domingo, 27 de maio de 2012

"Só queres saber de livros e poesia!"

O N. tem várias características boas, mas nutro um especial carinho pela capacidade de dançar como se estivesse a aviar uma moça ao pé coxinho e, mais importante, de dizer quase sempre o que pensa, a menos que se tenha de expressar num idioma que não o português. Aí retrai o discurso, não diz coisa. No máximo sai-lhe uma ou outra mentirinha, coisa hormonal, sem maldade. No dicionário do N., por exemplo, 'casaco' é sinónimo de 'empecilho' para um homem, ainda que em noites frescas. Pele tapada abaixo do cotovelo é para meninos, defende o N, dono de um pequeno ginásio em casa.

E foi no português muito próprio dele, em que faltam pernas aos bois para acompanhar a carroça, que ontem me explicou ser uma seca sair comigo. Acusa o N.: "Só queres saber de livros e poesia!". Senti-me um pouco incomodado, confesso. Não sei o que o levou a esquecer-se de mencionar o Sporting. E vinho. E orégãos. E mulheres bonitas a tentar recuperar o ar. E meter a cabeça do lado de fora da janela do carro para levar com o vento em cheio na tromba quando regresso a casa de noitadas em que me desorganizo com copos. Ontem fui de facto apanhado em flagrante delito: levei-o, juntamente com outro amigo nosso de infância, o M., a beber cerveja e ouvir Smiths no bar do Miradouro de São Pedro de Alcântara. Sentado, agarrado ao i-phone, onde começava a meter-se com uma miúda que não conhecia, via Facebook, o N. teve resposta na ponta da língua ao ser por mim confrontado com a ampla probabilidade de arder no inferno por estar a ignorar a melhor vista sobre Lisboa. "Vês, cultura!!"

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Arrancar pela raíz



Diferente de tantos discos de canções que dizem tanto e tão pouco, sabemos de que fala o novo dos Diabo na Cruz: de um país, o nosso, para sempre adiado. 'Sete preces' cruza rock e tradição que é uma alegria. 'Luzia' é um flamenco para arrepiar daqui a 20 anos, como há dias me arrepiei ao ser surpreendido no rádio do carro por uma música dos Sétima Legião ('Por quem não esqueci'). E macacos me mordam se não oiço ali castanholas, Jorge Cruz! 'Fronteira' é uma aflição, linda de morrer, balada à Fleet Foxes se estes musicassem a causa (desemprego) e consequência (emigração) de tanto português. Devia passar no Telejornal com a mesma atenção com que foi noticiado o fenómeno 'Parva que Sou' dos Deolinda. "Roque Popular" é filho deste tempo, um disco pessoal e transmissível, um perpétuo sobressalto. Amem-no.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Querido carro, gosto muito de ti

Faço-me à estrada rumo ao trabalho e no fim da rua topo um senhor estendido no passeio, de nariz para cima, inerte, pés alinhados. Saco do ponto morto e abandono o carro. Corro 20 metros para acudir o senhor, ou qualquer coisa assim. Do outro lado do passeio três putos de mochila às costas travam o passo e observam. Hesitam, mas aproximam-se. Meios passos. A medo. O senhor estatelado veste uma camisa branca para dentro das calças e traz uma boina. Noto-lhe cor. Abordo-o.

- Chefe, está bem?
- (...)
- Chefe, fale comigo!
- (...)

O senhor não responde mas tira as mãos do sítio. Uff.

- Consegue levantar-se? - pergunto-lhe.
-  (ic!) Não.

Os três putos ajudam o senhor a levantar-se. O senhor agradece.

- Obrigado (ic!)
- Menos pinga, chefe, hein? - sugiro.
- (ic!) – devolve o senhor.

Inverto a marcha e encontro mais gente em redor do meu carro do que havia junto ao senhor até há pouco estatelado no passeio. Percebo que se abana ligeiramente. (O meu carro). Entro.

A chave estava na ignição. O motor nunca deixou de trabalhar. Ocorre-me um pensamento: “foda-se.” Inspiro fundo e empurro o manípulo das mudanças. Primeira. Sigo. Passo por um homem descabelado que me fita de olhos esbugalhados. Por momentos contemplei a hipótese de sintonizar o rádio na RFM - talvez estivesse a passar João Pedro Pais.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Atrás da beleza até ao fim

Bernardo Sassetti (1970-2012)

"Morrer a fotografar numa falésia" devia dar entrada nos dicionários portugueses enquanto expressão sinónima de "cúmulo da dignidade".

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Irra, que gata



Quando a Norah Jones apareceu, há dez anos, andava eu a namoriscar a minha melhor amiga. O álbum de estreia dela (Come Away With Me, 2002) foi muitas vezes a nossa banda sonora no Golf azulão TDI do meu pai, que pedia para levar sempre que a ia buscar a casa, pois tinha um aparato diferente do Clio branquinho cof cof da minha avó - era esse que na altura conduzia. Ela gostava e eu também. (Da  Norah). Daí para cá a minha melhor amiga já se casou - não, não foi comigo - e a Norah Jones tem feito o que pode para apagar a estrita imagem de carinha laroca que faz jazz para burguês adormecer. Percebe-se que pretende ganhar a atenção dos melómanos, ela que já tem a do grande público e respectiva crítica (só em Grammys já vai em 12). Nesse sentido, o quinto disco Little Broken Hearts, nas lojas há poucos dias, é o maior passo rumo ao reconhecimento desse tal público mais exigente. Verdade seja dita que a garota de 33 anos a caminho dos 18 também colaborou com as pessoas certas: Brian "Danger Mouse" Burton é o responsável pela produção do novo álbum, por exemplo. No seu melhor, sem ser tremendo, Little Broken Hearts deixa água na boca. Há aqui um certo tipo de rock a dançar entre vulnerabilidade e mau feitio, dois lados de uma moeda chamada 'perda'. O jazz de restaurante de hotel, esse, ficou à porta. Podemos ouvir Norah Jones dizer à 'Miriam' que a vai matar por amor, o que no caso é dizer que não lida bem com a 'dor de corno'. É um dos melhores temas do disco e encerra com a simpática estrofe,

You know you done me wrong
I’m gonna smile when
I take your life
Mmm, mmm, mmm.

Gosto também muito da faixa cinco, 'Take it Back'. Pop fumarenta, exposta, com direito a reverb na voz da Norah Jones e um teclado emprestado aos Coldplay. Agrada-me que a voz da Norah Jones não esteja sempre presente. O remate do disco é muito forte, com a já mencionada 'Miriam' e, por fim, 'All a dream', sendo que esta foi a primeira música do novo disco que ouvi. Tem ali uns segundos arrasadores, cortesia de um violino. 


Claro que vamos sempre dar ao mesmo, à voz meiga, um pouco aborrecida, da Norah. Cante o que cantar parece que nunca se passa nada com ela. Mas as conquistas da filha do Ravi Shankar estão aí para serem aferidas, na certeza porém de que este post só existe porque não resisti à tentação de mostrar a soberba capa do disco, inspirada no poster do filme Mudhoney (1965), de Russ Meyer.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

San Mamés é outra coisa


Redes de galinheiro e ao fundo, à direita, pilares assentes no meio da bancada, old school

Algures durante quatro anos na Católica a tirar comunicação fui à mesquita de Lisboa entrevistar o sheik David Munir, o imã local, a propósito de um qualquer trabalho. Comigo estavam dois colegas de turma: um de Setúbal, outro de Vila Viçosa. Provavelmente os meus dois grandes amigos do início ao fim da Universidade. O sheik Munir já estava à nossa espera e recebeu-nos com afecto. Conversámos durante horas, os quatro. Entusiasmados, curiosos, nós, miúdos, batemos o recorde mundial de perguntas no menor espaço de tempo, mas o que até hoje conservei foi uma só resposta do sheik. Com as têmporas bem abertas, disse: "o Islão é amor!". Tínhamos sido conduzidos para uma espécie de escritório, e não uma sala de orações, e por isso não tivemos de descalçar os sapatos. Estava ali a prova de que podíamos ter uma tarde agradável sem ser a beber cerveja numa esplanada. (Não comprem isto).

Coisa bem diferente foi aquela que se passou há uma semana no San Mamés, o estádio do Athletic. Antes de a velhinha Catedral de Bilbao ir abaixo, já em 2013 - o novo anfiteatro do clube está a ser construído num terreno ao lado do velhinho -, devo partilhar com o mundo que antes de entrar no estádio os stewards do jogo com o Sporting me obrigaram a... tirar os sapatos. No meu caso, as botas. Não queria acreditar. Praticamente sem voz quando ainda faltavam quase duas horas para o apito inicial, sentei-me num degrau com o whisky em copo de plástico preso pelos dentes e descalcei-me ao mesmo tempo que um adepto dos nossos me passou uma caixinha com pastilhas elásticas. "Nem esta merda pode entrar: tira uma e vai passando!", disse-me, ao que obedeci parcialmente, tirando duas.

"É isto?!"

Visto por fora, o San Mamés assemelha-se a uma fábrica abandonada. "É isto?!", perguntei com não pouco espanto ao meu camarada sportinguista de aventura, o Bruno, que por sua vez anunciava em directo e exclusivo, no Facebook, ter feito 856 quilómetros (1723, ao todo) para, afinal, estar a ver a estrutura exterior da estação de metro do Campo Grande. Sim, era aquilo o San Mamés. Com capacidade para 40 mil pessoas, o estádio é tão antigo que uma das centrais está suportada por pilares encaixados… no meio da bancada - leia-se: entre os adeptos. Qualquer coisa como a resposta ingénua dos bascos aos lugares atrás de placards, e portanto sem visibilidade, que, após a edificação do novo José Alvalade, achou-se por bem destinar aos adeptos cegos do Sporting. (Ficção enfrenta Realidade e perde).
Confirmava-se: o ambiente era bem diferente de tudo aquilo que alguma vez tinha visto em estádios de futebol. Não é que, por exemplo, as claques em Bilbao sejam especialmente espectaculares: a esse nível, como os próprios bascos reconheceram, fomos os mais criativos, entusiastas e respeitadores que por lá passaram em anos. A pólvora é mesmo a forma como o estádio inteiro puxa pela equipa a uma só voz, tal como eu próprio já testemunhara nas ruas, no meio deles, a puxar pelos nossos - correu melhor que bem quando tinha tudo para correr mal, um encontro muito à imagem daquele entre escoceses e irlandeses no Braveheart.

Antes da batalha tipo escoceses/irlandeses no Braveheart, travada com abraços

Poucos cânticos, os dos bascos, mas bons. Cada ataque um pretexto. Cada canto uma festa. Cachecóis ao ar: "Athletic! Athletic! Athletic!". Na bancada destinada aos nossos vi o Manzarra à minha esquerda e o Bruno de Carvalho à direita. Antes, na plaza Mouya, o nosso local de concentração, já tinha visto o Eduardo Barroso escondido num impermeável. Nós estávamos no meio do Directivo Ultra XXI. À nossa frente o "maestro" da orquestra era um dos rapazes que caiu ao fosso de Alvalade quando tentava agarrar a camisola oferecida pelo Capel, em Novembro, depois de um jogo com o Leiria. Ao nosso lado enrolavam-se mortalhas e ensaiava-se o cântico que mais pegou esta época, com versos de Baudelaire para cima. "Braços no ar/Todos de pé/Vamos cantar/Sporting Allez". O ambiente era imelhorável, exista ou não este palavrão. A bexiga a apertar. "Tivesses apostado no whisky mais cedo..."

errr...

Foi quando me despachei da casa de banho, reentrando no sector dos nossos adeptos, que fiquei perfeitamente tolo. Da parte de cima daquele cubículo não se via qualquer das balizas. Mesmo eu, mais ou menos numa fila central, não conseguiria, já na segunda parte, ver o remate do Insúa ao poste. Tínhamos pago 65 euros e não víamos as balizas! Mais: havia uma rede de galinheiro, bem grossa, a obstruir-nos a visão. Melhor: no fim do jogo, à saída do sector, topei que havia um mini banco de madeira envernizada que tinha sido colocado na última fila. Interroguei-me se os anões também pagariam 13 contos pelo bilhete. À saída, por outros motivos, o queixo permaneceu caído: em vez de irem festejar a passagem à final para as avenidas principais, centenas de adeptos do Athletic, a maioria deles muito jovens, tinham esperado por nós cerca de 45 minutos - aqueles em que ficámos presos no galinheiro basco por imperativos de segurança - e formaram um cordão humano para nos congratular, isto sob o olhar atento de centenas de polícias com capacetes vermelhos e gorros de assaltantes de bancos enfiados na cara. Quem não se metia com eles era eu. Na memória dos bilbaínos ficara a homenagem que fizemos em Alvalade ao Iñigo, adepto do Athletic morto por uma bala perdida da polícia durante os festejos da passagem às meias-finais da Liga Europa, à custa do Schalke. Homenagem essa, que, de resto, foi por nós repetida em Bilbao, fora e dentro do estádio.

onde está o wally?

A resposta foi uma comunhão leonina tremenda entre os Leões de Espanha e os de Portugal: todos nos aplaudiam e cumprimentavam ao ritmo de "Ésporting! Ésporting!"; pediam, "cambio!", "cambio!" - aludindo à troca de camisolas ou cachecóis; cabisbaixo, afastava-me do San Mamés ao som alheio de "arriba, animo!" e de um muy espanholês "bom juego, Ésporting!". Já num banco de jardim perto do Guggenheim, enquanto acabávamos as cervejas e a quiche com modos beirãos, cheia de tudo, da mãe do Bruno, duas garotas passaram por nós com cachecóis do Athletic ao pescoço e interromperam-nos o repasto com o mais bonito dos coros. "Aupa Sporting!". Na looonga viagem do regresso, sempre a cantar, sempre a cantar, um dilema não deixou de me ocupar as ideias ao volante: "merda para estes bascos, não os podemos odiar nem um bocadinho?". 

Em BIlbao é sempre Euro 2004

Já em solo português parámos numa área de serviço para um último assalto a sanduíches preparadas na véspera. Havia mortadela, chourição e queijo. Houve também um auto-denominado padre católico holandês que foi deixado por um condutor perto do nosso carro e que se aproximou de nós assim que meteu os pés no asfalto. Primeiro perguntou se falávamos inglês ou francês. "Sim". Depois, se íamos para Lisboa. "Vamos, pois". Posto isto, a conclusão: "then i'm going with you!"
Eu olhava o Bruno, o Bruno olhava para mim, ambos olhávamos para o padre católico holandês. O aspecto do prior era, na melhor das hipóteses, assustador. Tinha estampa de atleta de basquetebol, óculos de garrafão e capachinho. Este pormenor fez a diferença: não confio em padres que usem capachinho. Dono do carro, o Bruno tinha algo a dizer sobre a questão da boleia, e o que disse, por mim secundado, não foi do agrado do alegado mensageiro de Deus. "Ok, you're not very friendly!", acusou-nos, para nosso descanso, e apressou-se a procurar boleia com outras pessoas, de preferência que não estivessem trajadas à hora de almoço com as cores de um clube de futebol, a somar duas directas, uma dor localizada no lado esquerdo e vozes de Olavo Bilac de tanto puxar pelo Nosso Grande Amor.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Bilbao Ocupada

Plaza Mouya

Atacar a estrada foi o que fizemos de nós,
E trinta horas quanto soubemos dar de nós.
Não nos faltava razões para ver o mundo.

Tivemos tempo p'ra lembrar o Iñigo.
Recebemos vénias, vénias vos digo.
Antes de cerrar os dentes e jogar.
Bonito foi ver tudo junto a cantar.

Coração apertado, golo do Athletic.
Deixámos arder, deixámos arder.
Empata o Sporting, parecíamos putos.
"Não temos aulas amanhã!"

Mas os bascos são feitos de algo mais.
Apertaram demais. Apertaram demais.
Ficou a carne para os chacais.

O tempo que passou, 
Passámo-lo sem medo. 
Mas o fim do dia chegou,
Tingido de negro.