quarta-feira, 4 de março de 2009

O Vaticano está preocupado com os camionistas, alas


Conduzir um camião por essa estrada fora pode ser um acto profundamente solitário, mas os camionistas não estão sós: terão sempre o Vaticano.

Exausto, no fecho de um árduo dia de reflexão e pesquisa sobre o paradeiro de Deus, de quem se diz estar de férias, o secretário do Conselho Pontifício Para A Pastoral Dos Migrantes E Itinerantes Que Anualmente Congratula Através De Grandes Farras Ecuménicas Realizadas Nas Humildes Mas Acolhedoras Fronteiras Da Santa Sé Os Muito Devotos Peregrinos A Fátima Que Prudentemente Se Engasgam Nas Pragas Que Rogam Sempre Que Acordam Depois de Sonhar Com Joelheiras, Arcebispo Agostinho Marchetto, com dois tês, fez saber ao mundo que o Vaticano, nomeadamente o Papa Bento XVI, está atento às dificuldades da boa e fiel paróquia camionista, que chega a percorrer em 15 dias o eixo Fátima-Compostela-Roma-Fátima sem dormir, com um olho na estrada e outro na cruz pendurada ao espelho retrovisor, a dar, a dar, e que o acaso por vezes faz cair em cima de uma notável colecção de revistas J, religiosamente empilhadas da primeira à última edição no tablier do camião, de modo a fugir de sonhos, sobretudo dos que envolvam joelheiras.

“Aqueles que realizam viagens longas enfrentam um vasto leque de desafios e problemas que requerem uma aproximação pastoral diferente e específica. Esses problemas são essencialmente físicos, pessoais, morais, sociais, introspectivos, económicos, políticos, intestinais, culturais e espirituais. Essencialmente, só para sintetizar”, concretizou o prelado.

segunda-feira, 2 de março de 2009

O filme do mini vermelho

Filme: Quatro Casamentos e um Funeral
Realizador: Mike Newell
Data: 1994




Se pouco recordo a partir dos 15 anos, há coisas daí para trás que permanecem bem frescas cá dentro. A primeira vez que fui ao cinema é uma delas: foi em 1994, num cinema de lagos, e lá conheci o irremediavelmente bêbado e generoso gareth (simon callow), do filme 4 casamentos e um funeral; foi o meu primeiro ídolo do grande ecrã, logo seguido do padre gerald (rowan atkinson), do desastrado charles (hugh grant), e do carro da scarlett (charlotte coleman) - um mini vermelho que fazia muito barulho, e a todos ultrapassava e corrigia enganos na estrada em contra-mão. De tanto rir nessa noite furei uma pequena cova na bochecha esquerda; depois fiquei a saber como funciona isso das primeiras vezes quando o argumentista achou por bem matar o gareth de dança escocesa.

(vá, menos mau).

Assim se terá começado a espreguiçar a minha pacata esquizofrenia. Nunca te perdoarei Richard Curtis! Fora a intenção de um dia resolvermos isto num duelo - revólver no colete à cintura, uma bala, dez passos e disparar -, prevalece a boa onda deste filme. Nas minhas patológicas buscas por novas estórias, li algures que o orçamento era tão baixo que o casamento escocês não se realizou na Escócia. Declaro oficialmente corrigido, com o casamento errado, esse lamentável engano. Chega a casa, 15 anos depois, a poupa do hugh grant que nunca viu um pente. À Escócia o que é da Escócia.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Alguém comeu rissóis enquanto via Bresson na Cinemateca

Filme: Les Dames du Bois de Boulogne
Realizador: Robert Bresson
Ano: 1945



Compreendia eu o privilégio de, por dois euros, poder ver um filme do Bresson anunciado algures por cima do arco-íris, e também a importância de não nos desorganizarmos com uma mulher de coração dorido, quando se me assomou um forte cheiro a rissóis de camarão na sala grandinha da cinemateca.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

É sempre de ouvir em repeat #13

Canção: La Bohème
Compositor: Jacques Plant/Charles Aznavour
Cantor: Charles Aznavour
Disco: Monsieur Carnaval
Data: 1965



A chanson é um rosto descoberto na máxima urgência do que nas entranhas arde; não especialmente bonito, mas belo, nele estão cavadas as linhas do tempo que não chegou a ser, e sem dúvida prevalece, e a tudo diminui - tal é a lingua francesa quando precisamos que nos devore; os dedos ondulam num teclado feito piano, e recuperamos o que de lábios desconhecidos se ouviu, e fechou olhos, e aproximou corpos na terra dos afectos, onde tudo é melhor que nada.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

É sempre de ouvir em repeat #12

Peça: Piano Trio No. 1 in D minor, Op. 49, primeiro movimento
Compositor: Felix Mendelssohn
Data: 1839
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Interpretação: Heifetz (violino); Rubinstein (piano); Piatigorsky (violoncelo)
Data: Não faço a mais pequena ideia



A música clássica do século XIX funcionava como uma espécie de Wagner contra o resto do mundo. Nesta equipa alinhava Felix Mendelssohn, o verdadeiro romântico - segundo um artigo recentemente publicado por uma jornalista do Independent, com base em documentos que só agora viram a luz do dia, o autor alemão d’ A Marcha Nupcial morreu de amor. De Mendelssohn, Richard Wagner, que um dia descreveu os judeus como “ex-canibais, agora treinados para ser agentes de negócios da sociedade” (Das Judenthum in der Musik, 1850), disse compor material “doce, de fazer cócegas, sem profundidade”. Importa lembrar, por isso, que os bons filmes recebem más críticas dos especialistas do Público, pelo que natural será que, salvaguardadas as devidas distâncias, o feitiozinho do autor d’As Valquírias, símbolo póstumo do III Reich, também fosse, digamos, uma dor no rabo.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

É sempre de ouvir em repeat #11

Canção: The Crane Wife 3
Compositor/Banda: The Decemberists
Disco: The Crane Wife
Data: 2006



Um camponês passeia-se certa noite numa localidade rural do Japão, e encontra um pelicano prostrado no chão. Está ferido: tem uma seta enfiada na plumagem. Ele pega na ave, retira-lhe a seta e liberta-a assim que a consegue curar. Alguns dias depois bate-lhe à porta uma misteriosa mulher. Ele recebe-a, apaixonam-se, e casam. Como ambos são pobres, a mulher sugere que vivam de casacos que ela faria para ele depois vender na praça local, mas com uma condição: ele teria de ficar sempre atrás da porta do quarto escolhido para o efeito, e nunca a veria a tricotar as peças de roupa. A mulher vê o pedido satisfeito, e o negócio corre bem, apesar de a sua saúde se vir progressivamente debilitando. Um dia, levado por uma enorme curiosidade, o camponês não resiste a entrar no quarto da mulher, descobrindo que ela, além de tecelã, tinha asas de pelicano, e os casacos eram tão belos porque ela os tricotava com as próprias penas. O feitiço quebra-se quando o olhar dos dois se cruza, e ela, de novo uma ave, voa para nunca mais voltar.

The Crane Wife 3 é a faixa homónima ao quarto disco dos Decemberists, que tem por base esta lenda japonesa, e dela faz a Marianne Faithfull uma cover com o Nick Cave no seu novo álbum "Easy Come, Easy Go", a ser editado na Europa em Março.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

chewing gum in class?



(...)

- Do you think there's anything wrong with your mind, really?
- Not a thing, doc. I'm a goddamn marvel of modern science.


(L)