segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Aviso: esta música pode fazer mal à saúde



"Man needs something he can hold on to. A nine pound hammer or a woman like you."

Quarto escuro




Ah!, quando ela cerra as pálpebras,
e entra a rodopiar naquele quarto escuro,
e tira a coleira,
e estremece com as hipóteses.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

"Goin' for gold!"

Generaliza-se muito, demasiado, e convém dizer que dos bifes são os irlandeses os que menos piada acham a piadas que metam sexo. Vem ao caso que, mal entrei num bar tradicional da Praia da Rocha, o Ireland's Eye, topei um casal de idade sábia sentado por ali; calmos e divertidos, os irlandeses, a observar os bebadozitos. "Paddy The Punk", um algarvio de gema nascido na Irlanda - está por cá a cantar na época alta, que amanhã termina -, histérico do Manchester United (hein?), animava a malta com a sua versão da versão da Amy Winehouse da 'Valerie' e outras, até que apostou num slow, e algum tipo de mérito tenha a minha memória se me lembrar que música era. Não demorou muito até o tal casal de idade sábia abrir a pista de dança. Ali perto, encostado ao balcão, a iniciar o meu Jameson com água natural, fiz-lhes txim-txim aéreo e, não satisfeito, aplaudi-lhes um passo de dança mais nobre. O senhor, que tinha o nariz muito vermelho, abriu a pestana de admiração e admirado continuou o resto da dança, fitando-me amiúde até ao último acorde, com cara de quem vai aprontar. E assim foi: mal a música acabou, aproximou-se e perguntou: "What you havin'?, ao que respondi "oh!, i'm fine - as you can see, sir, thanks!", disse apontando para o meu copo ainda cheio, e ele semi engasgou-se de propósito e já com a voz clara insistiu, "son, what YOU havin'?", e eu respondi, "this sir, this, Jameson with still water!", e ele sacou da nota que o barman pediu - "five, please" -, pagou-me o copo e cumprimentou-me com o brilhozinho nos olhos de quem se despede de um amigo em casa de quem se passou férias.

"Paddy The Punk" estava em forma e contou a anedota dos preservativos olímpicos. O marido foi às compras e trouxe para casa uma caixa. Deu a notícia à mulher, que ficou intrigada.

"What makes them so special?"
"There are three colours", explicou o marido. "Bronze, silver and gold".
"What colour are you gonna wear tonight?", perguntou a mulher, atrevida.
"Gold, of course".
Ela respondeu: "Really? Why don't you wear silver?"
Marido: "Well, it would be nice if you came second for a change."

A noite prosseguiu pelo Ireland's Eye até perto do fecho da casa, pelo menos para nós. Muito antes, o tal casal de sábios irlandeses levantou-se da respectiva mesa e, já perto da porta de saída, o marido deteve-se e gritou, alto e bom som: "goin' for gold!"

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Outubro

Um privilégio, isto de vir a casa por estes dias. Faço praia. Da boa - banhistas demorados, areia-veludo, mar a 21 graus, cá fora 26.  

Acompanho a minha mãe em viagens pelo imenso areal da nossa costa, cinco quilómetros do farol à praia do alemão, ir e vir - dez, portanto, segundo as contas da Maria Barroso, outrora cúmplice de "olá, bom dia!" da minha avó Vivi, tal como o marido Soares. Oiço a minha mãe explicar como deu nas vistas até que o meu pai a puxasse para dançar nas farras do Lobito, às quais ele, furriel do Exército, chegava sempre mais tarde - isto porque fazia o melhor uso de um salvo-conduto que todas as noites o habilitava a frequentar as sessões de cinema das 22:00 à meia noite.

Ontem à noite levaram três mangas da nossa mangueira, de modo que hoje, quando acordei, a primeira coisa que fiz foi recolher da árvore as duas que já estavam maduras. Levei-as para a mesa e, frente a frente com a minha mãe, comemo-las como macacos, mãos e dentes até ao caroço, ocupando os intervalos dos dentes de teimosos fios de fruto e os cantos da boca de sumo natural.

A manga era o despertador do meu pai em África. Pum, pum, pum, caía uma atrás da outra no jardim diante do quarto da casa dele, no Lobito. Estava a manga para o meu pai como a gaivota para mim ou o galo para a Vivi. 

Melhor do que vítimas de carros em segunda fila. (Deveria haver reuniões de terapia para terceiros anónimos).

sábado, 29 de setembro de 2012

Beirut > tanta coisa

Não fez da humanidade uma roda gigante de braço dado e a saltitar, como a Elephant Gun, mas tenho para mim que por bela e intrigante esta é a grande música dos Beirut. O que daqueles metais sai desvenda o segredo com que esta banda nos conquistou: é belo e simples, directo ao coração. E que dizer deste vídeo?

sábado, 22 de setembro de 2012

Dentro do corpo, o corpo sem corpo a ganhar corpo



0 mal do bem que isto faz é fazer bem demais. Eventualmente chegará o último acorde, e com ele o pesado silêncio, a certeza dos limites, primos de tudo o que é finito. 

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Processos defensivos e cenas


Este é o futebol em que olhar para a baliza adversária se tornou secundário. Marcar golos? Isso pode esperar. A cena agora é anular o rival. Estudá-lo à lupa para depois lhe castrarmos as virtudes. Pressionamos aqui, esperamos acolá. Neste futebol ganha o estatuto de herói da bancada aquele (Gelson) que mais correr atrás deles. Se se der o azar de nos calhar a bola, que se vire sozinho quem a tiver - urge meter pouca gente na frente, a bem dos equilíbrios. Não podemos ser apanhados desprevenidos, Deus nos acuda! 

De modo que um 0x0 ao intervalo é coisa para se aceitar sem estrebuchar muito. Temos tempo para ganhar o jogo. Temos também um recorde do mundo por defeito - dispomos de apenas um ponta de lança no plantel inteiro, o qual remata aos 23 anos com potência e técnica típicas de quem tem 15.

Para o Sá, a primeira grande injustiça do Universo é a fome das criancinhas em África, a segunda consiste na barbárie liderada pelo governo sírio contra o próprio povo e a terceira são todos os resultados desportivos do Sporting que não envolvam o confronto com electricistas dinamarqueses, o que me põe a questionar: se estamos "muito, muito fortes", como ele repete no fim de cada desaire, e não marcamos um golo a ninguém que faça do futebol a sua profissão, o que acontecerá no dia em que jogarmos, vá, "de forma não tão apreciável quanto isso"?