"The only people for me are the mad ones, the ones who are mad to live, mad to talk, mad to be saved, desirous of everything at the same time, the ones who never yawn or say a commonplace thing but burn, burn, burn like fabulous yellow roman candles exploding like spiders across the stars." J. Kerouac
domingo, 29 de dezembro de 2013
quinta-feira, 26 de dezembro de 2013
Prendinhas pelo intercomunicador
O jantar teve em mim um impacto tal que acordei de noite para ir à casa de banho e quando de lá saí já era de dia. À falta de gente, lá fora a luz fraca do primeiro sol descobria as ruas, as casas e os carros, caso do meu, cujo pára-choques tinha ganho uma camada extra de mosquitos mortos - lembranças da viagem da véspera. Olhei à minha volta. A mesa tinha sido levantada mas a toalha continuava posta, agora à espera do pequeno almoço, e transmitia uma mensagem desligada do cenário que integrava: a sala parecia ter sido visitada por um ladrão apressado, que procura uma coisa em específico e não a encontra. Roupa pelo chão, almofadas atiradas para trás do sofá... tudo com um aspecto remexido e fora do sítio. Aos meus pés, no meio do caminho, encontrei os nossos sapatos, aninhados.
Preparava-me para voltar à cama quando reparei que o telefone de porta estava tombado, suspenso pelo fio. De maneira que estivemos juntos, não tenho é a certeza se sós.
segunda-feira, 23 de dezembro de 2013
Três segundos ou o tempo que o Mota demora a ter a certeza de não ter vergonha na cara
Ontem dominava a revolta. Se já nem a história do Natal pegava, se o Sporting continuava a ganhar, e bem, era preciso sujar as mãos. E o momento foi o ideal, aproveitando a visita a Alvalade de uma boa equipa, que resistiu mais de uma hora e até podia ter marcado antes. Vi agora o resumo e, se pensava que já tinha visto tudo no futebol, estava bem enganado. Falo do momento em que o Mota apita. É preciso muita confusão naquela cabeça para anular um golo três segundos depois de a bola entrar. "Ora bem, não aconteceu nada, mas é preciso fazer o serviço... apito, não apito... porra, é hoje, tenho de apitar". Três segundos para pensar no que fazer, tal a convicção. De ontem não passava. E não passou. Dois pontos a voar para o sapatinho de quem fez a encomenda. Serviço cumprido. Nota máxima. Subsídio de Natal chorudo. Festas felizes.
Hoje domina o orgulho. Das sobras de um grupinho de solteiros e casados nasceu a equipa que vai virar o ano na frente do campeonato, que pratica o melhor futebol, que marca mais golos, que tem o melhor jogador, que tem o melhor marcador, que tem o melhor treinador, que mais adeptos arrasta do Algarve ao Minho. Um exemplo para todos nós, a prova de que com pouco dinheiro e muito trabalho se pode fazer tão bem ou melhor do que aqueles que compram o sucesso fácil. Vão ter de se esforçar muito para nos fazerem cair.
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quinta-feira, 19 de dezembro de 2013
O Nalitzis é um gringo
O que têm em comum o Nalitzis, esse mesmo, o manco que chegou ao Sporting para colmatar a lesão do Niculae, em 2001/2002, na época da dobradinha - em seis meses meteu um golo -, e a forma como na América Latina se trata os anglo-saxónicos, sobretudo a malta dos Estados Unidos?
Não digo. Quer dizer, já lá vou.
Sempre tive alguns problemas com quem não tem noção das coisas. Com os Estados Unidos, por exemplo. Sim, meteram o Homem na lua, mas o que é aquilo de se auto-intitularem "América"? "God Bless America", como? Do Alaska à Argentina? Não me lixem.
E há pior. Nos últimos dois anos os Miami Heat foram campeões da NBA para todos os povos que o saibam, mas na "América" são considerados "World Champions". Campeões do mundo, como? Da Califórnia à Papua-Nova Guiné? Não me lixem.
Isto para falar no termo "gringo". Já todos o ouvimos por aí, na televisão, no cinema ou pela boca de algum nativo americano - parece que aquilo é um continente a dar para o grandito e já lá havia uma boa dose de índios antes de os ingleses cruzarem o Atlântico e inventarem os EUA, já depois de a Espanha se ter posto à vontade mais a sul. Pesquisei vários textos sobre a origem do termo e encontrei a explicação mais razoável num site chamado Wikipédia, o qual reza que a culpa é do Shakespeare. Ou melhor, do que diziam os monges latinos na Idade Média, quando era para copiar manuscritos gregos - "Graecum est; non legitur" (em português: "É grego; não percebo uma piroca"). Segundo o tal Wikipédia, que compreendi ser uma fonte de saber sem igual, o Shakespeare aproveitou esta tirada em Júlio César quando escreveu, "(...) Aqueles que o compreenderam trocaram olhares e abanaram a cabeça; mas para mim aquilo era grego".
É a origem do ditado, "isso para mim é grego", relativo a algo que não se percebe e que ganhou a variação "isso para mim é chinês" em países como a Grécia, onde se percebe o grego perfeitamente.
Outros textos com fontes e datas, certamente inspirados no texto do Wikipédia, concordam na tese de que gringos é a variação fonética de griegos, gregos em espanhol, e aparece pela primeira vez em 1787, no El Diccionario Castellano. Escreve um tal Esteban de Terreros que "gringos era o que se chamava em Málaga aos estrangeiros, os que têm uma certa espécie de sotaque que os priva de uma locução castelhana fácil e natural; e o mesmo em Madrid, e pela mesma causa ou particularidade a respeito dos irlandeses."
Só quase 100 anos depois, em 1849, é que o uso da palavra gringo em inglês seria gravado, ali mesmo a seguir à Guerra dos Estados Unidos com o México (1846-1848), aquela em que os gringos invadiram, ou, segundo os manuais ortodoxos, instalaram-se no Texas.
"We were hooted and shouted at as we passed through Cerro Gordo, Veracruz, and called Gringoes", escreveu John Woodhouse Audubon, um pintor da terra dos livres.
De maneira que, mesmo sem quererem, os Estados Unidos estão a dar um passo maior que a perna e até levam o Nalitzis, que por ser grego também é gringo, pelo menos aos olhos dos povos del Sur. Nova Iorque ou Atenas, dá no mesmo: tudo gringo. Não me lixem...
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segunda-feira, 18 de novembro de 2013
O Cantinflas do rock ligeiro
Entrámos no Buddha Bar de Milfontes durante a pausa do músico
que lá ia tocar pela primeira vez, no sábado à noite. Queríamos, e até poderíamos
ter chegado a tempo - era o combinado -, mas tivemos de nos demorar na Tasca do
Celso porque a mulher do dono nos ofereceu licor de bolota e um cestinho com
nozes, amêndoas e figos. O Duarte Gomes também lá estava a jantar. Encheu a
boca de sei lá o quê e bebeu cola zero, na companhia de uma garota com dentes
de vinho, e em menos de nada se pôs a andar. Gosto de pensar que se desfez em -
pronto, nisso mesmo. Ela que seja feliz.
O músico do Buddha Bar de Milfontes trazia uma camisa pálida
enfiada numas calças de ganga muito grandes e via por óculos; tinha uma voz
grave e desolada; era pequeno como um pinipom.
Recomeçou nas cantigas com a ‘I’m on fire’ do Bruce
Springsteen e daí passou para a ‘This is the Life’, da Amy Macdonald. Ocorreu-me
pensar nele como o Cantinflas do rock ligeiro. Numa das mesas, tal como na
véspera, estava um rapaz que não deve fazer a barba há 15 anos e a namorada,
que lembrava a Juliette Binoche e dizia nunca ter acordado ressacada na vida,
apesar de lhe dar bem na cerveja. Jogavam ao dominó.
O rapaz da barba até ao umbigo passou a segunda parte do
concerto do Cantinflas do rock ligeiro a pedir ‘Ring of Fire’ do Johny Cash,
mas não teve sorte porque o músico não tinha nada disso no repertório dele. Não
satisfeito, esperou que o Cantinflas abandonasse a guitarra e, quando isso
aconteceu, precipitou-se para o palco e atirou-se à ‘Ring of Fire’ alegando estar
farto de ver a namorada dar-lhe na tromba no dominó.
Tocava e cantava “(…) The taste of love is sweet (...)’ como
se fizesse vida daquilo, e pelos vistos faz. É guitarrista numa banda de
destruição maciça chamada 10 000 Russos.
Ainda tocou mais alguns temas e depois regressou à mesa para
dissertar sobre a influência do Bob Marley na história da música, que dizia ser
coisa nenhuma. “O Lee Perry, os gajos que inventaram o dub, isso sim; o Bob
Marley não fez nada que já não tivesse sido feito”, argumentava. Quanto à Rosa,
dona do bar que por essa altura já se tinha juntado à confusão, contrapunha que
o Bob Marley era muito bom porque ela gostava muito dele.
Começámos a falar de cumbia e em poucos segundos já tínhamos
assaltado a aparelhagem com Chicha Libre. Dançámos como macaquinhos, bebemos e
os clientes fugiram. “Voltem!”, pediu a Rosa na despedida.
terça-feira, 29 de outubro de 2013
O Lou Reed é do hip hop
Não sou um histérico do Lou Reed. Mais depressa saco da cartola a altura do Vujacic (acho que um metro e noventa, já confirmo*), um defesa que deixou Belgrado em 1993 (chama-lhe burro) para vestir a nossa verde e branca, do que consigo nomear aqui, de repente, sem recorrer ao Google, três discos com o Lou Reed metido ao barulho.
1 - Velvet Undeground & Nico (o álbum da banana)
2 - Transformer (a solo)
3 - ... hum... já fui.
*Confirma-se: 1,90m.
Dito isto, vou dar o contributo possível à causa post-mortem do Lou Reed e dizer que sempre pensei nele como um homem com olhar de mulher. Interessava-me o estilo; era tudo mais ou menos ao contrário. Desde logo, cantava a falar. Nesse sentido, era muito do hip hop. O Lou Reed parecia um narrador afastado da dor que narrava. As histórias que contava... é como se não fossem nada com ele. Estava bem fodido, o Lou Reed, se a legitimação dele como bandeira do rock-para-gente-mais-ou-menos-perdida dependesse de rasgar as vestes e bater com os punhos no peito.
Passei e continuo a passar tempo de qualidade com o álbum da banana. Acho adorável que, enquanto líder dos Velvet Underground, o Lou Reed tenha feito música de embalar enquanto falava de drogas duras. Se isto não é mudar a história da música, não sei o que será.
sexta-feira, 11 de outubro de 2013
Esta música vai perseguir-vos o resto da vida
Não é para começar a ouvir e depois interromper, não vale fazer uma pausa para ver o que se passa no Facebook, espreitar o site do Record, ir à casa de banho... não, isto aqui não é para abandonar a meio porque já se ouviu sete ou oito minutos e a música tem mais de 23, porque é demasiado longa e vocês têm mais que fazer. Se for esse o caso, nem a comecem a ouvir. Amigos como dantes. Aos que estão realmente dispostos a entrar nesta viagem de ida sem volta à querida e velha Europa, essa puta autoritária; aristocrata e libertária; burguesa e operária; venham daí e apertem o cinto. Prometo uma flauta no fim da tempestade.
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