
Em média, os cinco jogadores que ontem preencheram o meio campo da selecção espanhola na final do Euro 2008, diante da Alemanha (Senna, Iniesta, Xavi, Silva e Fabregas), medem 1,72 metros. Do outro lado, e nessa mesma zona do terreno, circulavam invariavelmente jogadores que assistiam ao jogo a partir de um plano picado, tal a apatia (de assistir, quando se está a jogar) e altura (o capitão Michael Ballack é médio e está a um mísero centímetro de se erguer a 1,90 metros) daqueles. Junte-se a tradição que aproxima sucesso e proporções dantescas ao facto de essa mesma equipa ser a Mannshaft, e não seria de espantar que os pequeninos espanhóis, após o apito final, fossem para casa amuadinhos, de cabeça baixa após uma noite de intermináveis abusos futebolísticos. Nada disso se passou. Pelo contrário: foi a Espanha - sustentada pela boa ideia de que segurar a bola é o caminho mais seguro para poder marcar golos, e não sofrê-los -, quem fez pouco de uma selecção alemã passiva, contempladora, impotente. No fundo, o retrato familiar de uma equipa que ontem só não se pareceu consigo em dois ou três detalhes, de entre eles destacando-se o de não ter ganho o jogo com um golo de cabeça, após um cruzamento em que o avançado se antecipa ao guarda-redes (que desprotege a baliza numa saída a destempo).
O alívio é sentido. Ontem, enfim, ficou claro que o jeito para chutar uma bola e ganhar títulos não está refém de tamanho e força bruta, tal como nuestros vecinos o demonstraram no Prader de Viena, ao sagrarem-se campeões europeus com o solitário e triunfal golo de Fernando “El Niño” Torres (na foto em baixo).

De talento incompreendido a herói nacional (por mais exótico que o termo possa soar ao povo espanhol), o avançado do Liverpool recalcou as dificuldades de entrosamento com a táctica de Aragonés, os amuos a cada substituição e a escassez de golos (apenas um) que vinha pintando a tons de negrume o seu currículo na competição. Remédio? Uma indomável vontade de escrever história nos grandes palcos onde ela verdadeiramente se deixa querer; sozinho na frente de ataque, devido à ausência por lesão do goleador do torneio, David Villa (quatro golos), Torres coroou uma noite em que deixou os arranha-céus Metzelder (1,94 metros) e Mertesacker (1,98 metros) num profundo estado de depressão com o esforçado golo da vitória. Aquele que só não foi a figura do ano na Liga Inglesa (24 golos em época de estreia) devido aos feitos pouco humanos de Cristiano Ronaldo em Old Trafford levou de Viena o prémio de melhor em campo e - exibimos a cereja -, ajudou o capitão Iker Casillas a cumprir o sonho de levantar a taça de campeão europeu em selecções, feito que os nossos adorados vizinhos já não atingiam há 44 anos. Quanto a nós, portugueses, aproveita-se a certeza de que, para ganharmos algum troféu ao nível de selecções – entre outros factores -, convinha não dificultar tanto o trabalho a fotógrafos como o que captou Torres instantes após apontar o golo do título; excessivamente ingénuo, este profissional, talvez descontextualizado das concepções modernas (portuguesas) de futebol na medida em que ainda trabalha a sua objectiva concebendo a equação “avançado + bola” como algo que pode resultar em golo. Mais do que redutor, há muito que nós, por cá (e por lá, pela Suiça e Áustria), percebemos o quanto isso é antiquado. Facilitemos, pois, o ofício aos senhores que param o tempo. Mas sem exageros.




Discreto na postura, engavetado num perfil de executivo, de olhar pérfido e a revelar uma auto-reprimida gula por devorar atenções: eis a horrenda descrição que o argentino Arturo Goetz merece, actor principal de "El Asaltante" que retrata, com doses industriais de relato psicológico, o que pode ir na cabeça de alguém que não consegue deixar de roubar pessoas. Ao realizador Pablo Fendrik interessa, sobretudo, perceber que a cleptomania consome este homem (Arturo Goetz) aparentemente integrado na sociedade, já que tem por ofício ser funcionário de uma escola. De modo que apresenta-se, desarma por charme e confiança, depois rouba, diz que mata e matará se lhe negarem o que acabará por levar. Fendrik filma-o de perto, em tempo real. Não o larga.
12 planos, nos quais ser humano e natureza são uma e a mesma coisa. Experimental e arrojado, "Tejút" consegue, simultaneamente, ser chato e refrescante, na certeza de que algumas destas “curtas-metragens” (planos parados onde pessoas movimentam-se num dado espaço) são um monumento bem moderno ao sono. E foi para esse sítio que vocês adivinharam que pelo menos uma dúzia de espectadores enviou este filme do realizador húngaro Benedek Fliegauf que, inserido na secção “laboratório” do festival, agradou o suficiente para, sem encantar, ter ficado pelo perfeitamente suportável. O que já não foi nada mau, dado o experimentalismo da coisa.
Foi notoriamente nervoso que, após o (segundo) visionamento de “A Zona” no Indie 2008, o português Sandro Aguilar falou sobre a sua primeira longa-metragem aos espectadores presentes na sala 2 dos cinemas Londres. A dada altura, e para surpresa generalizada do público e do próprio realizador, o seu coração batia tanto que o vertiginoso batuque cardíaco era captado pelo microfone que empunhava. Mais ou menos por esta altura apareceu em cena um senhor de idade respeitável, que primeiramente deu a entender poder ser da família de Sandro Aguilar e, depois, revelou “fazer filmes diferentes”. Apropriando-se do dito microfone, mantendo o seu posto nas primeiras filas, dignou-se a percorrer tudo o que a lingua portuguesa tem de adjectivos elogiosos para classificar o que acabara de ver. Tinha ficado positivamente transtornado com o que Sandro Aguilar explicou ser um filme de transição, sobre uma zona entre a vida e a morte, não sendo tão importante contar uma história mas antes descrever detalhes muito específicos daquela. Forçosamente dolorosa e sufocante, esta transição deixa o espectador confiante que, a dada altura, apareça um traço racional de fio condutor, que explique um argumento que nunca chega a estar sequer latente (mas que Sandro Aguilar afirmou ter escrito naquela exacta medida).
Aqui, percebam, mistura-se drama e comédia, jazz e judo, alcoolismo e jogo. Johnny To, realizador consagrado de Hong Kong, faz o espectador caminhar desesperado e nú, tão louco quanto o senhor Jing que, neste filme, é o único, sabe-se lá porquê, a merecer oficialmente esse epíteto. Isto quando há um antigo judoca, convertido num empresário nocturno amigo de copos e que, tendo uma dívida dantesca por pagar, é já de si bem enlameado que se esforça por atolar o seu lombo ainda mais no lodo. E que é ajudado por um rapaz que também pratica judo e que ajudá-lo-á na empresa de saldar essa dívida desde que os dois combatam. E também por uma aspirante a cantora que se queixa de ter sido forçada a prostituir-se em tempos, ainda que apresente posições distintas quanto a esse facto consoante o contexto em que estiver envolvida. O tragicómico está ao leme, e a verdade é que tudo correu pelo melhor se atentarmos que a sala riu descontroladamente durante a maior parte da sessão. Sobretudo quando a música entristecia ainda mais o ridículo de cada cena, o que não tem nada a ver. Há desempenhos felizes, uma fotografia conseguida e um jogo musical interessante que pende o filme para o burlesco, quando tinha tudo para ser um viscoso melodrama.