terça-feira, 14 de junho de 2011

Uma mulher é sempre algo mais

Invenção Colectiva, René Magritte (1933)

Em cada ideia um espectáculo de pirotecnia. A piada mais afiada: minha, tua, de quem apanhar.

A estratégica autocomiseração. A gargalhada para baixo, para o lado, para qualquer direcção menos na de quem a faz rir.

O vício, a facilidade de ser feliz (e para os outros o contágio de presente).

Astúcia na pose. Aqui agradável. Saber estar. Ali tresloucada. Disponível para se deixar ir. Sempre à altura do momento.

Viver o sonho quando outros sonham a vida.

A máscara certa no momento oportuno. Actriz. Portuguesa. Tanto.

Pouco talento na arte da mentira. Confiável.

Pé de dança fácil.

O melhor sentido de humor.

O mesmo radar de interesses.

O mesmo tipo de perdições.

A mesma cura.

O vinho. A revolução.

Companhia perfeita;

Corpo compacto, harmonioso, escondido.

Maçãs do rosto na primeira fila. Seios pequenos e bonitos. Pele seca.

Sem vaidade.

Poucos cavalos a galopar no peito. Observadora ao detalhe. Esperteza felina.

Os primeiros cabelos brancos (“não vejo nada, és maluca”). Os primeiros traços de preocupação no rosto. A paz que é pedido de socorro amordaçado atrás das lentes.

A curva de Miss Reef no lombo. Dunas sem publicidade. Nunca tão sedutora quanto possível. Pudor sobre o prazer.

Mais bela com mais pele à vista.

Falta-lhe o cheiro de mulher.

domingo, 12 de junho de 2011

"At least I author my own disaster"



Se focarmos um ponto lá longe, distante, só a nós visível, podemos passar sem dor nem culpa pelos gélidos corredores da memória e curtir isto tudo a direito. Temos um plano: o passado não é opção.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Música para partir sem olhar para trás...



... quando ele roubar a namorada do namorado dela.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

No happy end for you (título inspirado no episódio do Seinfeld, Soup Nazi)

Alguém que lhe dedicasse dois minutos de conversa percebia logo que a maior dor por ela sentida até àquele momento teria sido dormir de luz apagada. A altivez dos modos, o tom de voz Heloísa Apolónia, a não aceitação do erro... uma chata de primeira. Admirava-lhe o trote afirmativo na chegada e lento, de passerelle, ciente da atenção recebida, na partida. Mimada e atraente. Ninguém gostava dela. Poucos a suportavam. Todos a queriam levar para casa. Eu sentia isso tudo, frequentemente ao mesmo tempo, e tentei a minha sorte. Mais tarde percebi que ali começava a construir uma das minhas primeiras (e poucas) relações na plena posse das minhas faculdades - leia-se: sem copos, sem amigos – meus, pelo menos - em redor, sem nada a provar a não ser ela mesmo. (Um banquete). As coisas correram bem e conheci a mãe após a primeira noite. Apareceu-me em casa de manhã com pré-aviso de meia hora. Ainda eu ostentava a cara de parvo dos recém-acordados, lado a baixo com ela, quando surgiu na soleira da porta e, de dedo em riste, prometeu fazer cair o céu sobre a filha por esta ter passado a noite fora de casa sem lhe dizer porra nenhuma. Afaguei o cabelo à filha enquanto esta levava uma bronca épica. A mãe nunca chegou a entrar em território inimigo. No tapete da parte de fora se deixou ver e dali bazou, despedindo-se com um sorriso avinagrado, deixando-me sozinho - arrastou a filha com ela por uma orelha.

Para ter o bem bom fui forçado a testemunhar algumas coisas bem forinha, nomeadamente tempestades coléricas da miúda que decerto provocaram alterações na lógica muito própria das marés, e que eu, com a experiência daquela manhã, entendia na perfeição de onde vinham. Uma vez resolveu atacar o mundo porque um condutor a 100 metros de distância mudou de faixa sem fazer o respectivo sinal. Tive o azar de lhe tentar acalmar e levei com um camião de berros em cima. Aprendi a lição: nunca subestimar as potencialidades de uma vénus em fúria. Foi a primeira discussão.

Mas era pelo paraíso que dava o corpo ao manifesto e certo dia fizemos um passeio romântico por um jardim. Namorados perseguiam-se, crianças faziam macacadas e os passarinhos cantavam. Uma brisa estúpida ajudava à sinfonia. Que bela tarde. Deitámo-nos de lado na relva do jardim, frente a frente, e ela desapertou-me as calças. Fitando-lhe os olhos com as têmporas dilatadas compreendi as causas e antecipei as consequências. Dei o mesmo tratamento às calças dela e fomos generosos um com o outro. O dia continuava bonito e sugeri que trocassemos aquele lugar por outro mais recatado. Escolhemos um banco de jardim cercado de arbustos. Pareceu-me haver movimento atrás deles mas a generosidade dela crescia à medida que o meu raciocínio perdia faculdades. 1+2 e eu falharia a resposta. A dada altura perguntou-me até que ponto seria correcto investirmos numas castanhadas ali no meio dos arbustos. Considerei a hipótese com afecto e para lá seguimos. Mas as folhagens continuavam com uma agitação fora do comum para a brisa que se fazia sentir e aliás era para diante delas que nos precipitávamos, ambos de calças em baixo. Estranho. Na confusão ela estragou a fivela de cabedal onde enfiava o dedão-dedinho do pé numa das sandálias. Socorri-me de um preservativo. Compasso de espera. Sussurrei-lhe barbaridades ao ouvido. Ela tremeu e devolveu multiplicado. E, claro, foi precisamente quando iniciávamos a sessão de física experimental que as folhagens ganharam vida ao estilo David Attenborough. Cabrão. Durante aquele tempo todo um segurança esperara ali atrás até à hora h para dar sinal de si. Tinha visto tudo. Calças para cima e dali escapámos descabelados, ofegantes e atomatados. Eu sofria, fazendo-me entender de “foda-se” para cima. Ela perdia-se de riso e provocava-me. Aproximámo-nos de um segurança que não tinhamos visto antes, rumo a uma porta de saída lateral. Saberia do que se passava? De certeza. Baixei a cabeça passando por ele, a bem de não ser reconhecido num eventual regresso. Já ela, lá para trás, sem pressa, insinuou-se ao passar por ele de sandálias na mão, demorando tanto tempo quanto possível, bamboleante, descalça, espectacular.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Vem

Mordeu o lábio inferior e com dois dedos abriu caminho por entre o estore da janela do quarto, espreitando a rua. Lá estava ele. Sentia-se cercada por um homem imperfeito. O peito rufava em sobressalto. Num estalar de dedos conseguia acumular-lhe uma pilha de defeitos. Não aceitar a mão na rua era o pior de todos, mas também se revelava bruto aos domingos. Menos incómoda era a pose de fera em posição de ataque sempre que ao lado dela apareciam amigos e ex-namorados - o ciúme dele oferecia-lhe um sentimento de pertença. Era reconfortante. Também a excitava a ideia das masmorras. A banda desenhada cedo lhe fizera saber que por ali passava qualquer princesa digna de o ser - porque raio haveria de ser diferente com ela? O cárcere e a ilusão de haver um herói, algures, para a salvar, eram inteiramente do seu agrado. Na melhor das hipóteses seria disputada por dois homens na qualidade de pedra preciosa. Sobre as virtudes dele já ela se fazia entender através do próprio corpo, suado de tanta imaginação, e preferia não as estragar com palavras. Gostou de pensar que nunca lhe seria possível ver-se totalmente livre dele. Puxou o estore a metade da visibilidade e soltou o nó da toalha à volta da cintura, afastando-se lentamente, nua. Deixou-se ver. Foi à casa de banho e regulou as torneiras para um banho quente. Perfumou o pescoço. Dirigiu-se à porta de entrada e destrancou-a, deixando-a entreaberta. Voltou à casa de banho. Entrou na banheira. Devagar. Ligou o rádio na altura em que passava a canção certa. Abençoou o momento. Por instantes lembrou-se da mulher dele. Interrogou se naquele momento a senhora cornuda teria interrompido o trabalho e segurado uma pequena moldura com a fotografia de família que exibia na mesa do escritório, adorando-a e dando graças ao Criador com C grande pela vida tranquila e aborrecida que levava junto do bom marido e dos filhos adolescentes e palermas. Da porta de entrada soou o clique do trinco. Ouviu passos. Aproximação. O que lhe pareceu soar a um anel roçou a porta quase fechada que os separava. Uma, duas vezes. Depois... nada. Quem por ali estivesse deteve marcha e som. Ausência de movimento. Ela tremia de dúvidas e escavou fundo até encontrar tesão e pânico. Respiração em suspenso. Sem saber quem permanecia do outro lado da parede, ela devolveu ar ao peito e atropelou o silêncio: “vem.”

terça-feira, 31 de maio de 2011

marcação cerrada a Deus



A Árvore da Vida é um filme-montanha. Longo, imenso, disperso. Não é fácil recebê-lo, percebendo-o – não, pelo menos, à luz da maior parte das coisas que já vimos no cinema. Não é para todos. Tem o Brad Pitt, que é um actor formidável, tem uma tal de Jessica Chastain, (convincente) mãe perfeita, tem uns putos e o Sean Penn. Não percebo que raio está o Sean Penn ali a fazer, e decerto ele próprio terá batido mal da tola a tentar compreender o motivo pelo qual entrava no filme até ter visto o puzzle do Malick já montado. “Sean, anda aí feito maluco a olhar para o céu”. “Sean, faz um ar confuso”. “Sean, caminha sem direcção”. (É preciso confiar nos loucos. Well done, Sean). A Árvore da Vida é um filme complicado. Há dinossauros e Brahms. É uma tempestade sensorial. É o sonho americano e dos outros, de nós. É o elogio de todas as coisas. É origem e fim numa marcação cerrada a Deus, confrontado e questionado do primeiro ao último fotograma. Nos créditos finais senti necessidade de gostar do que tinha visto, por muitas vezes que tivesse espreitado o relógio durante aquelas duas horas e meia - é uma sensação que vem crescendo, esta necessidade. A Árvore da Vida pisa o risco. Ultrapassa-o. É de um realizador genuinamente autor, um que não tem receio de ser diferente, porque enorme. É um filme que a espaços ultrapassa a nossa paciência mas deixa margem para o regresso ao bom gosto. E o remate da "história" é de muito bom gosto. E o que é o bom gosto? Coisa que se sente, não se explica.