"The only people for me are the mad ones, the ones who are mad to live, mad to talk, mad to be saved, desirous of everything at the same time, the ones who never yawn or say a commonplace thing but burn, burn, burn like fabulous yellow roman candles exploding like spiders across the stars." J. Kerouac
quinta-feira, 3 de março de 2011
O astrónomo Carl Sagan define o termo cosmos como sendo "tudo o que já foi, tudo o que é e tudo o que será"
O candidato vencedor das próximas eleições presidenciais do Sporting terá de reunir um conjunto de condições mínimas para desempenhar o cargo com sucesso, nomeadamente ser tu-cá-tu-lá com o professor bambo ou, de preferência, ter a capacidade de mudar o cosmos.
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
o grimi...
a) devia pedir desculpa aos dois ou três bons defesas esquerdos que jogaram comigo e nunca chegaram sequer perto de um clube como o Sporting;
c) não existe: na verdade trata-se de um cantor de karaoke amador que ficou com ideias ao ver o "face/off" com o nicolas cage e o john travolta, em 97, e, há coisa de três anos , fez por chegar junto do leandro grimi, um argentino do milan.
d) é só estúpido, não exageremos.
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
E agora algo completamente diferente
A pedido de algumas familias tenho o prazer de anunciar o meu primeiro podcast, besuntado de queixume e arco-iris. Para a menina e para o menino (por esta ordem, como faz o santana), numa parceria com o Beating the Pearls, casa de gente boa. Aqui.
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
O cigano e o burro
O cigano Arlindo era tão zeloso em conservar o perfil desconfiado e firme dos membros daquela comunidade que, num domingo como os demais, compreendeu ser a altura certa para dotar o filho adolescente de alguma esperteza, enganando-o. Nunca lhe ocorreu, naquela manhã fria de inverno-verão, que transformar semelhante pensamento em acção conduziria a duas mortes e uma viagem. Anos mais tarde, no leito da morte, com o filho do lado, confessou tudo sem arrependimento. No povoado havia quem jurasse a pés juntos que, ao ouvir o pai, Emanuel abriu as fontes, levantou-se e saiu tenda fora, deixando-o morrer sozinho; noutra versão da história, contava-se que o cigano filho teve um desarranjo intestinal e foi aliviar-se no mato sem explicação prévia, encontrando o pai morto de desgosto no regresso.
Na verdade, o plano de Arlindo para fazer do filho crédulo um homem capaz passava por Rosa, a nova e divorciada vizinha da comunidade. Já repara como o filho se assomava à cerca para a ver estender a roupa. Sabia como Emanuel lhe admirava as ancas largas; como desprezava o amigo que com ela passeava na serra todos os domingos antes de almoço, enquanto a população se acotovelava na capelinha para adorar os sermões do padre; como não tinha opinião formada sobre o resto das coisas terrenas e acima. Arlindo chamou o jovem Emanuel à tenda.
Ao ouvir o próprio nome, o rapaz estragou em duas pisadelas a cama de lama que levara três horas a moldar e correu aos S entre galinhas e porcos para chegar ao encontro do pai antes que este tivesse tempo de acender um cigarro. O cigano Arlindo fumava sempre aquele cigarro depois da primeira refeição.
O burro está maluco, só dá pinotes. Leva-o a pastar até à serra. Quero-te de volta antes do sol a pique.
Há muito que a venda de roupa em terceira mão deixara de dar para os gastos. A comunidade já vivera melhores tempos. Certa noite, em redor de uma fogueira, todos ouviram e compreenderam os ensinamentos de Arlindo, o líder. Muito se decidiu a favor das economias, mas nada foi tão lamentado como o entendimento de que o burro seria ensinado a deixar de comer. Se não havia pasto sem chuva, dado o pouco rigor daquele Inverno, também não seria a comunidade a comprá-lo, aliás fintando o destino. Esta ressalva revelar-se-ia decisiva para que a ideia fosse aceite e houve mesmo quem festejasse o jejum do burro em redor da fogueira, dançando e até zurrando, a bem do que tinha de ser. Dali em diante, o burro limitar-se-ia a transportar carga, humana ou não. Era forte. Aguentar-se-ia.
Emanuel já dormia na noite da fogueira e ninguém da comunidade lhe viria a contar que o burro deixara de comer. Eram próximos, Emanuel e o burro. A seguir ao prazer de brincar na lama, fazer correr galinhas à sua frente e procurar as ancas da vizinha Rosa, Emanuel compreendia que o grau máximo de felicidade era montar o burro e correr as redondezas aos pinotes. Nos últimos tempos notava-lhe o focinho abatido, mas atribuira de pronto a culpa a alguma mula mais libertina. A tristeza do burro lembrava-lhe a sua, pelo menos desde que viu Rosa e deixou de conseguir dormir.
Ao sair da tenda, Emanuel foi recebido pelo burro aos pinotes e depressa montou o animal, chegando à serra em menos que pouco. O frio eriçava-lhe os pêlos dos braços e arrepiava também os do burro. O vento gélido era forte e constante. Rezou quatro pais nosso e cinco avés maria para que os céus o poupassem, mas, urinando ao relento no ponto mais alto da serra, levou um abanão tal de uma rajada que por pouco não tombou ladeira abaixo. Com respeito, sentindo-se avisado, devolveu as calças à cintura, apertou-as com um cordão sem futuro e ao longe avistou Rosa, encostada a uma árvore, parecendo a Emanuel que a vizinha encetava movimentos incertos com a cabeça e fazia equilibrismo com as ancas.
A principal virtude de Rosa era também o seu maior defeito: o entusiasmo. Por ele ficou surda antes dos 30, de tanto gritar. Bebia bem, nomeadamente ao domingo, e como tinha olho azul de vidro durante muito tempo passou por cega para aqueles que com ela se cruzavam quando regressava a casa às apalpadelas. Na certeza do que via, aliado ao que sabia, Emanuel vergastou o lombo do burro e acorreu até junto da vizinha de forma a ajudá-la a encontrar o passo, pois julgava-a bêbada. Ao chegar, percebeu que não estavam sozinhos, ele, ela e o burro – não: entre as notáveis ancas da vizinha encontrou a cabeça do amigo dela que ele, Emanuel, desprezava. Furioso, o amigo fez por se levantar e, a bem da verdade, dir-se-ia que lhe passou pela cabeça desfazer o nariz do cigano com os nós de um punho firme. Não chegou a consegui-lo.
Emanuel ruborizou, ficando sem saber o que dizer, e, ainda em cima do burro, aplicou-lhe um valente açoite para que batesse em retirada. O que de seguida se viu foi um tanto diferente do que o jovem pretendia. Aterrorizado pela urgente e confusa mensagem, o asno não seguiu por onde devia e passou por cima do amigo da vizinha do cigano, esmagando-lhe o crânio. Emanuel ouviu os lamentos gritados da vizinha ficarem cada vez menos audíveis à medida que se afastava a trote de burro, num ritmo de competição amadora. Conta-se no povoado que o burro correu sem se deter durante três horas em redor da região, até se deixar vencer pelo cansaço. Indiferente às ordens do cigano, que procurava regressar à comunidade tão depressa quanto possível, o burro travou num pequeno prado. Emanuel julgou-o faminto e estendou-lhe duas mãos de pasto junto do focinho, repetindo o gesto catorze vezes, e assim as coisas iam quando viu o asno estatelar-se no chão, sem respirar. Desabituado de comer, o burro morria num estranho tipo de gula, debaixo de uma amendoeira em flor.
Quando regressou ao acampamento, ao fim da tarde, gemendo por força de grandes feridas nos pés e no coração, Emanuel julgou que seria repreendido e castigado, mas foi com espanto que, de noite, deitado na sua cama de palha, recordou o meio sorriso com que o pai Arlindo recebeu a notícia de tamanhas desventuras, nunca depois partilhadas, e, sereno, ordenou.
Faz o teu saco. Avisa a comunidade. Partimos ao amanhecer.
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
É preciso seguir esta mulher
Se uma das guitarristas do Robert Palmer no vídeo da Addicted to Love fosse inglesa e tivesse uma filha com um italiano e ela nascesse com olhos de pantera e a voz da maria callas.
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
Montenegro
A minha bisavó benzia a constipação, o pé torcido e o mau olhado. Ou quebranto, como se ouvia em Quatrim do Norte, onde morava com a minha avó e a minha mãe há tanto tempo como viveriam dois de mim. A localização da fronteira entre Quatrim do Norte e Quatrim do Sul gerava algum debate, na medida em que ninguém se tinha lembrado de a demarcar, mas a minha bisavó Tanta, nome que o meu irmão mais tarde lhe colocaria por ter dificuldades em pronunciar o que de baptismo lhe deram (Firmina), sempre soube que era mais cansativo voltar a casa vinda de qualquer outro sítio do que o contrário. Residia no cimo da rua. Por aí era Norte; em baixo, Sul.
A fama de curandeira chegava, dizia-se, até Olhão. Coleccionava outras virtudes, como o entendimento à distância das coisas e o apego à costura, faculdade que viria a ensinar com aprumo à minha avó Vivi, nome que lhe coloquei por ter dificuldades em pronunciar o que de baptismo lhe deram (Vitalina), mas foi a de livrar as pessoas dos mais variados infortúnios que fez o seu nome correr de boca em boca. Fazia uso de tais qualidades sobretudo a favor da família, mas não fechava a porta de casa a quem vinha de fora: várias foram as vezes em que amizades da terra foram recebidas na sua casa com bolinhos e chá, que saboreavam num silêncio reverente antes do processo que lhes levaria à cura. A minha bisavó Tanta aceitava tais visitas de bom gosto, e não o fazia a troco de dinheiro, mas era frequente ver o candidato à cura aparecer-lhe com um sorriso desesperado e uma garrafa de azeite. Naquele tempo não havia dinheiro, explicará qualquer pessoa que tenha passado a infância de rabo para o ar numa horta. Salvo seja.
Certo dia a minha mãe torceu o pé. As dores eram fortes e ela chorava no momento em que explicava à Tanta que se magoara ao descer de uma árvore. Atenta, esta deu-lhe bolinhos e chá e depois de ver o repasto em silêncio da bonita neta pediu que fosse para o quarto e se deitasse na cama de barriga para cima, como mulher em consulta de gravidez. Obediente, assim fez a Maluquinha, nome que coloquei à minha mãe porque sem dúvida o merece. Depois a Tanta fez-lhe aterrar um pequeno pedaço de pão no peito e benzeu-se com o sinal da cruz:
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
De pronto fez que passava uma agulha numa linha, como quem coze, e anunciou.
Eu cozo.
A Maluquinha acenou que sim, vendo que não, e respondeu:
Carne quebrada, nervo torto, eu cozo pelo direito e a virgem pelo torto.
Nove vezes repetiu a ladaínha com o pé em cima de um pau de vassoura, movimentando-o para a frente, mas também para trás. Depois a Tanta untou-lhe o pé com toucinho quase estragado para no fim deitar fora o pedaço de pão e arrotar com vontade, de modo a melhor espantar as más energias. E que não estivesse eu com cara de fazer pouco, avisou-me a Vivi, suportando com a expressão séria da certeza a tese de que assim mesmo a mãe lhe curara a filha.
Estas e outras coisas me contou a Vivi no sábado, sentada ao meu lado num café em Montenegro, arredores de Faro, enquanto atacava metade de um croissant misto. Minutos antes, quando chegámos àquele povoado, fiz saber à Vivi que Montenegro era nome de país e perguntei-lhe se sabia onde ficava. Confiante, respondeu-me: “Sei, é na serra.”
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
A banda dos cavalos merece (e terá) outro público na Aula Magna
Como a miúda do liceu a quem nunca falaste porque eras palerma, preferiste correr atrás de uma bola e esfolar os joelhos em vez de a perseguires depois de tocar para a saída, um beijo em troca de um estalo, os Band of Horses têm aquela capacidade perigosa de roubar o ar em teu redor. É uma aflição.
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