sábado, 18 de dezembro de 2010

Das cavernas

Para mim homem é de mulher. Devo ser um tanto antiquado. Ou hipócrita. Todo tagarela pelas liberdades individuais e saio com esta. Talvez porque até ver via tudo à distância. Ou porque a malta era discreta. Um certo círculo de segurança. Mas ontem fui ao frágil. Pela primeira vez num espaço que se define por virar as convenções sexuais do avesso. Totalmente do avesso. "Anda lá pá, aquilo é fixe e tu sabes de ti". Homens, demasiados, quase todos organizados em grupos a atirarem-se contra as paredes aos pares, triângulos e quadrados numa estranha luta de cães. Não gosto de entrar em bares ou discotecas cujo ambiente não é definido pela música que lá passa. Não gosto de entrar em festas para as quais não sou convidado. Onde me sinto intruso. A mais. Desculpem lá a falta de modernismo.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Lisboa sob escuta


Mulher entre 50 e 60 anos marcha rápido pelo interior da estação de metro da Alameda. Encaixa o telemóvel no ouvido e faz por ter a certeza de que não passará despercebida.

“Olá! É a Celeste da televisão!, vou para o João Baião! Ontem foi o Marco Paulo! Conheces o Marco Paulo?!”

Duas amigas passeiam-se pela Morais Soares. De olhos na montra de uma loja de roupa, uma delas rompe o silêncio.
“Ele fica acelerado quando me cai na garganta.”

Agora que acabou, ela explica à amiga como foi no início.
"Éramos muito apaixonados. Se é que me entendes."

Acaba o filme. Créditos finais. Ele quer saber.
"Gostaste?"
"Não é assim nada de especial."
"Mas come-se.."
(beijo).

domingo, 5 de dezembro de 2010

Aceitam-se sugestões para substituir as reticências ali em baixo


Ela: sou uma puta.

Ele: o quê?

Ela: uma puta.

Ele: que disparate, porque dizes isso?

Ela: acabei com o meu namorado há um mês, mas reatámos na semana passada e estou aqui contigo. Bebi muito. Sou uma puta.

Ele: (…)

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Interrogo-me se a juliette binoche será próxima da mulher do kiarostami


"Acaba!, acaba!, acaba!", pedi de mim para mim durante aquela que viria a ser efectivamente a última cena do Cópia Certificada. Falhei no Munique e no Gran Torino. Desta vez fui inteiramente feliz. E a Binoche é uma actriz do caneco. E um mulherão. E recomendo isto vivamente.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Coliseu de Lisboa e The Walkmen foi…


hipóteses:

a) um domingo perfeito.
b) um copo de vinho do porto.
c) adorável.
d) um encontro de amantes que se reúnem para o melhor.
e) todas as anteriores.

resposta: óbvia.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Como é que fazes uma lista das tuas canções favoritas dos Beatles, como fizeste dos Radiohead, se amas (quase) todas?


err... não fazes.

Apenas destaco aqui a ‘Nowhere Man’ do Rubber Soul (1965) porque é uma das mais importantes. Se o Revolver (1966) é o disco em que os Beatles abandonam o 'yeah, yeah' da adolescência para se tornarem numa banda de estúdio e reinventarem a música, o Rubber Soul é aquele onde sopram os primeiros ventos de mudança. Na 'Norwegian Wood (This bird has flown)', por exemplo, onde o Harrison introduz pela primeira vez um instrumento indiano (sitar) numa canção pop, ou nesta 'Nowhere Man', pela abordagem filosófica - o John Lennon gatinhava para o surrealismo.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Ouvir este álbum vai melhorar a vossa vida


"Since I Left You" (2000) soa àquelas paixonetas de Verão com prazo de validade, 15 dias, menos, que acabaram sem ter tido tempo para o erro, que até hoje vimos crescer dentro de nós como então eram, perfeitas. 18 meses a ouvir e a misturar de 1000 a 3500 samples – já encontrei por aí referências a ambos os números - entre mais de 100 discos resultou numa espécie de banda sonora de infância condensada em 18 faixas intensas, sorridentes, prodigiosas e, talvez mais importante, dado tratar-se de samples, únicas. Autores: The Avalanches, australianos que de tanto amor por lojas de vinis em segunda mão fizeram algo, redireccionaram energia, lançaram um disco. Foi há dez anos. Foi o primeiro. Seria também o último, até ver. Percebe-se o dilema: que se segue à perfeição? Neste caso, tanto quanto percebo, já que nunca ouvi falar dele até há poucos dias, assiste-se ao lento crescimento do melhor álbum praticamente desconhecido que já ouvi.