segunda-feira, 24 de março de 2014

Nick Drake: magia



O disco Pink Moon é o terceiro e último acto da tragédia de Nick Drake, o rapaz que, uma de duas, morreu a tentar matar-se ou levou longe de mais o esforço de sobreviver (sucumbiu a anti-depressivos). Nick era bom no que fazia, como agora se sabe, mas demasiado tímido. Mau a olhar nos olhos, não funcionava ao vivo. Um desastre mesmo. Nem entrevistas dava - há registo de uma, para esquecer.

Em 1969 fez nascer 'I was made to love magic', tema que aparece em compilações depois da sua morte (1974), mas antes do sucesso. A letra diz, 'I was made to love magic/I was born to sail away/Into a land of forever".

Desengane-se quem pensar que a carreira de Nick se parece com a de outros artistas que gozaram de sucesso póstumo: o do britânico apareceu, sim, mas uma vida depois. Literalmente. Se morrer tão cedo (26 anos) e de forma tão triste não foi suficiente para o público ficar curioso sobre o que o músico tinha para cantar, isso aconteceu no virar do milénio passado, dezembro de 1999, à boleia de... um anúncio publicitário. O bom gosto foi da Volkswagen, que promoveu o (então) novo Cabriolet ao som do tema-título do último álbum de Nick Drake, Pink Moon. O vídeo também ajuda: é todo ele magia e mistério, e hoje o spot da vida de muita gente, como se percebe pela caixa de comentários.

Nesta tragédia de ironias, Nick Drake vendeu mais discos num mês de exposição pelo anúncio da Volkswagen do que em 26 anos de vida. E então sim, voou para todo o lado, para sempre, como um dia quis.

quarta-feira, 19 de março de 2014

"This song always makes me laugh"


Do arquivo murder songs, disponível a quem respire, escolho a Miss Otis Regrets do Cole Porter, escrita quando a Vivi tinha sete anos. Podia ser a Hey Joe dos The Leaves, que correu mundo pela guitarra do Hendrix, mas essa toda a gente conhece. Acho. Espero. 

Miss Otis Regrets conta a história de uma mulher que teve um fim triste depois de conhecer um homem. Toda a gente tem o seu fim depois de fazer qualquer coisa, como um dia aprendi no jornalismo, pode é ser menos cruel que este. Acontece que Miss Otis, menina com os modos mais recomendáveis, estava na dela quando foi seduzida, e já se via na dele quando foi abandonada. Não se faz. Vai daí, perseguiu-o e toma lá chumbo.

Presa pelo homicídio, foi levada da cadeia por uma multidão que faria justiça pelas próprias mãos. Antes de morrer, Miss Otis ergueu a cabeça e, a chorar, lamentou, na terceira pessoa - registo popularizado várias gerações depois pelo Miguel Veloso, agora só Miguel: "Miss Otis Regrets, she's unable to lunch today". A história é contada por um criado a uma senhora de modos tão recomendáveis como os da pobre Miss Otis, Deus a tenha.

Nos comentários às várias versões desta música sobressai a dimensão doce e triste do que se relata, e de como se relata, mas o meu preferido, que aparece nesta, a que tem a tripa a nu e o som de batata a fritar do vinil, é de uma utilizadora com a foto de perfil de uma ruiva a olhar de lado: "This song always makes me laugh".

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Sou um tractor

Gravei no telemóvel o contacto necessário e reencaminhei o programa do evento para o meu email pessoal. Tínhamos de estar às 8h15 de quarta-feira em frente ao Ritz. Quando cheguei a casa fui conferir se estava tudo certo. Estava tudo errado: nada tinha no email, e no telemóvel também não.

Cheguei uns minutos antes da hora combinada, confiante: tenho trinta anos, não me iria escapar um aglomerado de pessoas diante do Ritz. Acontece que o rei de Espanha estava em Portugal e foi no Ritz que se pôs à vontade, de modo que o ponto de encontro teve de ser arrastado para o hotel mais acima, o Tiara; pelos vistos toda a gente sabia disto, menos eu.

No dia em que o rei de Espanha estava instalado no Ritz, dei a volta ao hotel não uma, nem duas, mas três vezes. Fazia-o olhando em todas as direcções, em ritmo lento, de pára-arranca, cheio de dúvidas. Tipo o Sporting na terça-feira. Reparei que à segunda passagem um rapaz com altura para apanhar figos, estacionado à porta da entrada principal, deu uma discreta cotovelada a outro rapaz de igual mérito. Eram muito parecidos, tinham uniforme azul escuro e empunhavam uma shotgun. Não posso dizer que fossem mal encarados, porque tinham a cara tapada, mas algo lhes perturbava. Ocorreu-me que a vida não lhes estivesse a correr muito bem.

Continuei na minha e, já na outra entrada do Ritz, dirigi-me a um polícia. Perguntei se o Ritz era ali. Respondeu que sim, que era ali. Em desespero, perguntei se havia então outro Ritz em Lisboa. Respondeu que não, que só havia aquele.

Já passava da hora combinada. Da forma que as coisas se punham, teria de ir buscar o carro e fazer a viagem por conta própria. Mas não foi preciso: o treinador do Borussia Dortmund, também conhecido por L.C., ligou-me com voz de quem não foi à cama e informou-me que "eles" andavam à minha procura, o que era curioso, porque eu também andava à procura "deles". Contactos, lá nos encontrámos e seguimos viagem.

O rapaz da comunicação ia ao volante e era simpático. Fez conversa. Primeiro perguntou se alguém no carro era do Sporting. Em quatro, éramos três. Fez-se silêncio. Projectei a viagem toda assim. Mas à saída de Lisboa o condutor voltou a meter-se connosco e perguntou que estação radiofónica gostaríamos de ouvir. Apresentei uma argumentação violenta a favor de tudo o que não seja a Comercial e a RFM, que incluiu fazer pouco de quem a ouvia. O rádio estava sintonizado na Comercial.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Sou um verme

À ameaça de um espirro escondi a cara nas mãos, e quando me recompus percebi que as tinha deixado num estado lastimável. Olhei em volta, desconfiado. “Ah, parece que ninguém reparou, fixe”. Fiquei ali a fingir que fazia qualquer coisa, como se nada fosse – muito era, acreditem -, e depois fugi para a casa de banho. Estava já a poucos metros da porta do boneco com calças, descansado por manter a dignidade intacta, quando saiu disparada uma colega de trabalho pela porta do boneco com saia. Entrei em pânico. Temi o pior. Depois acalmei-me: afinal,  compreendi, este era um daqueles momentos que fazem de um homem aquilo que ele É. A primeira tentação foi meter cara feia e fitar o chão para evitar qualquer hipótese de contacto físico, que toda a gente tem um dia mau e até tem chovido e tudo isso, mas ela não me deu saída porque me mostrou logo os dentes e pediu um “áifáive”. Não tive alternativa: deixei-a de mão pendurada. De seguida foi vê-la afastar-se, acusando-me de ser um verme, à maneira dela - “que falta de chá!” -, ao mesmo tempo que as palavras se atropelaram na minha boca sem que tenha dito porra nenhuma.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Confúcio: "Aquele que diz que pode e aquele que diz que não pode... têm ambos razão."



Este foi o ano em que me tornei menos egoísta. Em que respeitei mais os outros. Em que passei mais vezes a perna às minhas ignorantes certezas. Em que passei mais tempo com a família. Com os meus.

Este foi o ano em que mais vezes joguei a mão ao pescoço dos meus medos. É incrível o que consegues quando te propões a fazer algo e dás o que tens. Este foi o ano em que percebi que a vontade de ser melhor para mim me torna mais apto a ser melhor para os outros. É contagiante, e convém: ninguém pediu para nascer, mas estamos todos metidos nisto.

Este foi o ano em que percebi que não sou uma ilha por viver num só corpo. Que não sou especial por ter os olhos verdes. Que o Mundo não me deve nada, nem está contra mim. Que de nada me serve meter cara de peido e queixar-me da má sorte. Que nada vai mudar, zero, se eu não fizer por isso.

Este foi o ano em que compreendi que só temos uma certeza - um pouco chata, diga-se. De resto, se excluirmos o que não podemos controlar, percebi que grande parte do que nos acontece é escolha nossa. É sempre bom imaginar isto como uma viagem no tempo, a revienga que o Jesse deu à Celine para a convencer a passear com ele por Viena no Before Sunrise. Uma viagem no tempo, portanto: é imaginar que daqui a 20 anos surge a hipótese de recuarmos no tempo e mudarmos o que nos tornou naquilo que não gostamos. E aconteceu: aqui estamos, 20 anos antes. Temos mais uma hipótese. Agora é connosco.

Entrem no ano novo com os dois pés, a única maneira de entrar. Vemo-nos amanhã no Macdonald's.

domingo, 29 de dezembro de 2013