domingo, 11 de novembro de 2012

Nunca tivemos Paris

Penso nas tuas pernas todos os dias. Há pouco vi-as na empregada de limpeza lá de casa e só não lhe pedi que ficasse para jantar porque nunca tiveste bigode. Lembras-te daquele corredor escuro? Nunca fomos tanto como naquela fuga de mãos dadas e em bicos de pés até à casa de banho, nus, com vontamedo de sermos vistos. Ter-te-ia falado no recorde do mundo da visita ao Louvre se soubesses quem é o Godard, claro, montada nessas coxas de cinema serias menina para o bater. Era da maneira que teríamos Paris.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Obama


Muita coisa mudou em quatro anos. Nas fotografias e nos discursos, o Obama continua a ser o presidente que a maioria das pessoas que conheço gostaria de ter, mas perdeu a aura messiânica, foi despromovido à condição de comum mortal. É uma vitória diferente, esta, se comparada com a maravilhosa histeria colectiva que nos contagiou em 2008, que nos fez pensar no Obama como alguém que iria salvar o mundo. Tenho quase a certeza que ele julgava ter nas mãos o poder de fazer o que pensa - e acredito que pensa da forma certa. Mas não é assim que a política funciona, sobretudo nos Estados Unidos. Terá nascido no país errado. Seja como for, não tenhamos dúvidas: um democrata afro-americano que no seu primeiro mandato não invade países para "instaurar democracias" e consegue ser reeleito presidente dos Estados Unidos é coisa do além. Vou adormecer a pensar que nos próximos quatro anos estaremos num mundo menos bélico, menos mau. Vivo melhor com isso.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Vamos só ali casar e já se come o leitão

"... na saúde, na doença e nos petiscos"

Troco, sem pestanejar, uma noitada com a malta por um almoço de família em Quatrim do Norte, depois de Olhão - desde que ficou tácito ser eu o condutor. Vasculhando lá atrás, não consigo encontrar o momento em que virou lei ser eu o condutor dos Coelhos. Não sei se a coisa partiu de mim - talvez me estivesse, algures, a meter em bicos de pés - ou se se tratou de um golpe de psicologia invertida aplicado pelos meus pais, a bem de hábitos mais serenos. Certo é que a coisa pegou. Sinto-me como o Alex da Laranja Mecânica caso o tratamento Ludovico o tivesse iluminado, oh my droogs.

Havia a promessa de um leitão na casa dos meus tios, em Quatrim do Norte, depois de Olhão, e deixámos Portimão bem cedo, antes das 11:30, desfalcados do meu irmão - motivos de gestão. Até há um ano a viagem fazia-se em três quartos de hora pela auto-estrada, mas desde então que, por motivos anti-roubo e alguma adrenalina, o trajecto se faz pela rua EN125. Muita chuva, 17 mil 890 povoações e quase hora e meia depois lá chegámos a casa dos meus tios, o nosso destino - ou assim pensávamos: todo janota, camisa para dentro das calças escuras, sapatos, seco como poucas vezes, o meu tio ordenou-me que não estacionasse ali em casa, de onde saía muita gente, mas desse meia volta e seguisse-o. O destino seria outro. Logo apareceu a minha tia, sorrisão, casaco preto e camisa branca. Os dois putos deles, meus primos, traziam roupa de quem vai para a escola. 

Fiquei confuso mas projectei uma cerimónia de tomada de posse do meu tio como presidente da Junta de Moncarapacho, ele que é vice e um dia substituirá o presidente septuagenário que dança com todas as meninas da região. Sei lá, mesas com fritos e um discurso do meu tio, redondo e a terminar com o indicador e o médio em V.

Mas quem arriscou um entendimento bem audível sobre o imediato foi a minha mãe, que à falta de melhor informação descobre tudo por tentativa-erro. Pior que estragada desde que o irmão lhe pediu para aparecer às 12:45, sem falta, pois haveria lugar a uma "surpresa", ela fez o que sempre faz e chegou à verdade logo ali depois de dias a equacionar hipóteses. Sim, os meus tios iam casar-se pela igreja, 23 anos depois de o terem feito pelo civil.

A minha avó Vivi ficou satisfeita com a novidade, mas o que a deixou mesmo em estado de graça foi ter visto a caravana subir a rampa que dá acesso à igreja de São Sebastião dos Matinhos, onde fez a primeira comunhão há mais tempo do que lhe é possível lembrar. Pelas contas dela, ia para 60 anos desde a última vez que ali tinha estado - estatística não confirmada pela minha mãe, que a viu naquela igreja em tempos bem mais recentes, garantiu-me. Em todo o caso a Vivi é mulher de acreditar no que sente e mal entrou na igreja dirigiu-se ao altar para tomar conta daquilo tudo, agarrando-se aos beijos às santinhas, que receberam um banho de saudade. Já pronto para casar os meus tios com o preceito superior, o padre esperava, pacientemente, que a minha avó lhe desse o lugar. 

Subi ao altar e trouxe-a pela mão.

O casamento foi espectacular. Apresentei-me de calças de ganga, botas, t-shirt dos The Who e barba de festival e em coisa de meia hora já o prior nos mandava de volta a casa do meu tio, onde devorámos a roupinha do porco novo sem piedade. Como manda a tradição, acompanhou-se o leitão com vinho tinto espumante, fresco - a digestão agradece. A Vivi só se sentou depois de andar de canadianas a percorrer os cantos da casa na qual se tornou gente. Uma alegria infinitamente triste tomou conta dela. "Ninguém imagina o que eu trabalhei aqui!", disse, como costuma dizer, mas também ninguém conseguiria adivinhar o quanto ela comeu e bebeu à mesa. O petisco foi uma festa - tanta confusão devia fazer eco do outro lado da fronteira. Brindámos ao segundo casamento dos meus tios e à saúde de todos. O meu pai ficava com o nariz mais vermelho a cada minuto. A minha mãe embebedou-se com metade de meio copo de vinho. Apareceram amigas da minha tia, entusiastas do Tony Carreira. O estardalhaço terá atingido níveis sísmicos. Os putos dos meus tios, um deles já na Universidade, riam-se dos estranhos comportamentos dos adultos depois de terem eles sido gozados quando leram passagens da bíblia com jeitinho de camionistas. O pai da minha tia falou-me nos méritos de um senhor que vende medronho do bom a um preço do melhor e a mãe dela aturava a minha avó a custo - sentada ao lado dela, a Vivi fazia tudo menos calar-se. "Vocês estão a gozar comigo porque eu tenho o-i-t-e-n-t-a e c-i-n-c-o a-n-o-s, mas tomara que cheguem à minha idade!"

O leitão, acompanhado de broa e salada, estava uma delícia. Depois houve bolos de chocolate, medronho, vinho do porto e café. 

No regresso, já noite precoce, a Vivi perguntou-me: "Portei-me bem, filho?" Respondi: "Foste a melhor, Vivi!"

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Daqui a pouco...




A estrada e eu, de novo, sós, e papar quilómetros para me misturar com o que sou, ou fui, gente que se dá, exagerada, de coração rápido. Estar onde devo.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Podes Ser

A miúda de leste, infinitamente feliz desde que empurra um carrinho de bebé, loira, bem sardenta, peito para sobrenutrir dez filhos saliente num corpo de mãos ao barro, por mim passou bonita e vagarosa como um acorde de harpa. Contou, deve ter contado, um, dois, três e virou-se meia fracção antes do momento certo, o do desencontro - percebi, percebeu, sorri(mos).

Um idoso que apressadamente ajeitou os três fios de cabelo à janela do metro logo que a seu lado viu sentar metro e meio de mulher, corpo, alma e adereços anos 20 a evocar o tempo de outras senhoras, o seu tempo, e finalmente digno de a observar sem que ela se sentisse observada por ali ficou em permanente observatório, observei.

A moça dos olhos adormecidos, por quem os adormeceu já esquecidos.

Tu,
Eu.
Nós.

É.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

uis e ais

Ah!, o amor!,
oh!, eterna juventude!
Nas trincheiras dos lençóis
Como cresce, amiúde,

Como toma por beleza,
sem temer que um dia mude
com disfarce de tristeza
tão sincera plenitude.

Manda à fava as ideias
que entende como falsas
de ter algo de nobreza
não meter a mão nas calças,

Não ser coisa de princesa
gritar "uis" e gozar "ais!"
"pobre língua portuguesa
nunca, nunca, nunca mais!"

Ah!, o amor!
essa besta amuada
de um banquete a quatro pernas
não bate ela em retirada,

Desinventa a tristeza
E não vai querer saber
Mente a gosto, com firmeza:
"perdoei-te, vamos fuugir".


sexta-feira, 19 de outubro de 2012

O que não teríamos dado por um amor assim?


No livro Memória das Minhas Putas Tristes, de Gabriel Garcia Márquez, um jornalista que nunca se tinha deitado como uma mulher sem lhe pagar reencontra-se com a adolescente virgem com que se presenteara no dia do seus 90 anos. Nessa noite encontrou-a adormecida, cansada de cozer botões durante o dia. Estava arranjada, mas sem chegar ao ponto de não se lhe reconhecer, naquele momento, o cúmulo da inocência. "El Sabio" não a chegou a acordar, mas, a caminho do século de vida, descobria ali o amor. Quando a voltou a procurar ficou estarrecido com a nova imagem - as pestanas postiças, o tintilar das jóias que lhe cobriam o corpinho, as sapatilhas de veludo, o intenso fedor a perfume barato "que não tinha nada que ver com o amor". O jornalista adivinhou que ela já tivesse deixado de receber clientes a dormir, ou, pelo menos, que estes não a acordassem, e teve um ataque de fúria que destruiu o quarto do prostíbulo. Dona da casa, na porta, em camisa de dormir, Rosa Cabarcas exclamou: "Meu Deus! O que não teria eu dado por um amor como este!"

O mesmo não pode dizer o A., que já o tem, e bem o pode agradecer à sua Maria da Felicidade (MF), como o mundo dela a conhece. Não que, tanto quanto contou a este Castelo, a MF tenha espatifado copos, lâmpadas e jarras contra a parede, como El Sabio fez, louco de ciúme. Não: nesta história as paredes serão bem tratadas, o amor prevalece e só o plágio fica mal na fotografia. 

No final do ano passado as coisas não sorriam à MF. "Queria chegar até ele. Nessa altura tinha-me dado para trás porque achava que a nossa relação não teria futuro - porque tinha um passado muito presente na vida dele e por outros motivos que se calhar só ele saberá explicar."

Muito boa gente teria desistido, entregando-se às más energias, mas a MF sentia que o sentimento era mútuo: jogou esse destino à fava e começou a moldar o dela. Lembrou-se do seu desbloqueador de conversa favorito, "Sabes o que me apetece? Ser feliz", e associou-o uma conversa com o A. - este, questionado sobre o que queria da vida, respondeu, "Eu quero é ser feliz".

A MF percebia de street art, cortesia do próprio A., e uma coisa levou a outra - à criação de um stencil, concretamente. "Em dois dias tinha o stencil cortado. Fiz uma prova em casa. Ao terceiro dia fui pela primeira vez para a rua. De noite. E fiz o primeiro na rua dele, claro, para que o pudesse ver o mais rápido possível". 

A mensagem "Eu quero é ser feliz", à qual a MF juntou um coração, foi pintando paredes de lugares com histórias comuns - além de ganhar corpo no Facebook e na blogosfera -, mas, raios, o A. teimava em não abrir a pestana e teve de ser a própria MF a contar-lhe tudo. Levou-o ao Adamastor, a pretexto de lhe uma dar prenda de natal, conduziu-o à parede que mereceu o segundo stencil, colocou uma fita de embrulho e disse, "Feliz Natal."

"Não demorou muito até o ter junto a mim, até hoje."


Outra coisa que demorou pouco foi o mediatismo ganho pelo stencil, nomeadamente via Internet. A página do Facebook Fotos de Rua deu-lhe destaque. A MF ficou satisfeita, primeiro, surpreendida, depois, e por fim revoltada: a responsável pela página registou a marca, fez uma parceria com a Culto Decor, uma empresa de decoração, e criou uma linha de vinis decorativos à laia de stencils como o dela. Para uma mulher apaixonada foi difícil relacionar o impulso que conduziu àquela expressão artística e o facto de haver quem ande a lucrar à custa disso. 


Mas tudo ganhou outro tipo de contornos quando ela soube que o estilista Nuno Gama andava a ser aclamado nos media e redes sociais por ter colocado modelos a desfilar na passerelle da Moda Lisboa 2012 com uma t-shirt cujo desenho lhe era especialmente familiar. "Acho que nunca fui tão radical na minha vida" disse, então, Nuno Gama aos jornalistas, não ficando claro se o estilista se referia ao cariz político conferido ao desfile, ao plágio, ou a ambos, bem enroladinhos.

Contactado pela MF, Nuno Gama limitou-se a responder, "como pode verificar a imagem no global nada tem a ver com a sua, nem nunca teve..."

Maria da Felicidade não pretende invocar direitos, mas gostaria que se soubesse que "o stencil tem dono, e não é o senhor Nuno Gama." Importante, mesmo, para a MF, é saber que, pelo A., valeu a pena viver esta história. "Todos os minutos passados com ele valem a pena".