sábado, 14 de agosto de 2010

Não há manhãs no Sudoeste


I

Andanças à parte, Pº regressou aos festivais de música uma década depois de ter visto os pagantes (e afins) do sudoeste alentejano despedirem os Oasis à pedrada. 15 minutos de concerto na Zambujeira do Mar. Ele próprio arrisca que terá arremessado o seu calhau. O que certamente o jovem advogado de 29 anos não contava era que, logo após chegar à praia da Nossa Senhora, onde se reuniu com amigos horas antes do arranque do último dia do 14.º Sudoeste com o desejo explícito de ver Beirut e outro mais escondido de colorar um pouco o seu tom de pele translúcido, um pedregulho repousasse escondido na areia bem a jeito de se deixar pontapear por um dedo do seu despreocupado pé, alegadamente o direito. De vermelho, aquele passou a inchado e depois balofo e roxo. Pº mancou toda a noite e regressou à mui catita casa de férias de Pª depois de suportar as dores arrastando-se estoicamente entre palcos, barracas de cerveja e desafogadores de bexiga. Aliás, as dores eram tais que, pela primeira vez desde que a memória o regista, perfeitamente fora de si, terá conseguido não falar do Benfica mais do que o estritamente conveniente. Houve quem agradecesse.

Sempre pronto a disparar o seu português afiado, ao abrir da pestana no meio dia seguinte, de tesoura em punho, N. lembrou a Pº o valor de uma mutilação bem executada. Assumia-se, inclusive, disposto a agir em consonância. Um exagero, como mais tarde se comprovou. Namorada de N., Pª empresta chão e simpatia mas não deixa ordens por boca alheia. É ela que corrije o álcool quando este sugere o continuar da noite para lá do convencional. Quem a rodeia ainda estrebucha, mas acaba por obedecer e seguir em fila-indiana rumo a casa. E shtttt!, nada de balir por causa dos vizinhos. Um rebanho afinal fofo.

Famoso pela sua distraída passagem ao longo da esfera terrestre, antes de chegar à Zambujeira do Mar, R. conseguiu deixar pendurada uma amiga a quem, numa noite de capirinhas em Alvor, prometera dar boleia até ao Alentejo. Na véspera até se portou bem e chegou a casa antes dos amigos. Obrigara-se a acordar cedo, fresco para seguir viagem. Mas não foram tais entendimentos que o impediram de, no dia combinado, acordar às 14h00, uma, duas, três, quatro horas para lá do toque do despertador, arrastando a amiga no interminável eixo Tunes-Portimão-Tunes-Zambujeira do Mar à boleia suada de automóveis nervosos e comboios acaracolados. 50 chamadas não atendidas e dormia ferrado. Na imaginação da amiga chegou a desenhar-se uma catástrofe e por isso ligou a amigos mútuos. Estes, por sua vez, também não conseguiam entrar em contacto com R. No fim, para alívio de todos - menos, aceitar-se-ia com alguma condescendência, da amiga -, tudo não passou de um mal entendido entre a realidade e o teimoso sono de R.

Fª faz os possíveis para não ser abraçável aos olhos de quem a rodeia. Com alguma razão de ser, o mais comum dos mortais poderá achar que o seu talento é, nesse sentido, transbordante. Terminado o festival, já no sonolento regresso à casa de Pª, achou por bem lembrar a Pº que, preparando-se ambos para adormecer em camas diferentes, não estavam estas suficientemente longe uma da outra para se notar que não estavam perto. Num arrepio colérico, sentiu vestígios de cumplicidade. E avisou-o: "Pº. estás muito perto". Com o seu estilo diplomata, Pº disfarçou a vontade de a atirar pela janela e afastou o seu colchão sete centímetros do sofá-cama onde Fª deitar-se-ia. Atento, R. quase se engasgou numa altura em que se esforçava por beber tanto água quanto aquela que pudesse. Recomposto, perguntou a Pª o que poderia ser feito para ocupar a manhã que se avizinhava, mal acordassem. Que o sol entraria com força pela casa dentro, abrindo pestanas. Adorável, Pª, cabelo cor de cerveja, desejou-lhe as boas noites depois de, como quem ensina, ripostar: "Não há manhãs no Sudoeste."

II

Canta-se melhor Beirut quando se está apaixonado ou bêbado, o que, vai daí, dá no mesmo. As palavras saem com mais verdade, os braços esticam-se e os corpos mais próximos abraçam-se para celebrar a vida. Quem, no Sudoeste, os viu sem conhecer, precisou de apenas três ou quatro músicas para entender que a música inventada pelo Zach Condon é de se adorar. Que a mesma tenha provocado algum tipo de reacção à morangolândia que se divertia no parque de diversões da Zambujeira é um feito de não pouco mérito.

eu, tu


procurar onde despejámos tudo o que não foi dito.

a minha melhor mentira, todas as vezes, para ti.

levar a sério o nosso parque de diversões.

nunca ser tarde, nunca ser tarde demais.

o meu melhor sorriso do melhor ângulo.

querer que me leias até nos apanhares.

ser eu menos vezes (um preço barato).

saberes-te beijada quando te olho.

passeares cá dentro, descalça.

tudo o que te disse sem dizer.

o peito a cavalgar sem rédeas.

levar em cheio com a tua luz.

adorar que adores a tua vida.

a tua gigantesca liberdade.

desesperar por te entreter.

perto mas longe mas perto.

demorar-me no teu retrato.

fazer-te poucas perguntas.

preferir que fosses outra.

completar as tuas frases.

o meu melhor número.

chamar-te pelo nome.

rir até poder chorar.

ver tudo mais claro.

sangrar isto tudo.

poder ser foleiro.

dizer-te que sim.

esta avalancha.

fodass.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

'I'd like to say thank you on behalf of the group and ourselves and I hope we passed the audition'


Até há um par de anos tinha um beatle favorito: o McCartney. Foi ele a compor a Blackbird e isso bastava-me. Do Harrison e do Ringo pouco sabia. Pareciam-me peças decorativas, injecções de normalidade na melhor banda que já existiu, comuns mortais como tu e eu. Menorizei-lhes o talento. Reduzi-os ao grande rebanho. Mereço arder no inferno.

Do Lennon alimentei a ideia de ter sido o génio criativo da banda, mas nunca lhe perdoei o facto de ter permitido que uma japonesa de olhar sinistro lhe tivesse desfeito todos os laços. Primeiro os afectivos (fim do casamento com Cynthia, a primeira mulher), depois os profissionais (fim dos Beatles). Esta última rotura é que me lixa. Qualquer coisa como aquilo que um amigo meu prevê que irá acontecer com a nossa amizade. “Vamos chatear-nos por causa de uma mulher”, repete-me.

Hoje, analisando por exemplo o Abbey Road, tenho para mim que as canções do Lennon são as mais afiadas



as do McCartney as mais dramáticas, as que aspiram a ser gloriosas



as do Harrison as mais belas



e as poucas do Ringo as mais descontraídas, deixam-te de bem com a vida



E deixei de ter um beatle favorito. Agora são todos.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Se te disser e fizer as coisas certas, provavelmente não gostarei de ti como gostarias que gostasse

Nunca soube lidar com as miúdas de quem gosto. Não foram muitas, também. Com as outras, as de ocasião, saco das cartas certas assim o momento exija. Faço bluff agora, jogo o ás de trunfo depois. É confortável. Corre bem. É um descanso.

Fitter, happier, more productive,
comfortable,
not drinking too much,
regular exercise at the gym
(3 days a week).


Com as outras, as que de facto me interessam – como aliás se pode atestar pelo maior peso da reflexão que a estas vou dedicar, por oposição às primeiras -, sou um desastre. Com as miúdas que me interessam geralmente penso, atrapalho-me e dou por mim a inventar um número para sair de cena com alguma dignidade. (Esta parte até nem costuma correr muito mal). Por vezes penso em não pensar mas depois vem-me ao pensamento que já é tarde demais. Com as miúdas que me interessam sinto o coração acelerar à velocidade com que perco a graça.

Tipo o Pantani na montanha,




ou o Bud Powell ao piano.



Com as miúdas que de facto me interessam sou dramático e sensível. O meu filme favorito deixa de ser a Laranja Mecânica ou o Voando Sobre um Ninho de Cucos e vejo-me a entrar de dedos entrelaçados com a minha amada numa daquelas comédias românticas com pouco romance e menos comédia. Aquelas que passam na televisão ao domingo à tarde, que se nos agarram à pele com visco. Já sabemos: no limite haverá ali um beijo guardado para a penúltima cena, antes de aparecer um separador com a indicação “five years later...” e surgirem várias famílias a confraternizar num barbecue sem álcool, com o plano depois a fechar na cumplicidade do enternecedor casal principal, que já tem dois filhos extremamente rebeldes no sentido católico do termo, e todos comem e sorriem no melhor dos sonhos americanos possíveis com as caçadeiras de cano duplo a arfar à entrada do alpendre. Esses filmes. Com as miúdas que realmente me interessam sou tão foleiro quanto possível e posso facilmente tornar uma canção charmosa do Sinatra num bicharoco que faria corar de orgulho a dupla romântica Miguel e André, ou Miguel & André, ou aqueles caramelos que um dia abandonaram a caixa do mini preço e se lembraram de partilhar connosco diversos temas de admirável calibre como ‘Falar de Amor (Eu preciso)’, ‘Eu Sempre te Amei’ ou ‘Toda a Vida para te Amar’. Já aconteceu. Às miúdas de quem realmente gosto nem eu me recomendava.

terça-feira, 27 de julho de 2010

três rapidinhas

estes dias de 40 graus derretem-me as estruturas e portanto tem-me dado para ouvir a 'Suffocation' dos Def Leppard, perdão, do mais recente disco dos Against Me!,



ver repetidamente como a poesia no chile é um posto,



e recordar a dupla comprador-vendedor mais convincente de sempre.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

lupa em cima deles


Acabaram os jogos a feijões. A partir de quinta-feira é a doer. Contra os dinamarqueses do nome impronunciável. Coisa para agoirar: a última vez que não consegui decorar o nome de um adversário do Sporting foi com o engenheiro Santos, há sete anos, e então levámos três pontapés no rabo de uma equipa turca. Em Alvalade. Eu estava lá. Bêbado. Tenho bom beber. Foi a minha sorte. E a daquela malta ali à volta. Correram-nos da Europa. Não se repetirá. Este ano, primeira novidade, os jogos a feijões não foram encarados a feijões, pelo menos aqueles que se seguiram à feijoada com a qual o PSG se empaturrou à nossa custa. Saldo após dez jogos no espaço de um mês: cinco vitórias, quatro empates e uma derrota. Podia e já foi (muito) pior.

(Isso de ter perdido nos penáltis com o Celtic não conta – foi empate).

Colectivamente, já se vêem ideias. Pelos dois médios de contenção passará tudo - na direcção da baliza dos outros, espera-se -, e percebe-se porquê quando o Pedro Mendes ou o Maniche tocam na bola. Presumo que o veloso saia. Mais cedo do que tarde estará a vestir vermelho ou azul. É o percurso natural da nossa xavalada, o processo evolutivo mais em voga. Também não tenho visto demasiado pontapé para a frente. O Polga e o Tonel vão sofrer. Dá-lhes cabo do juízo Paulo Sérgio!

Nas laterais fomos a Braga buscar gente capaz. Um veio em Janeiro, outro há umas semanas. São ambos demasiados bons para não exporem os respectivos suplentes e anteriores titulares à sua mais inútil insignificância. É um trabalho sujo comparar o João Pereira e o Evaldo ao Abel e ao Grimi. Compreendo-o. Mas alguém tem de o fazer.

Estava a falar do plano defensivo, mas eles atacam que se fartam. Mais à frente temos um rapaz chamado yannick que muito corre e pouco joga, mas de quando em vez mete a bola dentro da baliza certa e por isso é cobiçado por clubes de nomeada, dispostos a dar milhões por ele. O futebol é um lugar estranho.

Do chile, há um ano, chegou um craque adiado. Espera-se que dê certo este ano; com apenas semanas de casa anda lá outro que antes de pontapear uma bola de verde e branco já era um Angulo com sotaque mais cantado e de repente ei-lo a levar tudo à frente e a fazer golos em aventuras solitárias. A ala esquerda é do Valdés e já ninguém se vai lembrar do joelho do Izmailov.

Sobre o puto salomão há coisas giras a apontar, mas não se espera demasiado. Mais que o pereirinha, talvez, na certeza de que há ali ousadia, capacidade no um-para-um e pinta de rufia ao invés do rapaz que podia muito bem ser o-neto-que-vai-para-casa-da-avó-a-seguir-aos-jogos-comer-bicoitos-e-sorver-cafézinho-com-leitinho.

Sobre coisas boas estamos conversados. Agora as más.

O centro. Jesus, Maria, José - aquele centro. Do ataque, onde o Liedson já é mais problema que solução; da defesa, onde apenas um de cinco tem qualidade inegável para ser titular, e, já agora, da baliza. Ver ali o rapaz Patrício é uma aflição. Ouvi-lo também. Nada se aproveita.

Ah!, antes que me vá encostar, tenho gostado do postiga. Muito. Parece motivado, confiante e disposto a ser importante. É muito estranho escrever isto.

Os dinamarqueses que se cuidem.

terça-feira, 13 de julho de 2010

O melhorzinho do (meu) Alive!10


Para 2011 quero os Radiohead, uma tenda Super Bock maior e o Sporting campeão, se não for pedir muito.

Devendra Banhart

O bicho cortou o cabelo e já parece deste mundo. A música dele também, o que poderia não soar exactamente a elogio, mas acaba por ser. Isto se, para tal, tiver a coolness de fazer uma cover da não mui indie ‘Tell it to my heart’, da Taylor Dayne, dedicando-a à mãe. Há muita coisa na dita música alternativa que tem tudo menos de prioritária, talvez o Devendra tenha percebido isso. No te calles rapaz.

Florence and the Machine

Além de certamente ser responsável pelo fim de muitos casamentos sólidos, apenas por existir, esta miúda – 23 anos, ridículo - faz tudo certo em palco. Irresistíveis, as canções dela já nasceram para ser um triunfo ao vivo, com os coros do tamanho da vida e os repetidos ó-ó-óoos, mas sendo a ana dos cabelos ruivos versão supermodelo com voz de fada a cantá-las tudo ganha uma outra dimensão. Nesta música, dividida por dois vídeos, a malta perdeu de tal forma o controlo numa fase inicial que, deixando-se levar, criou e mutilou uma sequência de palmas em meio minuto. Dá para ver no primeiro vídeo que a própria Florence teve dificuldade em ligar a letra ao ritmo. Mas o que se perdeu em controlo ganhou-se em felicidade bruta, e, no fim do dia, é para isso que cá estamos. Por isso deixo aqui o segundo vídeo. Hora para levantar voo: 1m48s.



The Maccabees

Vá, é um bocadito fácil elogiares uma banda que entra em palco duas horas depois de teres entrevistado o vocalista - um moço sete estrelas, ainda por cima, que te oferece uma cerveja antes de carregares no rec e de seguida te convida para o acompanhares a ver os Hurts, como se fossem amigalhaços de sempre, o orlando weeks e tu, que depois chamas uma amiga tua, igualmente fã dele, e os três falam e tiram fotos, tudo normal, tudo fixe, e depois ficam os dois que já se conheciam porque o artista se despede com um até breve como quem nem gostaria que assim tivesse de ser. Mas quem conhece os Maccabees sabe do que eles são capazes, e por isso não há cá favores. Perto de mim, a meio do concerto, entusiasmado, um rapaz perguntou-me: ‘estes são espanhóis, certo?’. Respondi: ‘de londres, são de londres’. O amigo dele já lhe tinha dado um toque para correrem rumo ao palco Optimus, a 30 quilómetros deste onde estávamos, do Super Bock. Tocavam na outra ponta do recinto os Biffy Clyro. Acabou por ir sozinho.



Pearl Jam

Mesmo com o Eddie na fossa, agarrado a uma garrafa de vinho durante o concerto, mesmo a dar música quando pediu aos surfistas que apanhassem uma onda por ele assim que pudessem, pois de manhã já estaria a cruzar o Atlântico rumo a Seattle, rumo a casa, três semanas depois, e não poderia apanhá-las ele próprio, mas horas depois apanhou-as mesmo, pelos vistos na Ericeira, deixando-se fotografar, foi uma experiência que me tornou pequeno o peito, mais uma coisa resolvida no meu tempo. Cantar a Black entre 45 mil, uff..



LCD Soundsystem

Deus existe: tem 40 anos, barba cerrada e sabe tudo sobre isso de soltar o diabo nas pessoas quando tal se justifica. É um bom Deus e merece a caixa alta. Pena que não tenha ficado em palco até de manhã.