode, não pode (riso nervoso).
Cavalheiro 4 – Sim – assentiu - mas tem algum motivo para não gostar deles? – insistiu com o Cavalheiro 1.
Cavalheiro 1 – Não gosto, pronto – respondeu, visivelmente incomodado com a pergunta. Fez-se silêncio por alguns segundos, e a discussão prosseguiu.
Cavalheiro 1 – Você já conviveu com algum?
Cavalheiro 4 - Já conheci alguns – mentiu.
Cavalheiro 1 – Então pronto. Eles têm o bicho da seda. Está a ver? O bicho da seda - disse, arfando, à medida que o seu rosto adquiria progressivamente um tom de pele cor de vinho.
O Cavalheiro 4 fitou o Cavalheiro 1 com um sorriso oblíquo, abanando a cabeça. Depois arrastou o olhar para o Cavalheiro 5, pediu a conta (cujo valor surpreendentemente ultrapassava o das moedas que trazia no bolso) e retirou-se desejando «uma boa noite a todos os presentes».



Discreto na postura, engavetado num perfil de executivo, de olhar pérfido e a revelar uma auto-reprimida gula por devorar atenções: eis a horrenda descrição que o argentino Arturo Goetz merece, actor principal de "El Asaltante" que retrata, com doses industriais de relato psicológico, o que pode ir na cabeça de alguém que não consegue deixar de roubar pessoas. Ao realizador Pablo Fendrik interessa, sobretudo, perceber que a cleptomania consome este homem (Arturo Goetz) aparentemente integrado na sociedade, já que tem por ofício ser funcionário de uma escola. De modo que apresenta-se, desarma por charme e confiança, depois rouba, diz que mata e matará se lhe negarem o que acabará por levar. Fendrik filma-o de perto, em tempo real. Não o larga.
12 planos, nos quais ser humano e natureza são uma e a mesma coisa. Experimental e arrojado, "Tejút" consegue, simultaneamente, ser chato e refrescante, na certeza de que algumas destas “curtas-metragens” (planos parados onde pessoas movimentam-se num dado espaço) são um monumento bem moderno ao sono. E foi para esse sítio que vocês adivinharam que pelo menos uma dúzia de espectadores enviou este filme do realizador húngaro Benedek Fliegauf que, inserido na secção “laboratório” do festival, agradou o suficiente para, sem encantar, ter ficado pelo perfeitamente suportável. O que já não foi nada mau, dado o experimentalismo da coisa.
Foi notoriamente nervoso que, após o (segundo) visionamento de “A Zona” no Indie 2008, o português Sandro Aguilar falou sobre a sua primeira longa-metragem aos espectadores presentes na sala 2 dos cinemas Londres. A dada altura, e para surpresa generalizada do público e do próprio realizador, o seu coração batia tanto que o vertiginoso batuque cardíaco era captado pelo microfone que empunhava. Mais ou menos por esta altura apareceu em cena um senhor de idade respeitável, que primeiramente deu a entender poder ser da família de Sandro Aguilar e, depois, revelou “fazer filmes diferentes”. Apropriando-se do dito microfone, mantendo o seu posto nas primeiras filas, dignou-se a percorrer tudo o que a lingua portuguesa tem de adjectivos elogiosos para classificar o que acabara de ver. Tinha ficado positivamente transtornado com o que Sandro Aguilar explicou ser um filme de transição, sobre uma zona entre a vida e a morte, não sendo tão importante contar uma história mas antes descrever detalhes muito específicos daquela. Forçosamente dolorosa e sufocante, esta transição deixa o espectador confiante que, a dada altura, apareça um traço racional de fio condutor, que explique um argumento que nunca chega a estar sequer latente (mas que Sandro Aguilar afirmou ter escrito naquela exacta medida).
Aqui, percebam, mistura-se drama e comédia, jazz e judo, alcoolismo e jogo. Johnny To, realizador consagrado de Hong Kong, faz o espectador caminhar desesperado e nú, tão louco quanto o senhor Jing que, neste filme, é o único, sabe-se lá porquê, a merecer oficialmente esse epíteto. Isto quando há um antigo judoca, convertido num empresário nocturno amigo de copos e que, tendo uma dívida dantesca por pagar, é já de si bem enlameado que se esforça por atolar o seu lombo ainda mais no lodo. E que é ajudado por um rapaz que também pratica judo e que ajudá-lo-á na empresa de saldar essa dívida desde que os dois combatam. E também por uma aspirante a cantora que se queixa de ter sido forçada a prostituir-se em tempos, ainda que apresente posições distintas quanto a esse facto consoante o contexto em que estiver envolvida. O tragicómico está ao leme, e a verdade é que tudo correu pelo melhor se atentarmos que a sala riu descontroladamente durante a maior parte da sessão. Sobretudo quando a música entristecia ainda mais o ridículo de cada cena, o que não tem nada a ver. Há desempenhos felizes, uma fotografia conseguida e um jogo musical interessante que pende o filme para o burlesco, quando tinha tudo para ser um viscoso melodrama.
