sexta-feira, 18 de setembro de 2009

perdi o cartão multibanco pela segunda vez em três semanas

Partilho algumas semelhanças com a minha avó: somos os únicos algarvios numa família de angolanos, gostamos de beber vinho à refeição sem que haja motivos para reuniões anónimas, temos uma memória miserável. Não fosse a minha avó ter sido despassarada a vida toda e a minha mãe já teria motivos de sobra para pensar que ela tem alzheimer, como me disse à bocadinho. (Pelo contrário, a minha mãe tem um disco rígido na cabeça.) A referência levou-a a perguntar-me como andam os meus esquecimentos. Disse-lhe que não me lembrava deles no trabalho, o que exige uma luta terrível comigo próprio, mas reconheci: na descompressão vem tudo em catadupa. Adoro a palavra catadupa. Catadupa catadupa catadupa. O que ela não sabe, e duvido que chegue a saber a menos que alguém lhe dê a morada do Castelo, é que ontem cheguei a Portimão às 02:30, um par de horas mais tarde do que o costume sempre que venho a casa nas noites de quinta-feira, e, portanto, com todos a comunicar de quarto para quarto através do estranho grunhido do sono, porque perdi o cartão multibanco pela segunda vez em três semanas. E no tempo que levei a percebê-lo consegui ficar também sem a caderneta, engolida por essa garganta olímpica que tem a máquina da Caixa Geral de Depósitos da Morais Soares – é o que costuma acontecer quando se digita três vezes o código do cartão perdido quando estamos a utilizar a caderneta. Resultado: fui recebido como um herói de guerra, coitadinho, anda a trabalhar tanto, notem a que horas sai do emprego para chegar ao Algarve noite dentro, vejam o corpo magro dos bons e as olheiras como medalhas. Nada se perde, tudo se transforma.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

brel

como é que hoje me descreveram o brel?, como era mesmo?, ah, a voz que vem de dentro, de dentro, da boca de baixo, à nick cave, à nina simone, boca de baixo para não lhe dar outro nome, foi assim que hoje me descreveram o brel.

domingo, 13 de setembro de 2009

Até o rato Mickey ganhava estas eleições ao Sócrates

A coisa já estava suficientemente feia para o Zé antes de alguém tapar a boca à Manuela Moura Guedes. E todos sabemos como aquela boca é grande - o empenho em tapá-la deve ser encarado em proporção. Sem certezas sobre a origem da proeza, ainda que me tenha lembrado assim de repente de uma famosa citação do Miguel de Cervantes sobre bruxas, mais sentido fará projectar os efeitos que o caso pode arrastar para o Zé. "Arrivederci", como observou ao Castelo a versão caçadora de nazis do Brad Pitt - esse grande poliglota -, será o mais votado. Ora aí está um grandioso equívoco. A ideia atrás resumida, que chegou a ser partilhada por mim, revela imprudência. Precipitação. Desconhecimento de causa. Senão vejamos: do outro lado dos supostamente moderados, a liderar o PSD, está uma outra Manela que, instada a comentar até que ponto as grandes obras públicas ajudam a combater o desemprego no país, respondeu: "O desemprego de Cabo Verde e da Ucrânia ajudam. O de Portugal duvido". Assumamos: subestimámo-la. O potencial suicida da mulher é inesgotável. Há sempre munições extra para novos tiros no pé. Só mais um. E eis que ela voltou a premir o gatilho. Quando o grosso do país já seguia em romaria para as floristas mais próximas, em busca, naturalmente, de flores para o Zé - os cemitérios estão cheios delas -, a Manela saca da cartola a seguinte reflexão: bem, o caso TVI está a tomar conta da pré-campanha, a comunicação social não se cala com a asfixia democrática, pelo que é amiga, tudo corre pelo melhor; posto isto, devo sem dúvida visitar o Alberto João e dizer que a democracia na Madeira é que é. E negar que por lá exista qualquer vestígio da tal democracia esganada. E sorrir com a minha pinta de gueixa morta quando o Alberto João treinar o seu inglês técnico com os jornalistas: "Fuck them"! Ora, depois de no debate de ontem com o Zé ter visto a Manela esticar o dedo médio ao TGV, não vá a corja espanhola retirar mais proveitos do projecto do que propriamente nós, os portugueses, depois de ter ouvido a Manela, que em tempos trabalhou no Banco Santander, ter dito que não gostava "dos espanhóis misturados com os portugueses" quando o tema de fundo era o TGV, esse projecto para consumo entre muros, orgulhosamente só, tenho a dizer que não gosto do Pedro Marques Lopes do Eixo do Mal, mas há um mas. (Aquela opinião de cadeira e chicote não colhe para estes lados). O mas é este: concordamos que até o rato Mickey ganhava estas eleições ao Sócrates. E pelo andar da carruagem, com mais um par de tirinhos nos pés até ao dia 27, a Manela deve conseguir a verdadeira proeza de as perder.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

noites daquele branco branquinho

... havia festa no miradouro de são pedro de alcântara em volta da roda de choro de lisboa, e haverá poucos miradouros como aquele, assim, a oferecer castelo e sé e a insinuar o tejo, que de noite é mais imaginado daqueles lados do que propriamente visto, e depois passou talking heads no bar que por ali abriu; a noite esteve belíssima, daquela beleza ofuscante, capaz de fazer corar o dia mais vaidoso, branca como o dostoievski imortalizou; amigos de hoje e de ontem, mocas a condizer e a inês, claro, a inês que era o motivo de tudo aquilo e anda a sofrer por antecipação uma mudança de vida - em boa verdade, já gastou por cá metade da dor -, a inês que cortou o cabelo e estava uma gata de cinema com os amigos e as mocas e a inês que agora tem uma capa de jornal só para ela; noites brancas sem despedida, é pisado mas também não gosto delas, e a inês que ronrona no ombro próximo quando vira o copinho que resultou da ideia fixa "só mais um" e há-de ver o cinema paraíso em cardiff, ou noutro lado qualquer, se é que ainda não o viu, para nos créditos finais abrir uma janela, todos queremos que a inês abra janelas, e gritar a pulmões cheios: "Alfredo!"

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Betty é outra coisa


All About Eve, Joseph L. Mankiewicz, 1950

Lloyd, o escritor - The general atmosphere is very Macbeth-ish. What has or is about to happen?

Margo, a actriz - What is he talking about?

Bill, o namorado da actriz - Macbeth.

Karen, a mulher do escritor - We know you. We've seen you like this before. Is it over, or is just beggining?

Margo, a actriz - Fasten your seatbelts: it's going to be a bumpy night.

domingo, 6 de setembro de 2009

Já nem falo dos outros; de quantos remates precisa o melhor do mundo para fazer um golo?

Lição do dia: uma baliza de futebol de onze com as medidas oficiais tem 7,32 metros de largura por 2,44 de altura.

Nota: O Liedson está dispensado da aula.

sábado, 5 de setembro de 2009

Uma noite em Lisboa

Queijo amanteigadíssimo de Azeitão com broa mal nos sentamos à mesa, esfomeados como supermodelos? Sim. Caipirinha de aperitivo, sem açúcar - a nossa é diferente? Vai lá enganar outro. Plumas de porco preto tenrinhas, menos salgadas do que os secretos, desfazendo-se a pedido dentro da boca? Claro. Empurrá-las com um Periquita, tinto, para homenagear Azeitão à séria? Óbvio. Bolo de brigadeiro para fechar? Só se tiveres um estômago de aço, depois de tanta confusão que para lá enfiaste – mas pedes a sobremesa na mesma, chama-se gula. Serviço: atenciosidade + educação + simpatia + charme = há guardas prisionais mais delicados. (Ou então dá mesmo azar ir à Adega Já Fumega, Rua Campo de Ourique, número 13, a uma sexta-feira).

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- copo obrigatório na bica pelo meio -

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Marginal ao Bairro Alto - rua Poiais de São Bento, 37 - e, verdadeiramente, a tudo o que mexe dentro do género na noite de Lisboa. Há muitos, muitos anos. Para dançar já sabemos como é, como sempre foi: na pista de dança até às 02:00 e depois onde os nossos pés estiverem estacionados, ou para onde nos empurrarem. Deixaram a malta a penar pela rua das cidades/países/continentes do Cais do Sodré durante Agosto, em desespero para que cinco bares-discoteca cumprissem juntos o papel de um, mas isso já lá vai. A porta azul-garagem reabriu. Ontem: Joy Division, The Killers, The Gossip, Editors e por aí fora. Vida eterna ao bigode retorcido do D’artagnan e sua toca profana.