terça-feira, 18 de outubro de 2011

De Moncarapacho a Cachopo foram quatro horas de distância e duas de paleio

A mãe da afilhada da minha mãe está mal, acamada, precisa de cuidados continuados e há 850 vagas para demasiada gente, de norte a sul. Aqui por casa fazemos o que podemos: oferecemos um jantar à filha. A afilhada da minha mãe mora aqui em Portimão mas raramente se deixa ver. Vive com um holandês que se portou mal com ela antes de se portar bem. Na dúvida, depois dos 40 anos, sozinha, deixou-se estar. Raramente vem cá a casa mas, depois de uma corrida até ao mar – ir, para voltar - deparei-me com ela aqui na sala, a falar com os meus. Tratei do meu festival de suor com um duche gelado e regressei para lhe espetar dois beijos e integrar a conversa de família.

Trocámos banalidades e rapidamente chegámos à crise, coisa que assiste mais a uns do que a outros. Demorámo-nos na “ideia de que isto está muito mal”, com a minha avó Vivi especialmente empenhada em lembrar que “já ninguém quer trabalhar, só estudar”, o que era o caso da afilhada da minha mãe, hoje com 50 anos e sem emprego. E foi já depois de lhe carimbarmos a procura por um que veio à baila o convite para ficar e jantar connosco um suculento franguinho no churrasco, próxima ceia de natal de tanta casa neste “país”. Ela, frágil a ponto de, achei, se poder partir a qualquer momento, hesitou tanto quanto pôde. No limite, lançou o argumento do facebook – “já lá não vou há uma semana!” -, mas à minha intervenção mais incisiva lá aceitou comer connosco, de olhos encharcados, a reflectir a dor de uma perda anunciada. A minha mãe correu até à afilhada e beijou-lhe a nuca.

Como habitualmente, as refeições cá em casa com convidados são feitas na sala de jantar, uma mesa redonda onde cabem pessoas, bem diferente da mesa da cozinha onde o raio de acção de cada um é parecido ao de um bar aqui da Rocha, o Pipas, em hora de ponta (02:00 – 04:00, sextas e sábados). À cabeceira a minha avó Vivi, claro, mestre de cerimónias. Habitualmente os homens da casa ficam ao pé dela, esforçando-se por lhe sacar o melhor que tem para oferecer uma mulher tão-sem-máscara, tão-exactamente-como-é, nascida nos loucos anos 20: opiniões e estórias castiças. A desta vez prende-se com uma viagem de mula que a Vivi fez entre Moncarapacho e Cachopo, com a missão de encontrar familiares. Reza a minha avó que se montou na mula dela "pelas duas da noite", e no escuro do mato arriscou por caminhos de cabras até chegar onde queria pelas seis da manhã. Ou assim crê ter acontecido. Foram quatro horas de viagem que demorou duas a contar, pois não parámos de a interromper para exigir mais detalhes sobre coisas já ditas, outras nunca imaginadas, ou encher-lhe o copo de Periquita e também a paciência. De Santa. Foram horas bem passadas, cheias do que levamos desta vida: comer, beber, conhecer, brincar, partilhar com os nossos. É o que daqui levamos.

domingo, 16 de outubro de 2011

O Vento dos Outros, Raquel Ochoa


“Era o primeiro vulcão que avistava na minha vida, tinha o brilho do irreal, os olhos piscavam e conformavam-se com a verdade de que a Natureza é algo alucinante, independente, legislador da maior lei do mundo, a lei do acaso.”

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“Nico prometeu-me um verdadeiro safari por aquela zona – se quisesse – com pumas, cobras, casebres no meio das montanhas e efectivo contacto com a Natureza. Entuasiasmava-se tanto a falar que às vezes receava que se esquecesse de inspirar. Descrevia-me anteriores excursões organizadas por ele, em que as pessoas tinham de andar a fugir dos animais selvagens e dormiam nas árvores como koalas. Prometi-lhe que voltaria (...)"

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Tanta luz

Se não fosse portuguesa seria indígena – transmite verdade quando olha. Morena, quase chilena, bonita como poucas. (Per)segui-a à distância assim que a vi. Perturbava-me tanta luz e queria ser atingido. Quando chegou a hora de a chamar apanhei-a desprevenida. Voltou-se sem hesitar e abri as têmporas de espanto: ainda não consegui tirar os olhos do que vi, do que vejo. Nem tentei. O olhar, sereno, esconde um peito inquieto. Nele cabe o mundo – o peito está preparado; o mundo é melhor que se prepare. Fácil é vê-la perder-se pelo fascínio das coisas. É mais alta por isso: vive dois palmos acima porque frequentemente se eleva com (o) muito (que) (pode) (ser) (o) pouco. Dou por mim encantado por uma menina-mulher. A culpa é dela: um espírito livre, de criança, que de magia vive. Impossível resistir. Quero fazer parte daquela vontade descalça de ser feliz.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Celine Dion é para artistas, não é para labregos


"e agora os algarvios!"

O casamento do Hugo e da Sílvia foi aquele em que a pista de dança do copo d’água na Quinta dos Rouxinóis foi aberta pelos convidados e não pelos noivos. Oficiosamente, pelo menos – só um par de horas depois dos primeiros passos trocados é que marido e mulher apareceriam, juntinhos, para voarem até à lua pela Voz do Sinatra.




Tudo começou pouco depois de chegarmos ao restaurante, por uma qualquer falta de motivo, razão suficiente para convocarmos o Nelas com um veloz bater de palmas, assim de lado, junto ao rosto. Martini e caipirinhas também poderão explicar alguma coisa. O Nelas apresentou-se inteiramente vestido de negro, num estilo neo-cigano, sem casaco – que me lembre. Logo na igreja fez da nossa fila um estendal com telemóveis, óculos de sol e carteiras alinhados ao longo do apoio em madeira dos tementes ao Criador.

Desde sempre que o Nelas adora o Hugo – “o meu amigo Hugo” – e não surpreendeu que tivesse sido ele a levá-lo à igreja. E também não foi de admirar que o tivesse feito no Peugeot 305 de 1984 do avô, carro que anda a conduzir há mais que muito porque o moderníssimo Ford Focus dele só dá problemas. O que admirou foi ver o carro a chegar a Lisboa sem perder peças. O Nelas jura que numa rampa favorável da auto-estrada investiu a 130.

O Hugo e a Sílvia conheceram-se no ISEL. Primeiro foram amigos, depois namoraram cinco anos – a primeira vez que os vi juntos foi no Parque das Nações, a ver o Portugal x Angola do Mundial 2006 – e no sábado tornaram-se marido e mulher. Mereciam uma festa de arromba. E tiveram-na depois do “sim” mútuo, sob benção da irrespirável ária na quarta corda para violino de Bach, e de uma valente beijoca que rendeu um aplauso gigante.

"moce, ó o prior a curtir!"
Para o ambiente festivo muito contribuiu a graça natural da mãe do Hugo, que aos 60 anos estava deslumbrante e deve ter feito tantos brindes ao filho como o próprio. O pai, idem. São um encanto. Quase tão jeitosos como os meus pais.

A festa era animada por um DJ cuja auto-estima se revelava inversamente proporcional ao jeitinho para a coisa. A dada altura fomos pedir-lhe músicas mais óbvias, mais pagode, a bem da reunião das várias gerações.

O meu primo Pedro, que amou os meus amigos de infância desde que os conheceu no Verão de 2000 e desceu o país desde Espinho na companhia da namorada, pediu “Despe e Siga, Festa!”. Muitas vezes. Tantas que teve de ir ao carro buscar um disco com a música – essa e outras. Na verdade ensaiou várias tentativas de golpe de palco, mas o DJ aguentou-se à bronca e apenas teve de nos aturar ao lado dele a cantar a discografia quase toda dos Xutos, sob ameaça clara de que o palco ruísse ou eu tomasse conta das teclas cartoon-techno ou algum descalabro do género. Mais tarde soubemos que a presença dele foi uma exigência dos donos da Quinta. Vinha no pacote.

Numa das pausas que efectuou para fumar cigarros, o DJ passou por nós e por ali ficou, altivo. Em tom de desafio, informou-nos: “Celine Dion é para artistas, não é para labregos.” Rimos de choro, ele atirou o cigarro quase fumado para o chão e regressou à arena. No fim de tudo passei por ele e cumprimentei-o com carinho e afecto.



Eram 02:30 e a festa acabava para a grande maioria, já depois de o bolo ser cortado na rua com balões libertados noite acima, mas eu e o Nelas ainda queriamos ver o que se passava. Tinhamos começado a beber com o Hugo - ele tem um filho imaginário há dez anos, o joãozinho; eu tenho uma filhota que não existe, a joaninha, e são amigos - havia quase 30 horas e por isso achei por bem deixar o carro onde estava e voltar para Lisboa à boleia. Venho buscá-lo amanhã, pensei. Tinha dançado várias vezes com uma amiga da Sílvia, a Ana, e ela parecia disposta a acompanhar-nos. A condutora seria uma amiga dela.

Sentia-me extremamente orgulhoso da minha decisão, mas comecei a sentir algumas dúvidas sobre o futuro imediato quando a amiga da Ana deixou o carro ir abaixo 29.834 vezes só a sair do estacionamento. Até na portagem da auto-estrada. Por cima do ombro da Ana fui olhando para o Nelas como quem pergunta: isto é falta de jeito ou ela está ainda mais forinha que nós? Para nosso alívio, venceu a primeira hipótese.



Taxi, Incógnito. Eu, no Incógnito, de fato. Por essa altura os músculos já começavam a pesar, mas depois ouvi The Rapture e tudo reentrou no devido eixo. Passámos um bom bocado. Novo taxi. Cama.


"nelas, isto vai benite e leva jête"
Depois de dormirmos o suficiente fomos acabar com os restos da comida a casa dos pais da Sílvia, onde nos receberam como heróis de festa. Ao som de uma belíssima concertina atacámos sopa derramada em pratos de plástico, ou pelo menos tentámos - tremeliques de parkinson impediam-nos de levar a colher ao caldo da sopa e trazê-lo à boca.

Jovem, se já não és jovem, junta-te a nós.

Já quase ninguém tocou em álcool. A aposta recaiu nos grelhados e doces. O rescaldo de todas as coisas foi depois feito na rua, sentados no asfalto. Tudo cansado e feliz. Boas energias. Viva o Hugo e a Sílvia (L)

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Owitho - Um retrato da Ilha


Grande parte dos estudantes que me acompanharam no meu curso de Comunicação na Católica eram muito semelhantes. Tinham carro, iam para casa depois das aulas, estudavam muito, cabulavam mais, tudo de 15 para cima, nunca faltavam às aulas, raramente saíam à noite, vestiam-se e penteavam-se da mesma forma e estou quase a adormecer só de me lembrar. Depois havia gente como a Maria. A Maria foi um de três caloiros – acresce o Bruno, da Madeira, e, portanto, eu – que fez asneira no dia de recepção ao caloiro e subiu ao palco para ser praxado à frente de centenas de miúdos num dia em que ninguém é praxado. Na altura ela tinha o cabelo estilo pós-choque eléctrico. Parecia um miúdo andrógino punk. Depois cresceu, foi ficando mais mulher e continuou a fazer a diferença. A Maria tem sardas e traz o mundo no sorriso, grande que não há. Esteve seis meses a fazer voluntariado em Moçambique e de volta trouxe um festival de recordações fotografadas. No foco dela... rostos (Owitho). Pessoas. É o que lhe interessa. É o que deveria interessar. São ondas de paixão que precisavam de ter ressonância no coração das pessoas, que é onde a arte deve ser avaliada - ainda com ela em África disse-lhe que aquilo dava uma exposição. Uma das boas. E vai dar, com a boa vontade de quem quiser soltar o mundo nos lábios da Maria.

Todas as informações: aqui.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

No need for words now

Não terei a grandeza de lhe dizer pessoalmente. Não agora, pelo menos, não já, assim, sem enterrar uma ou duas coisas. Quero que ela saiba que sempre lhe irei tirar a roupa com os olhos, cortejá-la à descarada, fazer com que se sinta desejada e tenha aqui uma ilha para a qual possa fugir sempre que queira, ou pelo menos pensar que sim, e manter vivo um pedaço nosso. Não quero que ela saiba que, deste lado, quando fiquei a saber, cortando a franja do egoísmo, ciúme ou o termo que resuma aquele sentimento que nos cega quando sabemos ser de outro quem um dia foi nosso até fui atingido por um certo estado de satisfação. Melhor: de serenidade, paz. Agora sei, pela pressa que ela sempre teve em construir a dois, pela lealdade sem reservas que tem com quem está, por ser quem é, que nunca voltaremos a ser um do outro. E isso custa, primeiro. Depois sabe bem.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Perdoa, perdi-me na confusão

Tenho andado distante mas um dia digo ao JP Simões que o conheci numa genial entrevista conduzida pelo odiável do Bonifácio no tempo em que o Y ainda era ipsílon, talvez em 2007, não tão longe quanto isso. Um dia esqueço a infidelidade e os pássaros na mão e a voar e digo ao JP Simões que sim, conheci-o com 39 graus de febre porque levei o suplemento de cultura de sexta-feira do Público para o Hospital de São José na medida em que tive a serenidade de antecipar o grau de entretenimento oferecido naquele antro de vegetação. Um dia deixo-me de merdas e abordo o JP Simões e digo-lhe até que ponto a minoria que o persegue passa a perna à grande fatia que o ignora. Um dia digo-lhe que o conheci com 39 graus de febre e julguei que ele com palavras iria salvar o mundo. Um dia faço isso e também me entrego de vez a quem a mim se dá. Olho por olho. Sem reservas. Deixo de me dar hipótese de me arrepender de não ter feito os possíveis para ser feliz. Um dia faço isso.