Que tenham estranhado o hino português, acho normal: só o André Almeida tinha obrigação de o conhecer; que não tenham esperado pela entrega da Taça de Portugal ao Vitória, também não me faz grande espécie: a grande maioria dos jogadores que vestiam de encarnado tem origem no lado de lá do Atlântico, e provavelmente estariam com pressa para fazer o check-in no aeroporto; agora terem deixado o meu vizinho de Boliqueime de mão estendida por não o reconhecerem enquanto presidente da república portuguesa... tss, tss. "Bolo-rei para todos" não vos diz nada?!
"The only people for me are the mad ones, the ones who are mad to live, mad to talk, mad to be saved, desirous of everything at the same time, the ones who never yawn or say a commonplace thing but burn, burn, burn like fabulous yellow roman candles exploding like spiders across the stars." J. Kerouac
terça-feira, 28 de maio de 2013
sexta-feira, 24 de maio de 2013
Alegria
Pedi peixe no forno e dei cabo daquilo na esplanada. Acompanhei com duas minis. Que coisa tão boa. Peixe no forno é uma das iguarias mais subvalorizadas da nossa gastronomia, seguido de perto pelo "Doce além de bom" da minha mãe e das bifanas n'O Típico, na Praia da Rocha.
Já de café bebido, puxei do "i". Repleta de bonequinhos com cara de poucos amigos e gente ao lume ou pendurada pelo pescoço, a foto de capa era alusiva à nomeação urgente de oito exorcistas por parte da Igreja de Espanha, alarmada que está com o aumento de pedidos de ajuda relacionados com influências demoníacas. Fiquei a saber, aliás, que a diocese de Madrid ponderou criar uma linha telefónica para atender pessoas perturbadas. A ideia foi tratada com carinho, mas descartada. Ao longe, na praça, uma banda tocava "Where is My Mind", dos Pixies. Os instrumentos faziam-se ouvir com precisão e a voz da vocalista fazia-se ouvir demasiado. Um golfinho estremeceu à superfície, no Tejo. Era a vocalista tão discreta a disfarçar a adolescência como um espanhol a falar inglês. Paguei, elogiei a cozinheira - bigode assimétrico - e fui espreitar o que se passava.
Como é suposto, a praça estava cheia de velhotes a jogar às cartas nas zonas mais protegidas do sol, cortesia das árvores que por ali abundam, mas hoje também se via povoada de gente nova. Pensei que seria a entourage da banda que ali fazia o soundcheck para o concerto que deverá acontecer daqui a bocado, dada a intermitência com que tocavam.
Não resisto à reacção dos mais desprevenidos, distraídos ou desabituados a um soundcheck. Tudo a olhar uns para os outros, a coçar a cabeça. É um dos meus passatempos preferidos.
Alguns metros diante do palco formava-se um círculo cada vez maior de miúdas, primeiro em pé, depois sentadas. Muitas delas vestiam roupas escuras, botas e meias de renda. Bebiam cerveja e trocavam beijos. Um casal. Dois. Perto do grupo, uma cigana vendia-impingia balões. Um deles, do Mickey, derreteu a filha de uma princesinha algures da Europa de Leste que se tinha sentado ao meu lado, junto da mãe, esta talvez da minha idade - rosto pálido, belo e cansado. A mãe não lhe comprou o balão.
Ao fundo, uma banquinha da JCP, com folhetos a protestar contra os cortes do Gaspar. Ouvi uns putos semi-bêbados (4/5 imperiais) imitar um cântico comum às claques do Sporting.
"Braços no ar!
Todos de pé! Vamos cantar!
Camões allez!
Camões allezzzzzz (...)"
Fiquei perturbado. Serão estes os miúdos os homens de amanhã?! - questionei. "Tá tudo fodido", conclui.
A tudo indiferente, um puto fintava as pessoas aos S enquanto a irmã baixava as calças no centro da praça para fazer xixi. Os pais estavam por ali. Pareceu-me uma família equilibrada: o puto corria atrás da bola, a qual pontapeava com a força possível; o pai corria atrás do puto, reparando estragos com sorrisos; a mãe corria atrás do pai, a ralhar por ele não ralhar com o puto; a irmã corria atrás da mãe, já com o xixi feito, mostrando os dentes a toda a gente, satisfeita.
A dada altura o puto desinteressou-se da bola porque encontrou a princesinha algures da Europa de Leste. Aproximou-se com curiosidade e fez olhos grandes. A princesinha riu-se muito. Depois, irremediavelmente apaixonado, o puto levantou a blusa para lhe mostrar a barriga e desatou a pular. Ainda estava aos pinotes quando me vim embora.
A tudo indiferente, um puto fintava as pessoas aos S enquanto a irmã baixava as calças no centro da praça para fazer xixi. Os pais estavam por ali. Pareceu-me uma família equilibrada: o puto corria atrás da bola, a qual pontapeava com a força possível; o pai corria atrás do puto, reparando estragos com sorrisos; a mãe corria atrás do pai, a ralhar por ele não ralhar com o puto; a irmã corria atrás da mãe, já com o xixi feito, mostrando os dentes a toda a gente, satisfeita.
A dada altura o puto desinteressou-se da bola porque encontrou a princesinha algures da Europa de Leste. Aproximou-se com curiosidade e fez olhos grandes. A princesinha riu-se muito. Depois, irremediavelmente apaixonado, o puto levantou a blusa para lhe mostrar a barriga e desatou a pular. Ainda estava aos pinotes quando me vim embora.
quarta-feira, 15 de maio de 2013
terça-feira, 30 de abril de 2013
Jesualdo Ferreira: obviamente para ficar
![]() |
| O professor ensina, os putos aprendem. É isto. Tem de ser isto. |
Votei no Bruno de Carvalho, festejei a eleição dele como uma grande conquista do Sporting, mas vou cobrar. Desde logo, a continuação do Jesualdo. Os pontos na era dele conquistados ajudam, mas é o futebol dos putos que mais seduz. O crescimento táctico. Os mecanismos. A confiança. A resiliência. A união. A aposta num onze tipo. Pequenas coisas que dão trabalho e só resultam com quem percebe (mesmo) da coisa.
É o homem certo para ajudar a xavalada a potenciar o inesgotável talento que tem. Independentemente de se chegar à Europa ou não, por muito que custe escrever isto - e custa muito. Chega de aventuras. Haja juízo. Haja paciência. Isto melhora.
terça-feira, 9 de abril de 2013
Em perspectiva
Na calada da noite irrompe um harmonioso assobio. Daqueles que quase irritam: como se atreve aquela pessoa a assobiar assim, tão airosa, tão feliz? Cuspo um fio de vinagre e interrompo a respiração para que ruído algum abafe o assobio; depois retomo-a, senão este texto já não sai. É um assobio muito bonito, podia ser de um tordo apostado em colorir a paisagem urbano-depressiva, só que sai demasiado forte, é sem dúvida humano. Tem um jeito marialva, quer e faz-se ouvir - lembra o Bruma e o Carrillo a fazer pouco dos defesas do Gi Vicente, tal a lata.
Oiço-o com admiração, o assobio - toda a força criadora da primavera está ali. Vou à janela, espreito lá para baixo à procura do culpado. Encontro-o: é o homem do lixo.
segunda-feira, 8 de abril de 2013
Amanhã acordo mais cedo
Saio
de casa mais cedo. Coisas a resolver nas finanças. Faço-me à calçada
portuguesa. Perigos no chão (aquela moda dos donos de cães a agachar-se com um
saco de plástico na mão já era) e no ar (raides aéreos de pombos). Temperatura
boa. Desço e subo colinas, um bom teste para o joelho que magoei na manhã de
Natal, o segundo teste depois de ter voltado a jogar à bola no sábado de manhã,
com os olhos bem vermelhos e quatro horas de descanso no corpo.
Tiro o casaco - já suo. Chego à repartição das finanças desejada. Demoro
cerca de um minuto a tentar compreender qual das senhas devo tirar. Tiro três –
antes prevenir. Nem me sento. A sala de espera
está cheia: há uma média de 20 pessoas à minha frente em cada uma das senhas.
Ocorre-me que, a enganar-me no balcão devido, terei de me enganar rapidamente
de modo a ainda apanhar a minha vez num dos outros dois para os quais tenho senhas. Dez, vinte, trinta minutos à espera. Torna-se curta
a hora que tenho para resolver as coisas.
Aproxima-se um senhor com uma boina perfeita. Sobrancelhas carregadas e
brancas. Mãos trémulas. Voz idem. Pede-me para lhe tirar uma senha ‘E’. Assim
faço.
“Ooo-bri-ga-do.”
“Ora
essa, chefe!”.
Quarenta minutos. Cinquenta. Observo um quadro com informações. Diz assim: “PODES ESTAR
AÍ À VONTADE COM CARA DE QUEM ACHA QUE SE VAI DESPACHAR AINDA HOJE, SEM CHEGAR
ATRASADO AO TRABALHO, PORQUE SE OLHARES BEM PARA A TUA CARTEIRA NÃO TENS LÁ O
CARTÃO DO CIDADÃO.”
segunda-feira, 1 de abril de 2013
Chuvinha é que é bom
O tempo uniu o meu irmão ao Inverno. Não escrevo isto para
que soe bem, ele gosta mesmo de frio e chuva, de um certo ambiente de fim de
mundo. E tanto gosta ele de tais encantos que, a custo, moído por uma noite
longa, lá tirou o corpo da cama numa tarde pouco agradável e foi mexer os ossos
para o passadiço de Alvor. Eu fui atrás, desconfiado. A minha mãe também. A habitual confusão de atletas, casais e cães naquela zona
que envolve a ria de Alvor dava lugar a coisa nenhuma. À primeira vista
estávamos sozinhos - enganei-me -, o que não me surpreendeu, dado que chovia e
bem. Já no passadiço, e portanto à chuva, cruzámo-nos com
dois cães que brincavam. Ao ver-nos passar por eles, acompanharam-nos em
silêncio, muito dignos, durante centenas de metros. De fato de treino, o meu
irmão ria-se; de calças de ganga, eu apercebia-me que já tinha o tecido bem colado às pernas. Mais à frente cruzámo-nos com um casal de
estrangeiros. A minha mãe ficara no carro. “Está a chover”, constatou. Voltámos como volta quem esteve meia hora à chuva. O meu irmão, satisfeito,
conseguira despertar o corpo moído ao mesmo tempo que contemplava a natureza
sem cor ou temperatura humana - perfeito. Eu, que me tinha portado bem na
véspera, ganhei pingos no nariz e a voz do Richard Hawley.
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