sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Coisas que se bastam

É uma desordem, é violento, aperta, aperta, é o piano do Chopin (fechar os olhos), o violino do Tiersen (abri-los!), o golo do Sporting (confusão, confusão), nunca perde, só cresce, só cresce.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

On the Road: operação de resgate da 'minha' história


Já leram o On The Road? É belo, incansável e simples – alguém amargurado chamar-lhe-á ingénuo – e recupera-nos a procura do “uau!” como mote de vida e utiliza expressões como American Saint e tem pouco, pouquinho a ver com o mau filme pornográfico, se é que os há bons, que o Walter Salles se lembrou de fazer, mas, que diabo, talvez lhe agradeça ter-me motivado a salvar a história que cá dentro construíra, nas duas vezes que devorei o livro, com a terceira leitura que está em andamento tipo solo do Charlie Parker pa-ra-pa-ra-pa-pa-ta-ta-ti-ta-ta-ta.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Godinho: qual é a parte do RUA que não percebes?



Já vi um ministro das finanças penhorar a sanita de uma casa de banho do estádio de um clube por dívidas ao fisco, e falo do clube que ao mesmo tempo era folgado de tesouraria o suficiente para oferecer “fruta” e “chocolate” aos árbitros de modo a construir a hegemonia que hoje tem no futebol português.

Já vi o clube do outro lado da rua erigir uma capelinha onde se pudesse orar antes dos jogos, e falo do clube que pagou o Futre com dinheiros públicos para depois andar a mendigar junto dos respectivos adeptos, a bem da sobrevivência.

Mas não, nunca vi uma coisa assim, um boneco que tresanda a mofo, infinitamente incompetente, estar não só apostado em destruir um dos grandes clubes desportivos que o mundo já conheceu como confiar que o vai conseguir - tudo o indica, por este caminho. Ganha vergonha na cara e sai, palerma.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Um Castelo na Escócia Song Awards 2012


Numerar a lista das minhas músicas preferidas do ano, ou daquelas que mais ouvi - dá no mesmo, certo? -, é um bocado parvo. Perdi a inocência. Acontece. (Mas os meus cereais favoritos continuam a ser Chocapic).

Por ordem mais ou menos alfabética:

Adorn, Miguel



Elephant, Tame Impala



Get got, Death Grips



Gray goes black, Mark Lanegan



Feels like we only go backwards, Tame Impala



Fronteira, Diabo na Cruz



Her Fantasy, Matthew Dear



Lady, Chromatics



Leonard, Sharon Van Etten



Kill for love, Chromatics


Myth, Beach House



Ruins, Portico Quartet



Serpents, Sharon Van Etten



Sete Preces, Diabo na Cruz



Sleeping Ute, Grizzly Bear



St. Louis Elegy, Mark Lanegan



The house that heaven built, Japandroids



Thinking about You, Frank Ocean

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Aqui oficial esmerado: quer fumar, vá para outro lado

Momento solene: sr. Luís a colar-me as botas

Paredes meias com uma drogaria e de frente para uma loja de artigos de equitação é possível encontrar a oficina do sr. Luís. Ao contrário de outros sapateiros de Portimão, mais folgados, o sr. Luís está sempre disposto a cozer, apertar ou endireitar, serviços que não compensam o trabalho que dão, mas, também por isso, segundo se diz, até de Monchique o procuram.

A oficina é afunilada e permite-lhe movimentar-se na medida de três passos para a frente e dois para os lados. Nós, os clientes, podemos rodar sobre nós próprios. O resto será pisar clientes. Sabe quem já lá foi que à terceira pessoa da fila já caberá um dos pés na rua, e, nos dias de maior procura, os mais desprotegidos da sociedade aproximam-se da entrada sob a ilusão de que estará alguém por ali a oferecer dinheiro - não encontram outra explicação para tanta gente junta.

A decoração do espaço reflecte o carácter interessado do sr. Luís. A cercar pilhas de sapatos, leis de bom senso dominam as paredes laterais; a parede dos fundos é controlada pelo olhar fixo da loira do mês de Dezembro; um casal de periquitos assobia à entrada.


O Sr. Luís vê num povo ignorante um povo inútil. É um comunicador e um agitador. Tão certo será vê-lo aceitar todo o tipo de encomendas como a não ter tempo de as aviar no prazo devido, tal o tempo que lhe levam os insistentes apelos à consciência colectiva, contra o poder da sociedade conservadora. Interessou-se por mim quando lhe mostrei as minhas botas e respectivas mazelas. Acrescentei que era jornalista. Sugeriu-me que pensasse mais no associativismo, pois só assim poderia a imprensa resistir ao patronato corrompido, e daí saltou para a valorização de uma boa leitura destes tempos com base na Revolução Francesa. Já o sr. Luís acabava com o Estado Novo quando uma cliente que esperava há três dias por um par de botas lhe perguntou se estaria a ser gozada por ele, tal o atraso na entrega. Foi secundada por um senhor até aqui pacientemente sentado à entrada.

"Ó homem deixe lá o Salazar e arranje as botas!", pediu o senhor sentado, que depressa se virou para mim e aplicou-me um safanão de cotovelo. "Não vê, não vê que ele fala com os dedos?".

A cliente insistia em pedir explicações ao sr. Luís pela demora, o que deixou o sapateiro menos animado para discorrer sobre a Revolução Francesa do que para cozer e endireitar. A reprimenda surtiu efeito e em menos de nada tinha as minhas botas de volta, como novas. O custo de tanto cortar, apertar e colar: 4,5 euros.

Despedi-me com afecto, às cabeçadas com a minha consciência colectiva.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012