Um dos truques para ter boas noites de sono é evitar passar os olhos pela casa da Fanny, Cátia e companhia. Aprendi isso ontem da pior forma, num serão em família. É que nem preguei olho depois de ver aquilo pela primeira vez. Quero ver quem me tira da cabeça que foi o heil bigode do pai da Fanny a deixar-me naquele desassossego. Não me venham dizer que foram os golos que o lobo falhou em Coimbra, tantos que dava para aviar todos os nossos adversários até Abril. Também não me convencem que a falta de sono se deveu ao excesso de copos da véspera, uma confusão que me levou a estilhaçar um prato no chão da cozinha tão tarde que já era cedo – (o teu sonho de criança é dar os bons dias ao teu pai enquanto recolhes cacos de loiça, balbuciando em vão). Tão pouco teve a ver com a terapeuta de vidas passadas que conheci nessa noite, uma matulona que me chamou só com os olhos. Naa. Foi mesmo ouvir atentamente a Cátia, ficar fascinado com um novo mundo no qual um grupo de aves é um passarinheiro.
"The only people for me are the mad ones, the ones who are mad to live, mad to talk, mad to be saved, desirous of everything at the same time, the ones who never yawn or say a commonplace thing but burn, burn, burn like fabulous yellow roman candles exploding like spiders across the stars." J. Kerouac
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
Não é vandalismo, é desespero
Foram anos a fio de protestos, cartazes, manifestações, petições, cartas, entrevistas, marchas lentas, médias e assim-assim, tudo em vão. Nem PS nem PSD quiseram saber. Qual era a parte do “não temos alternativa à Via do Infante” que não tinham percebido? A EN125 é uma rua grande que une Vila Real de Santo António a Sagres. Não são precisos estudos para se perceber porque razão sempre lhe chamaram "estrada da morte". A Via do Infante é a comunicação que nos resta para que o Algarve sobreviva à sua vincada sazonalidade e não é, na sua génese, uma SCUT - apenas o troço Lagoa-Lagos preenche esses requisitos técnicos. Quem anda a destruir os pórticos da Via do Infante, da forma que o tem feito, inutilizando o sistema electrónico de pagamento de portagens, sabe o que está a fazer. É sinal de que, esgotada a via diplomática, o povo continua a querer ser ouvido. Deixou, isso sim, de ser sereno. Ir ao sótão sacudir o pó da caçadeira está longe de ser a opção ideal - é, simplesmente, a última. Os governos que nos estão a empurrar de volta à estrada da morte não podem dizer que não foram avisados.
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
Vladimiro
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| Vladimiro, por Platon (Time) |
Quando não está a aprovar a chacina do regime sírio ao próprio povo perante a comunidade internacional, ou a mandar prender e, como dizer, matar empresários e jornalistas, é bem provável que o vladimiro possa ser encontrado na sibéria a caçar baleias em vias de extinção ou a enfrentar ursos. Convenhamos: o homem mete respeitinho, que é bonito - o respeito -, e o autor desta fotografia bem o sabe. Trata-se do famoso Platon, que chorou baba e ranho para a poder tirar quando a Time fez do ex-espião do KGB "Homem do Ano” em 2007. A história, aqui (texto), ou ali (vídeo).
O pior da política são mesmo os políticos e a Rússia é um exemplo fiel disso mesmo. Ali tudo se resume a lealdades mafiosas, acordos de circunstância feitos por uma minoria de homens que controla o poder. Uma orgulhosa oligarquia de bandidos. Cada eleição é um espectáculo circense, e, tal como na Sibéria, em contacto com a vida selvagem, o próprio vladimiro já se sente intocável quando lhe pedem para comentar as milhares de denúncias de fraude registadas nas recentes legislativas, além do silenciamento das vozes incómodas através de incontáveis dentenções. “São clichés...”, diz o bicho, um homem que dobra frigideiras, como se quer.
O vladimiro já era primeiro-ministro e foi agora reeleito, mas também já tinha sido presidente por oito anos (2000-2008) e sê-lo-á talvez outros 12 – é candidato oficial desde terça-feira e, muito a propósito, o Medvedev, fantoche político com quem vai trocando de cadeira, alterou a duração dos mandatos presidenciais prevista na constituição de quatro para seis anos. Deste modo, o mais certo é que o vladimiro ocupe o cadeirão da presidência até 2024, governando durante um total de 20 anos. Mais, no Kremlin, só o Estaline (31).
À frente dos destinos da Rússia está um homem que sabe o que faz. Eu é que não percebo os russos. Como recentemente comentava o meu amigo PRR, que volta aqui a ser citado sem o saber, "não sei o que será preciso para compreender o ser-se russo".
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
Doutor sem vaidade, na bola e na vida
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| Valeu, Doutor (1954-2011) |
Devemos estar todos um bocadinho de luto. Morreu o Sócrates, aquele magrinho barbudo que capitaneava a encantadora selecção do Brasil no Mundial'82, ídolo do Corinthians e de quem gosta do desporto-rei. Médico de formação, sempre se envolveu na política ao lado dos mais desfavorecidos. Foi o líder do movimento Democracia Corinthiana em plena época de ditadura militar no Brasil. Foi ele quem mostrou o caminho da igualdade. Gostava também de copos. Demasiado para um só fígado. Ontem morreu aos 57 anos, à terceira internação em quatro meses. Horas depois o Corinthians (Liedson!) era campeão brasileiro. Que violência. Fica o legado de uma referência, doutor sem vaidade na bola e na vida. De punho cerrado, com o sangue dos bons.
Etiquetas:
futebol; sociedade; democracia; óbito
terça-feira, 29 de novembro de 2011
Se passares por polícias não cubras a cabeça
Estava fodido. Não me saía da cabeça o jogo em Carnide, perder sendo melhor. Tinha sido também um fim-de-semana agitado aqui do lado esquerdo, que, aliás, desacelerou um bocadinho. Só me faltava não encontrar um lugar para estacionar no regresso do trabalho, tendo o carro cheio de tralha para descarregar. Mas não seja por isso, nenhum buraco ali perto, de modo que o entrincheirei entre bairros de lata sob a benção de um cemitério, a última e mais comum das soluções, a um cigarro de casa - não fumo, mas é um funil temporário preciso. Frequentemente descarrego as coisas em segunda fila e depois vou estacionar o carro já sem documentos e valores, que deixo em casa, só naquela. Assim o fiz. Senti que roçava um dia perfeito quando comecei a sentir mais agudas as dores que já tinha na garganta e no lombo. Estava a chocar uma gripe, pensei, ao estacionar, e depressa cobri a cabeça com o capuz, que é para isso que eles existem, sobretudo quando nos sentimos engripados e é de noite e faz frio. E para casa caminhava quando a minha marcha foi detida por um de quatro ou cinco polícias que por ali andavam. “A sua identificação, por favor”, pediu-me. Perguntei-lhe porque raio me estava a pedir a identificação, ao que o polícia respondeu que tinha sido “registada uma ocorrência” na zona. Devolvi-lhe com tosse à mistura que o que o ocorria era que estava com uma carraspana olímpica, além de que não me podia identificar porque tinha deixado a carteira em casa depois de descarregar a tralha que trazia do Algarve, como de costume. “Esta zona não é famosa”, disse-lhe. Jovem, alerta, o polícia olhou-me, desconfiado, e teve a bondade de me deixar seguir. Agradeci e lá fui com a cabeça ao descoberto até cair de cama à boleia de medicação, com pausas de oito horas para poder pagar os medicamentos.
domingo, 27 de novembro de 2011
Pelas sombras
... não vires a cara, sim, é contigo - a seres livre, que o sejas, primeiro, de ti. Das tuas certezas, os nossos enganos. Sai do teu quintal, vê o que se passa, aprende: dois é a conta que D(eu)s não soube fazer por defeitos de ego. Não é que tenhamos demasiada culpa.
terça-feira, 22 de novembro de 2011
James Blake
Ao saber que o segundo disco dos MGMT foi o meu preferido em 2010, um amigo chamou-me hipster. Bem, de onde a minha família vem isto resolvia-se com uma caçadeira, mas como eu até conheço a dele preferi chamar-lhe maluco – o Congratulations é honesto, subversivo, rico, rock com o melhor da sensibilidade pop, sei lá, é a melhor coisa que aconteceu à música em 2010. Conto pelos dedos de uma mão aqueles que entre os meus também pensaram assim, então e agora. Na verdade, mais de um ano após o lançamento, ainda não ouvi uma única música do álbum por aí, na noite que interessa. Sim, é menos dançável que o primeiro, mas nem uma?
Isto para falar do James Blake. Os meus amigos adoram-no; eu, epá, não gosto. Há quem ache que ele faz “minimal pós dubstep”. Outros dizem que ele é o grande artesão da electrónica silenciosa. Eu só o acho chato. Insisto em não levar muito a sério um músico cujo trabalho mais aplaudido chegou através de covers de temas da Feist (‘There’s a Limit To Your Love’) e da Joni Mitchell (‘Case Of You’). São covers bonitas? São, muito. E parecidas com as originais. Em ambos os casos. Não chega. Mas dá para fazer crescer água na boca. (Metáfora errada). Após vê-lo, ou suportá-lo, no Alive deste ano, a tendência era de que as posições se extremassem. Porém, algo mudou nos últimos dias - não muito, mas algo, depois de um amigo, um dos poucos que também ama o segundo disco dos MGMT, ter aclamado o arranque do EP “Enough Thunder”, que saiu no mês passado. Fui à procura e ouvi-o em streaming. Três vezes.
Goste-se ou não, há que reconhecer que a música do James Blake é, no limite, ambiciosa: quer a aceitação a partir do aborrecimento - partindo do princípio que se quer sempre uma aceitação favorável de algo que se cria. É estranho, mas implica ousadia. Por outro lado, sendo um cantor de emoções à flor da pele, parece ter vergonha de soar polido. Refugiando-se nos truques do dub, obriga-nos a trepar o muro para ver a beleza. É preciso ter muita paciência para entrar neste jogo do gato e do rato. Nem todos a têm. Eu, por exemplo, sou carneiro. Ascendência em touro.
O tema de abertura, ‘Once We all agree’, é cavernosamente chato, sendo simpático, e uma seca do caralho, sendo preciso. Não creio que aponte em direcção alguma – ou por outra, apontando, é para baixo. O meu amigo P.R.R. discordará. Mas partilhando a essência das restantes cinco músicas - a ideia de que é coisa para se ouvir a sós com os nossos botões - nada tem a ver com a qualidade que adiante descobri.
‘Fall Creek Boys Choir’, em parceria com Bon Iver, seria brilhante não fosse o caso de o James Blake se ter lembrado de encarcerar o falsete do Justin Vernon, frontman dos Bon Iver, numa roupagem auto-tune. Não havia necessidade. De resto é um tema r&b simples, eficaz e bonito, cheio das artimanhas digitais do costume, mas, neste caso, acrescentando algo à canção ao invés de simplesmente lhe segurar os cavalos. O tema-título é das melhores coisas que se pode fazer na inatacável combinação de voz e piano. Sem aditivos. The good old way. Há ainda a referida ‘Case Of You’, uma vitória anunciada. Posto isto: sim, todo o valor a quem desbrava novos terrenos, a quem ergue essa tocha – só assim a música avança. Foi assim que o James Blake ganhou um clube de fãs gigante. Mas, epá, o que ele faz, da forma que faz, aquilo que o difere da restante oferta, não tem sido para mim.
Isto, é. Fácil se torna de perceber que, aos 22 anos, o melhor dele ainda está para vir.
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