sexta-feira, 11 de maio de 2012

Atrás da beleza até ao fim

Bernardo Sassetti (1970-2012)

"Morrer a fotografar numa falésia" devia dar entrada nos dicionários portugueses enquanto expressão sinónima de "cúmulo da dignidade".

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Irra, que gata



Quando a Norah Jones apareceu, há dez anos, andava eu a namoriscar a minha melhor amiga. O álbum de estreia dela (Come Away With Me, 2002) foi muitas vezes a nossa banda sonora no Golf azulão TDI do meu pai, que pedia para levar sempre que a ia buscar a casa, pois tinha um aparato diferente do Clio branquinho cof cof da minha avó - era esse que na altura conduzia. Ela gostava e eu também. (Da  Norah). Daí para cá a minha melhor amiga já se casou - não, não foi comigo - e a Norah Jones tem feito o que pode para apagar a estrita imagem de carinha laroca que faz jazz para burguês adormecer. Percebe-se que pretende ganhar a atenção dos melómanos, ela que já tem a do grande público e respectiva crítica (só em Grammys já vai em 12). Nesse sentido, o quinto disco Little Broken Hearts, nas lojas há poucos dias, é o maior passo rumo ao reconhecimento desse tal público mais exigente. Verdade seja dita que a garota de 33 anos a caminho dos 18 também colaborou com as pessoas certas: Brian "Danger Mouse" Burton é o responsável pela produção do novo álbum, por exemplo. No seu melhor, sem ser tremendo, Little Broken Hearts deixa água na boca. Há aqui um certo tipo de rock a dançar entre vulnerabilidade e mau feitio, dois lados de uma moeda chamada 'perda'. O jazz de restaurante de hotel, esse, ficou à porta. Podemos ouvir Norah Jones dizer à 'Miriam' que a vai matar por amor, o que no caso é dizer que não lida bem com a 'dor de corno'. É um dos melhores temas do disco e encerra com a simpática estrofe,

You know you done me wrong
I’m gonna smile when
I take your life
Mmm, mmm, mmm.

Gosto também muito da faixa cinco, 'Take it Back'. Pop fumarenta, exposta, com direito a reverb na voz da Norah Jones e um teclado emprestado aos Coldplay. Agrada-me que a voz da Norah Jones não esteja sempre presente. O remate do disco é muito forte, com a já mencionada 'Miriam' e, por fim, 'All a dream', sendo que esta foi a primeira música do novo disco que ouvi. Tem ali uns segundos arrasadores, cortesia de um violino. 


Claro que vamos sempre dar ao mesmo, à voz meiga, um pouco aborrecida, da Norah. Cante o que cantar parece que nunca se passa nada com ela. Mas as conquistas da filha do Ravi Shankar estão aí para serem aferidas, na certeza porém de que este post só existe porque não resisti à tentação de mostrar a soberba capa do disco, inspirada no poster do filme Mudhoney (1965), de Russ Meyer.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

San Mamés é outra coisa


Redes de galinheiro e ao fundo, à direita, pilares assentes no meio da bancada, old school

Algures durante quatro anos na Católica a tirar comunicação fui à mesquita de Lisboa entrevistar o sheik David Munir, o imã local, a propósito de um qualquer trabalho. Comigo estavam dois colegas de turma: um de Setúbal, outro de Vila Viçosa. Provavelmente os meus dois grandes amigos do início ao fim da Universidade. O sheik Munir já estava à nossa espera e recebeu-nos com afecto. Conversámos durante horas, os quatro. Entusiasmados, curiosos, nós, miúdos, batemos o recorde mundial de perguntas no menor espaço de tempo, mas o que até hoje conservei foi uma só resposta do sheik. Com as têmporas bem abertas, disse: "o Islão é amor!". Tínhamos sido conduzidos para uma espécie de escritório, e não uma sala de orações, e por isso não tivemos de descalçar os sapatos. Estava ali a prova de que podíamos ter uma tarde agradável sem ser a beber cerveja numa esplanada. (Não comprem isto).

Coisa bem diferente foi aquela que se passou há uma semana no San Mamés, o estádio do Athletic. Antes de a velhinha Catedral de Bilbao ir abaixo, já em 2013 - o novo anfiteatro do clube está a ser construído num terreno ao lado do velhinho -, devo partilhar com o mundo que antes de entrar no estádio os stewards do jogo com o Sporting me obrigaram a... tirar os sapatos. No meu caso, as botas. Não queria acreditar. Praticamente sem voz quando ainda faltavam quase duas horas para o apito inicial, sentei-me num degrau com o whisky em copo de plástico preso pelos dentes e descalcei-me ao mesmo tempo que um adepto dos nossos me passou uma caixinha com pastilhas elásticas. "Nem esta merda pode entrar: tira uma e vai passando!", disse-me, ao que obedeci parcialmente, tirando duas.

"É isto?!"

Visto por fora, o San Mamés assemelha-se a uma fábrica abandonada. "É isto?!", perguntei com não pouco espanto ao meu camarada sportinguista de aventura, o Bruno, que por sua vez anunciava em directo e exclusivo, no Facebook, ter feito 856 quilómetros (1723, ao todo) para, afinal, estar a ver a estrutura exterior da estação de metro do Campo Grande. Sim, era aquilo o San Mamés. Com capacidade para 40 mil pessoas, o estádio é tão antigo que uma das centrais está suportada por pilares encaixados… no meio da bancada - leia-se: entre os adeptos. Qualquer coisa como a resposta ingénua dos bascos aos lugares atrás de placards, e portanto sem visibilidade, que, após a edificação do novo José Alvalade, achou-se por bem destinar aos adeptos cegos do Sporting. (Ficção enfrenta Realidade e perde).
Confirmava-se: o ambiente era bem diferente de tudo aquilo que alguma vez tinha visto em estádios de futebol. Não é que, por exemplo, as claques em Bilbao sejam especialmente espectaculares: a esse nível, como os próprios bascos reconheceram, fomos os mais criativos, entusiastas e respeitadores que por lá passaram em anos. A pólvora é mesmo a forma como o estádio inteiro puxa pela equipa a uma só voz, tal como eu próprio já testemunhara nas ruas, no meio deles, a puxar pelos nossos - correu melhor que bem quando tinha tudo para correr mal, um encontro muito à imagem daquele entre escoceses e irlandeses no Braveheart.

Antes da batalha tipo escoceses/irlandeses no Braveheart, travada com abraços

Poucos cânticos, os dos bascos, mas bons. Cada ataque um pretexto. Cada canto uma festa. Cachecóis ao ar: "Athletic! Athletic! Athletic!". Na bancada destinada aos nossos vi o Manzarra à minha esquerda e o Bruno de Carvalho à direita. Antes, na plaza Mouya, o nosso local de concentração, já tinha visto o Eduardo Barroso escondido num impermeável. Nós estávamos no meio do Directivo Ultra XXI. À nossa frente o "maestro" da orquestra era um dos rapazes que caiu ao fosso de Alvalade quando tentava agarrar a camisola oferecida pelo Capel, em Novembro, depois de um jogo com o Leiria. Ao nosso lado enrolavam-se mortalhas e ensaiava-se o cântico que mais pegou esta época, com versos de Baudelaire para cima. "Braços no ar/Todos de pé/Vamos cantar/Sporting Allez". O ambiente era imelhorável, exista ou não este palavrão. A bexiga a apertar. "Tivesses apostado no whisky mais cedo..."

errr...

Foi quando me despachei da casa de banho, reentrando no sector dos nossos adeptos, que fiquei perfeitamente tolo. Da parte de cima daquele cubículo não se via qualquer das balizas. Mesmo eu, mais ou menos numa fila central, não conseguiria, já na segunda parte, ver o remate do Insúa ao poste. Tínhamos pago 65 euros e não víamos as balizas! Mais: havia uma rede de galinheiro, bem grossa, a obstruir-nos a visão. Melhor: no fim do jogo, à saída do sector, topei que havia um mini banco de madeira envernizada que tinha sido colocado na última fila. Interroguei-me se os anões também pagariam 13 contos pelo bilhete. À saída, por outros motivos, o queixo permaneceu caído: em vez de irem festejar a passagem à final para as avenidas principais, centenas de adeptos do Athletic, a maioria deles muito jovens, tinham esperado por nós cerca de 45 minutos - aqueles em que ficámos presos no galinheiro basco por imperativos de segurança - e formaram um cordão humano para nos congratular, isto sob o olhar atento de centenas de polícias com capacetes vermelhos e gorros de assaltantes de bancos enfiados na cara. Quem não se metia com eles era eu. Na memória dos bilbaínos ficara a homenagem que fizemos em Alvalade ao Iñigo, adepto do Athletic morto por uma bala perdida da polícia durante os festejos da passagem às meias-finais da Liga Europa, à custa do Schalke. Homenagem essa, que, de resto, foi por nós repetida em Bilbao, fora e dentro do estádio.

onde está o wally?

A resposta foi uma comunhão leonina tremenda entre os Leões de Espanha e os de Portugal: todos nos aplaudiam e cumprimentavam ao ritmo de "Ésporting! Ésporting!"; pediam, "cambio!", "cambio!" - aludindo à troca de camisolas ou cachecóis; cabisbaixo, afastava-me do San Mamés ao som alheio de "arriba, animo!" e de um muy espanholês "bom juego, Ésporting!". Já num banco de jardim perto do Guggenheim, enquanto acabávamos as cervejas e a quiche com modos beirãos, cheia de tudo, da mãe do Bruno, duas garotas passaram por nós com cachecóis do Athletic ao pescoço e interromperam-nos o repasto com o mais bonito dos coros. "Aupa Sporting!". Na looonga viagem do regresso, sempre a cantar, sempre a cantar, um dilema não deixou de me ocupar as ideias ao volante: "merda para estes bascos, não os podemos odiar nem um bocadinho?". 

Em BIlbao é sempre Euro 2004

Já em solo português parámos numa área de serviço para um último assalto a sanduíches preparadas na véspera. Havia mortadela, chourição e queijo. Houve também um auto-denominado padre católico holandês que foi deixado por um condutor perto do nosso carro e que se aproximou de nós assim que meteu os pés no asfalto. Primeiro perguntou se falávamos inglês ou francês. "Sim". Depois, se íamos para Lisboa. "Vamos, pois". Posto isto, a conclusão: "then i'm going with you!"
Eu olhava o Bruno, o Bruno olhava para mim, ambos olhávamos para o padre católico holandês. O aspecto do prior era, na melhor das hipóteses, assustador. Tinha estampa de atleta de basquetebol, óculos de garrafão e capachinho. Este pormenor fez a diferença: não confio em padres que usem capachinho. Dono do carro, o Bruno tinha algo a dizer sobre a questão da boleia, e o que disse, por mim secundado, não foi do agrado do alegado mensageiro de Deus. "Ok, you're not very friendly!", acusou-nos, para nosso descanso, e apressou-se a procurar boleia com outras pessoas, de preferência que não estivessem trajadas à hora de almoço com as cores de um clube de futebol, a somar duas directas, uma dor localizada no lado esquerdo e vozes de Olavo Bilac de tanto puxar pelo Nosso Grande Amor.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Bilbao Ocupada

Plaza Mouya

Atacar a estrada foi o que fizemos de nós,
E trinta horas quanto soubemos dar de nós.
Não nos faltava razões para ver o mundo.

Tivemos tempo p'ra lembrar o Iñigo.
Recebemos vénias, vénias vos digo.
Antes de cerrar os dentes e jogar.
Bonito foi ver tudo junto a cantar.

Coração apertado, golo do Athletic.
Deixámos arder, deixámos arder.
Empata o Sporting, parecíamos putos.
"Não temos aulas amanhã!"

Mas os bascos são feitos de algo mais.
Apertaram demais. Apertaram demais.
Ficou a carne para os chacais.

O tempo que passou, 
Passámo-lo sem medo. 
Mas o fim do dia chegou,
Tingido de negro.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Apparat

Hoje um colega meu entrevistou um músico brasileiro. Conversaram sobre a cena hip hop ("hipi ópi") local e mundial. A certa altura, a óbvia queixa - a discriminação que as referências  deste género sofrem na hora de ombrear com as do rock ou pop. Vem ao caso que sinto o mesmo relativamente à electrónica, mas a um nível interno. Porque raio a IDM (Intelligent Dance Music) não poderá ser a regra e o David Guetta a excepção? Ecos de céu como este aqui em baixo não chegam para meter 40.000 putos em êxtase no Sudoeste? Quem define o quê?

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Tudo no seu devido lugar

A primeira coisa que fiz aos 29 anos foi, claro, perder o telemóvel. Diz muito de uma pessoa, isto que acabei de escrever. Há muitas razões para se perder o telemóvel. ‘Por tudo’ e ‘por nada’ são as minhas favoritas. Não necessariamente por esta ordem.
 
Gosto especialmente de perder telemóveis em taxis, e ter a exacta noção disso faz com que, hoje em dia, tenha desenvolvido um pequeno pânico quando faço sinal a um fogareiro e obtenho o assentimento para lhe invadir o Mercedes. Acreditem quando vos minto que há perigos à minha espera ali dentro. “Fala com o taxista, diz umas piadas, manda o governo à merda – ‘isto ‘tá mal’ -, mas, pá, não tires o telemóvel do bolso!” Claro que tudo é inútil. Não deixa de ter piada esta novíssima perda. Nas últimas semanas a minha família encheu-me os ouvidos para comprar um telemóvel novo e eu não tive negas a medir: “Esqueçam lá isso, gastar dinheiro por gastar? O que tenho chega bem”. Assim se prova, por a mais b, que os anos passam e sempre era verdade aquilo de que deves fazer o que os teus pais dizem.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Muito fortes...



No estádio ficou a ideia óbvia de um domínio avassalador dos que vestiam a mais bela, a verde e branca. Uma festa bonita em Alvalade, como sempre deve ser o dérbi, para a qual o Sporting se vestiu a rigor e o adversário se esqueceu de aparecer. Eu cá fiz a minha parte: voei pela segunda circular de mota, com um amigo, depois do trabalho, e cheguei a tempo de uma cerveja antes do apito inicial. De volta a casa vi o resumo e confirmei a minha ideia, que pecou por defeito: o jogo foi de sentido único - a baliza protegida pelo sucessor do bom Roberto. As equipas só se igualaram mesmo nas queixas capitais. A saber: um penálti escamoteado para cada lado na primeira parte, sendo que no caso deles era logo no arranque do jogo e no do Sporting o Garay vinha para a rua também muito cedo. Ao Javi Garcia e ao Bruno César também foram poupadas as respectivas expulsões, mas tudo bem. Não fosse hoje noite de São Artur e em vez do 1-0 final tinha havido a reedição dos 7-1, sem favores, tal a forma como os encostámos às cordas. Só o lobo holandês metia três na rede. O Marat fazia o golo do ano. Até o miúdo Rubio podia ter molhado a sopa - bem, até molhou, mas em fora jogo. Fica o sabor doce de aviar o eterno rival com tamanha superioridade em todos os capítulos de jogo e o amargo das Paixões que nos impedem nesta altura de estar na luta pelo título. Resumindo: bom treino antes do Athletic Bilbao, embora menos exigente do que nos jogos com o Metalist e com a cereja no topo do bolo de ver o perna de pau sair de Alvalade de cabeça inchada. Nota: oitava vitória seguida em casa com um só golo sofrido desde que regressou o Ricardo Coração de Leão, agora para nos liderar. Aperta com eles, Sá Pinto!