segunda-feira, 29 de junho de 2009

Imaginemos que este post tem a bolinha vermelha que merecia aqui

Dirijo-me desde logo a todos os chineses, nomeadamente aos mais jovens: fora daqui. Esse clique no xis branco em fundo vermelho enquanto é tempo. O texto aqui em andamento, acreditem, que conheço bem quem o escreve, é pecaminoso. Vil. Suja que não sai no mais puro dos espíritos. Mau (mao?), estou a falar chinês? Ainda vão a tempo. Salve-se quem puder.

Se pensaram, ao espreitar a fotografia acima publicada, Pronto, com temas tão actuais e sérios como o golpe militar nas Honduras ou a destruição de uma pastelaria em Lagoa por parte dos Super Dragões, lá vai ele escrever sobre os desavergonhados que ali se enrolam, nus, à luz do dia, indiferentes aos olhares mais reprovadores - arranjem um quarto! -, acertaram.

E não estão sozinhos. O adorável governo chinês anunciou há dias que vai lançar um software anti-pornografia em cada computador vendido entre muralhas. A contar desde o próximo dia 1 de Julho, quarta-feira. Missão, segundo o Wall Street Journal, Construir um ambiente verde, saudável e harmonioso na Internet, prevenindo que informação prejudicial influencie e envenene os jovens.

Diz, quem já experimentou o pulso firme da polícia chinesa online, que o sistema apresenta um olhar de vanguarda sobre o tema do sexo explícito.

Exemplo: um curioso procurou a imagem de um animal num motor de busca. Nisto, resulta que a fotografia de um suíno radiante, com a expressão de quem esteve horas a fio a chafurdar num grande monte de esterco, surge censurada. Lista negra. Proibida.

Bem, directos ao assunto, De que é que as autoridades de Pequim se lembraram?, pergunta, e bem, o leitor. Resposta: de desenhar um sistema preparado para denunciar como pornográficas todas as imagens que tenham uma determinada proporção de pele exposta. Pele do branco ao mais rosadinho, pelos vistos - de seguida, o mesmo curioso procurou a foto de uma mulher negra, nua, e não lhe foi colocado entrave algum.

Daí que se imponha a pergunta: Senhor engenheiro, hein?, que tal ensaboar a massa cinzenta da xavalada tuga como deve ser?

Provedor do Castelo:
Quero aqui expressar de forma clara a minha indignação face aos conteúdos que este espaço outrora respeitável entendeu publicar na sua 134ª oração. 20 meses depois, o Castelo desceu à barbárie. Lamentável.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Não haverá outro

Michael Jackson (1958-2009)

O ‘meu’ Michael Jackson nunca poderia ser o do Thriller. Ainda não tinha nascido em 1982. A canção, o disco, o vídeo, e o que isso representou para os fãs, indústria musical, MTV – tudo -, só me chegou bem depois. E o sorriso e voz angelicais. Sem descanso. Límpidos. Perfeitos. Nos Jackson 5. Na Motown. O prodígio de ‘ABC’ e ‘I Want You Back’ . E o pai de cinto na mão nos ensaios. Era, portanto, o Jackson branco, já, embora não ainda albino, quem primeiro conheci. Havia lá por casa a k7 do Bad (1987), que o meu irmão tinha comprado. Ouvi-a já no virar da década. Talvez depois do Dangerous (1991). No primeiro ano do ciclo. Ou no segundo.

Quantas vezes a tentar imitar aqueles passos de dança colossais, nunca antes vistos, em frente ao espelho? Quantas vezes a rodar o corpo 360 graus sobre o pé direito e finalizar com um guincho solto de mão direita no ventre e a esquerda semi-aberta em concha, junto ao ouvido? Quantas vezes a tentar deslizar de costas em frente ao espelho, sem sair do sitio? O mundo pergunta: que raio se passou entre o Thriller e o Bad? Negro na capa do primeiro, branco na do segundo. Aqui luminoso, ali inexpressivo. A mudar de cor. E a pele a ressentir-se. Jackson anunciou na época ter contraido vitiligo – doença que provoca a perda da pigmentação da pele. Terá sido mesmo assim? Estarei a ser injusto quando me interrogo se, como mais tarde cantaria, It don't matter if you’re black or white, mesmo, ou, afinal, carregava ele próprio o mais visível preconceito racial alguma vez visto?

Que raio se passou entre o Thriller e o Bad?, cinco anos e uma estrela no passeio da fama de Hollywood depois. Como se desenhou aquele sorriso triste? A expressão magoada? O cadáver translúcido? Bizarro? E o filho - um filho, que de duas mulheres teve três - agitado à janela demasiado alta de um hotel? Quase a cair? Os olhos esbugalhados? O nariz desfeito e refeito e desfeito e para sempre assim, por muito que o refizesse? Pedófilo? Absolvido. Nada se provou. Luvas brancas. Máscara. Chapéu. De chuva. Óculos de sol. Sem sol. Morreu aos 50 anos, com quase 50 anos de carreira, o menino que nunca teve tempo de o ser. Que nunca foi ao supermercado sem ser perseguido. Que nunca assentou o pé na terra. Que viveu sempre na (e da) fantasia. Na Terra do Nunca. Peter Pan por cumprir. Morre um dos heróis da minha geração. Já não sobram muitos. Capítulo fechado: excentricidades à parte, recuperemos o seu legado artístico, que não tem igual neste tempo.


(primeiro moonwalk na festa dos 25 anos da Motown)

quinta-feira, 25 de junho de 2009

É sempre de ouvir em repeat # 36, 37 e 38



Sempre que me pergunto, Como é que começaste a gostar de jazz?, respondo, Quando te arrastavas com a malta para bares ou discotecas, 16/17 anos, e só davas atenção ao DJ quando ele enfiava nas músicas um arranjo ou um solo de saxofone. Não podia estar mais enganado.



O Freddy ainda corre.



O Jim também (à maneira dele).

o respeitinho é bonito e a onça gosta

O administrador da circunscrição, único funcionário, máxima autoridade e representante de um poder demasiadamente longínquo para infundir receio, era um indivíduo obeso que suava sem descanso. Diziam os habitantes do lugar que a suadeira dele começara logo que pusera pé em terra depois de desembarcar do Sucre, e que desde então não deixara de espremer lenços, ganhando assim a alcunha de Babosa. Murmuravam também que, antes de chegar a El Idilio, esteve nomeado para uma cidade grande qualquer da serra e que, por causa de um desfalque, o mandaram para aquele recanto perdido da região oriental como castigo. Suava, e a sua outra ocupação consistia em administrar a provisão de cerveja. Escorropichava as garrafas bebendo sentado à secretária, em goladas curtas, pois sabia que, depois de terminada a provisão, a realidade se tornaria mais desesperante. Quando a sorte estava do seu lado, podia acontecer as suas securas serem recompensadas com a visita de um gringo bem abastecido de uísque. O administrador não bebia aguardente como os restantes habitantes da terra. Garantia que a Frontera lhe provocava pesadelos, e vivia acossado pelo fantasma da loucura. Desde não se sabe que data imprecisa vivia com uma indígena que espancava selvaticamente, acusando-a de o ter embruxado, e todos estavam à espera de que a mulher o assassinasse.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Silly season? We have Bombay

Dizer que os Bombay Bicycle Club têm semelhanças com o grupo de amigos do filme American Pie é capaz de não ser a melhor forma de os introduzir aqui no barraco escocês. Mas notem: como os outros, estes putos, quatro, têm um objectivo a cumprir antes de atingirem a maioridade, o que coincide com a saída do liceu para a faculdade. Ou para um emprego das 9 às 5. Os Bombay, tão novinhos, escolheram ser músicos, gravar um disco, e ao que tudo indica tomaram a decisão correcta. Com a silly season oficialmente aberta, esta xavalada do norte de Londres vai curtir o Verão em festivais de música. No palco. Glastonbury, para começar; Oxegen e Reading, para nomear outros; Na mochila trazem o primeiro disco, I Had The Blues But i Shook Them Loose, que vai sair do forno da editora Mmm... a 6 de Julho. Para trás, 2007, ficam dois EP’s (How We Are e The Boy I Used to be) e o prémio de melhor banda de 2006 numa competição do festival V, dedicada aos novos talentos. Indie-rockers por dentro, copinhos de leite fresco à superfície, os Bombay espantam pela maturidade das composições e reclamam uma sonoridade muito própria, que tem na voz densa, dramática, do vocalista Jack Steadman (Paul Banks, Win Butler e Chris Martin caíram ao caldeirão e de lá saiu um puto com a voz noir do primeiro, os tiques do segundo e as feições do terceiro), a sua bandeira. A meio da viagem, acho que podem muito bem vir a ocupar o espaço que foi dos Vampire Weekend em 2008. Os dois primeiros singles do disco aqui publicados ajudam a explicar porquê.





(Elaine, voltaste a dançar para nós)?

quinta-feira, 18 de junho de 2009

A foice


O dono do café onde costumo almoçar é brasileiro e muito simpático, mas tem umas unhas perigosíssimas. Parecer-se-iam com a foice do Panoramix se esta fosse, digamos, imunda. Mas enquanto o druida do Asterix precisa da sua foice de ouro para colher os ingredientes com que depois vai elaborar poções mágicas, conferindo a força de mil cavalos a quem as beber, era menos urgente que o dono do café onde costumo almoçar tratasse da sopa e torrada que quase sempre lhe peço com aquelas barbatanas amarelo-negras. Revolve-se-me o estômago quando o imagino na copa a despachar o assunto.

O primo hoje veio mais tarde, já deve estar atrasado para o trabalho, tenho de ser rápido, scratch, scratch.

Sofro. Mas ele chama-me primo desde que me conheceu. Julgava-me brasileiro. Passei a fazer o mesmo. Sou bem educado. Não lhe posso faltar. Familia é familia. Em todo o caso ando a ganhar coragem para lhe falar de temas pertinentes que envolvam a ASAE ou o Castigo Final. Tenebrosos. Que se ergam em maiúsculas. Uma coisa poderia levar à outra. Sinto, porém, que ainda não chegou esse dia. E para já limito-me a imaginar a conversa que sem dúvida me conduziria ao El Dorado.

- Olá primo.
- Oi primo, tudo legal?
- Tá tudo. Que sopa tem hoje?
- Sopinha especial.
- Especial?
- Especial.
- Porquê especial?
- É especial.
- A cozinheira está bem disposta?
- Saiu.
- Está sozinho?
- Sozinho, primo.
- Quem é que atende no balcão?
- Eu.
- E quem cozinha na copa?
- Também eu, primo.
- Mas isso não se faz.
- Não faz mal, primo.
- Faz, faz.
- As minhas mãos já não estranham.
- Pois.
- Deito a mão a tudo, primo.
- Exacto!
- (tira cera dos ouvidos)
- Ahhhhhhhhhhhhhhhhhh !!!!!!!!!!!!

(tentei..)

terça-feira, 16 de junho de 2009

É sempre de ouvir em repeat # 33, 34 e 35



Top 10 do ano, para já.



O disco, ouvi dois terços, é um ânus de camelo indisposto. Mas lá para o meio descobre-se esta canção, cheesy até onde se gosta, que sempre julguei ser dos Keane, porque a eles tresanda, mas afinal é destes Air Traffic. A Super Bock, claro, na sua inesgotável demanda por lágrimas no sofá – são bons nisso, reconheça-se -, promove-se pagando 1001 anúncios diários com esta música de fundo onde uma admirável legião de modelinhos quase quase a entrar nos vintes mergulha num festim de melos e cevada. Estamos bem. Somos jovens. O Verão está aí. (Para ouvir com moderação, claro).



Belle Chase Hotel meets Tindersticks in Almada. That’s amore.