sexta-feira, 10 de abril de 2009

É sempre de ouvir em repeat #17

Canção: There is a light that never goes out
Banda: The Smiths
Disco: The Queen is Dead
Data: 1986



Take me out tonight
Where there's music and there's people
And they're young and alive

terça-feira, 7 de abril de 2009

Mayra

Nasci cá, em Portugal, mas foi lá, na tórrida Angola, namorada por conhecer, que a minha família nasceu e cresceu. Pais, irmão, primos, tios, galinhas, tudo – ou quase, honrosa excepção seja feita à minha avó materna, tão portuguesa quanto eu (seja lá isso o que for).

Comecei a ouvir merengues angolanos (baseados nos dominicanos) desde puto. Entendia ser essa a música ambiente quando via a minha mãe fazer coisas estranhas com as mãos e pernas e o meu pai serpentear a cintura, enquanto espreitava a dela. Tudo bem, achava, fugindo feito lebre da pista de dança dos encontros anuais de lobitangas (naturais do Lobito), em Tomar, e dos casamentos dos filhos dos amigos dos meus pais, frequentemente rumo à bola que saltasse mais perto; entretanto ganhei-lhe piada, ao merengue, e nalguns casos extremamente específicos até posso entoar uns zurros de asno com cio enquanto oiço o Waldermar Bastos de guitarra em punho a chamar pela Georgina - "Fui no Rocha Pinto ué/Fui no Casaquele/Cheguei na Corimba, Palanca no prenda, e nada/Ai Georgina ié mama, meu amor ué."

Tudo isso me faz bem, mas o meu sangue pseudo-africano sempre correu mais rápido ao ritmo das mornas pachorrentas e do semba, com o batuque em ligação directa à terra, ao chão. Afinal, sou o forasteiro da família, e natural será que o corpo responda de outra forma.

O Dany Silva explicá-lo-á melhor do que eu. O Bonga também.

Por isso fui varrido de paixão quando um dia ouvi a voz quente e levemente suja da Mayra Andrade – cabo-verdiana nascida em Cuba que cresceu no Senegal, Angola e Alemanha, para agora viver em França, deslumbrante, uma força da natureza, um petardo rebentado no céu; ca-bum!, fez-se Mayra. Egoísta, também, como se tivesse concentrado em si toda a beleza. Que a tem como já não se usa.

Se algum dia for pai, chamo o meu puto à sala, mostro-lhe uma foto dela, ponho a tocar o disco “Navega” (2006) e digo-lhe: “Vês, baixinho, assim se explica que os homens façam coisas muito tontas pelas mulheres”. Se for menina, bem, acho que mostrarei a mesma foto. Li algures que compará-la com a Cesária Évora é redutor. Também achei que fosse assim.

MySpace: aqui

sábado, 4 de abril de 2009

Carta aberta ao Sr. Eastwood (onde consta um ou outro spoiler sobre o Gran Torino)



Caro Clint,

Ainda não tinha entrado o primeiro plano do filme e já o teu piano me tocava um destino irremediável: sairia do Monumental feito um traste. Sobreviveria, porém, tem sido assim. Mas só hoje, um dia depois de ter visto o Gran Torino, entendi porque raio tive tanta dificuldade em conter os soluços no final. (Bem, e ouvir-te cantar, também – mais alguém se lembrou do Tom Waits no seu estado mais arruinado? -, pena que não me deixes publicar aqui a versão completa da canção que nos desfaz nos créditos finais, fica o Jamie com os louros).

Da próxima vez que filmares a tua morte chateamo-nos a sério. Morte a abrir um filme e a fechá-lo é coisa triste. Morte a abrir um filme e a fechá-lo, contigo deitado num caixão, muito quietinho e direito, é inadmissível. Dois pontos a menos.

Não me interpretes mal: a história inteira do cinema cabe e manifesta-se num filme teu. Há diálogos quase tão sussurrados como a tua fatia do tema-título. Bonnie and Clyde, hein? Mas estás proibido de repetir aquilo dos caixões. É maldoso. Ficamos com receio de que não sejas para sempre. Tens de ser para sempre. Continuar. Ser mais vezes o mau da fita e com isso fazer as pessoas rir muito. Ninguém rosna daquela forma. Humor de cão devia rimar com Eastwood. Com uma coisa sei eu que rima: trabalho. Mantém esse hábito de não achares, talvez despropositadamente, que o mundo te deve alguma coisa. É um bom princípio.

Ah!, quase me esquecia: belo carro.

Atenciosamente, R.C.

terça-feira, 31 de março de 2009

Este post tem cauda

Bonifácio: A música dos BCH (Belle Chase Hotel) parecia querer fugir deste lugar. Não lhe assentava bem a identidade portuguesa?

JP Simões: Na altura queria ser outra coisa, sim. Que não era incompatível com ser português. Uma das nossas características é transmutarmo-nos. Talvez por ser inóspito ser português. É iminentemente portuguesa a vontade de ser outro. Portanto, estava a ser extremamente português (...)




Uma amiga minha diz que o João Bonifácio “saiu da BD para a vida real”. Presumo que ele não gostasse de saber que a vida real não é a da BD. Eu não gostaria, se estivesse nos pés do Bonifácio. Apercebi-me que ele existia na mesma noite que o JP Simões. O primeiro entrevistava o segundo, na edição de 29 de Setembro de 2006 do Ípsilon, que então era Y, e eu lia tudo muito atentamente na sala de espera do Hospital de São José, madrugada dentro, à espera que alguém me tirasse o termómetro debaixo do braço. Demorou essa espera o tempo que costuma demorar. Depois chegou o médico; enfiou a mão pela gola da minha sweat, retirou-me o aparelho do quentinho, observou-o, mudou de cor, abriu muitos os olhos e regressou seráfico de onde viera sorridente. Mais preocupado com o que tinha entre as mãos, desviei o suor febril dos olhos e então dei conta da grande novidade: nunca tinha lido a lingua portuguesa daquela forma, tão bem tratada. Guardei a entrevista e passei a segui-los de perto. Lia um, ouvia o outro. Hoje percebo o quanto cheguei tarde aos dois. E também mantenho que o cabecinha da lusofonia continua a ser quem há muito já era.

sábado, 28 de março de 2009

o corpo pode ser vestido de muitas maneiras, embora esteja sempre nu

'Starry Night', Vincent Van Gogh, 1889
I
A noite trazia promessa de ruína. Pª. recebera um presente holandês e dar-nos-ia música; I. vencera o relógio e teria mais tempo para atacar a direita. Pº. vestira o casaco mais distinto que tinha. R. jogaria sempre à bola na manhã seguinte. A noite era estrelada. Pela frente estava o bom sábado.

Deixando para trás a escuridão das poucas ruas do Bairro Alto que ainda não se encontram tomadas de assalto por feixes de nave alienígena, Pº. e R. anunciaram-se a quem por eles esperava no primeiro bar que se lhes deparou. Houve beijos e abraços; o grupo era extenso e fatiado, mas reinava o afecto. Os copos também. Era importante, sublinhou R., logo após pedir o primeiro, à saída do balcão, perceber o valor de uma taça de tinto que custe três euros, embora guardasse para si como lhe soubera bem a gigantesca pizza que comera na cidade eslovena de Kranj, em Agosto de 2007, mais ou menos pelo mesmo preço. O bar compunha-se. Enjaulada no seu canto de trabalho, muito concentrada, Pª. não sabia, mas preparava-se para concorrer com os melhores alinhamentos na história dos melhores alinhamentos que já se fizeram ouvir no Bairro Alto.

Foi isso, pelo menos, que passou pela cabeça de R. depois de ouvir Of Montreal, Nouvelle Vague, The Cure, Beirut, The Killers, David Byrne ou Vampire Weekend, entre outros, como escolhas musicais de um DJ set. Quatro horas de intensa busca pela beleza acabariam por se revelar o melhor que a noite reservou a Pª., que já fora mais feliz no Incógnito, para onde o extenso e fatiado grupo se dirigiu pelas 02:30.

II
Dona do falsete de espanto mais rápido do Oeste, I. despachava caipirinhas em bom ritmo enquanto atacava a direita - “Abaixo o capitalismo!”. Aliás, o entusiasmo de ter vencido o relógio foi tal que, poucos minutos após a segunda paragem da noite, I. já perdera as forças noctívagas, e reflectia sobre os méritos de uma terceira, que seria já em casa, de preferência a curto prazo.

O Incógnito pingava pessoas para a rua. Cheio à sexta-feira como nos sábados mais procurados. O DJ, porém, não estava especialmente inspirado, e poder-se-á dizer, sem prejuízo da verdade, que foi parcialmente responsável pelo facto de R., que se instalara nos degraus de acesso ao piso superior, junto dos amigos, ter deixado cair numa cabeça dançante do piso inferior uma de duas palhinhas com que foi servida a caipirinha que pediu quando entrou naquele bar. E alguma cachaça doce, também. Outra coisa não seria de esperar quando um público frustrado ouve os primeiros cinco segundos da canção dos Joy Division ‘Love Will tear us Apart” e, já com o coração aos pulos, percebe que se trata apenas de um sample. As três mosqueteiras que se costumam aninhar junto ao corrimão do piso superior, que dá visibilidade para a pista de dança, acharam o mesmo.

Por essa altura já Pº. tinha descaracterizado pela terceira vez, depois de virar sagres preta e caipirinha, o pacto que fizera a si mesmo antes de rumar ao Bairro Alto. “Vou beber cerveja branca a noite toda”. Encostado a uma parede, o presente holandês de Pª. sentia o sono pesar-lhe nas pálpebras. A noite já parecia longa para quem viajara da Holanda naquele dia.

III
I. reúne diversas virtudes. Entre estas se destaca a de, numa sexta-feira, conseguir sentar-se nos degraus que dão acesso ao piso superior do Incógnito, um dos perímetros com mais pernas por centímetro quadrado de que há memória - motivo para qualquer cidadão japonês corar de orgulho -, e assim permanecer, sem qualquer sapato cravado na cabeça, braços ou dentes.

Outra capacidade que distingue I. passa pela sensibilidade para avaliar engenharia e arquitectura; em determinados casos, pode levar longos minutos a oscultar uma parede, sentindo textura e estrutura, paredes como búzios, este amor. Foi o caso. Durante o tempo ganho no Incógnito, Pº. observou esse processo com atenção. Noutro plano, Pª. procurava o DJ pelo espelho, com esperanças de que este lhe visse a cabeça a abanar em reprovação.

E foi já a caminho da terceira e última paragem do agora menos extenso e fatiado grupo, a penúltima de Pº. e R. - queriam era bolos -, que este se lembrou de que jogaria sempre à bola dalí a umas horas.

sexta-feira, 27 de março de 2009

o b ficou na poeira

Somos todos extremamente fixes. Sem reparos. Temos blogues - é só verem o que para lá debulhamos. Esta página, por exemplo: é descer e encontrar New Order, Marlon Brando, a Rainha da Jordânia. Uau, né? E antes? Há 15/16 anos? Bem, já ouvia com uma regularidade preocupante o Get a Grip dos Aerosmith, e em vinil - é um facto; outro: não passava de uma paixoneta, uma distracção que nunca me desviou daquilo que me definia. E isso, a partir de 1993, foi o álbum So Far So Good (Até Agora Tudo Bem) do senhor Adams, em k7. Lembro-me de a ter comprado numa loja de discos chamada Amarelo e Preto, em Portimão, após ouvir algumas canções na MTV. Naqueles tempos - já digo 'aqueles tempos!?' - a MTV era tão fixe que parecia mentira. Quase tanto como a Rádio Cidade. Facto é que eu cantarolava o So Far So Good a caminho das coisas e a voltar delas. (Ocorria-me fazê-lo durante, também, mas por vezes tinha de dormir). Não é tudo. Entre os oito anos de idade, quando o conheci, e o ocaso da tão sábia puberdade, deixei de engolir saliva porque pensava que assim tornaria a voz mais rouca - mais parecida com a do senhor Adams. Na verdade, depois da fortuna de poder cantar o ‘Heaven' em falsete, debaixo dos lençóis, tinha por certo que o segundo grau de felicidade consistia em ouvir o ‘Kids Wanna Rock’ ao mesmo tempo que me olhava no espelho a fazer cara feia, e o terceiro em ser o João Vieira Pinto, pois julgava-o gémeo perdido do senhor Adams. Daí que, sportinguista convicto, me tenha tornado fã do então “Menino de Ouro”. Num belíssimo dia, porém, virou “Grande Artista”, e tudo se resolveu à campeão com as marradas do filho Jardel. Daí para cá os anos embarcaram de TGV. Hoje sou cool, e escrevo cool em inglês, porque é mais fixe. Ou mais cool. Como aqui o caso do amigo sem b.

quarta-feira, 25 de março de 2009

É sempre de ouvir em repeat #16

Canção: Days Without Rain
Intérprete: Patrick Cleandenim
Disco: Baby Comes Home
Data: 2007



Passo 1, atentar até aos 9 segundos deste vídeo como o realizador era fã da novela 'Vamp'
Passo 2, puxar as meias para cima nos restantes 14; ainda se bate o dente de noite
Passo 3, ler o texto que em baixo segue
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Já vejo esta canção, barroca, burlesca, belíssima, a liderar a banda sonora de um filme que o Tim Burton ainda fará, talvez animado, decididamente cómico – mortalmente cómico -, a enfiar este violino fantasmagórico pelo hemisfério direito do espectador anónimo, onde se tranca à chave, repetindo em eco, com gargalhada, que é lá em baixo que a malta se diverte; entra de mão dada com o piano teimoso assim que um escritor descabelado atira um avião de papel à cabeça da amante, mal o sentimento de culpa a expulsar da cama, porque o marido até tem bom coração; o avião falha o alvo pretendido e despenha-se de nariz no cemitério que é o balde do lixo, de onde já não saem as letras que o escritor empenhara - tripulantes que a bordo ajustavam contas com o amor, ou qualquer coisa.