domingo, 11 de janeiro de 2009

úria é nacional, e muito bom


Há, havia, aquele argumento: “o que tenho para dizer faz mais sentido cantado em inglês do que em português”. Isso já era. Em 2008, ano de conservadorismo musical cool lá fora, com Fleet Foxes, Bonnie “Prince” Billy ou Bon Iver e respectivos discos à cabeça -, emergiu [blup! blup!] em Portugal uma nova geração de músicos protestantes, cristãos e pagãos, apadrinhados pela casta editora FlorCaveira, a cantar em português, e bem. De entre eles - Tiago Guilull, Os Pontos Negros, Samuel Úria, b fachada, Jorge Cruz, João Coração, Manuel Fúria, Guel e Te Voy A Matar -, venho acompanhando com especial atenção o EP de estreia "Em Bruto", de Samuel Úria. A coisa é minimalista: 17 minutos dispersos por cinco temas de impacto imediato, sem fio condutor, e adiciona a um entusiasmante talento musical o tremendo piadão que dá ouvir cantar refinado na língua de José Luis Peixoto. Sem pedir desculpa.

Créditos: este blogue era o maior.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

A equação dizer-fazer (e embaraços a evitar)


Onze dias depois, Obama falou. Avisou que nada iria dizer, por agora, pois cabia ao [ainda] presidente Bush conduzir a política externa norte-americana, mas que depois de 20 de Janeiro [tomada de posse] «muito teria para dizer sobre este assunto [o extermínio na Faixa de Gaza]».

Sucede que algo me vem coçando, eu ignoro, depois puxa-me pela manga, olho, noto que é um assobio que fala, e aí oiço - tem mesmo de ser: «O Obama está a falar bem. Israel não lhe vai causar o embaraço de ter de marcar uma posição mal seja empossado como Mr. President. Até lá tudo ficará bem: reúnem-se e - magia!-, o fogo passa a fumo. Ele diz que vai dizer porque possivelmente nada terá que fazer, e dizer está melhor; ele que olhe bem onde se foi meter e tenha juízo.»

Chato, o tal assobio tagarela que me vem dizer estas coisas lembrou-me também que outra coisa não poderia ser – o dizer, não o fazer -, e explicou-me em números o porquê disto tudo, o que levou o tempo que quem me conhece ao de leve pode calcular.

«Há duas horas - fez-me ver o assobio que não se calava -, a Agence France-Press (AFP) avançou com o número de 660 mortos palestinianos na Faixa de Gaza, desde que a ofensiva do exército israelita começou, a 27 de Dezembro último. 660 vítimas palestinianas a dividir por 11 dias dá 60 vítimas palestinianas por dia. Como o argumento para justificar o efeito, acenado por Israel, esse Estado legitimíssimo, é a auto-defesa, e o plano passa por despejar mísseis e bombas em alvos de enquadramento militar do Hamas, e sabendo nós que este bando de répteis nunca irá deixar de fazer mira com a sua fisga ao sul de Israel, aqui, e atirar o seu rocket, ali, então a Faixa de Gaza, a região mais densamente povoada do planeta, com uma área de 40/10 quilómetros que acolhe cerca de 1,5 milhões de palestinianos [com a desventura de morar paredes-meias com a malta do Hamas, e suas infra-estruturas], seria resumida a ruína e entulho, sem temperatura, lá para Janeiro de 2076».

Foi aí que olhei por cima do ombro e, taxativo, disparei ao tal assobio empertigado: «Vamos mas é retomar tréguas, separando tarefas: tu continuas atento ao mundo real, e eu alterno-o com sonhos e aventuras. De outro modo enlouqueço de vez.»

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Mágico


(...)

Adalberto Asís também tinha conhecido o desespero. Era um gigante bravio que em toda a sua vida tinha posto um colarinho de celulóide uma só vez, durante quinze minutos, para tirar aquele retrato que lhe sobrevivera na mesinha-de-cabeceira. Dizia-se dele que tinha assassinado naquele mesmo quarto um homem que encontrou deitado com a esposa e o tinha enterrado clandestinamente no pátio. A verdade era bem diferente: Adalberto Asís tinha matado com um tiro de espingarda um macaco que surpreendera a masturbar-se na trave do quarto, com os olhos postos na sua esposa enquanto esta mudava de roupa. Tinha morrido quarenta anos mais tarde sem ter podido rectificar a lenda.”

Gabriel García Márquez, in "A horá má: o veneno da madrugada".

sábado, 3 de janeiro de 2009

Bom dia, Médio Oriente



A memória: espelho fiel, ou sombra com vida própria? A dúvida persiste, ainda que o israelita Ari Folman, hoje realizador, ontem soldado, procure em Waltz with Bashir precisos esclarecimentos sobre o massacre das aldeias de Sabra e Chatila, durante a primeira invasão de Israel ao Líbano - onde, crê, ajudou, de 16 a 18 de Setembro de 1982, a matar centenas - milhares? - de refugiados civis palestinianos. Folman esquecera o que agora, plim!, recalcado, regressou. Esta é uma viagem ao fundo do que parece, mas ninguém sabe se verdadeiramente é, numa região com a terrível consciência daquilo que nunca terá: paz.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Isto é uma espécie de declaração de amor


Caetano e Chico, juntos, e ao vivo. Os dois trovadores, queridos inimigos da ditadura militar que governou no Brasil de 1964 a 1985, a driblar a censura com onze temas, daqui e dalí, reunidos num concerto único, com menos de 40 minutos e sem dúvida transbordante; um espernear simbólico da Música Popular Brasileira contra o regime opressor. Gravaram-nas no Teatro Castro Alves, em Salvador da Bahia, 1972, mas nem sempre como as passámos a trautear. A relação zangada de Caetano com Deus - "Partido Alto" -, a sugerida entrega de "Bárbara" a outra mulher, capítulo do maravilhoso livro que é o "eu" feminino de Chico; tudo coisa para censurar mais cedo do que tarde. Se não for pela desarmante "Atrás da Porta", se não for pelo mosaico perfeito de "Ana de Amsterdam", valerá sempre a pena ouvir “Bárbara”, dueto entre esta e aquela personagens, uma e outra vez, e aplaudir tão entusiasticamente quanto possível quando sentimos chegar os versos proibidos:

"Vamos ceder enfim à tentação
Das nossas bocas cruas
E mergulhar no poço escuro de nós duas."

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Um Castelo na Escócia Song Awards 2008

Critério: de bichinhos diferentes; mesmo, mesmo boas.

15. "Gobbledigook"; Sigur Rós
14. "Ragged Wood"; Fleet Foxes
13. "2080"; Yeasayer
12. "This boy’s in love"; The Presets
11. "A-Punk"; Vampire Weekend
10. "Another Day"; Jamie Lidell
9. "Silence"; Portishead
8. "Goodnight, Bad Morning"; The Kills
7. "Graveyard Girl"; M83
6. "Time to Pretend"; MGMT
5. "In the New Year"; The Walkmen
4. "You! Me! Dancing!"; Los Campesinos

3. "So Haunted"; Cut Copy
2. "Ghost Under Rocks"; Ra Ra Riot

1 - "Blind"; Hercules and Love Affair

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Hum, e The Walkmen a noite inteira, não?


É difícil estar a dez metros de Hamilton Leithauser, e, de olhos fechados, deixar de pensar que Bob Dylan está de volta. Não que a música dos Walkmen tenha algo a ver com a que o cabecinha de “Blowin’ in the Wind” compunha nos tempos em que, sem querer, era o megafone de uma geração. O motivo é outro, tem a ver com a voz do rapaz, que é igual à do primeiro Dylan, nos anos 60, quase constipada; assustadoramente igual. A garganta bem aberta, os gritos ao vento – lá está -, em jeito de sermão, o timbre, o tom, igual. As semelhanças, porém, terminam aí.

Na primeira vez que aterram em Portugal para tocar em concerto, no segundo dia do festival de Inverno Super Bock em Stock (SBST), os Walkmen tinham como público um conjunto de pessoas que ia do mais devoto ao curioso que ainda nem os conhecia, mas que tinha ido parar ao Tivoli porque o trânsito entre salas - São Jorge, Variedades e Maxime incluídas - assim o proporcionava. Um sentimento algo desconfortável unia esta gente toda: saber onde cada um ficar, perante o dilema etiqueta/paixão colocado por aquele espaço numa noite em que se escrevia história.

Explicando: o Tivoli, casa de outros andanças, condicionava na medida do diminuto espaço entre cadeiras reservado aos espectadores; está mesmo a pedir que a malta fique ali sentada, direitinha, muito atenta, sem dar corda aos ossos. Por outro lado, o momento era de euforia: recebíamos pela primeira vez o quinteto The Walkmen – banda empacotada no chamado indie-rock que trazia na mala alguns temas do recente disco “You & Me”, mas também se preparava para recuperar outros clássicos que fazem as delícias de uma certa fauna que os ama. E queria mostrá-lo. A solução chegaria entre o segundo e terceiro temas do alinhamento, muito naturalmente, sem dramas.

De lata super bock na mão – a dada altura imaginei como seria maravilhoso que um dos cinco músicos da banda tirasse da cartola uma carlsberg -, Leithauser, vocalista, ocasionalmente guitarrista e líder a tempo inteiro dos Walkmen, cumprimentou a malta e abriu o concerto com “New Country”, um prefácio lento, mas espirituoso, do que viria a seguir. Tivoli atento, e sentado, de acordo com a etiqueta. Segundo tema do alinhamento: “In the New Year”; Tivoli em êxtase colectivo, há criançada a chegar-se junto ao que poderiam ser grades de protecção ao palco – não existem -, e entoa-se a uma só voz uma tirada de esperança: “It’s gonna be a good year”. À terceira, com “The Rat”, está a sala conquistada – meio Tivoli de pé tem de significar algum tipo de conquista -, e do jeitinho intimista de Marcelo Camelo (ex-vocalista de Los Hermanos) já pouco resta.

Agora é tempo de sentir o ressoar de canções populares melodramáticas – forma como estes rapazes nascidos em Washington explicam na sua página myspace o que fazem -, que se percebem saídas da era pós-Sex Pistols, confortáveis no terreno dos Joy Division, e que hoje ecoam com as dos National. De não pouco espanto é a estrepitosa voz de Leithauser: regada a duas cervejas e meia garrafa de água durante a hora de concerto, consegue, de alguma forma, fazer-se ouvir quase sempre acima dos instrumentos, naquela forma de soar própria de quem partiu alguma coisa por dentro, ou pretende que se parta noutro lado qualquer.

Erro de casting

À medida que a curta hora de concerto se esgotava, já depois da aconchegante “Canadian Girl” e do inesquecível riff de sete degraus a subir de “All Hands and the Cook”, começou a deserção: era meia noite, e a festa da Liberdade continuava do outro lado da Avenida, com X-Wife no Variedades e, assim se podia ler no programa de bolso, Frankmusic no Maxime - dali até à 01h. Mas nem tudo é como se lê, o que foi possível constatar após algumas indefinições sobre o vindouro e final destino da noite – a propósito, pelo Tivoli andava David Fonseca com óculos cool de psicopata imberbe -, já no antro do senhor Manuel João.

Lá nos esperava a dupla de DJ’S Stereo Addiction, e a verdade é que até nem tinhamos nada contra; a sociedade parecia coerente, um baixava e o outro levantava – depois trocavam -, mas o que nós queríamos mesmo era perceber porque razão não havia sinal de Frankmusic, sendo 00h45, e os da batucada electrónica já ali acampados, com início previsto para a 01h15. Foi depois de me esclarecerem – “ah, esse (Frankmusic) já tocou, acabou mais cedo” – que surgiu a grande dúvida que dali a pouco me perseguiria até casa, e teima em ficar: “Será que os Walkmen foram beber um copo ao Maxime?”

Créditos: A Rita Carmo é a maior, e a malta da reportagem do IOL também; sobretudo o Luis Silva - olho de lince na edição de imagens.