segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Sporting 5-1 Arouca: quotas, pinos e poesia


O novo espaço de atendimento ao cliente do Sporting tem o charme de uma lavandaria romena no tempo do Ceausescu - não que alguma vez tenha visto uma, filmes no King à parte. Calma com os cortes, pá. Não era suposto lá estar a meia hora de começar o nosso primeiro jogo do campeonato, mas como sou parvo esqueci-me de pagar as quotas e/ou memorizar os dados para o pagamento via multibanco. Cinco funcionários atendiam centenas, malta como eu, que se esquece de se lembrar de pagar o que deve. 

Esperei meia hora e o número da senha continuava o mesmo, o 51, longe de avançar para o 78, o meu. O jogo que me fez antecipar num dia o regresso das férias começava dentro de cinco minutos. "MERDA". 

Lembrei-me de ligar para o meu irmão: "Joe!, o que tens a fazer é correr para um computador, entrar no meu gmail, procurar os mails do Sporting, entrar no mais recente, sacar os dados para o último pagamento de quotas e enviar-mos por SMS. Já." O meu irmão achou aquilo tudo muito confuso, mas lá me fez a vontade - é de se dizer que por aquela altura eu batia o calcanhar direito de forma insistente, gesticulava ferozmente e maldizia o calor,  os contratempos, o esquecimento e o destino.

De seguida, abri caminho por entre a multidão que se atrasou para o jogo e suava nas filas sem fim e fui de encontro ao multibanco mais próximo. Chegaram-me os dados ao telemóvel, cortesia do meu irmão. Inseri-os. Deu erro. Não me ocorreu, naquele momento, duvidar daqueles dados, na certeza porém de que o montante ali disposto era 48 euros e a quota mensal apenas 12. Irmão é irmão. Certo é que não conseguia fazer o pagamento, por muito que insistisse, de modo que meti a viola no saco e fui para a zona da restauração do Alvaláxia ver a primeira parte numa televisãozinha sem som, acompanhado de mais que muitos sportinguistas que tinham desistido de esperar ao sol por um bilhete, nas filas.

Vi o Arouca meter o primeiro, sem surpresa - segundos antes um antigo ao meu lado tinha-o comunicado para quem pudesse ouvir o que ele próprio já ouvira no rádio. Um dos grandes flagelos da sociedade, e sem conserto, mas ao mesmo tempo algo ternurento, isto dos antigos insistirem em ouvir os relatos via rádio nas casas que mostram os jogos na TV. É como recusar a abandonar um grande amor.

Respondeu à altura o centralão Maurício, que não está ali para brincadeiras: deu uma marrada na redonda e pim!, 1-1. Não festejei por aí além: o tal antigo ao meu lado já anunciara o empate. Aproximava-se o intervalo e regressei à lavandaria romena, onde alguém gritou "golo!". Por exclusão de partes, teria de ser do Sporting. "Montero!", confirmou o meu irmão via SMS.

A lavandaria romena continuava mais composta que muitos estádios de futebol, mas o atendimento acelerou, como que por milagre. Lá me chamaram. A primeira coisa que fiz foi reclamar com o funcionário do balcão 1. "Não consegui pagar a quota e por causa disso perdi a primeira parte!", disse-lhe, mostrando o telemóvel no qual jaziam os dados na SMS que o meu irmão enviara. Mais calmo que o Putin perante um urso polar de jejum há uma semana, o funcionário concordou comigo, notando, contudo, que a quota mensal é de 12 euros, não de 48, o que poderia justificar o erro. Engoli em seco, ri-me - o riso nasce frequentemente do desconforto -, voltei a meter a viola no saco, paguei e corri para a maior Curva de Portugal, onde expliquei ao meu camarada Ricardo Chirola o motivo de chegar ao intervalo quando tinha vindo de propósito de Portimão para ver a nossa estreia no campeonato.

A bola voltou a saltar e celebrámos mais um, dois, três golinhos. No 5-1, o Montero transformou um defesa do Arouca num pino. Quanta pinta. O Sporting tem um ponta de seta com pés de maestro. Foi mais ou menos por aí que me lembrei dos versos que me chegaram aos ouvidos na sexta-feira, por um médico amigo, e que pertencem ao Freitas, um poeta da Guarda que estudou em Lisboa nos anos 70.

"Não sei porque sou leão,
Motivo deve haver, 
E talvez alguma pista.

Mas estou muito agradecido,
A este destino atrevido, 
Que me fez sportinguista."

terça-feira, 30 de julho de 2013

la bronca, carajo!

Disco: Bronca Buenos Aires
Edição: 1972
Música: Jorge López Ruiz
Poemas e recital: José Tcherkaski


Um dedo no cu da ditadura argentina, narrado como um filme da nova vaga francesa e musicado como um clássico. (Há arranjos corais). Todos os músicos foram muito felizes a traduzir em quatro movimentos (La Ciudad Vacía/Relatos/Amor Buenos Aires/Bronca Buenos Aires) a tristeza daqueles tempos. La bronca, carajo!

sexta-feira, 26 de julho de 2013

quarta-feira, 17 de julho de 2013

"A beleza salvará o mundo"


Foi o que o Dostoievski escreveu.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

domingo, 7 de julho de 2013

Deitámo-nos...


a)      em espreguiçadeiras de praia, besuntados de óleo johnson.
b)      numa cama cheia de rosas e acordámos aos espirros.
c)      num calhau gigante, no mato, nus, a ver (as) estrelas.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

03:07

Um casal discute aos gritos na minha rua, no calor da noite - calma, portistas. Não demora muito até aparecer a polícia. (Alguém a chamou, compreendo). Dois agentes entram no prédio devido depois de deixarem o carro parado no meio da estrada com os quatro piscas e a sirene azul ligados. Chega um taxi que no banco de trás transporta uma passageira que tem mais que fazer. Já não oiço o casal; passo a ouvir a passageira. Segundo percebo, não aceita ter o caminho barrado. Um, dois, três minutos. O taxista apalpa a buzina. Não há sinal dos polícias. Quatro, cinco minutos. Buzina de novo apalpada. Seis, sete minutos. Os dois agentes da polícia lá saem do prédio devido e dirigem-se para o carro. A passageira do taxi abre a porta à passagem dos polícias e deixa-os com os ouvidos a arder. 

"Vou ter de pagar mais porque o vosso carro estava no meio do caminho!", queixa-se, com voz de poucos amigos.

O polícia condutor tenta acalmar a passageira. "Se a senhora precisasse de ajuda também gostaria que fossemos rápidos a acudir." 

Erro: ainda ouviu mais. Acto contínuo, o agente baixou as orelhas, escondeu-se no carro, meteu a primeira e seguiu caminho, ladeado pelo colega. Vi o carro da polícia afastar-se com a sirene azul ligada, logo seguido do taxi em cujo banco de trás a passageira gesticulava como um especialista em mímica que pretende traduzir o discurso da Teresa Guilherme num dia mau.