quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Um Castelo na Escócia Song Awards 2012


Numerar a lista das minhas músicas preferidas do ano, ou daquelas que mais ouvi - dá no mesmo, certo? -, é um bocado parvo. Perdi a inocência. Acontece. (Mas os meus cereais favoritos continuam a ser Chocapic).

Por ordem mais ou menos alfabética:

Adorn, Miguel



Elephant, Tame Impala



Get got, Death Grips



Gray goes black, Mark Lanegan



Feels like we only go backwards, Tame Impala



Fronteira, Diabo na Cruz



Her Fantasy, Matthew Dear



Lady, Chromatics



Leonard, Sharon Van Etten



Kill for love, Chromatics


Myth, Beach House



Ruins, Portico Quartet



Serpents, Sharon Van Etten



Sete Preces, Diabo na Cruz



Sleeping Ute, Grizzly Bear



St. Louis Elegy, Mark Lanegan



The house that heaven built, Japandroids



Thinking about You, Frank Ocean

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Aqui oficial esmerado: quer fumar, vá para outro lado

Momento solene: sr. Luís a colar-me as botas

Paredes meias com uma drogaria e de frente para uma loja de artigos de equitação é possível encontrar a oficina do sr. Luís. Ao contrário de outros sapateiros de Portimão, mais folgados, o sr. Luís está sempre disposto a cozer, apertar ou endireitar, serviços que não compensam o trabalho que dão, mas, também por isso, segundo se diz, até de Monchique o procuram.

A oficina é afunilada e permite-lhe movimentar-se na medida de três passos para a frente e dois para os lados. Nós, os clientes, podemos rodar sobre nós próprios. O resto será pisar clientes. Sabe quem já lá foi que à terceira pessoa da fila já caberá um dos pés na rua, e, nos dias de maior procura, os mais desprotegidos da sociedade aproximam-se da entrada sob a ilusão de que estará alguém por ali a oferecer dinheiro - não encontram outra explicação para tanta gente junta.

A decoração do espaço reflecte o carácter interessado do sr. Luís. A cercar pilhas de sapatos, leis de bom senso dominam as paredes laterais; a parede dos fundos é controlada pelo olhar fixo da loira do mês de Dezembro; um casal de periquitos assobia à entrada.


O Sr. Luís vê num povo ignorante um povo inútil. É um comunicador e um agitador. Tão certo será vê-lo aceitar todo o tipo de encomendas como a não ter tempo de as aviar no prazo devido, tal o tempo que lhe levam os insistentes apelos à consciência colectiva, contra o poder da sociedade conservadora. Interessou-se por mim quando lhe mostrei as minhas botas e respectivas mazelas. Acrescentei que era jornalista. Sugeriu-me que pensasse mais no associativismo, pois só assim poderia a imprensa resistir ao patronato corrompido, e daí saltou para a valorização de uma boa leitura destes tempos com base na Revolução Francesa. Já o sr. Luís acabava com o Estado Novo quando uma cliente que esperava há três dias por um par de botas lhe perguntou se estaria a ser gozada por ele, tal o atraso na entrega. Foi secundada por um senhor até aqui pacientemente sentado à entrada.

"Ó homem deixe lá o Salazar e arranje as botas!", pediu o senhor sentado, que depressa se virou para mim e aplicou-me um safanão de cotovelo. "Não vê, não vê que ele fala com os dedos?".

A cliente insistia em pedir explicações ao sr. Luís pela demora, o que deixou o sapateiro menos animado para discorrer sobre a Revolução Francesa do que para cozer e endireitar. A reprimenda surtiu efeito e em menos de nada tinha as minhas botas de volta, como novas. O custo de tanto cortar, apertar e colar: 4,5 euros.

Despedi-me com afecto, às cabeçadas com a minha consciência colectiva.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

M

Disse-lhe ao telefone que o plano era invadir uma festa de inauguração de casa para a qual não tínhamos sido convidados. Primeiro hesitou; depois pediu-me quinze minutos. Teve vinte. Apanhámo-la à porta de casa, já depois de termos ido a uma mercearia de indianos comprar litrosas e um queijo duro, o nosso contributo. Em vinte minutos percebemos que se pôs mais bonita do que muitas mulheres conseguirão em toda a vida.

SCP



Gostava que estivesses aqui. Não estás.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Parabéns à Mãe Coelho!


Dá-se o caso de que a mais bela das mulheres que Angola viu nascer tornou-se mais tarde minha mãe. Não tem lá muito juízo, a Fatinha, mas, aqui entre nós, bem sabemos como isso é pouco importante quando se tem um coração gigante como o dela. A Mãe Coelho é uma Força da Natureza. Fosse eu personagem de banda desenhada e seria o Gastão - é muita sorte junta.

sábado, 17 de novembro de 2012

Lisboa, oito da manhã

Ao grito de comando (portas do comboio a abrirem), do outro lado da linha, uma massa humana avançava, muda, para a rua. Ouvia-se o som incoerente de passos arrastados, trabalhadores com o desconsolo de um exército em retirada. Era vê-los, curvados, acompanhando o movimento dos próprios pés, talvez não quisessem fitar o horizonte, onde o futuro fica mais nítido - a recompensa pelo trabalho tornou-se incerta e frequentemente insuficiente. Depois deles, outros. Mudos. Muitos. De onde os via pareciam-me os mesmos, mas não tinha como provar a coincidência. Cheguei a casa a compreender que nunca tinha visto junta tanta gente desencantada.