quarta-feira, 4 de maio de 2011

Há coisas que nunca mudam


Cada um é de onde vem e na forma de quem o rodeia. Nada tenho contra a malta que se identifica com o Inverno, que não resiste a um bom dia de ossos a tremer, roupa encharcada e pele amarela, mas eu cá gosto é de ter os pés bem assentes na areia e num ameaço de espuma ver as ondas morrer aos pés de gente escurecida pelo rei sol, com rugas de expressão e sem pressa, eu é mais tirar o salitre do corpo, caracóis e cerveja gelada ao fim do dia, demorar-me no regresso a casa - "vamos a pé?" - e chegar com o cheiro de peixe fresco a virar na grelha, ouvir o canto estridente dos grilos em noites brancas de jantar na rua e viver paixões destinadas a acabar estateladas contra as rochas. É isso que eu quero. Sou.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Reflexão pré-aniversário



Esta música besuntou a minha infância. Era pouco cool, eu, cabelo à tigela, cara de cu e bryan adams, mas agora já aprendi a controlar a pulsação, ya, nada me surpreende, é na boa, tudo na boa, sou um intelectual progressista e pavoneio-me por aí com a altivez moralmente inatacável do esquerdismo, ya man, umas mocas controladas, deixo o carro em casa, sou responsável, faço pela vida, subo degraus, lcd soundsystem, cinemateca, incógnito, os sixties adoptados, tranquilo, ya, like, lol, mas em 93 andava a ouvir isto em vinil, adoptando aquela batata frita da agulha no disco como o preliminar de uma queca olímpica, e em 94 era considerado um prodígio da bola, e em 95 descobri o ciúme, e em 96 não me lembro, mas agora sei tudo, ya, ai sou tão bom sou muito bom sou sempre a abrir, já sei trocar lâmpadas e lavar a roupa, domino a arte do engano e mexo os ombros nas discotecas, eu, que não calço sapatos, eu, que não sou desses, eu, que vou a festivais de música e junto a minha voz à dos revoltados e choro nos refrões dos Arcade Fire porque é o mais parecido que existe com isso de acabar o mundo. Cozo esparguete e arroz com mestria. Cumprimento com firmeza, mas educação. Louvo a oferta. Faço números. Censuro a estupidez. Conheço as feridas e as fadas e as fodas - "siga, em que prisão acordamos?"

"Ai a tua barba pica."

Pouco ou nada resta do que fez parte da minha infância. Os amigos viram-se trocados, a família ficou longe, os golos esquecidos na memória bebida, as paixões convertidas em lembranças fantasmagóricas - (quase) tudo, afinal, descartável. Isto vai custar: (quase tudo) substituível. Deixem-me dizer algo sobre o tempo: é um mãos leves desavergonhado. Devia ir a tribunal, acusado de nos carcomer as estruturas nas quais nos seguramos todos os dias. Formiguinha térmita pequenina filha da puta.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Os apetites da senhora Dylan


Cafezinho?, perguntou o dono do café, pequeno e obrigatório ponto de passagem para gente apressada na rua Morais Soares, em Lisboa. O cliente acenou que sim. Fê-lo sem convicção ou contacto visual, pois o que naquele momento o distraía era a presença ruidosa da mulher que se sentava na mesa do fundo, junto à casa de banho, com cabelo de quem acabou de acordar, à Bob Dylan, mas ruivo de tinta.

“O meu marido tem tanto serviço, coitado, fica todo enchouriçado”, dizia num tom de discurso público, inventando plateia. O dono não lhe ligava coisa alguma e, debruçado sob o centro do balcão, já tentava explicar ao cliente, o do cafezinho, que o futebol era sem dúvida aquilo de que a nação portuguesa se podia orgulhar – isso e os folares transmontanos, de Chaves, “pesados, com enchidos”.

Notoriamente estrangeiro, com roupa de trabalho, o cliente do cafezinho assentia com o riso simpático da ignorância, neste caso simultaneamente ‘amarelo’, ao mesmo tempo que lhe saíam palavras avulsas com sotaque do leste europeu. Ainda não tocara no café.

- Almoço. Borrego. Tradição. Páscoa. Mal disposto.
- Entendo. Mas isso da tradição tem muito que se lhe diga, amigo... -, disse o dono, que de pronto apontou para a vitrina dos doces.
- Está a ver aquele bolo ali ao canto? É um folar do Algarve, sai doce do forno, e com ovos. A tradição também diz que só se deve fazer aquilo na semana santa, até domingo de Páscoa, mas nós andamos a vender bolos daqueles há semanas. É preciso viver, amigo.

A dona tinha menos talento do que o dono para se esquivar às investidas da senhora a quem por falta de imaginação tratarei por ‘senhora Dylan’, mas sempre que possível carregava em exigência na empregada que na copa confundia com salada aquilo que eram pedidos de batata frita no acompanhamento do bitoque, prato sem época na gastronomia portuguesa - é de todas. Quando passava mais de cinco minutos a ouvir a própria voz, a senhora Dylan calava-se e mexia a cadeira como se lançasse um foguete de sinalização em alto mar, uma vez à deriva. Alguém haveria de reparar que ela existia. Também tossia com frequência, frequentemente sem tosse.

Mas os argumentos começaram a escassear e trinta minutos depois entregou os pontos. Levantou-se. Assumia que a comunicação que ali mantinha era de sentido único – ou melhor, ia sem chegar e vinha sem querer. Ao ver a senhora Dylan arrastar-se rumo ao balcão, a dona abandonou a marcação cerrada à empregada das trocas de pedidos e chegou-se à máquina registadora.

- Paga um chá, certo?, perguntou a dona.
- Quanto é?
- Um euro.

Vagarosamente, a senhora Dylan tirou uma pequena bolsa de moedas da sua mala pele de leopardo e despejou tudo na mesa, semeando a vidraça de trocos modestos.

- Chega?
- Sobra.

Sorrindo, a senhora Dylan virou costas à dona e dirigiu-se no seu ritmo de bocejo até à vitrina dos doces. A dona chegou lá primeiro e abriu-a.

- O que vai ser?
- Apetecia-me comer ovos de chocolate. Ou amêndoas. Talvez coelhinhos de chocolate. Tem miniaturas dessas?
- Decida-se – retorquiu a dona.
- Amêndoas, então.
- Quais?
- Não sei.
- Quer as de chocolate?
- Dão-me azia.
- Mas... está bem. Quer um saco das de açúcar torrado, é isso?
- Levo dois: um para mim, de chocolate, e outro para oferecer, de açúcar – sentenciou.

Ao centro do balcão a conversa animava. Esquecendo-se do café, por esta altura já sem graça, o cliente compreendia, por indicação do dono, as características únicas do folar alentejano, “massudo, sem canela, com o aroma ditado por leite, natas ou derivados”. Entre perguntas sem resposta, a senhora Dylan pagou um chá, dois saquinhos de amêndoas e despediu-se – “adeus!”, mas, ao invés de ligar os movimentos corporais à fala, puxou de uma cadeira junto à porta e avisou que se iria sentar um bocado.

Acomodada, retomou o raciocínio sobre o marido, devidamente enchouriçado pelo intenso serviço. Uma menina de mochila às costas entrou e, triunfal, empoleirou-se em cima da arca frigorífica dos gelados, como quem descobre um tesouro milenar. A senhora Dylan sorriu, desta vez sem se fazer ouvir. Apoderou-se de uma revista e folheou-a, não se demorando em cada página mais do que o tempo de a virar. Devolveu a revista ao canto das revistas. Espreitou o pulso sem relógio e, redireccionando o olhar, perguntou pelas horas.

- Quatro da tarde -, ouviu.
- Agradecida. Está na minha hora, então.

Novamente de pé, a senhora Dylan viu a menina do gelado passar-lhe à frente e desaparecer em passo de corrida na louca azáfama da rua, de tesouro a derreter na mão. Inclinou-se e agarrou nos seus haveres. No braço esquerdo dois sacos cheios de roupa nova. No direito a mala leve. Estava descompensada. A mancar, aproximou-se da porta e soltou um “adeus” que apenas teve eco pela mesma boca, segundos depois, fora do tempo e conteúdo em que o eco ecoa. Virou-se para o balcão.

- Apetecia-me um folar.

quinta-feira, 31 de março de 2011

perrito

O perrito ficaria ao cuidado de uma menina que morava ali na vizinhança, e que se mudaria para nossa casa. Era o que se arranjava, por muito que a todos custasse. Destino da família: Angola. Além de muito amigo de brincar e dos donos, "sem raça", segundo garantia a minha avó, o perrito era também um cão muito astuto. Pressentindo-a, estranhou a azáfama da noite anterior e permaneceu em alerta para o dia seguinte, que seria o de partida, junto ao tapete da porta de entrada. Os movimentos apressados de quem precisa de ficar sem tempo para fazer de herói de cinema, escapando com um número no último instante; as últimas peças de roupa a empurrar mala dentro; a última ronda de despedida aos cantos da casa: nada lhe escapou, nada compreendia. Por isso passeava-se sem paciência, dividindo focos de atenção, sempre de orelhas levantadas e cauda a dar a dar. Ladrava esporadicamente mas firme, de olhar fixo, alternadamente na minha avó e na minha mãe, que tinha 13 anos e era mais bonita do que se podia dizer em Quatrim do Norte. O perrito marcava presença. Estava ali, fazia parte do grupo, exigia uma explicação. Teve-a parcialmente, pela minha mãe, já com tudo e todos na rua. Beijando-lhe o focinho, disse, apontando para a vizinha, a nova dona, que se lhes juntava nas despedidas: “ela vai tomar conta de ti, hein? porta-te bem!”. O perrito não percebia a lingua humana, além do que julgava ser o seu nome, tantas vezes repetido, e por isso ladrou de dúvida, o que erradamente foi interpretado pela minha mãe como certeza. A minha avó aproximou-se e afagou-lhe o lombo. “Estão muito atenciosas, que diabo!”, ladrou o perrito, de si para si. As donas afastaram-se a caminho da paragem da carreira para Olhão. Desconfiado, o perrito foi atrás. Com elas esperou até algo acontecer. Tentou agradar e enrolou-se nos pés da minha mãe, que já fungava, gaguejando para conter o mar de tristeza que nos olhos dela já se via chegar. “P-á-ra perrito!”. Amigo dos adultos, sentinela de Quatrim do Norte e um puro-sangue, o perrito não sabia que, à entrada dos anos 60, pessoas desconhecidas já partilhavam um carro muito grande a que chamavam de carreira e nele desapareciam, estrada fora, com sonhos distintos e destinos muitas vezes comuns. Por isso estranhou, pouco depois, ver a minha mãe e a minha avó abalarem Quatrim do Norte abaixo num desses carros muito grandes, serpenteando caminhos que entroncavam na estrada nacional 125, ora em direcção a Tavira ora para Olhão. Alarmado, o perrito foi atrás. Sabe a gente da terra que nunca deu mais de dois metros de distância à carreira, desde casa até ao fim da primeira subida para Olhão, corrida sôfrega a que a minha mãe assistia lavada em lágrimas no assento do banco corrido de trás, onde os mais novos melhor se sentem. Cerca de dois quilómetros de perseguição e o perrito não dava descanso à carreira. Quando o corpo não aguentou mais, o perrito cedeu e levantou poeira da estrada velha com uma queda aparatosa. Pela terra ficou alguns minutos, observando a custo como a carreira se afastava até desaparecer no horizonte, levando-lhe as donas. O caminho de regresso foi muito longo. Quando finalmente chegou a casa, o perrito arrastou-se até ao quarto da minha mãe e nunca mais de lá saiu, recusando-se a comer nos dias que se seguiram até se tornar, tanto quanto se sabe, no primeiro cão de Quatrim do Norte a morrer de desgosto.

sábado, 26 de março de 2011

Sabedoria


Vale do Douro
A vivi perguntou-me que horas eram - "quase uma da manhã!" - e, de tacha arreganhada, cheia de luz, dirigiu-se à maluquinha: "o que tu agora fazias era dar-me um pedaço de bolo com um cálice de vinho do porto". 

Elenco:
vivi (avó)
maluquinha (mãe, filha da avó)
rapaz das horas (eu, filho da mãe e neto da avó).

segunda-feira, 21 de março de 2011

Inquietação

Vi um gato desesperar em redor de um pneu à procura da própria cauda quando deixei a boa gente que improvisara de amigos e fui procurá-la. Encontrei-a pouco depois, em sentido inverso, nas traseiras sem gente de um pavilhão, ao lado da escola secundária da vila. Quem por ali passasse, observando a principal parede erguida naquela parte da escola, podia ler a inscrição de boas-vindas em inglês técnico, “Welcam to the Well”. No rosto dela confirmei a expressão permanente de dúvida e curiosidade que na véspera me intrigara, quando nos conhecemos. Adivinhei-lhe o grande ponto de interrogação em estado de alerta vermelho na caixinha das ideias. Era alta. Pele bonita e muito branca, naquele dia rosada pela força do sol autoritário. Uma novidade no habitual rigor da serra. Da boca dela, trejeitos que exigiam atenção. O sorriso demorava a sair. Olhos cor de mel. Tinha o jeito de parecer o que acho que seria uma das mulheres que vive dentro do Chico. Não fiz muito por escondê-lo: duas horas depois de a conhecer, na mesa redonda dos jantares de etiqueta, reprovado pelos olhares mais indiscretos, já lhe tentava cantar ao ouvido “Quem te viu, Quem te vê” e “Com Açúcar, com Afeto”, desesperando por me lembrar da letra de ‘Atrás da Porta’. Lembrar-me-ia depois, com a amnésia adormecida pelo bom vinho.

Beijámo-nos à segunda hesitação, no primeiro passeio. Foi urgente. Uma aflição pouco comum. Deixou de haver pose faz-de-conta-que-é-turista nas ruas impecavelmente velhas, quase desertas, aqui e ali pontuadas pelos movimentos arrastados dos setentas, oitentas e noventas que ali esperam pelo que tem de ser. O relógio contra nós tiquetaqueava. Os gestos eram sôfregos. Dançámos desengonçadamente. O regresso foi longo. Cada esquina uma despedida. A lua tudo abençoaria horas depois, com o maior holofote em 18 anos. Guardei-lhe o olhar inquieto, quase assustado pela hipótese do adeus, e o cheiro de rosas frescas de mulher desejada. Mocinha bonita.