terça-feira, 10 de abril de 2012

Muito fortes...



No estádio ficou a ideia óbvia de um domínio avassalador dos que vestiam a mais bela, a verde e branca. Uma festa bonita em Alvalade, como sempre deve ser o dérbi, para a qual o Sporting se vestiu a rigor e o adversário se esqueceu de aparecer. Eu cá fiz a minha parte: voei pela segunda circular de mota, com um amigo, depois do trabalho, e cheguei a tempo de uma cerveja antes do apito inicial. De volta a casa vi o resumo e confirmei a minha ideia, que pecou por defeito: o jogo foi de sentido único - a baliza protegida pelo sucessor do bom Roberto. As equipas só se igualaram mesmo nas queixas capitais. A saber: um penálti escamoteado para cada lado na primeira parte, sendo que no caso deles era logo no arranque do jogo e no do Sporting o Garay vinha para a rua também muito cedo. Ao Javi Garcia e ao Bruno César também foram poupadas as respectivas expulsões, mas tudo bem. Não fosse hoje noite de São Artur e em vez do 1-0 final tinha havido a reedição dos 7-1, sem favores, tal a forma como os encostámos às cordas. Só o lobo holandês metia três na rede. O Marat fazia o golo do ano. Até o miúdo Rubio podia ter molhado a sopa - bem, até molhou, mas em fora jogo. Fica o sabor doce de aviar o eterno rival com tamanha superioridade em todos os capítulos de jogo e o amargo das Paixões que nos impedem nesta altura de estar na luta pelo título. Resumindo: bom treino antes do Athletic Bilbao, embora menos exigente do que nos jogos com o Metalist e com a cereja no topo do bolo de ver o perna de pau sair de Alvalade de cabeça inchada. Nota: oitava vitória seguida em casa com um só golo sofrido desde que regressou o Ricardo Coração de Leão, agora para nos liderar. Aperta com eles, Sá Pinto!

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Um Castelo na Escócia Music Awards 2011 - Discos preferidos (sou meio distraído)


O critério de escolha vai ficando cada vez mais apertado. Tem a ver, sobretudo, com o acto de repenicar. Se repenica, é bom; se repenica muito, melhor ainda. Ora, nisso do repenico, se tivesse paciência para tal, teria a dizer coisas de não pouco mérito do álbum "Both Ways Open Jaws", dos The Dø (prémio 'Queixo caído'); "Helplessness Blues", dos Fleet Foxes (prémio 'Beleza mais beleza não há'); "Skying", dos The Horrors (prémio 'Esta noite vou fazer merda') e "The Rip Tide", dos Beirut (prémio 'No meu tempo é que era'). Mas irresistível, irresistível, foi o "English Riviera", dos Metronomy, gente de inatacável pontualidade que vi em Coura há oito meses e que leva para casa o nobre prémio 'Mentira mais romântica do ano'. Gosto especialmente desta 'Trouble'.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Castelos na areia

O conde de Ségur e sua condessa tinham menos dinheiro para gastar do que seria de supor, dada a respectiva condição, de modo que se entretinham a fazer filhos, só parando ao oitavo. Foi quando deu descanso ao útero que a condessa, conhecedora de literatura para crianças, começou a contar histórias aos filhos, e depois aos netos, e somava 58 anos de idade quando assinou o seu primeiro conto, ainda a tempo de se tornar numa das referências mundiais da literatura infantil, como decerto a M. concordará.

As férias de Verão da M. eram uma animação. Ao contrário das amigas de Lisboa, ela passeava com frequência, frequentemente até Ferragudo, terra da mãe. A M. era uma miúda que dava pouco trabalho aos pais e, nessas viagens até ao Algarve, sentada no banco de trás, dividia o tempo de nariz colado ao vidro a antecipar os castelos de areia que iria construir na praia dos Caneiros ou recostada a ler “As meninas exemplares” da condessa de Ségur.

As meninas exemplares eram a Camila e a Madalena, filhas da senhora de Fleurville e, como o nome indica, nada tinham de maldade. Eram bondosas e meigas e nunca erravam a um ponto que não pudesse ser corrigido. Na verdade, quando saltavam bem cedo da cama era para salvar o mundo. Em casa ajudavam a mãe a limpar o pó, a lavar roupa e loiça, a pôr e tirar a mesa, a varrer o cocó seco de pássaro do quintal e ainda acordavam o pai para almoçar. Na escola sentavam-se sempre na primeira fila e acenavam com as melhoras notas da turma. Os professores adoravam-nas como, aliás, a restante população mundial, incluindo a M., que queria ser perfeita como elas e desse modo estar habilitada a salvar o mundo.

Um dia, à saída da escola, a M. encontrou um senhor estatelado no passeio, a dormir. A M. aprendera com as meninas exemplares que as crianças não devem falar com estranhos, mas ficou preocupada quando percebeu que o senhor em causa tinha um aspecto distinto, pois vestia de fato, e nunca lhe tinham dito ser normal que os senhores de fato dormissem na rua.

Hesitou mas decidiu aproximar-se porque naquele dia ainda não tinha salvo o mundo. Mais de perto, enquanto reparava que o fato estava maltratado por traças, viu-se forçada a tapar o nariz: do senhor emanava um cheiro intenso cuja origem desconhecia. “Deve ser veneno!”, pensou. Respirando fundo, deu um passo em frente, recuando dois logo depois de lhe tocar num ombro.

O homem acordou, mas a custo, balbuciando algo imperceptível sem olhar a M. nos olhos. A princípio tinha erguido um pouco a cabeça e chegou a olhar em várias direcções, mas nada do que viu lhe pareceu interessar e por isso deixou-se estatelar de novo na calçada.

A M. continuava preocupada. Os senhores de fato que conhecia nunca falhavam a missa ao domingo e esse indicador tornava este homem um bom filho do Senhor. Por outro lado, também ficara a saber pelo exemplo das meninas Camila e Madalena que nunca devemos desistir daquilo que acreditamos ser o Bem, que, como toda a gente sabe, é o contrário do Mal.

Insistiu e desta vez obteve uma reacção concreta.

- “O que queres, pá?” – perguntou o senhor, rude, ainda sem olhar a M. nos olhos e a tresandar ao tal veneno de forma mais intensa.

A M. achou a abordagem muito contra os bons costumes que lhe tinham sido ensinados, mas engoliu em seco, esticou a espinha, juntou os pés, respirou fundo duas vezes, rezou para dentro um pai nosso e meia avé maria e apresentou-se.

- Olá, pensei que estivesse envenenado e vim ajudá-lo.

O senhor coçou a cabeça e levantou-se. Já de pé, rodando sobre si próprio, de costas, espreguiçando-se, denunciou grandes buracos no tecido das calças que deixavam à mostra o traseiro. A M. não pôde deixar de o observar: levou a mão à boca e conteve um risinho nervoso. O homem virou-se e encontrou-a.

- Acertaste, estou mesmo envenenado. E o que eu preciso agora é de um remédio - disse, fitando-a pela primeira vez.

A M. assustou-se com os olhos do senhor, escuros onde costuma haver cor e repletos de raios vermelhos onde por norma tudo é branco. O cheiro era insuportável. Dado o cenário, nomeadamente o estado das calças do senhor, achou por bem oferecer-se para ir buscar o tal remédio. O senhor agradeceu e deu as indicações devidas: o remédio estaria dentro de uma garrafa de vidro sem cor e poderia ser comprado na maioria das lojas, não só em farmácias. A M. acumulava tanta vontade de praticar o Bem que até se ofereceu para pagar a despesa com os trocos que tinha encontrado num bolso das calças do pai, logo após virá-las do avesso para as esfregar no tanque, e que tinha guardado para que não se perdessem. O senhor agradeceu e voltou a cair redondo na calçada, não sem antes soltar um preocupado , “não te percas e volta rápido que este veneno mata!”

A conselho do senhor, a M. entrou à pressa numa dessas lojas que vendia o tal remédio e, mesmo sem altura para se assomar ao balcão de atendimento, colocou-se em bicos de pés, inclinou o pescocinho e fez o pedido a um funcionário que eventualmente estivesse lá para trás, embora a M. não o conseguisse ver. Ouviu, isso sim, muitos e muitos risos, ao fim dos quais se seguiu um breve momento de silêncio. Foi aí que sobre ela apareceu um rosto de homem, ligado ao que, pensou, poderia – ou não – ser um tronco e respectivos membros de homem. O funcionário empoleirava-se do lado de lá do balcão, divertidíssimo com a pergunta da pequena cliente.

- E para quem é esse remédio, menina?

- É para um senhor de fato que está aqui perto estendido num passeio, envenenado! – respondeu a M., levando às rugas de tanto rir a cabeça de homem possivelmente atrelada ao que também seriam tronco e membros de espécie humana.

Ao cair da noite a loja tinha uma luz muito baixa mas pouca gente. O volume da música era mais alto do que o que a M. entendia ser comum. Sentadas ao balcão, em trajes frescos, à espera que a vida acontecesse, Prazeres e Arlete falavam de tudo e de nada.

“Eu não tenho o colesterol alto mas também não tenho juízo!”, observou a menina Prazeres à menina Arlete, ambas de 50 anos de idade para cima segundo boatos nunca confirmados.

A M. não deixou de estranhar que naquela loja houvesse um cheiro muito semelhante àquele que emanava do senhor de fato maltratado pelas traças, mas aquilo que mais a surpreendeu foi ter visto o próprio pai à entrada da loja, de braços cruzados e cara de poucos amigos, enquanto a mãe passava por ele a correr, de olhos aguados para a agarrar e sacudir.

- Onde te meteste, M.?! Estávamos tão preocupados!! Que estás a fazer aqui neste bar depois da escola?! À minha frente já para casa!!

Embora tentasse a todo o custo explicar o sucedido, a M. não foi levada a sério. Ficou de castigo: naquele Verão ficaria sem o balde e a pá com que tanto gostava de erguer castelos nos Caneiros.

Nesse dia, depois de jantar, recolheu ao quarto mais cedo do que era habitual e deitou logo a cabeça na almofada. Achava-se incompreendida, sobretudo quando pensava nas meninas exemplares. “Elas teriam o feito o mesmo que eu – teriam ajudado o senhor envenenado!”, pensou, ranhosa.

Para afastar a tristeza e convocar o sono puxou d’As meninas exemplares, e foi enquanto folheava as páginas escritas pela condessa de Ségur que a M. se apercebeu pela primeira vez que não conhecia ninguém tão perfeito como as irmãs Camila e Madalena. Acto contínuo, deixou-se tomar por uma pergunta antes de fechar os olhos. "Afinal de contas quem é normal – eu ou elas?"

segunda-feira, 26 de março de 2012

Ser português é tocar a gaita


O dono de um dos cafés da avenida Morais Soares é um antigo polícia militar que não sabe falar inglês mas já me revelou que só vê os noticiários da euronews e da CNN. “Eu percebo tudo, esteja descansado!”, garantiu-me, de indicador em riste e tacha arreganhada, respondendo à pergunta que não cheguei a fazer.

Aproveitava o primeiro de dois dias de folga accionando o modo inútil. Levantei-me tão tarde quanto possível, tomei banho, escovei os dentes, desodorizante, vesti uns trapos, dedos no cabelo, desci a rua a dois à hora, fiz covinha para a morena apressada em contramão, tratei de assuntos de Estado com o sportinguista do talho – “a ver se comemos os ucranianos na quinta!” -, comprei o jornal, entrei num café, escolhi uma mesa mais para lá, pedi o almolanche.

Naquele dia a maioria dos jornais dava à estampa a cobardia: um polícia batia numa repórter de imagem na rua Garrett. Escolhi o “i”. Lá dentro explicava-se a história. Ela queria documentar para a AFP a manifestação "anti esta merda toda" associada à greve geral de 22 de Março. Ergueu a objectiva. Fitou o alvo. Disparou. Flash! Flash! Flash! Ele, um agente da autoridade, ou alguém de cima, muito célere a dar ordens, achou desapropriado ela querer documentar a carga da polícia de choque em tudo o que encontrava - nem mulheres curvadas pela idade foram discriminadas, a bem da igualdade de direitos. A primeira bastonada deitou logo a fotojornalista por terra. Um manifestante saiu das “trincheiras” e socorreu-a. Ajudou a levantá-la. Ela sacou da documentação devida e identificou-se ao mesmo polícia, que não gostou da afronta. Zás!, segundo golpe e jornalista de novo ao chão, amparada pelo próximo namorado.

Ao chegar à minha mesa com um galão numa mão e manteiga com pão torrado na outra, o dono do café fez o seu juízo de valor sobre os acontecimentos. “O que falta a estes polícias novos é formação! São mal formados! Não tenha dúvidas!”

Fitei-o e concordei o concordar discreto da cabeça. Uma vez. Outra. Na verdade não fiz outra coisa durante a hora em que ali estive - ouvir e assentir o que dizia o bom do ex-militar, um tagarela natural da terra do Salazar com opinião formada sobre as causas e os efeitos do mundo, cabelo para fritar batata, olhos pequeninos, estômago dilatado e coração bom.

À minha frente um senhor com o aparato modesto dos filósofos lançava retórica em desânimo: “Pensei que tinhamos feito o 25 de Abril para acabar com isto...”

Ocupávamo-nos do duelo do bastão contra a máquina fotográfica até que entrou o Doutor e sua companhia de ocasião. Para ela, quase 50, que trazia um casaco de pele comprido e cheirava a cabeleireiro, uma cerveja; para ele, quase 60, desvio colossal entre os dentes, cabelo cor de algodão, bem puxado para trás, um daqueles remédios servidos em copos pequenos que curam gripes.

O dono do café falava comigo por cima do ruído, espreitando a minha reacção. Quando eu não acenava ele falava mais alto e concluía com um, “está a ver ou não está?”

“Estou, estou sim chefe! Vejo tudo!”, respondia eu, passando rapidamente os olhos por uma notícia na tentantiva em vão de ter tempo de a compreender.

No entretanto, mais animado pelo remédio, o Doutor sacou de uma gaita que trazia no bolso do casaco onde outros guardam cigarros e tocou de forma brilhante “Ó rama, ó que linda rama”. Desisti do jornal. O jeito do Doutor para o improviso era notório e por isso recebeu ainda mais aplausos do que seria de esperar, além de um elogio em particular.

“Também toca ópera, isto serve para tudo!”, disse a senhora que o acompanhava, aludindo aos méritos da gaita do Doutor.

A agitação no café chamou a atenção de vários transeuntes, nomeadamente duas mulheres e um rapaz de traços asiáticos. O grupo entrou. O Doutor ganhava plateia e ofereceu nova interpretação de um tema histórico do cancioneiro português, “A azeitona já está preta” - este, como o outro, da autoria do compositor popular Arlindo de Carvalho, jurava-me o dono do café a pés juntos.

Uma das mulheres recém-entradas estava encantada com a gaita do Doutor. “Isto é que é nível, tão bom! Isto é que é ser português!”, dizia, aplicando valentes safanões ao imperturbável amigo asiático. Este pouco compreendia aquilo que o rodeava mas isso não parecia roubar-lhe a satisfação serena e improvável de estar naquele sítio, àquela hora.

O Doutor continuava a empenhar a gaita com muito talento e recebeu nova salva de palmas pela actuação sem reparos. Depois prometeu ao dono: “Amanhã já trago dinheiro!”. Foi com saudade que se despediu das pessoas. E foi cortês à saída. “Tu primeiro, minha querida”, disse, adorando as formas da companhia de ocasião. O dono procurou-me do balcão. “Este senhor é advogado mas brinca com a vida, qual é o mal?”

"Mal nenhum, chefe!". Sorri e pedi a conta.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Abrindo a pestana

As mulheres do Cais do Sodré querem atenção. Sabem que sabes que estão a olhar para ti. As mulheres do Cais do Sodré não temem a rejeição. “Mais perdes, palerma”. As mulheres do Cais do Sodré deixam-se ver sobretudo durante a semana, quando podem ser mais como são. Põem-se bonitas naquele tipo de desleixo vaidoso. Entram em calças pretas impossíveis de tão justas e erguem-se quase meio palmo em botas-ameaço. Raramente têm frio. Em última análise sentem-se sós e não podiam estar menos interessadas no desconcerto dos Ena Pá 2000 versão Homer Simpson sem cerveja que está a acontecer na Pensão Amor, onde entraram sem dar conta disso. Estão ali porque gostam do nome e há um fresco falso por cima do balcão do bar que compreendem ser mais belo do que tudo o que sempre lhes foi dado a conhecer por verdadeiro. As mulheres do Cais do Sodré rodopiam por cima dos esguichos de cerveja em copo de plástico amolgado que vão besuntando a pista de dança de cima do Roterdão ao mesmo tempo que passa o Eyes Wide Shut sobre a cabine do DJ, que por sua vez devora prosa profana em dimensões bíblicas no Dia Mundial da Poesia, entre Kinks e Strokes. As mulheres do Cais do Sodré gostam de te ver acompanhado e certificam-se de que te apercebes disso. Tu e quem te acompanha. Despedem-se com covas no rosto e promessas de amanhã.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Não é uma guerra. Não tem de ser

Quinta-feira. Ela ainda se ri dos defeitos dele.

Sexta-feira. O primeiro silêncio. Incómodo.

Sábado. Não se falam.

Domingo. Ela abdica de tudo.

Segunda-feira. Magoa-o. Muito.

Terça-feira. Arrepende-se.

Quarta-feira. Regressa. Vem a enrolar as pontas do cabelo. Dá-lhe a mão. Morde o lábio de baixo. Pede-lhe para esquecer.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Pop. Popular. Do povo. Nosso.

Toda a gente adora odiar os U2. Até eu, cuja relação com a música deles não pende para extremo algum, sou bem capaz de já ter soltado em público um “U2? Pff...”. Toda a gente quer dizer: toda a gente que gosta da noite de Lisboa e nunca foi ao BBC. A estratégia entre aqueles que adoram odiar os U2 é ser convincente na primeira reacção. Argumentos: pouca fala e muito desdém. A mensagem subliminar torna-se evidente: “nem vale a pena começares a falar sobre eles”. Este método, também conhecido por “fuga para a frente”, tem o mérito de desencorajar o fã de U2 e, assim, evitar perguntas incómodas que possam denunciar o que afinal se passa: o histérico” anti U2” percebe tanto de U2 como eu de informática. Na lista de conhecimentos desta espécie em vias de crescimento entra a ‘One’, a ‘With or Without You’ e mais três ou quatro músicas que entraram nas playlist diárias da RF(zzzz...)M e da VH1 desde que nos conhecemos. E é tudo. Não fazem ideia do que a banda fez.

O meu irmão pertence a outro grupo, 'ao' outro grupo, o do que que adoram adorar os U2. Sim, porque nesse campeonato não há gostos moderados: quem gosta de U2 tem nos U2 a sua banda favorita. (Ou então sou só eu a fazer generalizações gratuitas). Atrás do Sporting, claro, os U2 são das poucas coisas nesta vida que fazem o meu irmão mudar de sintonia. Se ele estiver num bar e passar uma música deles, suspende a conversa e entra em levitação. Só fica o corpo. É dado adquirido e coisa que pessoalmente me dá gosto perceber. Seja como for vem ao caso que regressei ao “Achtung Baby” (1991), um dos álbuns mais relevantes da carreira deles. Deixo aí em baixo a minha preferida do disco. Sempre que a oiço é-me aplicado um gancho que me leva ao tapete, knock-out. Cá dentro bate um desassossego imediato, por um motivo intangível – sei que existe, não em que consiste.

Talvez seja mesmo dos anos 90, os novos anos 80, cuja sombra já paira por aqui.