quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Para português aprender


Quantas vezes Steven Gerrard já ganhou jogos para o Liverpool? Quantos remates vitoriosos para figurar nos achados de compilações anuais já sairam dos seus pés? Quantos festejos mutuamente devotos junto dos adeptos “reds”, quando o relógio tiquetaqueava para o final do tempo regulamentar e a vitória não aparecia?

Terminado o ruído balnear em torno da hipotética transferência de Moutinho para o Everton, lembro-me de uma considerável legião de médios-centro que fazem o mesmo pelos seus clubes, desde sempre; marcam golos, decidem jogos. Xavi, Lampard, Pirlo, Ballack, Sneijder, Fàbregas. Finda essa viagem, rememoro no caminho de volta mais uns quantos, bem familiares - Deco, Lucho, Maniche -, e regresso àquele que hoje, em Marselha, voltou a provar ser, possivelmente, o melhor de todos. Como se precisasse. Ninguém ouvirá este rapaz dizer que nada tem a provar – anúncio veiculado por muito craque nos dias que correm, e que Moutinho achou por bem recuperar na abordagem ao jogo desta noite, em Barcelona. Gerrard tem outras ideias, e sustenta-as dentro de campo, pelo meio e ao fim da semana, tenha pela frente o Marselha, Middlesbrough ou Milan.

Enquanto o pequeno João não ganhar o hábito de fazer algo que tenuemente se assemelhe a isto, permanecerá confinado à dimensão de um jogador irrequieto e dotado das melhores intenções. Faltar-lhe-á sempre aquele "bocadinho assim" para entrar no lote de jogadores acima identificado, e ao qual há muito se vaticina vê-lo chegar.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

A Beira Alta pariu um diamante


Aquele querido mês de Agosto, de Miguel Gomes

Miguel Gomes quis muito ser português num plano: um dos últimos, onde filma de perto um lençol sarapintado ao primeiro encontro de ventres; entende-se a bisbilhotice na medida em que já o filmara, de outro ângulo, no plano anterior, depois de ter explicado ambos, previamente, quando o jovem protagonista, ladeado nos lençóis pela sua congénere feminina, rebolou para cima desta embalado pelo optimismo vespertino. “Oh, que exagero!”, exclamou alguém, chocada, algures na plateia – bem me contorci por decifrar o ícone, mas em vão -, com a doçura que uma gargalhada generalizada posteriormente anunciou.

Para trás, e no pouco que faltava até ao tombar dos créditos finais, fica uma caldeirada bem portuguesa de canções, triângulos amorosos e emigrantes quadrados que circunscreveriam com a mesma harmonia geométrica uma sala em Cannes ou Arganil (por arrojado que seja imaginá-las na localidade beirã). Para rememorar os clássicos da música ligeira portuguesa – ah, Marante! –, juntamente com a fauna do King, no que é um tremendo naco de cinema português, toca a reunir para ver “Aquele Querido Mês de Agosto”.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Wasser


Ela estranhou, não acreditou
Disse que não, não era assim.
E então exclamou:
“Ele fugiu!
Cantando o amor, descia o rio.
E assim partiu, não mais se viu.”
E agarrou-se, sem certeza,
Sem nobreza, sem apreço
A outro copo, novo berço.
Soluçou, baixinho.
E acompanhou, e dividiu.
Projectos mil e o recomeço,
Com o violino, errante
Salvou o amor, a cada ano,
Na guitarra, ou no piano.
Venceu a dor, lancinante;
Perder a mãe, depois do amante.

08 Novembro, Guimarães - Centro Cultural Vila Flor
09 Novembro, Sintra - Centro Cultural Olga Cadaval

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Comédia italiana: víuva, mas alegre


Il Vedovo, de Dino Risi (1959)

Foi com o coração nas mãos que João Bénard da Costa, director da Cinemateca, introduziu ao pouco público que ganhou a noite de terça-feira para assentar na sala Félix Ribeiro, pelas 21h30, o primeiro de sete filmes incluídos num ciclo não integral de homenagem ao realizador italiano Dino Risi.

Largas vezes esquecido quando mencionados os nomes que construiram a idade de ouro do cinema transalpino – anos 40 a 70 -, Risi apresenta-se ao público português tão tarde quanto o título póstumo pode significar em si mesmo. Deixou o Grande Circo em Junho deste ano, mas regressa a nós já nos primeiros passos de Setembro, na rentrée da Cinemateca após o habitual retiro de Agosto. Fá-lo com "Il Vedovo" (O Víuvo Alegre, 1959), comédia negra exibida numa cópia não legendada, mas de qualidade superior a toda a linha.

Há um nó a enlaçar a trama logo na cena inicial: travelling lateral acompanhando o diálogo andante de Alberto Sordi, que aqui faz de Alberto Nardi - figurinha do pós-Guerra miserabilista, optimista de meias esburacadas, projectos dantescos e conduzido, chaffeur incluído, num mini adorável, a quem a vida, bingo, não está fácil -, com o seu "braço direito", o “Marquês”, protótipo do italiano desenrascado que luta pelos cacos do desenvolvimento económico numa sociedade pós-deprimida; por eles, à semelhança de uma certa fauna que integra, tudo suportará.

Teor da conversa: Nardi conta em que medida se viu, num sonho, a ficar víuvo por vontade própria. Falta-lhe dinheiro e uma assinatura da mulher, aval necessário à formalização de um projecto que lhe renderia muitos zeros de liras, à direita. Ela, crendo-o megalómano e cretino, nega fazê-lo. Solução: matá-la, e ficar com os zeros.

Raras vezes surpreende, raras vezes aborrece: esta divertida comédia (o que nem sempre, coiso, não é?) que vive à base de esquemas montados para disfarçar uma narrativa cedo desmascarada, já valeria a pena só por - agora víuvos de Risi - nos carimbar um sorriso tonto no rosto, a caminho do metro.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Quem é o advogado que escreveu um best-seller #1 do New York Times?


- entrevista exclusiva a “Um Castelo na Escócia” -

Não pude deixar de recordar, um ano após ter emparedado um separador entre as páginas 32 e 33 do livro "The Innocent Man", em Florença, como o autor John Grisham duvidava da minha perícia mental a cada centímetro quadrado. Acto contínuo: fiz uma curta visita à cidade das grandes olheiras, e encontrei-me com este escritor norte-americano, responsável por um best-seller #1 do New York Times, em 2006 – assim o anunciam as costuras da obra. Do método, pretendi extrair a ciência. A entrevista em baixo publicada recolhe apenas alguns trechos do que foi uma longa e terna conversa entre amigos.

Nos últimos degraus da página inicial do teu “The Innocent Man”, deslumbras os leitores com uma ritmada e precisa visão sobre a cidade que acolhe a narrativa. Cito: “A baixa de Ada é um local mexido. Não há edifícios escondidos ou vazios na Rua Principal. Os comerciantes sobrevivem, embora muito do seu sucesso tenha sido deslocado para os subúrbios. Os cafés estão cheios ao almoço.” O que te levou a escrever um romance não-ficcional pela primeira vez, tú, amigo, cujos livros são tão conhecidos, e até comprados?
“Bem, estou sempre a rondar uma história. Ahm, estou sempre à procura de histórias, ahm, em revistas, jornais, televisão, onde quer que vá, adv... publicações de advogados; ahm, tudo o que lide com a Lei, obviamente: advogados, julgamentos, interrogatórios, litígio (...), tudo diferentes aspectos da Lei. Nunca pensei encontrar a história num obituário, e foi daí que a história de Ron Williamson (o rapaz injustiçado) veio. Ahm, 09 de Dezembro de 2004, há quase dois anos; na secção de obituários, ahm, do New York Times.”

Ron Williamson é, simultaneamente, o rapaz cujo sonho de se tornar numa estrela de beisebol pode ser destruída por advogados como o que tú eras, aos 35 anos, e aquele que depende de ti, hoje - escritor de oferta larga e peregrina procura -, com 50?
Bem, eu cresci no sul profundo, numa pequena cidade do Arkansas; região do país onde as pessoas estão tremendamente apaixonadas pela pena de morte. Não faz sentido nenhum. Ahm, mesmo como advogado eu apoiei a pena de morte, sabes, estamos tão enojados com a violência criminal que queremos combatê-la de alguma forma; quando estava a fazer pesquisa para "A Câmara de Gás", em 1993, fui ao corredor da morte várias vezes, no Mississipi. Falei com os prisioneiros, os guardas, os carrascos e, ahm, foi aí que mudei. Percebi que aquilo não era a coisa certa a fazer, e tornei-me moralmente contra a sentença de morte emitida pelos Estados.

Não seria pouca a satisfação dos nossos leitores se, por afável bondade, nos revelasses onde estaciona o paradeiro da tua admirável inspiração, tú, escritor de vendas massivas.
Quando acabei de escrever “O Corretor”, em Dezembro de 2004, não estava à procura de uma história. Acabo todos os livros por altura do Dia de Acção de Graças (feriado nacional nos EUA e Canadá, algures no Outono, em que as familias comem peru em atenção ao Criador), é o objectivo anual, o expirar do prazo, e eu realmente deslizo pelas férias. Não trabalho muito durante as férias, e de repente tinha esta história que era irresistível; quando dei por mim já o obituário praticamente coçava a superfície da trágica vida de Ron Williamson.

“The Innocent Man” denuncia, sobretudo, mas também ensina. Exemplo: “As suas mudanças de humor foram notadas desde cedo, mas nunca causaram um particular alarme. Ronnie foi simplesmente uma criança difícil, por vezes. Talvez por ser o filho mais novo, e porque tinha uma casa cheia de mulheres cercando-o de afectos”. Em que medida ser advogado afectou a tua escrita messiânica, privilégio de um dos autores mais lidos no país das grandes promessas?
Não teria escrito uma palavra se não fosse advogado. Isto não foi um sonho de criança. Não foi algo em que tenha pensado na Universidade. Chegou mais tarde na vida, ahm, e se eu não tivesse sido inspirado por histórias que tivesse visto, rondado ou ouvido, como advogado, não teria inspiração para escrever. As histórias vieram primeiro. A Lei foi crucial, e ainda o é.

Certa crítica acusa a tua escrita de ter por Lei o esganar da imaginação alheia; corte a foice, desde o Arkansas às mais belas cidades italianas.
O livro vende, por isso vou mantê-la assim (sorri).

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

“Nem todos podem ser domadores de leões”


Lawrence da Arábia, de David Lean (1962)
De domador de leões, T.E.Lawrence tinha pouco: era insolente na decisão, esquivo ao método, demasiado ginasta - assim o tinha a coroa britânica – no pensamento; repescava-se a vulnerabilidade e o encanto. Estes traços causavam o seu incómodo nos rigorosos eixos do Império, de modo que providenciou-se enviar os seus olhos de vidro para Meca. Intuito: “avaliar a situação”.

“Vai ser muito divertido”, prognosticou o coronel Lawrence (ou El Laurens, como os árabes lhe tratariam), ao receber o anúncio de que teria 12 semanas para prosseguir a sua missão na Península da Arábia. Consumido pela ideia do deserto, Lawrence, 27 anos de enciclopédicos conhecimentos com passagem de honra em Oxford, deixou-se ir. O deserto tornar-se-ia no seu parque de diversões privado. Assim foi, pelo menos por algum, pouco, tempo; aquele que se esgotou quando Lawrence (Peter O’Toole - O Último Imperador, 1987) conheceu a morte.

Não a sua, nem a que se constituia enquanto forma de diálogo predilecta entre tribos nativas, mas a que só não banhou com sangue as suas mãos porque foi anunciada com disparos, seis, de um revólver por si empunhado. Ao erudito estudante de Oxford, chegado à Arábia para brincar às 1001 revoluções, sucederá uma outra pessoa, de olhar preso no horizonte longínquo, guerreiro tresloucado que ceifa o turco-otomano que mexe - rumo à grande glória do nada -, esmagado entre a febre da novidade e o majestoso disparate chamado guerra.

Filme de aventuras obrigatório para a boa saúde da espécie humana, realizado por David Lean (Doutor Jivago, 1965) a partir da verídica empresa realizada por um inglês que, chamemos-lhe exótico, ousou saltar da carruagem colonialista entre Guerras; vemo-lo acabar, sem temperatura, numa cena inicial que o prostra após um acidente de motorizada, aos pés de um patriotismo espectral, porque não cumprido.

"Lawrence da Arábia" recomenda-se especialmente a pessoas com belos desvios patológicos na massa idiota, respire esta folgada ou sob penosos espartilhos. Sugestão: observá-lo atentamente numa madrugada de serviço público, entre a 01h30 e as 05h00 da manhã, com o despertador a ladrar o emprego às 07h00.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Volta ao Minho em dois dias

I

Foi na sexta-feira em que o país desceu ao Algarve que, saíndo do trabalho, dirigi-me à estação do Oriente e entrei em contra-mão, rumo ao Minho. Objectivo: reviver cá dentro, de certo modo, os oitavos meses em que acelerei lá fora, de comboio, nos últimos dois anos, e trazer uma história para contar. Pelo meio haveria o festival M.U.N.D.O (Mais Uma Noite De Ócio), em Viana do Castelo, e uma anunciada visita a um “sítio”, em Paredes de Coura, de onde o Sr. Carlos - dono da cervejaria onde venho jantando duas a cinco vezes por semana nos últimos quatro anos -, e família são naturais, e em cuja casa seria tratado com privilégios de realeza rural.

Posto isto, nada faria prever que, já dentro do comboio, nos assentos imediatamente atrás do meu, um casal levasse ao colo duas crianças que imitaram ininterrupta e perfeitamente o bezerrar do Sapo Maluco durante as três horas de viagem que nos levaram de Lisboa ao Porto; a acutilância dos pequenos era tal que tudo tive de ouvir, ainda que derramasse – som no máximo – para os ouvidos, entre outros albúns, o “Time Out”, artefacto da Idade Média produzido pelo quarteto de Dave Brubeck, e “Viva la Vida or Death and all his Friends”, peixinho fresco dos Coldplay.

Mais: ao que a nós, restantes passageiros daquele comboio, parecia uma bárbara violação dos direitos humanos, nunca menos do que um atropelo aos preceitos fundamentais para o efeito proclamados na Carta das Nações Unidas, correspondia a boa disposição dos pais que, emocionalmente inválidos para avaliar o que quer que fosse devido às circunstâncias sanguineas, achavam um piadão àquilo.

Recuperando os Agostos de 2006 e 2007, entendi que a cura poderia estar ali perto, no bar. Suficientemente longe, porém, para que a goela do Sapo Maluco e seu legado não me atormentassem mais os tímpanos. E pudesse beber pela vida. Mas como os tempos são novíssimos em tudo o que me toca, e respectivos rins, não movi o traseiro; aguentando o posto, cheguei ao Porto em dia de feriado com a audição parcialmente inanimada, e o “Crónica de uma Morte Anunciada” (G.M.M) despachado.

Dentro da minha cabeça, a distância entre a “inbicta” e Viana do Castelo seria percorrida num pequeno tiro de carabina, a dez metros; a realidade, porém, é que o Ricardo – meu colega de casa, natural de Antas, Esposende, que me foi buscar -, ainda fez tremer o seu estoico Corsa 1000 o tempo suficiente para que chegássemos a uma hora em que o jantar já teve de ser caseiro, dado que visitaríamos o segundo dia (e último dia) do M.U.N.D.O naquela noite, furtando-nos a gastar trocos num tasco e à companhia prematura dos manos Iglésias. Não sei se ele, o Ricardo, chegou a notar, mas foi para um “jantar caseiro em Antas, Esposende” que deixei de ir a casa no único fim-de-semana em que não houve Linda-a-Velha no meu mapa desde 07 de Julho.

Entre beijos de conhecer e bitaites de voltar, fomos servidos: empurrado por o que poderia ser (ou não) um Outeiro da Águia tinto chegou uma caldeirada de cabrito, logo seguida por outro assado. Antes, queijo fresco e presunto dignos de um espirituoso conto de fadas. A minha assumida hipocrisia em, simultaneamente, consumir matéria animal e não poder ouvir falar no processo que a leva à mesa elevou-se a um controlado choque quando, a dada altura, uma amiga do Ricardo, arregalando os olhos, revelou em tom febril o quanto adorava “ver ganir” um porco depois deste ser atravessado. E quando me informaram que o papá bode do cabrito que estávamos a comer tinha nome, era o Brás, senti comichão durante quase seis segundos. Depois comi o resto que nem um primata esfomeado.

Antes de nos dirgirmos a Viana do Castelo, onde encontrariamos os manos Iglésias, sentados, a beber cerveja ao som dos locais Madame Godard, comi um “31” elaborado pela Andrea: a irmã do Ricardo pincelou a chocolate o interior de vários copos de plástico, recheados de uma sobremesa feita de gelatina e morango, com a idade do primo. Começava da melhor forma a minha nobre intenção de estrangular a dieta anti-cálculos renais a que me venho auto-sujeitando neste renovado verão.

II


Não seria incrivelmente sedutor imaginar “Rak Song”, faixa do recente “Lusitânia Playboys”, do duo português Dead Combo, como fundo sónico de um silencioso tiroteio num saloon do Louisiana, captado pela câmara lenta de Tarantino? Não seria tenebroso pensar que o realizador norte-americano não montaria essa cena sem ter o cuidado prévio de serpentear entre tipos que tilintam cruzes ao pescoço, à medida que agarram máquinas de pinball pelas orelhas com a doçura de quem as espanca?

Precisando de ajuda, aqui a têm: Tó Trips e seu calcanhar nervoso, a desafiar, sapato de bowling, calça à boca de cáuboi com bordado em forma da pentagonal mitra de bispo, padrão roxo sarapintado a romãs escanzeladas e cartola como telhado das ideias, onde, curvado, e sob um ninho de moribundos cucos, desenha paisagens de Viana do Castelo ao faroeste.

Não há como fugir: estes são os Dead Combo (a dada altura Pedro V. ri-se, há testemunhas), arrastaram-se – arrastaram-nos – até ao festival M.U.N.D.O - amálgama de projectos de raiz inteiramente portuguesa para, em fusão com outros géneros musicais, cantar a novidade no Castelo de Santiago da Barra, onde recentemente decorreu o Anti-Pop -, querem explicar-nos qualquer coisa.

“Esta música é uma verdadeira cáuboiada que já deu milhares de dólares”, revela Trips, entre uma “Sopa de Cavalo Cansado” e “Cuba 1970”. A referência é sugestiva, e do público pedem-lhe que imite "O assobio" de Vasco Santana no “Pátio das Cantigas” - o que foi imediatamente concretizado. A festa dos corpos lentos estava lançada.

Começa a chover. Haja chavão: ver Dead Combo à chuva é esperar que, algumas dezenas de minutos antes, a Deolinda não fizesse encore com “Fon Fon Fon”, regressando ao palco sem que alguém o reclamasse. Ao meu lado, a única pessoa que acompanhava aquele nevoeiro da América profunda com palmas era um dos manos Iglésias, o Jorge, e fazia-me recuperar o nome da Ana Bacalhau, e todo o valor que nele repousa, uma vez a cada cinco minutos durante o concerto dos Dead Combo.

Num festival testemunhado por aproximadamente três centenas de pessoas, éramos quatro. Seriam menos aquelas que, dois pares de horas mais tarde, permitir-se-iam dançar ao som de Balkan Beats (DJ Set) sob um céu minhoto em torneira aberta, depois de uma espera que excedeu facilmente os três quartos de hora; eu, naturalmente, era um deles.

O milagre sónico dos balcãs chegou quando uma das quinze pessoas que entretanto subira ao palco resolveu o problema da inevitável falha de energia que, além de baralhar as ideias da mesa de mistura já preparada para abanar esqueletos, interrompeu um solo do (agora) cheinho Luis Varatojo, ontem cabecinha dos Peste e Sida e hoje a dedilhar a guitarra portuguesa d’ A Naifa, que fechou as actuações de bandas no festival. Mas eis que tropeço na ternura do DJ: por mim solicitado a emprestar uma das várias toalhas que tinha ao seu dispor, limitou-se, enxuto, a devolver-me sorrisos. Acto contínuo: regressámos a casa (eu queria mesmo era uma toalha, para me secar).

Note-se o concerto de alma cheia oferecido pel’ A Naifa, quarteto de cumplicidades liderado pela vocalista Maria Antónia Mendes (Mitó), que acasala fado e música electrónica entre letras sem saudade; vieram apresentar “Uma inocente inclinação para o mal”, terceiro disco do projecto e, sem carregar demasiada culpa aos ombros, retiraram um grandioso naco de brilho – estamos no Minho, em Agosto, pelo que só poderia estar ali quem verdadeiramente quisesse, antentando a que chovia - o que terá ajudado a Deolinda a portar-se bem; esta, note-se, borrou por si mesma a pintura de uma actuação sem mácula - final em apoteose que o hino da nação, "Movimento Perpétuo Associativo", de Zé Mário Branco, sempre propicia -, até ao dito e prostituído encore.

Motivo: Ana Bacalhau dizia-se sem voz para entoar “Eu tenho um melro” quando, entre nós, público, já estava tudo bem; não era preciso mexer mais.

III

Ao segundo dia foi a urbana Esposende, primeiro, e a profunda Chão, depois. Na cidade banhada pelo Atlântico e atravessada pelos rios Cávado e Neiva, e depois de um tardio e caseiro “polvo à lagareiro” ao almoço, entendi que a natureza continua a delimitar o seu território das formas mais admiráveis, sendo que algumas azinheiras podem levar esta ideia mais longe do que imaginamos. Aprendi igualmente que existem megafones a cada esquina derramando uma entusiasta música de vidros abertos; é verão, e os cidadãos merecem.


Era uma suspeita, mas verifiquei igualmente que Viana é Lima, que por sua vez é chuva na maior fatia do ano, e paira sê-lo nas restantes horas. Concretizámos a ideia ao visitar de pescoço joystick a bela Ponte de Lima, vila mais antiga do país que se parece com uma pequenina Praga, pelo empedrado, riqueza e ponte (não é a Carlos pela decoração, largura e comprimento, mas podia ser pela fragilidade da memória – privilégio a que nem todos podem aceder). Àquela hora, o Lima era um santuário de paz, navegado por casais em flor, devagar, como quem não quer chegar, e nós um pontinho negro com mil cavalos rumo à Serra de Arga, no Alto Minho, onde encontraríamos a moradia do Sr. Carlos numa localidade que, bem a propósito, dava pelo nome de “Chão”.

IV


Com vista para a natureza bruta e rodeada de cruzes a nascer por geração expontânea em sinuosos caminhos de cabras, a casa que procurávamos revelou-se um achado para o Sr. Carlos, na medida do enorme terreno que comprou a um preço imberbe, da cuidada decoração de interiores, do pouco cheiro a mofo que se fazia sentir - a casa é ocupada dois meses por ano-, e na da nossa traça que, da ânsia por ser presenteados com petiscos regionais, era já considerável.

Fomos recebidos com um vinho verde branco da casta Alvarinho, que o Sr. Carlos não parou de elogiar durante quatro horas, em registos progressivamente mais atenciosos e arrastados. Receberam-nos a Carla, filha da Dona São, esta, esposa do Sr. Carlos, o próprio, e a nora - ainda que não tivessemos notado qualquer som revelador da sua presença, pelo que poderia muito bem tratar-se de um amicíssimo holograma -, com a filha.

A entremedada e o frango no churrasco chegaram já na companhia da segunda verdinha, com a Dona São a censurar o marido de esguelha, a Carla a ralhar com a filha da nora, esta muito atenta à nossa esfomeada linguagem corporal, e o Sr. Carlos a enxotar-nos para a sala, de modo a testemunharmos a final da Supertaça entre Porto e Sporting de forma mais precisa.

Levantou-se a mesa para a cozinha, ficaram os homens - e o vinho - na sala. Levantou-se o Sr. Carlos em busca da terceira, e levantámo-nos nós a ulular de entusiasmo pelo primeiro golo do Yannick Djaló. Regressou o Sr. Carlos, a louvar a dimensão da sua garagem – "cabem lá seis carros", garantiu-nos, sem nos conduzir à ciência – e deixámo-nos convencer a acompanhá-los rumo a uma festa em Sapardos, freguesia de Vila Nova de Cerveira; em 2001, de acordo com o Instituto Nacional de Estatística, Sapardos tinha 396 habitantes.


Dobrando esse número, e acrescentando a big band e fenómeno local Função Públika, temos a Festa de Nossa Senhora de Fátima, para onde nos dirigimos com modos espirituosos após a vitória do Sporting confirmada pelo segundo do Djaló; tombando estrada para depois a escalar, fintando as vertigens do escuro e o motor do Fiat Punto Qualquer Coisa conduzido por Colin McCarlos, chegámos a Sapardos.

Nos 365 dias de um ano normal, trata-se de uma freguesia que vive do pequeno comércio, da transformação de madeira, agricultura e pecuária. Entre 15 e 17 de Agosto, porém, junta-se aos pares e vai bailar aos ritmos da cerveja, do vinho carrascão, da bifana (aqui a A.S.A.E nem cheira), do bigode, e que tais – tudo a que temos direito numa festa popular. Inclusive a música. Não esperávamos, seguramente, é que a sofisticação neste campo fosse uma evidência tão consistente entre os melómanos de Sapardos.

Os Função Públika são uma banda de onze elementos, provenientes de metrópoles tão díspares como Buenos Aires, Chaves ou Tavira. Apresentam-se no seu endereço electrónico como uma “banda diferente”, e dão-nos as boas vindas a um “mundo”, o deles, onde “luz, som e música” são o isco para cavarmos a cova mais fundo na demanda da sua obra.

Naquelas duas horas, os Função Públika abordaram inicialmente um dos nove mil “hits” de Tony Carreira, logo encarnando cinco ou seis malhas consecutivas do que de mais hard rock os Queen compuseram; depois recuaram nove e ficou exposto o juntinho dueto Telma Correia e Luis Mendonça, que atacou “We’ve Got Tonight”, fazendo as vezes de Kenny Rogers (cada vez - infelizmente - menos parecido com aquele que sempre fora o seu sósia, o Capitão Iglo) e Sheena Easton, no momento romântico da noite que não deixou de emocionar especialmente o bom Carlos.

Em todo o caso, não rezaria pelo delicodoce o restante programa de festas, pelo menos aquele que presenciámos até regressar a Chão, dizendo "até já" aos nossos amigos minhotos, (pai do Sr. Carlos - mal me viu, teve a bondade de me oferecer o vinho mais intragável desde Guimarães, 1128 -, incluído).

Os populares estavam tomados por certa febre, acredito que inflamada por toda a encenação futurista que os Função Públika foram proporcionando; nela constava, por exemplo, o supreendente tombo de um par de pistas laterais, ao melhor estilo da digressão mundial em que os U2 promoveram “Elevation” - embora estes tivessem um circuito fixo e aqueles um problema de memória, pois esquecerem-se de avisar o público para fugir do local onde aquilo descia. Viram também a eclética banda travar um tema a meio, para se apresentar a preceito; um a um, os músicos dos Função Públika foram sendo nomeados, reagindo ao estímulo com apaixonados solos.

Depois anunciaram que o concerto ia para descanso, em prol do fogo de artifício que seria projectado num terreno ali próximo; seria uma questão de segundos. O espanto foi generalizado, e de boca aberta permaneceu o povo ao experenciar sete minutos de intenso fervor pirotécnico onde, consta-se, foi gasto aproximadamente muito. Durante esse interregno os onze músicos voltaram a reinventar o conceito de concerto: deixaram cair um pano negro sobre o palco, onde vinha anunciado o lettering da banda e, sonho, deverão ter mudado de roupa.

Despedimo-nos com trocadilhos entre aquela que pegou, trincou e meteu-nos na sesta, e fogo; de Sapardos, freguesia do concelho de Vila Nova de Cerveira, despedimo-nos com dinamite e ambiciosas promessas de voltar a um Minho de gente boa, com "uma inocente inclinação para a chuva" (Ricardo dixit).

V


Só ouvia o incansável e narciso bate-seco dela a despenhar-se contra o espelho quando, orgulhosa pelo feito - travar a minha sonolenta jornada -, se revia naquele. Repensei a estratégia. Dando-me por vencido pelo João Baião dos insectos, deitei-me e vegetei alerta. Concretizaria o homícido sofisticadamente, contra todas as previsões. Uma chicotada junto ao espelho com aquela que rapidamente se tornaria a minha antiga t-shirt de viagem valeu-me oito horas de um doce apagão, após duas de genuína tortura no regresso a Chão.

VI


Domingo: dia de retorno ao caos, noite dentro, já de autocarro, já acompanhado; de agradecer a simplicidade das pessoas, a leveza e respectivos dotes culinários, de fotografar um cão a dormir a sesta num pátio de Viana. Comi chocolate suiço (ou seria alemão?) em casa do primo do Ricardo, onde revi a legião de minhotos que compreendia ex-aniversariantes, grávidas e cada vez mais refinados especialistas em memória desportiva.

Sugeriram ao Ricardo que me levasse ao alto de Santa Luzia, numa etapa de montanha de refinadíssima categoria com vista para o paraíso. À primeira tentativa, esbarrámos com um PSP que atravessou a passagem com o seu rafeiro de chapa azul e branca: “Está cheio, lá em cima”. À segunda, e à hora do chá britânico, o Lima parecia um telhado de zinco.

Créditos: o Rui Luis é o maior.