sábado, 30 de maio de 2009

É sempre de ouvir em repeat #29 e 30

Aquela coisa de se descobrir uma canção pela rádio e acharmos que o dia já estará ganho caso nos digam de quem ela é, sabem?, pois bem, sucede que da Ladyhawke e respectivo disco de estreia com título homónimo sabia eu que conhecia a ‘Paris is Burning’, mas dá-se o caso, finalmente, ouvindo todas as faixas, de me aperceber que são dela grande parte das músicas que nos últimos meses me têm moído o juízo por lhes desconhecer a origem. Longa vida aos 80's, versão anos zero.



quarta-feira, 27 de maio de 2009

Andrew Bird ou o prodigioso fato escuro que assobia muito bem


Foto: Rita Carmo (a maior)

Fila para a sala 1 do São Jorge, 21:35: confundo a Soraia Chaves com a Soraia Chaves.

Sala 1 do São Jorge, 21:45: entra um fato escuro pelo palco. O público, que não é louco, tem dificuldade em perceber como é que entra pelo palco da Sala 1 do São Jorge um fato escuro, assim, sem mais. Só quando este chega junto da plateia é que os espectadores percebem que não vem só: traz dentro de si um vulto descabelado que, pé ante pé, caminha de olhos fixos no chão. Sem os levantar demasiado, acomoda-se num pequeno perímetro repleto de instrumentos musicais e socorre-se do primeiro: um violino. Espanto: dedilha-o como se de um cavaquinho se tratasse. Temos artista.

Sala 1 do São Jorge, 21:52: é aqui, depois de gravados em pedais de efeito vários arranjos de guitarra eléctrica, violino e uma sequência de palminhas clap clap (silence) clap que terá feito corar o David Fonseca – é difícil imaginá-lo noutro lado que não ali, no meio da rapaziada que encheu o São Jorge pela segunda noite consecutiva -, que as coisas ficam mais bonitas. O vulto tem voz e apresenta-se em açoriano - “Bua nuite” -, primeiro, e inglês - "My name's Andrew, pleased to meet you" -, depois. Ah, e já canta. O terceiro tema, ‘A nervous tic-motion of the head to the left’ (The Mysterious Production of Eggs, 2005) chega antes das 22:00, e só se percebe que a plateia lhe conhece a letra porque descubro dezenas de bocas a sussurrar com os mesmos trejeitos. As emoções ficam retraídas. Adivinha-se uma noite plácida. Acreditem quando vos minto que isto é verdade.

Foto: Rita Carmo (show dxi bola)

Sala 1 do São Jorge, 23:02: Há muito que o vulto chamado Andrew já descalçou as botas e, de olhos fechados, vem dirigindo uma orquestra de vários outros vultos muito parecidos consigo e aliás inexistentes, sob a prodigiosa orientação de el comandante, O assobio. Assim de repente, lembro-me que cantou 'Oh No', 'Effigy', 'Natural Disaster', 'Fitz & Dizzyspells' e 'Tenuousness' do mais recente disco, Nobel Beast (2009). Também reparei que jurou amor eterno a Portugal (ovação massiva) e ao fado (ovação de sete pessoas que vestiam de negro e calçavam meia branca descoberta na perna traçada). E que tocou violino em bicos de pés demasiadas vezes para não estar a testar uma eventual descolagem. Já disse que também assobia como algumas aves gostariam? Por motivos práticos, passarei a denominar o vulto que se chama Andrew de bailarino-violoncelista que assobia muito bem.

Sala 1 do São Jorge, 23: 34: Afastámo-nos do São Jorge sem fazer a mínima ideia de que a noite continuaria no Irish Pub do Cais do Sodré durante uma taça de tinto, uma sandes de frango catita e uma imperial que o talão confundiu com uma pint. Na massa cinzenta, uma ideia colorida: o bailarino-violoncelista que assobia muito bem outrora conhecido por vulto que se chama Andrew perdeu-se algumas vezes durante o concerto – génio, claro; louco, óbvio; humano, também; dava jeito que a banda que o costuma acompanhar em digressão tivesse igualmente viajado até Portugal -, fez pouco disso, ignorou alguns temas que o público bem pediu, mas fez o que quis da grave e pouco esforçada voz num alinhamento de brilhantes musicas primaveris, pensadas, interpretadas e correspondidas em contra-mão. Não sei se é folk ou pop ou até clássica a música que ouvi ontem à noite. Mas é boa. Muito. Nada mau para um fato escuro.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Mayra Andrade conta Stória, Stória...

Foto: João Wainer

Mayra Andrade fez nome na cena da 'world music' com Navega, álbum de estreia que em 2006 deu a conhecer o seu crioulo cabo-verdiano levemente rouco, e editou hoje o seu segundo trabalho, Stória, Stória... Ao Destak/Castelo, na austeridade do Hotel Pestana Palace, em Lisboa, a doce cabo-verdiana fala de um disco mais sofisticado na produção, mas com a mesma «permeabilidade artística» que veste o anterior, defende.

Foi importante a participação do produtor Alê Siqueira no novo disco?
Foi muito importante; não pelo que ele já fez, mas pelo produtor que ele é. Há produtores que trabalham com os artistas a querer fazer o próprio disco, e há produtores que conseguem pôr-se ao serviço da música que estão a produzir - é o caso do Alê. Tem uma cultura muito aberta e costumo dizer que viu este disco com os meus olhos. Conseguiu encarnar um espirito, um conceito, e defendê-lo, sempre com muito respeito.

Neste álbum trabalhas com músicos guineenses, angolanos , brasileiros, portugueses, [«cabo-verdianos», acrescenta Mayra, bem a propósito]. Sentiste a necessidade de dar outra versão de ti mesma?
Eu não acho que seja uma outra versão de mim mesma, porque já me falavam disso no Navega: estar a fazer músca tradicional, mas não tanto porque permeável a essas tais outras influências. Só que este segundo disco foi mais escrito, mais orquestrado, mais recheado do que o primeiro, então se calhar isso tudo sobressai mais. Mas eu acho que é muito fiel à linha que venho traçando desde o primeiro. Eu vejo realmente este disco como uma continuidade. Não vejo o Navega como um disco tradicional e este como tradicional, mas mais aberto. Este é conceptualmente mais recheado, mais estofado, mas a minha forma de fazer música acho que não mudou - tem essa permeabilidade que eu defendo. Faz parte da minha liberdade artística: não é por eu ser cabo-verdiana que não posso fazer uma música que sinto. Isto da mestiçagem não é uma coisa que eu procuro, é uma coisa que é.

Precisas de viajar para alimentar a tua criação?
Não sei o que seria a minha música se eu não tivesse viajado. É um grande ponto de interrogação. Hoje em dia viajo em trabalho, mas tem sido assim desde os meus seis anos de idade. Eu sou o que sou e a minha música é o que eu sou. Pela minha educação, pelo meu percurso, pelas minhas viagens, pelas pessoas que eu conheci, pelo que eu ouvi, pelo que eu comi. Faço tal música por isso tudo. De uma forma muito directa isso influencia a minha música.

Porquê 'Stória, Stória...'?
'Stória, Stória' é o nome de uma música que eu escrevi em Cuba, em que canto sobre o início de histórias de amor. Falo da minha história de amor com um país onde só há pedras e não chove. Quer dizer: olhas para Cabo Verde e pensas que estás na lua. Não é exactamente a imagem do paraíso. 'Stória, Stória', é o que dizemos em Cabo Verde quando vamos começar a contar uma história. Antigamente, quando as pessoas se sentavam a contar historias, diziam: 'Stória, Stória', tipo, ‘Era uma vez’. Então assumo este disco como um livro de histórias, em que cada música é um capítulo, uma história de vida.

Cantas uma música em francês no outro disco, Comme s'il en pleuvait, e isso volta a acontecer neste, mas também há outra em português-brasileiro.
Coisa que eu evitei no primeiro disco, cantar em brasileiro. Sem gravar já me falavam do Brasil a cada dois minutos, então fiz questão de não o fazer.

Essa canção, ‘Morena, Menina Linda’, é um dos momentos mais apaixonados do disco. Como é que surgiu?
Essa música é do Grecco Buratto, um amigo meu que vive em Los Angeles, Estados Unidos, e ele escreveu-a para mim, com base em mil conversas, em mil momentos. Tudo o que ele escreve tem uma ligação com algum momento que partilhámos. Para mim é uma música muito especial. Hesitei muito em gravar. É tão pessoal que ele quis que eu partilhasse os direitos autorais com ele. Ele disse que, sem mim, a música não existiria: nasceu de uma história partilhada. Bom, depois claro que eu não partilhei os direitos. Disse: ‘fica com os teus direitos e escreve mais músicas bonitas’. Eu estava a regressar de férias da Baía (Brasil), rouca, e gravei-a em directo. Pensei: que irresponsável eu sou de chegar rouca. Mas é a voz que combina com a música.

Parece que queres cantar e não consegues.
Exactamente. Sabes, a minha vida é feita só de coisas assim. Percebo a enorme sorte que eu tenho. Tudo aconteceu para essa música ficar assim. Acho que na minha vida tudo tem sido assim. Julgas que são pequenos acidentes e, quando a coisa termina, pensas: se não fosse isto e aquilo, não seria assim. Mesmo.

sábado, 23 de maio de 2009

Smalls

Os sentidos apuram-se: noto, e não é a primeira vez, que as probabilidades de ser acordado em portimão pelo palrar de um pardal são exactamente proporcionais às de, em lisboa, ouvir o meu despertador precocemente substituído por uma sequência interminável de buzinadelas, devidamente acompanhadas por referências às mães dos que estorvam a saída dos carros. As segundas filas dão cabo de mim. Coisa frustrante esta de nada poder fazer quanto a elas. Existem, e é só. Na melhor das hipóteses, em lisboa, sou acordado pelo arrumador de carros da minha rua – “VAI SAIR????” -, cujo tom médio de voz é idêntico ao que deverá ser um grito do Pato Donald quando lhe queimam a cauda. E isso, digo eu, pode ser uma experiência particularmente dolorosa para aqueles que se deitam tarde (3:30) e querem acordar cedo (09:30), mas não tanto (07:30) – faço-o ao sábado para calar os apetites do jogador de futebol fantasma que vive em mim. (Nove anos a dar pontapés na bola é o argumento que encontro). Isto para dizer que vou ficar de consciência bem pesadinha – agora é que a malta se tranca em casa de vez -, mas a mensagem tem de passar: concertos e mais concertos e mais concertos, todos os dias, entre a 00:30 e as 09:00 (hora portuguesa, acho que é isto), no Smalls, um dos clubes de jazz mais consagrados de Nova Iorque. 6 mil quilómetros à distância de um clique. Este.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Último Ciclo



João Bénard da Costa
1935 - 2009

Há quem se sirva da primeira gaveta da mesa de cabeceira para lá colocar a respectiva roupa interior. Na minha encontro bilhetes de metro e folhas-de-sala escritas pelo João Bénard da Costa, que trago para casa quando vou à Cinemateca. Sinto que devem estar à distância de um braço - não me vá dar insónias. Tenho uma delas aqui à mão. A dada altura, sobre o filme Les Dames Du Bois De Boulogne (Bresson, 1945), lê-se: “Mas há algo que ela não consegue dominar, algo que, no filme, é traduzido pela cascata, pelo papel branco das cartas, pelas notas dos teclados do piano. Algo onde reside exactamente esse amor que não necessita de provas, e que triunfará na cena final entre Jean e Agnès”. No último ciclo do Bénard, a quem tantos de nós deve incontáveis horas de filmes maravilhosos - aos quais, de outro modo, dificilmente chegaríamos -, e tudo o que por isso aprendemos sobre este jogo de sombras a que chegámos sem pedir, prevalece a mais admirável das provas de amor que alguém ou algo, neste caso o cinema, poderá receber: uma vida de dedicação.

terça-feira, 19 de maio de 2009

É sempre de ouvir em repeat # 26, 27 e 28

O caminho faz-se caminhando, O caminho faz-se caminhando, repetia eu, quando, hiperligação mais hiperligação, choco de frente com a voz indisputável da Dolores O’ Riordan. Cantava a 'Linger' - uma das grandes canções dos anos 90, escrita e composta para mais tarde recordar; no final da década seguinte, por exemplo, e tudo o que isso arrasta para quem entrou na adolescência mais ou menos naquela altura. Eu sei, a saúde, mas fazer o quê, é a batida cardíaca quem mais ordena. Aproveito a embalagem, mas sirvo-me de outro tema do mesmo disco dos Cranberries Everybody Else Is Doing It, So Why Can’t We? (1993), mais, digamos, saudável, junto-lhe outras duas que ajudem a completar o puzzle de um tempo então despreocupado, de banhos de mangueira no quintal e beijos roubados, et, voilà!, o mundo volta a ser nosso.
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Canção: Dreams
Banda: The Cranberries
Disco: Everybody Else Is Doing It, So Why Can't We?
Data: 1993



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Canção: Tonight, Tonight
Banda: The Smashing Pumpkins
Disco: Mellon Collie and the Infinite Sadness
Data: 1996



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Canção: Alive
Banda: Pearl Jam
Disco: Ten
Data: 1991

segunda-feira, 18 de maio de 2009

O Vasco Pulido Valente ia estragando o jantar lá em casa ...

... mas o Luis Pato salvou-o. Esperei o pior quando a Manuela Moura Guedes nos tirou o pio ao pronunciar o nome da santíssima trindade da maledicência, cumprimentando-a, para logo lhe pedir um comentário sobre algo definitivamente inaceitável. Vasco Pulido Valente. A minha mãe gosta dele. Eu gosto dela. Dele nem por isso. Acho que o fechava seis horas numa jaula com o irlandês de quatro por oito metros - ou seriam oito por quarto? - que ontem se me apresentou como o "branco vivo mais duro do mundo", entregando-me uma fotografia onde aparece ao lado do Mike Tyson. Legenda: o primeiro sorri o sorriso dos "brancos vivos mais duros do mundo", aparentemente sem quaisquer nacos de orelha em falta; o segundo sorri o sorriso dos dentes caninos de ouro e vestia, adivinhem, adivinharam, uma t-shirt da selecção irlandesa de futebol. Mas é nos momentos de maior aperto que recebemos notícias daqueles que melhor nos querem. E o passo desorientado do Luis Pato apareceu quando mais dele precisávamos. Comando, off - alas!, ainda há livre-arbítrio! Aconselho-o. Até com peixe. Mas sem o Vasco Pulido Valente.