segunda-feira, 27 de junho de 2011

Obsessão



0m00s - 3m07s

Agarra bem nesse guarda-chuva vermelho. Vais precisar dele.

Mais perto do céu, ela começa a bater as asas.

Um homem com ar de lobo fecha os olhos para ver melhor. Observa por dentro. Abana a cabeça. Não quer acreditar no que está para chegar. Ama o violino como se ama uma guitarra.

No palco passeia-se um homem cabisbaixo, de mãos enterradas nos bolsos. Percebe-se que tem algo a dizer.

O homem cabisbaixo já se faz ouvir. Gostava, diz ele, de ter dito o que não disse.

Mãos sedutoras, uma sevilhana comedida. Magia. Mulher.

O céu não resiste. Não é chuva, é choro: o homem cabisbaixo quer saber até que ponto está próximo de perder quem ainda tem.

3m07s – 06m15s

O homem cabisbaixo viu passar o seu momento. Não se perdoa. Vai armar alguma. Um ameaço de explosão. Falso alarme.

O lobisomem continua a amar o violino, agora noutra posição.

Ninguém pára o homem cabisbaixo, ninguém lhe segura a mão esquerda que castiga a perna irmã e ninguém trava o andar sem rumo, ninguém cala o grito surdo das dúvidas, porra! que ninguém cala.

Novo arranque. O melhor baterista do mundo está nervoso. A realização também. O som cresce. Agitação. Empolgamento...

Meia noite: o homem vira lobo. Sintoniza o canto. Encontra-o. Uiva, solitário, à própria felicidade.

Ela vem-se. Por momentos perde os sentidos. Recupera-os.

Tempestade.

Intransponível muro de beleza.

Daqui só para trás.

06m15s – 08m34s

A melodia desmorona-se, é preciso recuperar o equilíbrio. Tempo de regressar. Alta velocidade. Tempo de partir esta merda toda.

O homem cabisbaixo enfureceu. Apanha o que tem à mão e bate no que tem aos pés, bate e insiste a ver se expulsa a tristeza.

Um traste dará o show dos trastes. Agradece. É aclamado. Despede-se. Sai de cena. Derrotado. Triunfal.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

A lógica dos anjos


O anjo da guarda da Sofia fala muitas línguas e tem um talento grande para a livrar de chatices. É um anjo muito atarefado. Ela, a Sofia, até se esforça por não arranjar problemas, mas depois aborrece-se. Há dias encontraram-se num sonho e a Sofia perguntou-lhe quais os momentos da vida dela em que ele mais se tinha rido até então. Consta que o anjo ainda não acabou de enunciar a lista.

Um dia fomos a um jantar organizado por uma amiga casual, cheio de convidados casuais. Quase ninguém se conhecia: era, dizia a anfitriã, “um encontro de gente que se conhece de vista e certamente já terá trocado um ‘com licença’ à porta da casa de banho”. Achámos o conceito giro e lá fomos. O restaurante era castiço, com banquinhos de madeira envernizados e janelas grandes. Azulejos de cores fortes concediam ao espaço o ambiente luminoso de uma festa popular. Parecia a Lapa, mas a Sofia fez finca-pé e chamou-lhe Rio. Uma vizinha de cadeira da Sofia gostou logo dela, mal nos fizemos à mesa, e em pouco tempo começou a descrever-lhe com entusiasmo os grandes benefícios do sexo anal. A Sofia ria-se muito enquanto tentava compreender que tipo de aventuras o anjo da guarda lhe preparava daquela vez - perceber a lógica dos anjos sempre foi a grande obsessão dela. Bebemos duas caipirinhas cada antes de começarem a servir. Da ampla variedade de petiscos à nossa disposição virei choco frito e carapaus alimados, uma especialidade algarvia. A Sofia comeu melancia, uma especialidade dos sonhadores.

Era uma tarde-noite atípica na localidade que a Sofia dizia ser o Rio, parecendo a Lapa. Um denso manto de nevoeiro pairava nos intervalos entre as pessoas, fazendo de cada qual uma ilha fantasma. Fitei o olhar no pulso esquerdo à procura das horas, sussurrei-lhe algo ao ouvido, beijei-lhe o rosto e puxei-me para trás com a ajuda da cadeira. “Vou a casa e já venho.” Regressei meia hora depois, acompanhado de uma rapariga louca a cair pelos cantos. Dona de uma beleza muito portuguesa, já um pouco estragada, a M. mal se aguentava nos saltos que a erguiam oito centímetros acima do solo, atribuindo-lhe a altura certa para ser beijada sem grande desvio pelos mais altos. Sorria de olhos quase fechados, sempre com dois dentinhos à mostra. Fungava muito - estava no mundo dela. Tinha-a encontrado à porta de um bar enquanto arrepiava caminho para ver se acontecia alguma coisa. Aprendera com a Sofia, através do Jack Kerouac, que “é preciso saber o que se passa”. Daí que fosse normal fazer aquilo. A M. era uma amiga de infância que eu praticamente só recordava ter conhecido após a adolescência. Hoje, adultos, mal nos falávamos. Guardávamos aquela tensão levemente rancorosa dos ex-amantes. Qualquer tema era fresco se não nos envolvesse a dois e, ao invés, motivo de ruga cavada no rosto. Arranjei espaço entre mim e a Sofia e sentei-a. Entrámos em sintonia logo ao primeiro disparate. A Sofia, a quem a M. depressa elogiou os lábios carnudos, adorou-a enquanto empurrava melancia com caipirinhas. Piscou-me o olho quando chegámos à sobremesa. Não mais nos largaríamos nessa noite.

Mais tarde, à boleia dos convidados do jantar casual, fomos a um bar ali na zona e a música era tão má que decidimos entreter-nos com um concurso de shots enquanto cantávamos “hang the DJ!, hang the DJ!, hang the DJ!”. A Sofia tinha fama de campeã, eu não tinha fama alguma e a M. nem entrou no campeonato – achámos melhor que nos continuasse a satisfazer com aquele sorriso de roedora e a afastar aqueles que aspiravam a levá-la para casa. Fui eliminado a meio da competição, mas a Sofia continuou em prova. Passara o tempo todo a sorrir para a M., que no vestido justo devolvia um estratégico abanar de ancas e alegria. Sob incentivos de todos os amigos casuais, os uis e os ais, a Sofia chegou à final já com os olhos endiabrados e após o derradeiro shot correu até à rua para soltar tudo pela boca, num canteiro de jardim. Derrotada na final, continuava a admirar a M. do vestido justo e das curvas de perdição, que nessa altura já dançava comigo ao som do que eu lhe cantava ao ouvido.

A Sofia aproximou-se, hesitante, e puxei-a para um abraço a três. Com a cabeça pousada no ombro da M., olhos vermelhos nos meus, perguntou-me: “She is electric. Can I be electric too?”

Juro que sou uma lula morena


- Siga à praia amanhã?

- Até ia mas só queres é noite e amanhã não acordavas.

- Não é bem assim, troco uma noitada por um dia de praia mesmo 'praia'.

- Sei. Vamos à Costa?

- Vamos, vamos demorar tanto tempo no trânsito como a tostar ao sol.

- Presumo que não queiras ir a Carcavelos...

- Isso tem areia e mar mas chamar-lhe 'praia' parece-me rebuscado.

- Pois. Mas então onde raio vamos?

- Liga-me quando acordares.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

rapidinha sobre festivais

Alive! – nein (a dar cabeçadas na parede por falhar a frota de raposas)



SBSR – estou à espera não sei de quê para comprar o passe, Zach, mas se estiver vivo conta comigo



FMM – sou moço para dar uns mergulhos nas águas badalhocas de Sines.



Paredes de Coura – yeah yeah yeah yeah yeah yeahhhhh.

terça-feira, 21 de junho de 2011

What happens in heaven stays in heaven

a culpa é do Mota I

Para chegar até à praia, o gangue do sorriso teve a destreza das lesmas. Diga-se que o pouco agitado trajecto até à praia do Malhão também ajuda: é regular na irregularidade - sarapintado de buracos e terrapó. Por isso mesmo pareceu-nos bem aproveitar cada segundo, parar os carros junto à berma, saltar cá para fora e fazer um filme na terrapó com dança e disparates. Três rádios, três bandas sonoras, três pistas de dança. No carro de trás o Abreu e a Susana, acabadinhos de perder o dia de praia e ganhar o pôr-do -sol, disparavam Battles; no do meio, o meu, o Mota e eu oferecíamos Jackson Five. À frente o menu sonoro da Xana e da Joana D. contemplava o fim de uma qualquer música da Rihanna e logo a seguir o desabafo sobre (in)fidelidade antes de descarregar o autoclismo um dia assinado pelos Santos e Pecadores. Quando nos apercebemos do que se passava no carro delas... bem... o Abreu ficou com as pupilas dilatadas, o Mota enregelou, eu tive um ataque de tosse e a Susana entrou em negação. Mas tudo voltaria à normalidade e seguimos até à berma de uma falésia para ver o mais básico pôr-do-sol da história. Não havia nuvens e o grande ponto amarelo lá no alto nunca chegou a ficar alaranjado. Umas fotos com as super-máquinas analógicas que a malta cool tanto gosta de comprar e glup!, a grande bola de fogo era engolida em molhado. Ainda estou para contemplar aquela morte do dia em África, coisa de postal que os meus pais me contam com o melhor dos exageros desde que me lembro.

Fins-de-semana com Lisboa pelas costas implicam não dar os bons dias ao Dartagnan à entrada do Incógnito, mas são coisa boa, sobretudo quando a viagem é em si mesma um prémio. Fiz a minha pela costa, rumo a Vila Nova de Mil Fontes, recebendo indicações muito precisas para a praia devida, cortesia da Joana D.. “Moco tams na praia d malhao sabes ond fica?na estrada de quem de vem de porto covo para vila nova é do lado direito antes d chegares a brunheria.dpx na estrada de terra sempre em frente dpx a direita numa estrada de areia no meio de arbustos chegas a um parque de estacionamento ond ves um carro pegeout cizento matricula 12LI10 ou 10LI12.desces as dunas e vais para uma praia grande com uma casinha azul mas ns tams para a direita zona das rochas Numa praia pikena.nao tems rede :( vams estando atentos em busca de rede.bjs grands”

a culpa é do Mota II
Quem me conhece sabe minimamente os efeitos nocivos que este tipo de coordenadas podem ter nas minhas ideias, pelo que fui metendo mudanças até Mil Fontes com o meu cérebro a cheirar ao que a carne esturricada cheira. Cheguei a parar e sair do carro em Porto Covo, ponto morto e motor ligado (ai Rui, Rui...) enquanto atravessava a estrada para questionar uma mulher ainda jovem e bem gira, muito provavelmente mãe da equipa de infantis que a rodeava, como raio chegava a Mil Fontes sem placas por ali com a respectiva indicação. Rodeado do meu próprio fumo lá conseguir aparecer naquele buraco balnear, praia do Malhão, depressa por mim apelidada de lua, dada a proximidade. O grupo estava animado e além dos já citados incluía o digno JPC, a activista Joana F., a mui respeitável leoa Maria e a Filipa, aka Fada do Miradouro, sendo que na noite anterior as duas últimas tinham sido consagradas Grãs-mestres dos Mojitos e horas depois despediram-se do Alentejo, de regresso à capital. Naquela areia de ninguém havia jornais, revistas e livros para entreter e muita comida para ‘picar’, faltando apenas, digo eu, disse eu, uma geleira com minis. Mas havia uma bola, o que no meu caso substitui. Ao ver-me pontapear o esférico com a alegria do Chuck Norris quando de noite encara sozinho um grupo de 50 mexicanos a salivar numa rua estreita, o bom Mota confidenciou à mocinha dele, a Joana D., que, a ter um filho, gostaria que fosse eu. “Olha ele ali a divertir-se sozinho, sem incomodar ninguém!”. Babadíssima, a doce Joana D. veio ter comigo, relatou o caso e de pronto me ajoelhei e dei a mão à minha nova mãe, deixando-me levar até junto do meu novo pai enquanto chuchava o polegar.

girls just wanna have fun (a culpa é do Mota III)
Uma das minhas preocupações naquela estadia era o telemóvel, que estava a ficar sem bateria apesar de o ter deixado a carregar algum tempo durante a noite da véspera. Problema à vista. Não por isso de ficar incontactável durante dois dias, que é das coisas mais sedutoras que existem, mas porque combinara encontrar-me com uma amiga numa terriola ali perto, ao fim do dia seguinte. A sucessão de eventos dir-me-ia que mais fácil seria encontrar ouro por ali do que propriamente conseguir vê-la. Mas se não pus os olhos na miúda, foi na companhia da Xana, do Mota e da Joana D. que tive a minha primeira experiência numa praia de nudismo. Rodeados de pilas e grutinhas mais ou menos cuidadas, seguimos como se nada fosse em direcção à cascata pretendida e tomámos um banho de água doce. Um momento ideal para fotos gordurosas à Baywatch e permitir que, a olhos vistos, a água doce fizesse uma reavaliação dos danos que o rei sol nos deixava na pele após várias horas a torrar como gente grande (e parva). Embora parecesse precisa, a leitura dos estragos pouco teve a ver com aquela que agora faço – há bocado passei por mim em frente ao espelho da casa de banho e vi um corpo com queimaduras de algum grau suficiente para já ter solto uns belíssimos “ai foda-se!” àquele pessoal que teima em assinar reencontros com intensas palmadas nas omoplatas alheias. Banhista sofre.

Sendo um moço virado para a cidade, não resisto à serenidade de uma terrinha onde reúnes amigos a beber cerveja ou vinho (Lambrusco, a pancada daquela gente) no pátio de uma casa com cheiro a bisavós enquanto, cito a Joana F., ouves vacas a foder. E se o campo é bom, campo e costa juntos soam ainda melhor. A vida inspira-nos.

a culpa é do Mota IV
A Xana concordará. Apesar, ou devido à beleza dos olhos que nosso senhor o Criador máximo de todas as coisas lhe concedeu, ela nutre uma simpatia muito grande por sweats com capuz, e é com eles a cobrir a cabeça que se costuma movimentar no Bairro Alto e outros. É a forma mais eficiente que encontrou para, dentro do possível, tentar passar despercebida. Ainda assim, em noites boas, as abordagens são a cada cinco minutos. Todos querem ver de perto aqueles faróis que de tão verdes parecem azuis.

Vila Nova de Mil fontes é uma localidade pacífica por esta altura do ano, merecendo pouco a fama que tem de sítio-que-era-giro-e-onde-já-se-esteve-bem-mas-eh!-agora-tem-muita-confusão. De regresso a casa após uma noite calma, com jantar, gelataria, bar e quase discoteca (no templo Sudwest pedem cinco euros sem consumo aos rapazes, mesmo que a casa esteja vazia, o que era o caso), foi-nos recordado que o silêncio era muito prezado por aquelas bandas, nomeadamente pela vizinha do andar de cima. Os meus olhos cruzaram-se com os dela durante a tarde. Vestia de negro, tinha um buço considerável e à falta de mais dentes mordia praticamente em vão o interior da boca. Os hábitos que conservava no trato connosco eram conhecidos da véspera: reclamava durante a noite por não conseguir dormir e nas primeiras horas da manhã vingava-se com uma cassete de folclore alentejano, volume do rádio no máximo. “Oh não!, a puta da velha!”, desabafaria eu pelas oito da matina a remexer-me na cama de olhos esbugalhados por força das circunstâncias.

a culpa é do mota V (e da puta da velha aí no andar de cima)
Neste relato que é um carrossel especialmente egocêntrico, importa referir que tenho o toque de midas, embora ao contrário. Se, do menos para o mais grave, os níveis dessa escala forem um (descuidado), dois (trapalhão) e três (desastre), o meu nível será o quatro, cujo termo-definição permanece por inventar. Isso mesmo se pôde verificar quando paguei o meu jantar com o cartão multibanco levando atrás do recibo um emaranhado de rolos e peças da maquineta. Não tenho culpa.

Ao fim do dia seguinte, com planos alterados face ao desencontro com a minha amiga, despedi-me do gangue do sorriso e ataquei a estrada de terra rumo à de alcatrão. Na reentrada para a estrada nacional, virar à esquerda significava papar quilómetros de volta a Lisboa, onde trabalhava no dia seguinte. Para a direita as placas indicavam Odemira, São Teotónio, Zambujeira do Mar, Algarve. Como eu gosto de pregar surpresas à famelga...




quinta-feira, 16 de junho de 2011

És tão aborrecida que deves ter nascido numa manhã de domingo...

... só mesmo para aborrecer. Uma pestana a errar olho dentro. Odor a banana num autocarro cheio em Agosto. Ah.. parece que te oiço rosnar ao mundo logo pela fresquinha, mal acordas, abrindo a janela da tua linda casota, “rrrrrrrrr... tudo para a puta que vos pariu!”. Para ti, querida, que tens a sensibilidade de um camião TIR, deixo votos sinceros de que invistas em paixões por cesariana, que isso do parto natural, lamento, já era. Ou, por outra, é para outros. Esquece.. aceita ou esquece o espelho. Talvez assim deixes, através de nós, de amaldiçoar o dia em que nasceste - talvez deixes de fazer pouco de tudo o que é vivo ou morto sem perceberes que vivamorta estás tu. E viveremos todos felizes para sempre. A começar por ti.