quinta-feira, 16 de junho de 2011

És tão aborrecida que deves ter nascido numa manhã de domingo...

... só mesmo para aborrecer. Uma pestana a errar olho dentro. Odor a banana num autocarro cheio em Agosto. Ah.. parece que te oiço rosnar ao mundo logo pela fresquinha, mal acordas, abrindo a janela da tua linda casota, “rrrrrrrrr... tudo para a puta que vos pariu!”. Para ti, querida, que tens a sensibilidade de um camião TIR, deixo votos sinceros de que invistas em paixões por cesariana, que isso do parto natural, lamento, já era. Ou, por outra, é para outros. Esquece.. aceita ou esquece o espelho. Talvez assim deixes, através de nós, de amaldiçoar o dia em que nasceste - talvez deixes de fazer pouco de tudo o que é vivo ou morto sem perceberes que vivamorta estás tu. E viveremos todos felizes para sempre. A começar por ti.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Procurar é metade do prazer



A notícia de eu não aproveitar as manhãs é um exagero. Dou-lhes, isso sim, uma nova perspectiva: a de quem vem da noite.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Uma mulher é sempre algo mais

Invenção Colectiva, René Magritte (1933)

Em cada ideia um espectáculo de pirotecnia. A piada mais afiada: minha, tua, de quem apanhar.

A estratégica autocomiseração. A gargalhada para baixo, para o lado, para qualquer direcção menos na de quem a faz rir.

O vício, a facilidade de ser feliz (e para os outros o contágio de presente).

Astúcia na pose. Aqui agradável. Saber estar. Ali tresloucada. Disponível para se deixar ir. Sempre à altura do momento.

Viver o sonho quando outros sonham a vida.

A máscara certa no momento oportuno. Actriz. Portuguesa. Tanto.

Pouco talento na arte da mentira. Confiável.

Pé de dança fácil.

O melhor sentido de humor.

O mesmo radar de interesses.

O mesmo tipo de perdições.

A mesma cura.

O vinho. A revolução.

Companhia perfeita;

Corpo compacto, harmonioso, escondido.

Maçãs do rosto na primeira fila. Seios pequenos e bonitos. Pele seca.

Sem vaidade.

Poucos cavalos a galopar no peito. Observadora ao detalhe. Esperteza felina.

Os primeiros cabelos brancos (“não vejo nada, és maluca”). Os primeiros traços de preocupação no rosto. A paz que é pedido de socorro amordaçado atrás das lentes.

A curva de Miss Reef no lombo. Dunas sem publicidade. Nunca tão sedutora quanto possível. Pudor sobre o prazer.

Mais bela com mais pele à vista.

Falta-lhe o cheiro de mulher.

domingo, 12 de junho de 2011

"At least I author my own disaster"



Se focarmos um ponto lá longe, distante, só a nós visível, podemos passar sem dor nem culpa pelos gélidos corredores da memória e curtir isto tudo a direito. Temos um plano: o passado não é opção.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Música para partir sem olhar para trás...



... quando ele roubar a namorada do namorado dela.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

No happy end for you (título inspirado no episódio do Seinfeld, Soup Nazi)

Alguém que lhe dedicasse dois minutos de conversa percebia logo que a maior dor por ela sentida até àquele momento teria sido dormir de luz apagada. A altivez dos modos, o tom de voz Heloísa Apolónia, a não aceitação do erro... uma chata de primeira. Admirava-lhe o trote afirmativo na chegada e lento, de passerelle, ciente da atenção recebida, na partida. Mimada e atraente. Ninguém gostava dela. Poucos a suportavam. Todos a queriam levar para casa. Eu sentia isso tudo, frequentemente ao mesmo tempo, e tentei a minha sorte. Mais tarde percebi que ali começava a construir uma das minhas primeiras (e poucas) relações na plena posse das minhas faculdades - leia-se: sem copos, sem amigos – meus, pelo menos - em redor, sem nada a provar a não ser ela mesmo. (Um banquete). As coisas correram bem e conheci a mãe após a primeira noite. Apareceu-me em casa de manhã com pré-aviso de meia hora. Ainda eu ostentava a cara de parvo dos recém-acordados, lado a baixo com ela, quando surgiu na soleira da porta e, de dedo em riste, prometeu fazer cair o céu sobre a filha por esta ter passado a noite fora de casa sem lhe dizer porra nenhuma. Afaguei o cabelo à filha enquanto esta levava uma bronca épica. A mãe nunca chegou a entrar em território inimigo. No tapete da parte de fora se deixou ver e dali bazou, despedindo-se com um sorriso avinagrado, deixando-me sozinho - arrastou a filha com ela por uma orelha.

Para ter o bem bom fui forçado a testemunhar algumas coisas bem forinha, nomeadamente tempestades coléricas da miúda que decerto provocaram alterações na lógica muito própria das marés, e que eu, com a experiência daquela manhã, entendia na perfeição de onde vinham. Uma vez resolveu atacar o mundo porque um condutor a 100 metros de distância mudou de faixa sem fazer o respectivo sinal. Tive o azar de lhe tentar acalmar e levei com um camião de berros em cima. Aprendi a lição: nunca subestimar as potencialidades de uma vénus em fúria. Foi a primeira discussão.

Mas era pelo paraíso que dava o corpo ao manifesto e certo dia fizemos um passeio romântico por um jardim. Namorados perseguiam-se, crianças faziam macacadas e os passarinhos cantavam. Uma brisa estúpida ajudava à sinfonia. Que bela tarde. Deitámo-nos de lado na relva do jardim, frente a frente, e ela desapertou-me as calças. Fitando-lhe os olhos com as têmporas dilatadas compreendi as causas e antecipei as consequências. Dei o mesmo tratamento às calças dela e fomos generosos um com o outro. O dia continuava bonito e sugeri que trocassemos aquele lugar por outro mais recatado. Escolhemos um banco de jardim cercado de arbustos. Pareceu-me haver movimento atrás deles mas a generosidade dela crescia à medida que o meu raciocínio perdia faculdades. 1+2 e eu falharia a resposta. A dada altura perguntou-me até que ponto seria correcto investirmos numas castanhadas ali no meio dos arbustos. Considerei a hipótese com afecto e para lá seguimos. Mas as folhagens continuavam com uma agitação fora do comum para a brisa que se fazia sentir e aliás era para diante delas que nos precipitávamos, ambos de calças em baixo. Estranho. Na confusão ela estragou a fivela de cabedal onde enfiava o dedão-dedinho do pé numa das sandálias. Socorri-me de um preservativo. Compasso de espera. Sussurrei-lhe barbaridades ao ouvido. Ela tremeu e devolveu multiplicado. E, claro, foi precisamente quando iniciávamos a sessão de física experimental que as folhagens ganharam vida ao estilo David Attenborough. Cabrão. Durante aquele tempo todo um segurança esperara ali atrás até à hora h para dar sinal de si. Tinha visto tudo. Calças para cima e dali escapámos descabelados, ofegantes e atomatados. Eu sofria, fazendo-me entender de “foda-se” para cima. Ela perdia-se de riso e provocava-me. Aproximámo-nos de um segurança que não tinhamos visto antes, rumo a uma porta de saída lateral. Saberia do que se passava? De certeza. Baixei a cabeça passando por ele, a bem de não ser reconhecido num eventual regresso. Já ela, lá para trás, sem pressa, insinuou-se ao passar por ele de sandálias na mão, demorando tanto tempo quanto possível, bamboleante, descalça, espectacular.