quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Sou um tractor

Gravei no telemóvel o contacto necessário e reencaminhei o programa do evento para o meu email pessoal. Tínhamos de estar às 8h15 de quarta-feira em frente ao Ritz. Quando cheguei a casa fui conferir se estava tudo certo. Estava tudo errado: nada tinha no email, e no telemóvel também não.

Cheguei uns minutos antes da hora combinada, confiante: tenho trinta anos, não me iria escapar um aglomerado de pessoas diante do Ritz. Acontece que o rei de Espanha estava em Portugal e foi no Ritz que se pôs à vontade, de modo que o ponto de encontro teve de ser arrastado para o hotel mais acima, o Tiara; pelos vistos toda a gente sabia disto, menos eu.

No dia em que o rei de Espanha estava instalado no Ritz, dei a volta ao hotel não uma, nem duas, mas três vezes. Fazia-o olhando em todas as direcções, em ritmo lento, de pára-arranca, cheio de dúvidas. Tipo o Sporting na terça-feira. Reparei que à segunda passagem um rapaz com altura para apanhar figos, estacionado à porta da entrada principal, deu uma discreta cotovelada a outro rapaz de igual mérito. Eram muito parecidos, tinham uniforme azul escuro e empunhavam uma shotgun. Não posso dizer que fossem mal encarados, porque tinham a cara tapada, mas algo lhes perturbava. Ocorreu-me que a vida não lhes estivesse a correr muito bem.

Continuei na minha e, já na outra entrada do Ritz, dirigi-me a um polícia. Perguntei se o Ritz era ali. Respondeu que sim, que era ali. Em desespero, perguntei se havia então outro Ritz em Lisboa. Respondeu que não, que só havia aquele.

Já passava da hora combinada. Da forma que as coisas se punham, teria de ir buscar o carro e fazer a viagem por conta própria. Mas não foi preciso: o treinador do Borussia Dortmund, também conhecido por L.C., ligou-me com voz de quem não foi à cama e informou-me que "eles" andavam à minha procura, o que era curioso, porque eu também andava à procura "deles". Contactos, lá nos encontrámos e seguimos viagem.

O rapaz da comunicação ia ao volante e era simpático. Fez conversa. Primeiro perguntou se alguém no carro era do Sporting. Em quatro, éramos três. Fez-se silêncio. Projectei a viagem toda assim. Mas à saída de Lisboa o condutor voltou a meter-se connosco e perguntou que estação radiofónica gostaríamos de ouvir. Apresentei uma argumentação violenta a favor de tudo o que não seja a Comercial e a RFM, que incluiu fazer pouco de quem a ouvia. O rádio estava sintonizado na Comercial.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Sou um verme

À ameaça de um espirro escondi a cara nas mãos, e quando me recompus percebi que as tinha deixado num estado lastimável. Olhei em volta, desconfiado. “Ah, parece que ninguém reparou, fixe”. Fiquei ali a fingir que fazia qualquer coisa, como se nada fosse – muito era, acreditem -, e depois fugi para a casa de banho. Estava já a poucos metros da porta do boneco com calças, descansado por manter a dignidade intacta, quando saiu disparada uma colega de trabalho pela porta do boneco com saia. Entrei em pânico. Temi o pior. Depois acalmei-me: afinal,  compreendi, este era um daqueles momentos que fazem de um homem aquilo que ele É. A primeira tentação foi meter cara feia e fitar o chão para evitar qualquer hipótese de contacto físico, que toda a gente tem um dia mau e até tem chovido e tudo isso, mas ela não me deu saída porque me mostrou logo os dentes e pediu um “áifáive”. Não tive alternativa: deixei-a de mão pendurada. De seguida foi vê-la afastar-se, acusando-me de ser um verme, à maneira dela - “que falta de chá!” -, ao mesmo tempo que as palavras se atropelaram na minha boca sem que tenha dito porra nenhuma.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Confúcio: "Aquele que diz que pode e aquele que diz que não pode... têm ambos razão."



Este foi o ano em que me tornei menos egoísta. Em que respeitei mais os outros. Em que passei mais vezes a perna às minhas ignorantes certezas. Em que passei mais tempo com a família. Com os meus.

Este foi o ano em que mais vezes joguei a mão ao pescoço dos meus medos. É incrível o que consegues quando te propões a fazer algo e dás o que tens. Este foi o ano em que percebi que a vontade de ser melhor para mim me torna mais apto a ser melhor para os outros. É contagiante, e convém: ninguém pediu para nascer, mas estamos todos metidos nisto.

Este foi o ano em que percebi que não sou uma ilha por viver num só corpo. Que não sou especial por ter os olhos verdes. Que o Mundo não me deve nada, nem está contra mim. Que de nada me serve meter cara de peido e queixar-me da má sorte. Que nada vai mudar, zero, se eu não fizer por isso.

Este foi o ano em que compreendi que só temos uma certeza - um pouco chata, diga-se. De resto, se excluirmos o que não podemos controlar, percebi que grande parte do que nos acontece é escolha nossa. É sempre bom imaginar isto como uma viagem no tempo, a revienga que o Jesse deu à Celine para a convencer a passear com ele por Viena no Before Sunrise. Uma viagem no tempo, portanto: é imaginar que daqui a 20 anos surge a hipótese de recuarmos no tempo e mudarmos o que nos tornou naquilo que não gostamos. E aconteceu: aqui estamos, 20 anos antes. Temos mais uma hipótese. Agora é connosco.

Entrem no ano novo com os dois pés, a única maneira de entrar. Vemo-nos amanhã no Macdonald's.

domingo, 29 de dezembro de 2013

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Prendinhas pelo intercomunicador


O jantar teve em mim um impacto tal que acordei de noite para ir à casa de banho e quando de lá saí já era de dia. À falta de gente, lá fora a luz fraca do primeiro sol descobria as ruas, as casas e os carros, caso do meu, cujo pára-choques tinha ganho uma camada extra de mosquitos mortos - lembranças da viagem da véspera. Olhei à minha volta. A mesa tinha sido levantada mas a toalha continuava posta, agora à espera do pequeno almoço, e transmitia uma mensagem desligada do cenário que integrava: a sala parecia ter sido visitada por um ladrão apressado, que procura uma coisa em específico e não a encontra. Roupa pelo chão, almofadas atiradas para trás do sofá... tudo com um aspecto remexido e fora do sítio. Aos meus pés, no meio do caminho, encontrei os nossos sapatos, aninhados.

Preparava-me para voltar à cama quando reparei que o telefone de porta estava tombado, suspenso pelo fio. De maneira que estivemos juntos, não tenho é a certeza se sós.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Três segundos ou o tempo que o Mota demora a ter a certeza de não ter vergonha na cara


Ontem dominava a revolta. Se já nem a história do Natal pegava, se o Sporting continuava a ganhar, e bem, era preciso sujar as mãos. E o momento foi o ideal, aproveitando a visita a Alvalade de uma boa equipa, que resistiu mais de uma hora e até podia ter marcado antes. Vi agora o resumo e, se pensava que já tinha visto tudo no futebol, estava bem enganado. Falo do momento em que o Mota apita. É preciso muita confusão naquela cabeça para anular um golo três segundos depois de a bola entrar. "Ora bem, não aconteceu nada, mas é preciso fazer o serviço... apito, não apito... porra, é hoje, tenho de apitar". Três segundos para pensar no que fazer, tal a convicção. De ontem não passava. E não passou. Dois pontos a voar para o sapatinho de quem fez a encomenda. Serviço cumprido. Nota máxima. Subsídio de Natal chorudo. Festas felizes.

Hoje domina o orgulho. Das sobras de um grupinho de solteiros e casados nasceu a equipa que vai virar o ano na frente do campeonato, que pratica o melhor futebol, que marca mais golos, que tem o melhor jogador, que tem o melhor marcador, que tem o melhor treinador, que mais adeptos arrasta do Algarve ao Minho. Um exemplo para todos nós, a prova de que com pouco dinheiro e muito trabalho se pode fazer tão bem ou melhor do que aqueles que compram o sucesso fácil. Vão ter de se esforçar muito para nos fazerem cair.