quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

O Nalitzis é um gringo


O que têm em comum o Nalitzis, esse mesmo, o manco que chegou ao Sporting para colmatar a lesão do Niculae, em 2001/2002, na época da dobradinha - em seis meses meteu um golo -, e a forma como na América Latina se trata os anglo-saxónicos, sobretudo a malta dos Estados Unidos? 

Não digo. Quer dizer, já lá vou.

Sempre tive alguns problemas com quem não tem noção das coisas. Com os Estados Unidos, por exemplo. Sim, meteram o Homem na lua, mas o que é aquilo de se auto-intitularem "América"? "God Bless America", como? Do Alaska à Argentina? Não me lixem. 

E há pior. Nos últimos dois anos os Miami Heat foram campeões da NBA para todos os povos que o saibam, mas na "América" são considerados "World Champions". Campeões do mundo, como? Da Califórnia à Papua-Nova Guiné? Não me lixem.

Isto para falar no termo "gringo". Já todos o ouvimos por aí, na televisão, no cinema ou pela boca de algum nativo americano - parece que aquilo é um continente a dar para o grandito e já lá havia uma boa dose de índios antes de os ingleses cruzarem o Atlântico e inventarem os EUA, já depois de a Espanha se ter posto à vontade mais a sul. Pesquisei vários textos sobre a origem do termo e encontrei a explicação mais razoável num site chamado Wikipédia, o qual reza que a culpa é do Shakespeare. Ou melhor, do que diziam os monges latinos na Idade Média, quando era para copiar manuscritos gregos - "Graecum est; non legitur" (em português: "É grego; não percebo uma piroca"). Segundo o tal Wikipédia, que compreendi ser uma fonte de saber sem igual, o Shakespeare aproveitou esta tirada em Júlio César quando escreveu, "(...) Aqueles que o compreenderam trocaram olhares e abanaram a cabeça; mas para mim aquilo era grego". 

É a origem do ditado, "isso para mim é grego", relativo a algo que não se percebe e que ganhou a variação "isso para mim é chinês" em países como a Grécia, onde se percebe o grego perfeitamente.

Outros textos com fontes e datas, certamente inspirados no texto do Wikipédia, concordam na tese de que gringos é a variação fonética de griegos, gregos em espanhol, e aparece pela primeira vez em 1787, no El Diccionario Castellano. Escreve um tal Esteban de Terreros que "gringos era o que se chamava em Málaga aos estrangeiros, os que têm uma certa espécie de sotaque que os priva de uma locução castelhana fácil e natural; e o mesmo em Madrid, e pela mesma causa ou particularidade a respeito dos irlandeses."

Só quase 100 anos depois, em 1849, é que o uso da palavra gringo em inglês seria gravado, ali mesmo a seguir à Guerra dos Estados Unidos com o México (1846-1848), aquela em que os gringos invadiram, ou, segundo os manuais ortodoxos, instalaram-se no Texas.

"We were hooted and shouted at as we passed through Cerro Gordo, Veracruz, and called Gringoes", escreveu John Woodhouse Audubon, um pintor da terra dos livres.

De maneira que, mesmo sem quererem, os Estados Unidos estão a dar um passo maior que a perna e até levam o Nalitzis, que por ser grego também é gringo, pelo menos aos olhos dos povos del Sur. Nova Iorque ou Atenas, dá no mesmo: tudo gringo. Não me lixem...

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

O Cantinflas do rock ligeiro

Entrámos no Buddha Bar de Milfontes durante a pausa do músico que lá ia tocar pela primeira vez, no sábado à noite. Queríamos, e até poderíamos ter chegado a tempo - era o combinado -, mas tivemos de nos demorar na Tasca do Celso porque a mulher do dono nos ofereceu licor de bolota e um cestinho com nozes, amêndoas e figos. O Duarte Gomes também lá estava a jantar. Encheu a boca de sei lá o quê e bebeu cola zero, na companhia de uma garota com dentes de vinho, e em menos de nada se pôs a andar. Gosto de pensar que se desfez em - pronto, nisso mesmo. Ela que seja feliz.

O músico do Buddha Bar de Milfontes trazia uma camisa pálida enfiada numas calças de ganga muito grandes e via por óculos; tinha uma voz grave e desolada; era pequeno como um pinipom.

Recomeçou nas cantigas com a ‘I’m on fire’ do Bruce Springsteen e daí passou para a ‘This is the Life’, da Amy Macdonald. Ocorreu-me pensar nele como o Cantinflas do rock ligeiro. Numa das mesas, tal como na véspera, estava um rapaz que não deve fazer a barba há 15 anos e a namorada, que lembrava a Juliette Binoche e dizia nunca ter acordado ressacada na vida, apesar de lhe dar bem na cerveja. Jogavam ao dominó.

O rapaz da barba até ao umbigo passou a segunda parte do concerto do Cantinflas do rock ligeiro a pedir ‘Ring of Fire’ do Johny Cash, mas não teve sorte porque o músico não tinha nada disso no repertório dele. Não satisfeito, esperou que o Cantinflas abandonasse a guitarra e, quando isso aconteceu, precipitou-se para o palco e atirou-se à ‘Ring of Fire’ alegando estar farto de ver a namorada dar-lhe na tromba no dominó.

Tocava e cantava “(…) The taste of love is sweet (...)’ como se fizesse vida daquilo, e pelos vistos faz. É guitarrista numa banda de destruição maciça chamada 10 000 Russos.

Ainda tocou mais alguns temas e depois regressou à mesa para dissertar sobre a influência do Bob Marley na história da música, que dizia ser coisa nenhuma. “O Lee Perry, os gajos que inventaram o dub, isso sim; o Bob Marley não fez nada que já não tivesse sido feito”, argumentava. Quanto à Rosa, dona do bar que por essa altura já se tinha juntado à confusão, contrapunha que o Bob Marley era muito bom porque ela gostava muito dele.

Começámos a falar de cumbia e em poucos segundos já tínhamos assaltado a aparelhagem com Chicha Libre. Dançámos como macaquinhos, bebemos e os clientes fugiram. “Voltem!”, pediu a Rosa na despedida.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

O Lou Reed é do hip hop



Não sou um histérico do Lou Reed. Mais depressa saco da cartola a altura do Vujacic (acho que um metro e noventa, já confirmo*), um defesa que deixou Belgrado em 1993 (chama-lhe burro) para vestir a nossa verde e branca, do que consigo nomear aqui, de repente, sem recorrer ao Google, três discos com o Lou Reed metido ao barulho.

1 - Velvet Undeground & Nico (o álbum da banana)

2 - Transformer (a solo)

3 - ... hum... já fui.

*Confirma-se: 1,90m.

Dito isto, vou dar o contributo possível à causa post-mortem do Lou Reed e dizer que sempre pensei nele como um homem com olhar de mulher. Interessava-me o estilo; era tudo mais ou menos ao contrário. Desde logo, cantava a falar. Nesse sentido, era muito do hip hop. O Lou Reed parecia um narrador afastado da dor que narrava. As histórias que contava... é como se não fossem nada com ele. Estava bem fodido, o Lou Reed, se a legitimação dele como bandeira do rock-para-gente-mais-ou-menos-perdida dependesse de rasgar as vestes e bater com os punhos no peito.

Passei e continuo a passar tempo de qualidade com o álbum da banana. Acho adorável que, enquanto líder dos Velvet Underground, o Lou Reed tenha feito música de embalar enquanto falava de drogas duras. Se isto não é mudar a história da música, não sei o que será.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Esta música vai perseguir-vos o resto da vida

Não é para começar a ouvir e depois interromper, não vale fazer uma pausa para ver o que se passa no Facebook, espreitar o site do Record, ir à casa de banho... não, isto aqui não é para abandonar a meio porque já se ouviu sete ou oito minutos e a música tem mais de 23, porque é demasiado longa e vocês têm mais que fazer. Se for esse o caso, nem a comecem a ouvir. Amigos como dantes. Aos que estão realmente dispostos a entrar nesta viagem de ida sem volta à querida e velha Europa, essa puta autoritária; aristocrata e libertária; burguesa e operária; venham daí e apertem o cinto. Prometo uma flauta no fim da tempestade. 

domingo, 6 de outubro de 2013

Vai, Sporting!


Passar a noite em primeiro 
Verde e branco pelas ruas  
Jogo santo, de recreio 
E o Montero a dar mais duas (é normal).

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Crónica sobre o filho da puta de um siso

Se havia uma coisa de que sempre me orgulhava era de raramente ter tido que visitar dentistas, exceptuando uma vez em que tentei pular o portãozinho lá de casa que dá para o churrasco, desafiado por um primo de Espinho. Na altura o meu primo disse, "vai tu primeiro", e eu fui, valente, mas perdi metade de um dente da frente à custa de um salto imperfeito. Já o meu primo deixou-se estar.

Claro que tinha problemas dentários como qualquer um, e a prova é que andava a comer há um ano para o lado direito devido a dores absurdas no canto esquerdo do queixal de cima. Era o bom e o bonito sempre que ia lá parar algo gelado ou mastigava sem querer. Acontece que o meu plano de sobrevivência falhou, e, compreendi, após alguns dias a proteger a bochecha esquerda por fora, como se isso a sarasse por dentro, que não iria conseguir ser dono do meu destino, concretamente do destino dos meus dentes. A dor que durante um ano ia e vinha tornara-se mais intensa do que eu podia suportar. Dentista.

Aproveitando a minha ida à terra de fim de semana, o meu irmão marcou-me consulta para uma clínica ao pé de casa - é tudo ao pé de casa quando estou em casa -, e lá me dirigi às dez da manhã. O dia estava abafado e a cidade cheirava a cão molhado. Chovia. Um dia perfeito, diria o meu irmão.

O meu nome começou por surpreender a recepcionista da clínica onde entrei. "Rui Coelho? Não temos aqui nada com o seu nome." Sugeri-lhe que revisse a lista de marcações. Nada. Foi aí que a recepcionista resolveu o impasse e disse-me: "Pode acontecer que você esteja na clínica errada. Aqui ao lado há outra. Passe por lá."

Já na clínica certa fui observado por uma dentista brasileira, a qual notou que o meu siso de cima do lado esquerdo teria de sair do sítio, e sem demora, de maneira que chamou um colega para tratar do serviço. O momento ultrapassou-me. Quando dei por mim já tinha um senhor de bata verde debruçado sobre mim, à bulha com o filho da puta do meu siso.

Percebi que a extracção não estava fácil quando o senhor da bata verde, também ele brasileiro, pediu um raio x à assistente e declarou: "há aqui uma anomalia". Explicou-me que não conseguia tirar as raízes, que elas não lhe permitiam arrancar o dente como deve ser. À falta de melhor alternativa, resolveu levar-me um bocado do osso. Cozeu-me, receitou-me um antibiótico e um anti-inflamatório e mandou-me para casa. 

Percebi logo que tinha o fim de semana estragado e precipitei-me num profundo estado de saudade antecipada. Aproveitei para me despedir dos petiscos e vinhos que naquele fim de semana nunca chegaria a provar. "Merda", pensei.

No primeiro e no segundo dia variei a minha alimentação entre gelado da Olá de chocolate, gelado da Olá de baunilha e gelado da Olá de morango. Numa das refeições arrisquei uma sopa; noutra, perdi a cabeça e atirei-me a uns ovos mexidos. Estava com pouco ânimo e foi especialmente bom que o Sporting tivesse ganho em Braga. No golo da vitória, do Cédric, deixei escapar um grito - "Golo!" - e de pronto joguei a mão à bochecha esquerda. Tomara que não tenha feito asneira, pensei. Como não notei alterações ao espelho, excepto o abcesso que entretanto me crescera, respirei fundo e preparei-me para uma noite descansada.

Mas fosse pelo efeito retardado do grito no golo do Cédric, ou por ter vociferado a 'Abel' dos The National enquanto dormia, o certo é que acordei de madrugada com a boca feita num lago de sangue.

Contei o caso ao meu irmão e ele sugeriu que voltasse a adormecer e esperasse até de manhã para decidir o que fazer junto dos meus pais. Alimentei a esperança de adormecer e acordar só com saliva na boca; tive a fezada de que, se quisesse muito, o sangue desaparecia durante o sono. Não aconteceu. Era mesmo só sangue que lá tinha.

Ao domingo é mais difícil encontrar quem nos acuda, mas ainda há gente boa. Depois de muito ligar, em vão, para o número de emergência da clínica onde me arrancaram o filho da puta do siso, o meu pai lá se lembrou de uma dentista que por acaso andou na mesma escola que eu e até tem uma clínica na terra.

Ela atendeu o telefone e, apesar de ter a clínica fechada, abriu-a só para me tratar. Ao observar-me, disse-me que os pontos ainda estavam no lugar, mas que da zona tinha saído um coágulo. De modo que me abriu de novo para ver o que se passava, felizmente sem nada que a preocupasse, e voltou a cozer-me. Saí da clínica com a parede esquerda da boca a lembrar a Guerra das Trincheiras, mas não sangrava. Era o mais importante. Também recebi uma nova medicação que decerto superaria as coca-colas do Sanchez. "A outra que te receitaram é para crianças", disse-me.

Fui para casa. Comi uma sopa. A hemorragia voltou. Telefonema à dentista. Regresso à clínica. Voltou a mexer nisto. Aconselhou-me a tentar estancar a hemorragia com uma saqueta de chá preto. Deu-me uma carteira de um medicamento que me disse para tomar apenas e só em último caso. A hemorragia não estancava com a saqueta. Tive de tomar a carteira. Estancou.

No dia seguinte voltei a acreditar num mundo melhor e até fiz um esparguete à bolonhesa com a minha mãe. Era vê-la ainda de braço ao peito a ralar cenoura enquanto eu cortava alho francês com uma cara que pareciam duas. Entretanto o abcesso já desinchou bastante. Aos poucos vai ao lugar. No meio disto tudo o mais chato é mesmo a possibilidade, identificada por um raio x, de ficar com sinusite. E o certo é que já ando com umas dores de cabeça que me lembram uma vez em que fui ver um concerto dos My Bloody Valentine e confundi tampões para ouvidos com gomas.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Gaiola Dourada: bah


Tenho um problema com filmes de comédia que não me fazem rir. A Gaiola Dourada não me fez rir. Tenho um problema com a Gaiola Dourada.

A ideia com que fico, depois de ver o filme português mais badalado desde as fitas caseiras de um arquitecto com especial queda pela profundidade, é que o Ruben Alves se perdeu ao querer fazer de tudo um pouco. Em vez de realizar uma comédia realmente cómica, ou de um drama mesmo dramático, quis agradar a toda a gente e acabou a meio caminho de coisa nenhuma. 

(E depois há aquela incrível falta de bom gosto de incluir em várias cenas adereços alusivos ao clube mais emblemático de Carnide, e de mais nenhum clube português, como se não houvesse sportinguistas por aí, em Agosto, que comecem as frases com 'bonjour!' e terminem num ruidoso 'porra!').

Até que é bem esgalhado, o retrato do português emigrado em França. A história central tem razão de ser e é bem ligada. Só que a dada altura o nosso Ruben deixa-se levar pelas emoções - o filme é dedicado aos pais, eles próprios emigrantes em França, o que talvez explique muita coisa - e transforma a Gaiola Dourada numa espécie de peça de teatro de revista meio aborrecida, com saudade a mais e malandrice a menos. Se há momentos memoráveis no filme, são os mais tensos, e isso não pode dizer grande coisa de um filme classificado como comédia.

Ocorreu-me, à saída do cinema, sobretudo pela forma como o filme acaba, que a malta da Revista do Boa Esperança de Portimão faria bem melhor.