"The only people for me are the mad ones, the ones who are mad to live, mad to talk, mad to be saved, desirous of everything at the same time, the ones who never yawn or say a commonplace thing but burn, burn, burn like fabulous yellow roman candles exploding like spiders across the stars." J. Kerouac
O professor ensina, os putos aprendem. É isto. Tem de ser isto.
Votei no Bruno de Carvalho, festejei a eleição dele como uma grande conquista do Sporting, mas vou cobrar. Desde logo, a continuação do Jesualdo. Os pontos na era dele conquistados ajudam, mas é o futebol dos putos que mais seduz. O crescimento táctico. Os mecanismos. A confiança. A resiliência. A união. A aposta num onze tipo. Pequenas coisas que dão trabalho e só resultam com quem percebe (mesmo) da coisa.
É o homem certo para ajudar a xavalada a potenciar o inesgotável talento que tem. Independentemente de se chegar à Europa ou não, por muito que custe escrever isto - e custa muito. Chega de aventuras. Haja juízo. Haja paciência. Isto melhora.
Na calada da noite irrompe um harmonioso assobio. Daqueles que quase irritam: como se atreve aquela pessoa a assobiar assim, tão airosa, tão feliz? Cuspo um fio de vinagre e interrompo a respiração para que ruído algum abafe o assobio; depois retomo-a, senão este texto já não sai. É um assobio muito bonito, podia ser de um tordo apostado em colorir a paisagem urbano-depressiva, só que sai demasiado forte, é sem dúvida humano. Tem um jeito marialva, quer e faz-se ouvir - lembra o Bruma e o Carrillo a fazer pouco dos defesas do Gi Vicente, tal a lata.
Oiço-o com admiração, o assobio - toda a força criadora da primavera está ali. Vou à janela, espreito lá para baixo à procura do culpado. Encontro-o: é o homem do lixo.
Saio
de casa mais cedo. Coisas a resolver nas finanças. Faço-me à calçada
portuguesa. Perigos no chão (aquela moda dos donos de cães a agachar-se com um
saco de plástico na mão já era) e no ar (raides aéreos de pombos). Temperatura
boa. Desço e subo colinas, um bom teste para o joelho que magoei na manhã de
Natal, o segundo teste depois de ter voltado a jogar à bola no sábado de manhã,
com os olhos bem vermelhos e quatro horas de descanso no corpo.
Tiro o casaco - já suo. Chego à repartição das finanças desejada. Demoro
cerca de um minuto a tentar compreender qual das senhas devo tirar. Tiro três –
antes prevenir. Nem me sento. A sala de espera
está cheia: há uma média de 20 pessoas à minha frente em cada uma das senhas.
Ocorre-me que, a enganar-me no balcão devido, terei de me enganar rapidamente
de modo a ainda apanhar a minha vez num dos outros dois para os quais tenho senhas. Dez, vinte, trinta minutos à espera. Torna-se curta
a hora que tenho para resolver as coisas.
Aproxima-se um senhor com uma boina perfeita. Sobrancelhas carregadas e
brancas. Mãos trémulas. Voz idem. Pede-me para lhe tirar uma senha ‘E’. Assim
faço.
“Ooo-bri-ga-do.”
“Ora
essa, chefe!”.
Quarenta minutos. Cinquenta. Observo um quadro com informações. Diz assim: “PODES ESTAR
AÍ À VONTADE COM CARA DE QUEM ACHA QUE SE VAI DESPACHAR AINDA HOJE, SEM CHEGAR
ATRASADO AO TRABALHO, PORQUE SE OLHARES BEM PARA A TUA CARTEIRA NÃO TENS LÁ O
CARTÃO DO CIDADÃO.”
O tempo uniu o meu irmão ao Inverno. Não escrevo isto para
que soe bem, ele gosta mesmo de frio e chuva, de um certo ambiente de fim de
mundo. E tanto gosta ele de tais encantos que, a custo, moído por uma noite
longa, lá tirou o corpo da cama numa tarde pouco agradável e foi mexer os ossos
para o passadiço de Alvor. Eu fui atrás, desconfiado. A minha mãe também. A habitual confusão de atletas, casais e cães naquela zona
que envolve a ria de Alvor dava lugar a coisa nenhuma. À primeira vista
estávamos sozinhos - enganei-me -, o que não me surpreendeu, dado que chovia e
bem. Já no passadiço, e portanto à chuva, cruzámo-nos com
dois cães que brincavam. Ao ver-nos passar por eles, acompanharam-nos em
silêncio, muito dignos, durante centenas de metros. De fato de treino, o meu
irmão ria-se; de calças de ganga, eu apercebia-me que já tinha o tecido bem colado às pernas. Mais à frente cruzámo-nos com um casal de
estrangeiros. A minha mãe ficara no carro. “Está a chover”, constatou. Voltámos como volta quem esteve meia hora à chuva. O meu irmão, satisfeito,
conseguira despertar o corpo moído ao mesmo tempo que contemplava a natureza
sem cor ou temperatura humana - perfeito. Eu, que me tinha portado bem na
véspera, ganhei pingos no nariz e a voz do Richard Hawley.
Gosto do Couceiro, mas vou votar no Bruno de Caravalho.
Há qualquer coisa naquele ar de "quero, posso e mando" que molda com mãos de oleiro o Bruno de Carvalho ao cargo de presidente de um clube de dimensões bíblicas como o Sporting Clube de Portugal. O Bruno de Carvalho é aquele puto arrogante, sempre chateado com o mundo, que namora a miúda mais gira da turma. O Couceiro, o puto porreiro, questiona, "mas que tem ele que eu não tenha?!", mas não encontra uma explicação que o próprio entenda. No fim das aulas é com o outro que ela sai de mão dada. (Pouco popular, o Severino acumula negativas nos testes e falta frequentemente às aulas para se meter a fumar com um amigo atrás do pavilhão).
Será Bruno. Tem de ser. o roquetismo está por horas. A brigada do croquete vai dispersar. A pouca vergonha vai acabar. O Sporting voltará a ser servido, não a servir. Foi para ver chegar as eleições de amanhã que me fiz sócio: um dia, se isto correr mal, como diz um amigo, terei o consolo de ter feito algo pela vontade de mudar.