terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

o grimi...


a) devia pedir desculpa aos dois ou três bons defesas esquerdos que jogaram comigo e nunca chegaram sequer perto de um clube como o Sporting;

b) devia reduzir a dose diária de água da escócia, a ver se acerta uma.

c) não existe: na verdade trata-se de um cantor de karaoke amador que ficou com ideias ao ver o "face/off" com o nicolas cage e o john travolta, em 97, e, há coisa de três anos , fez por chegar junto do leandro grimi, um argentino do milan.

d) é só estúpido, não exageremos.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

E agora algo completamente diferente

A pedido de algumas familias tenho o prazer de anunciar o meu primeiro podcast, besuntado de queixume e arco-iris. Para a menina e para o menino (por esta ordem, como faz o santana), numa parceria com o Beating the Pearls, casa de gente boa. Aqui.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

O cigano e o burro

O cigano Arlindo era tão zeloso em conservar o perfil desconfiado e firme dos membros daquela comunidade que, num domingo como os demais, compreendeu ser a altura certa para dotar o filho adolescente de alguma esperteza, enganando-o. Nunca lhe ocorreu, naquela manhã fria de inverno-verão, que transformar semelhante pensamento em acção conduziria a duas mortes e uma viagem. Anos mais tarde, no leito da morte, com o filho do lado, confessou tudo sem arrependimento. No povoado havia quem jurasse a pés juntos que, ao ouvir o pai, Emanuel abriu as fontes, levantou-se e saiu tenda fora, deixando-o morrer sozinho; noutra versão da história, contava-se que o cigano filho teve um desarranjo intestinal e foi aliviar-se no mato sem explicação prévia, encontrando o pai morto de desgosto no regresso.

Na verdade, o plano de Arlindo para fazer do filho crédulo um homem capaz passava por Rosa, a nova e divorciada vizinha da comunidade. Já repara como o filho se assomava à cerca para a ver estender a roupa. Sabia como Emanuel lhe admirava as ancas largas; como desprezava o amigo que com ela passeava na serra todos os domingos antes de almoço, enquanto a população se acotovelava na capelinha para adorar os sermões do padre; como não tinha opinião formada sobre o resto das coisas terrenas e acima. Arlindo chamou o jovem Emanuel à tenda.

Ao ouvir o próprio nome, o rapaz estragou em duas pisadelas a cama de lama que levara três horas a moldar e correu aos S entre galinhas e porcos para chegar ao encontro do pai antes que este tivesse tempo de acender um cigarro. O cigano Arlindo fumava sempre aquele cigarro depois da primeira refeição.

O burro está maluco, só dá pinotes. Leva-o a pastar até à serra. Quero-te de volta antes do sol a pique.

Há muito que a venda de roupa em terceira mão deixara de dar para os gastos. A comunidade já vivera melhores tempos. Certa noite, em redor de uma fogueira, todos ouviram e compreenderam os ensinamentos de Arlindo, o líder. Muito se decidiu a favor das economias, mas nada foi tão lamentado como o entendimento de que o burro seria ensinado a deixar de comer. Se não havia pasto sem chuva, dado o pouco rigor daquele Inverno, também não seria a comunidade a comprá-lo, aliás fintando o destino. Esta ressalva revelar-se-ia decisiva para que a ideia fosse aceite e houve mesmo quem festejasse o jejum do burro em redor da fogueira, dançando e até zurrando, a bem do que tinha de ser. Dali em diante, o burro limitar-se-ia a transportar carga, humana ou não. Era forte. Aguentar-se-ia.

Emanuel já dormia na noite da fogueira e ninguém da comunidade lhe viria a contar que o burro deixara de comer. Eram próximos, Emanuel e o burro. A seguir ao prazer de brincar na lama, fazer correr galinhas à sua frente e procurar as ancas da vizinha Rosa, Emanuel compreendia que o grau máximo de felicidade era montar o burro e correr as redondezas aos pinotes. Nos últimos tempos notava-lhe o focinho abatido, mas atribuira de pronto a culpa a alguma mula mais libertina. A tristeza do burro lembrava-lhe a sua, pelo menos desde que viu Rosa e deixou de conseguir dormir.

Ao sair da tenda, Emanuel foi recebido pelo burro aos pinotes e depressa montou o animal, chegando à serra em menos que pouco. O frio eriçava-lhe os pêlos dos braços e arrepiava também os do burro. O vento gélido era forte e constante. Rezou quatro pais nosso e cinco avés maria para que os céus o poupassem, mas, urinando ao relento no ponto mais alto da serra, levou um abanão tal de uma rajada que por pouco não tombou ladeira abaixo. Com respeito, sentindo-se avisado, devolveu as calças à cintura, apertou-as com um cordão sem futuro e ao longe avistou Rosa, encostada a uma árvore, parecendo a Emanuel que a vizinha encetava movimentos incertos com a cabeça e fazia equilibrismo com as ancas.

A principal virtude de Rosa era também o seu maior defeito: o entusiasmo. Por ele ficou surda antes dos 30, de tanto gritar. Bebia bem, nomeadamente ao domingo, e como tinha olho azul de vidro durante muito tempo passou por cega para aqueles que com ela se cruzavam quando regressava a casa às apalpadelas. Na certeza do que via, aliado ao que sabia, Emanuel vergastou o lombo do burro e acorreu até junto da vizinha de forma a ajudá-la a encontrar o passo, pois julgava-a bêbada. Ao chegar, percebeu que não estavam sozinhos, ele, ela e o burro – não: entre as notáveis ancas da vizinha encontrou a cabeça do amigo dela que ele, Emanuel, desprezava. Furioso, o amigo fez por se levantar e, a bem da verdade, dir-se-ia que lhe passou pela cabeça desfazer o nariz do cigano com os nós de um punho firme. Não chegou a consegui-lo.

Emanuel ruborizou, ficando sem saber o que dizer, e, ainda em cima do burro, aplicou-lhe um valente açoite para que batesse em retirada. O que de seguida se viu foi um tanto diferente do que o jovem pretendia. Aterrorizado pela urgente e confusa mensagem, o asno não seguiu por onde devia e passou por cima do amigo da vizinha do cigano, esmagando-lhe o crânio. Emanuel ouviu os lamentos gritados da vizinha ficarem cada vez menos audíveis à medida que se afastava a trote de burro, num ritmo de competição amadora. Conta-se no povoado que o burro correu sem se deter durante três horas em redor da região, até se deixar vencer pelo cansaço. Indiferente às ordens do cigano, que procurava regressar à comunidade tão depressa quanto possível, o burro travou num pequeno prado. Emanuel julgou-o faminto e estendou-lhe duas mãos de pasto junto do focinho, repetindo o gesto catorze vezes, e assim as coisas iam quando viu o asno estatelar-se no chão, sem respirar. Desabituado de comer, o burro morria num estranho tipo de gula, debaixo de uma amendoeira em flor.

Quando regressou ao acampamento, ao fim da tarde, gemendo por força de grandes feridas nos pés e no coração, Emanuel julgou que seria repreendido e castigado, mas foi com espanto que, de noite, deitado na sua cama de palha, recordou o meio sorriso com que o pai Arlindo recebeu a notícia de tamanhas desventuras, nunca depois partilhadas, e, sereno, ordenou.

Faz o teu saco. Avisa a comunidade. Partimos ao amanhecer.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

É preciso seguir esta mulher



Se uma das guitarristas do Robert Palmer no vídeo da Addicted to Love fosse inglesa e tivesse uma filha com um italiano e ela nascesse com olhos de pantera e a voz da maria callas.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Montenegro

A minha bisavó benzia a constipação, o pé torcido e o mau olhado. Ou quebranto, como se ouvia em Quatrim do Norte, onde morava com a minha avó e a minha mãe há tanto tempo como viveriam dois de mim. A localização da fronteira entre Quatrim do Norte e Quatrim do Sul gerava algum debate, na medida em que ninguém se tinha lembrado de a demarcar, mas a minha bisavó Tanta, nome que o meu irmão mais tarde lhe colocaria por ter dificuldades em pronunciar o que de baptismo lhe deram (Firmina), sempre soube que era mais cansativo voltar a casa vinda de qualquer outro sítio do que o contrário. Residia no cimo da rua. Por aí era Norte; em baixo, Sul.

A fama de curandeira chegava, dizia-se, até Olhão. Coleccionava outras virtudes, como o entendimento à distância das coisas e o apego à costura, faculdade que viria a ensinar com aprumo à minha avó Vivi, nome que lhe coloquei por ter dificuldades em pronunciar o que de baptismo lhe deram (Vitalina), mas foi a de livrar as pessoas dos mais variados infortúnios que fez o seu nome correr de boca em boca. Fazia uso de tais qualidades sobretudo a favor da família, mas não fechava a porta de casa a quem vinha de fora: várias foram as vezes em que amizades da terra foram recebidas na sua casa com bolinhos e chá, que saboreavam num silêncio reverente antes do processo que lhes levaria à cura. A minha bisavó Tanta aceitava tais visitas de bom gosto, e não o fazia a troco de dinheiro, mas era frequente ver o candidato à cura aparecer-lhe com um sorriso desesperado e uma garrafa de azeite. Naquele tempo não havia dinheiro, explicará qualquer pessoa que tenha passado a infância de rabo para o ar numa horta. Salvo seja.

Certo dia a minha mãe torceu o pé. As dores eram fortes e ela chorava no momento em que explicava à Tanta que se magoara ao descer de uma árvore. Atenta, esta deu-lhe bolinhos e chá e depois de ver o repasto em silêncio da bonita neta pediu que fosse para o quarto e se deitasse na cama de barriga para cima, como mulher em consulta de gravidez. Obediente, assim fez a Maluquinha, nome que coloquei à minha mãe porque sem dúvida o merece. Depois a Tanta fez-lhe aterrar um pequeno pedaço de pão no peito e benzeu-se com o sinal da cruz:

Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

De pronto fez que passava uma agulha numa linha, como quem coze, e anunciou.

Eu cozo.

A Maluquinha acenou que sim, vendo que não, e respondeu: 

Carne quebrada, nervo torto, eu cozo pelo direito e a virgem pelo torto.

Nove vezes repetiu a ladaínha com o pé em cima de um pau de vassoura, movimentando-o para a frente, mas também para trás. Depois a Tanta untou-lhe o pé com toucinho quase estragado para no fim deitar fora o pedaço de pão e arrotar com vontade, de modo a melhor espantar as más energias. E que não estivesse eu com cara de fazer pouco, avisou-me a Vivi, suportando com a expressão séria da certeza a tese de que assim mesmo a mãe lhe curara a filha.

Estas e outras coisas me contou a Vivi no sábado, sentada ao meu lado num café em Montenegro, arredores de Faro, enquanto atacava metade de um croissant misto. Minutos antes, quando chegámos àquele povoado, fiz saber à Vivi que Montenegro era nome de país e perguntei-lhe se sabia onde ficava. Confiante, respondeu-me: “Sei, é na serra.”

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

A banda dos cavalos merece (e terá) outro público na Aula Magna



Como a miúda do liceu a quem nunca falaste porque eras palerma, preferiste correr atrás de uma bola e esfolar os joelhos em vez de a perseguires depois de tocar para a saída, um beijo em troca de um estalo, os Band of Horses têm aquela capacidade perigosa de roubar o ar em teu redor. É uma aflição.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Mais respeito pelo Real, menos pelo Mourinho



Aprender é um processo que nos deixa confusos antes de esclarecidos e melhores. Hoje aprendi a respeitar mais os adeptos do Real Madrid. O clube, portanto. Passo a explicar: esta noite o Villareal levou 4-2 no Bernabéu. Esteve a ganhar duas vezes na primeira parte. Jogou muito e bem. Teve o Real à mercê. Não conseguiu dar o golpe final. E o Real, sobretudo este, liderado pelo Mourinho e com o Ronaldo nos limites do potencial humano, é uma besta insaciável. Se te distrais ela devora-te. E lambe os dedos. Prazer completo com reflexo perfeito no CR7 - três golos, uma assistência e uma fome de glória sem limites. Perito nessa arte de lamber dedos, o Mourinho resolveu voar do banco branco após o último golo, do Kaká, e aterrar em celebrações à frente do banco amarelo, atrás do qual estaria, garante, o filho. Que por ele o jura. Por isso festejou ali, na área técnica do treinador adversário, que durante a semana o elogiara até à exaustão. Só por esse motivo. O resto são conspirações. O mundo contra o Mourinho. Médio de ataque de 29 anos do Villareal que joga um portento e marcou o primeiro golo do jogo, o Cani não gostou dos motivos do especial e tentou acertar-lhe no lombo com uma garrafa de água. Vai festejar para a tua casota, era a mensagem. Foi expulso, mas falhou o alvo, com muita pena de todos os adeptos do Real Madrid - leram bem - que tinham comentado as cinco primeiras páginas da caixa de comentários do As sobre a notícia da expulsão do Cani. Sim, o treinador consegue títulos onde quer que passe. No que toca a resultados é o mais capaz. Mas não pode valer tudo e por isso há demasiada gente, eu incluído, que já perdeu a paciência para encontrar combinações de contexto que desculpem o comportamento do desportista. E o Real Madrid sempre foi um clube de desportistas. Grandiosos desportistas. Não estou a ver como é que o Mourinho vai passar por cima disso, cultivando ódios em todos os estádios, a tudo sendo perdoado, todas as vezes.