terça-feira, 1 de junho de 2010

A manhã é dos amantes


Já te dou atenção daqui a pouco, prometeu, estou a tripar.

Deitada na cama ao contrário, com as longas pernas nuas flectidas de encontro à parede quase aquecida pelo primeiro sol da manhã, camisa de homem e pele nos lençóis amarrotados, cabeça sem almofada, ela respondeu sem mover os olhos das unhas vermelhas que tanto tempo lhe levaram a pintar na véspera, logo após o marido lhe telefonar a dizer que pela frente teria dois dias de viagem em negócios.

Os anos parecem cada vez mais curtos e eu continuo a cantarolar por entre ruínas e corpos moribundos no chão e carros a arder. Qualquer dia vou ficar com dúvidas, pensar duas vezes, precisar de ti. Teremos problemas.

Ele reparou pela primeira vez nas marcas de desgaste que ela tinha em ambos os joelhos e no conformado e vertiginoso olhar de alguém que desistiu. Desconversou e deu o último bafo no charro lento.

Ela não se distraiu e concretizou, monocórdica, baixinho.

Talvez te deixe.. é isso, talvez não mais regresse a esta espelunca que nem tua é se o meu marido me fizer desmaiar de gozo quando regressar a casa, deixo-te de vez se aquele gordo depravado e pérfido chegar a casa e, enfim, agarrar-me sem perguntas sobre o meu fim de semana, saudades, o tempo, os meus pais, os meus nervos, vou dedicar-me por inteiro àquele molde escarrado da estupidez para sempre suado e arrogante que tem a sorte de saber como tratar uma mulher se se der o caso de que me consiga tirar as dúvidas sem abrir a merda da boca, que dali até as moscas fogem.

(Ele simulou colocar uma bala num revólver imaginário, direccionou-o contra ela e fingiu premir o gatilho duas vezes) Pá! Pá!, isso é amor. Que fazes aqui?

Não sei.

Vai. Tu e eu sabemos que voltas.

Estás muito lúcido para quem ainda está a tripar. Bom para ti: terás recordações fresquíssimas da manhã em que me viste ir embora e nada fizeste.

Ele concentrou um sorriso disfarçado no canto dos lábios e franziu o sobrolho.

Ela levantou-se e ouviu como uma, duas portas bateram sem estrondo atrás de si. Não regressou.

Beatles fase ácidos, 2010



(como, bem a propósito, um dia me tentou fazer compreender uma amiga, vagamente evocando o ‘príncipe’ do maquiavel, se tens de copiar, pelo menos que o faças com bom gosto).

Sporting? Tranquilidade


Num mundo perfeito, a época que se avizinha teria começado a ser preparada há três meses, depois de perdermos a hipótese de lutar por qualquer troféu em 2009/2010. Na prática, o pesadelo terminou há três semanas. Faltam outras três para começar a pré-temporada. Há novo treinador. Quer ser campeão. De resto nada. Silêncio. Sobra ruído e o resto é letra morta. E eu que por esta altura já esperava ter no bolso o Drenthe e o Anderson e ... e ... com sorte ainda vou ter de me contentar com os amigalhaços do Costinha.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Isto mexe com um gajo

"Hoje morreu a minha mãe. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: 'Sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames'. Isto não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem."

Absurda é a existência, absurdos são os homens, absurdos os seus actos. Explicações não são para aqui chamadas. Os porquês ficam sem resposta. Podemos matar por causa do sol. É só. Absurdo é que tenhamos chegado a um ponto em que não compreendemos o que Camus nos quer dizer.

domingo, 2 de maio de 2010

O triunfo do futebol


Uma coisa é o nosso clube de infância, aquele que nos ensinaram a gostar sem travões, pelo qual tudo dizemos e fazemos na medida do descontrolo e que tem a capacidade de estragar ou tornar perfeito o que, de contrário, poderia muito bem vir a tornar-se no mais comum dos dias. Só a vitória interessa-me nos jogos desse clube, no meu caso o Sporting – também o Portimonense -, ainda que a equipa maltrate a bola: há uma ligação irracional e no fim do dia só os resultados valem. Resumindo: só perco o sono se não ganhar. Mas se calhar tenho pesadelos. Feios.

Adepto de um futebol criativo – no sentido da criação, oposto ao destrutivo - que tenha a baliza adversária como prioridade, praticado por uma equipa com identidade, solidária, em que os interesses do colectivo se sobrepõem aos individuais, tendo a não dar tanto valor aos resultados no que às demais equipas diz respeito. Amo a modalidade acima dos números. Depois há o Barcelona, que nos últimos tempos a tem tornado irresistível ao conjugar as duas coisas em completa sintonia. Conquistou-me, claro.

Assim regressamos ao jogo de quarta feira: apesar da expulsão patética do Motta, arrancada pelo mau actor Busquets, que deixou os rapazes treinados pelo Zé Mourinho em inferioridade numérica com uma hora de jogo pela frente, a passagem do Inter à final da Liga dos Campeões apenas empobreceu o futebol. Os adeptos do clube e os fãs incondicionais do Mourinho decerto discordarão, mas tenho para mim que uma equipa desinteressada da baliza contrária, que entra e sai de campo só para estacionar à frente da própria baliza - 30 minutos com 11 jogadores, 60 minutos com dez - e impedir a outra de jogar, bem, essa pratica qualquer coisa que decerto terá um nome, mas futebol não é de certeza. Os resultados não podem ser tudo. Digo eu. Aquilo envergonha o futebol. Torna-o mais feio. Descolorido. Castrador. (A decisão catalã de ligar o sistema de rega para evitar a festa italiana em campo após o apito final também entra neste esquema).

72 horas depois, o Barcelona respondeu ao ferrolho épico e lamentavelmente eficaz do Inter com uma goleada por 4-1 ao Villareal. O título espanhol está mais perto. Mas a notícia mais importante é esta: voltou a dar gozo ver futebol. Observar o rosto do amarelinho Santi Cazorla, ali do lado esquerdo da imagem em cima publicada, enquanto o genial Xavi corre pelo relvado a festejar o golo de livre que acabara de marcar – na altura o 2-0 -, é a prova acabada disso mesmo.

p.s: há quase três anos conheci um miúdo italiano num comboio nocturno entre nice e florença. Era louco por futebol, nomeadamente pelo Cristiano Ronaldo, coisa que vim a estranhar depois de ter ouvido isto: “Eu e os meus amigos estamos sempre a jogar à bola lá na rua. Todos queremos ser defesas”.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Terra entre os dedos de um sueco

O homem mais alto na terra voltou a descer das montanhas e trouxe a sua guitarra. Já nos contou um conjunto de histórias. Agora há mais. Oiçamo-lo.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Hey yo, let's have a big round of applause for my man Guru


Ninguém pede para nascer e todos morremos, mas há quem acumule dons e consiga despistar a própria morte. É o caso do Guru, através da música. Lembro-me bem da primeira vez que ouvi este volume um do jazzmatazz: atento como o mais curioso dos alunos, esvaziei o lixo da mente em troca da coisa real e deixei-me levar por relatos rimados de rua e batidas quase preguiçosas que controlaram os meus movimentos durante três quartos de hora.

Ao final da música 12, 'Sights in the City', o respirar fundo e, tudo mais claro, aquela sensação sem preço de ganharmos o dia.

Aconselho a audição a todos aqueles que torcem o nariz sempre que ouvem a palavra hip hop (mas até gostariam de o levar a sério, perceber onde jaz(z) a dignidade que nasceu com o género – e hoje se mantém aqui e ali, ainda que poucos o saibam).