domingo, 18 de maio de 2014

Sobre a Ti Piedade do Forno e o seu jeitinho para remediar o padrão caído

A Ti Piedade do Forno era a melhor curandeira de Marim, que fica a seguir a Olhão, assim como quem vai para Quatrim do Norte.

O normal era sair de casa de manhã com os animais, para os levar a pastar a uma fazenda no Laranjeiro, e ter uma feira de éguas, cavalos, burros, mulas e homens armada à porta de casa quando regressava, quase sempre na última hora da noite. Filha do João do Forno, a Ti Piedade tinha especial apetência para lidar com o padrão caído, uma doença que a Vivi não sabe em que consiste, na certeza porém de que só ataca homens, diz.

Montados nas suas queridas bestas, os homens faziam fila à porta da Ti Piedade para cuidar do padrão caído, e não havia quem não remediasse o padrão caído com as benzeduras da melhor curandeira de Marim. Até porque "não há benzedura que seja má", diz a minha avó. Quando perguntei à Vivi quantos homens iam a casa da Ti Piedade por noite, ela respondeu: "Muitos. Durante o dia tratava dos animais; à noite tratava dos homens".

terça-feira, 22 de abril de 2014

Santana de Cambas, a aldeia onde putos sem bigode jogam à malha


Depois do sino moderníssimo da igreja, cujo som lembra um instrumento do Noiserv, a gargalhada do Manuel Zé impõe-se mais do que qualquer outra coisa em Santana de Cambas. O Manuel Zé é pai da Ana Raquel, prima da Fátima (miúda muito gira de Santana), e é daquelas pessoas muito fáceis de se gostar. Numa das saborosas refeições entre sexta-feira e sábado preparadas pela mãe da miúda gira, perguntou-me se queria vinho branco ou tinto e antecipou-se à minha resposta com um "chêo!", seguido de uma valente gargalhada. Na segunda tarde passou por nós de carro com amigos, depois de todos bebermos café na Sociedade; seguia no banco do pendura. Lembro-me de o Luís, genro do Manuel Zé que por estes dias não pode comer sopa porque está de dieta, observar que o passeio do sogro só poderia ser perigoso na medida em que o condutor, o Sebastião, era maluco e não tinha dedos. Não cheguei a perceber se a causa de uma coisa era o efeito da outra.

Na véspera fomos desmoer o almoço para o poço de Santana, onde a miúda gira e as amigas passaram grande parte da infância - poço esse que, segundo a Ana Rosa, está abençoado com "uma vista espectacular sobre o cemitério". A tarde foi animada pelas memórias das meninas e pela cadela da Ana Raquel, que não pára quieta e respira como quem adormece de barriga para cima depois de encher a cara de vinho, ou como um porquinho.

Santana de Cambas é uma aldeia do Baixo Alentejo, concelho de Mértola, e apresenta mais méritos do que se possa pensar. Praticamente não se apanha rede de telemóvel, mas as portas das casas estão quase todas abertas, e as pessoas juntas; não tem multibanco, mas há um café que troca o cálice de aguardente de medronho por oitenta cêntimos; não tem posto médico, mas a paragem do autocarro está protegida com um vidro duplo para que ninguém se constipe; não tem muitos putos, mas encontrei três ainda sem idade para ter bigode a jogar como gente grande à malha. Compreendi, ao deitar-me na segunda noite, vindo do Baile da Pinha, que estava ali uma das povoações mais evoluídas que alguma vez conhecera.

O Baile da Pinha foi animado pelo Tiago Catarino, um acordeonista que parecia mais velho do que era na foto do cartaz de promoção afixado na paragem do autocarro, ou "a casinha", onde passámos algumas horas na primeira noite a beber vinho e a morder pipas. Aproveitei os largos minutos de reflexão que o Tiago Catarino tirava entre as músicas e fui ao pé dele pedir Pink Floyd. Respondeu-me que não seria possível, mas que poderia passar kizomba. Fiz cara de peido e optou-se por um funaná que não convenceu ninguém.

A família da miúda gira recebeu-me da melhor forma possível. Notei que a Dona Odete, a mãe, cozinhava sempre com uma pitada de carinho; que o pai, Armando, tem a poesia na alma; que o irmão, Pedro, é uma enciclopédia de conhecimento técnico com pé de dança. Há também o Armando filho, que tem o sorriso dos bons e chegou no segundo dia com a noiva, a Sónia, e a pequena Sofia, que ainda não tem um ano mas já vê o mundo por uns olhos azuis muito grandes e tem umas bochechas que parecem maçãs, muito rosadinhas, e dança no colo da família e é o "ai Jesus" daquela gente, a par da bebé Francisca, a filha da Ana Raquel e do Luís.

Atirei-me com vontade às ofertas gastronómicas da dona Odete, que foi bastante hospitaleira e passou o tempo a encher-me a boca de doces. De resto, havia sempre muita gente à mesa, como é de bom hábito no Alentejo. Na sexta-feira santa comemos ao almoço um bacalhau com natas que me pareceu gratinado a preceito, e para a sobremesa a mãe da miúda gira colocou-me à frente uma cesta com peças de fruta, mais uma tigela com mousse de café e pratinhos com tarte de natas e bolo de laranja. Trinquei uma pêra, devorei os doces todos e repeti a mousse. É fácil de perceber que no regresso a Lisboa também já tinha a barriga repetida, além de um saquinho que a mãe da miúda gira me meteu na mão, antes de me fazer à estrada, e que trazia um folar com ovo, dois queijos frescos e um chouriço.

De maneira que não está inteiramente certo aquilo que o padrinho da miúda gira disse à saída da Sociedade, onde toda a gente da aldeia parece estar para ficar, na tarde em que o Manuel Zé foi passear com o amigo sem dedos: "Cuidado com o sol alentejano; traz preguiça!". É preciso dizer que, do Alentejo, no que me toca, trouxe amor e enchidos, entre outras coisas, sendo que preguiça não foi uma delas.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Nick Drake: magia



O disco Pink Moon é o terceiro e último acto da tragédia de Nick Drake, o rapaz que, uma de duas, morreu a tentar matar-se ou levou longe de mais o esforço de sobreviver (sucumbiu a anti-depressivos). Nick era bom no que fazia, como agora se sabe, mas demasiado tímido. Mau a olhar nos olhos, não funcionava ao vivo. Um desastre mesmo. Nem entrevistas dava - há registo de uma, para esquecer.

Em 1969 fez nascer 'I was made to love magic', tema que aparece em compilações depois da sua morte (1974), mas antes do sucesso. A letra diz, 'I was made to love magic/I was born to sail away/Into a land of forever".

Desengane-se quem pensar que a carreira de Nick se parece com a de outros artistas que gozaram de sucesso póstumo: o do britânico apareceu, sim, mas uma vida depois. Literalmente. Se morrer tão cedo (26 anos) e de forma tão triste não foi suficiente para o público ficar curioso sobre o que o músico tinha para cantar, isso aconteceu no virar do milénio passado, dezembro de 1999, à boleia de... um anúncio publicitário. O bom gosto foi da Volkswagen, que promoveu o (então) novo Cabriolet ao som do tema-título do último álbum de Nick Drake, Pink Moon. O vídeo também ajuda: é todo ele magia e mistério, e hoje o spot da vida de muita gente, como se percebe pela caixa de comentários.

Nesta tragédia de ironias, Nick Drake vendeu mais discos num mês de exposição pelo anúncio da Volkswagen do que em 26 anos de vida. E então sim, voou para todo o lado, para sempre, como um dia quis.

quarta-feira, 19 de março de 2014

"This song always makes me laugh"


Do arquivo murder songs, disponível a quem respire, escolho a Miss Otis Regrets do Cole Porter, escrita quando a Vivi tinha sete anos. Podia ser a Hey Joe dos The Leaves, que correu mundo pela guitarra do Hendrix, mas essa toda a gente conhece. Acho. Espero. 

Miss Otis Regrets conta a história de uma mulher que teve um fim triste depois de conhecer um homem. Toda a gente tem o seu fim depois de fazer qualquer coisa, como um dia aprendi no jornalismo, pode é ser menos cruel que este. Acontece que Miss Otis, menina com os modos mais recomendáveis, estava na dela quando foi seduzida, e já se via na dele quando foi abandonada. Não se faz. Vai daí, perseguiu-o e toma lá chumbo.

Presa pelo homicídio, foi levada da cadeia por uma multidão que faria justiça pelas próprias mãos. Antes de morrer, Miss Otis ergueu a cabeça e, a chorar, lamentou, na terceira pessoa - registo popularizado várias gerações depois pelo Miguel Veloso, agora só Miguel: "Miss Otis Regrets, she's unable to lunch today". A história é contada por um criado a uma senhora de modos tão recomendáveis como os da pobre Miss Otis, Deus a tenha.

Nos comentários às várias versões desta música sobressai a dimensão doce e triste do que se relata, e de como se relata, mas o meu preferido, que aparece nesta, a que tem a tripa a nu e o som de batata a fritar do vinil, é de uma utilizadora com a foto de perfil de uma ruiva a olhar de lado: "This song always makes me laugh".

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Sou um tractor

Gravei no telemóvel o contacto necessário e reencaminhei o programa do evento para o meu email pessoal. Tínhamos de estar às 8h15 de quarta-feira em frente ao Ritz. Quando cheguei a casa fui conferir se estava tudo certo. Estava tudo errado: nada tinha no email, e no telemóvel também não.

Cheguei uns minutos antes da hora combinada, confiante: tenho trinta anos, não me iria escapar um aglomerado de pessoas diante do Ritz. Acontece que o rei de Espanha estava em Portugal e foi no Ritz que se pôs à vontade, de modo que o ponto de encontro teve de ser arrastado para o hotel mais acima, o Tiara; pelos vistos toda a gente sabia disto, menos eu.

No dia em que o rei de Espanha estava instalado no Ritz, dei a volta ao hotel não uma, nem duas, mas três vezes. Fazia-o olhando em todas as direcções, em ritmo lento, de pára-arranca, cheio de dúvidas. Tipo o Sporting na terça-feira. Reparei que à segunda passagem um rapaz com altura para apanhar figos, estacionado à porta da entrada principal, deu uma discreta cotovelada a outro rapaz de igual mérito. Eram muito parecidos, tinham uniforme azul escuro e empunhavam uma shotgun. Não posso dizer que fossem mal encarados, porque tinham a cara tapada, mas algo lhes perturbava. Ocorreu-me que a vida não lhes estivesse a correr muito bem.

Continuei na minha e, já na outra entrada do Ritz, dirigi-me a um polícia. Perguntei se o Ritz era ali. Respondeu que sim, que era ali. Em desespero, perguntei se havia então outro Ritz em Lisboa. Respondeu que não, que só havia aquele.

Já passava da hora combinada. Da forma que as coisas se punham, teria de ir buscar o carro e fazer a viagem por conta própria. Mas não foi preciso: o treinador do Borussia Dortmund, também conhecido por L.C., ligou-me com voz de quem não foi à cama e informou-me que "eles" andavam à minha procura, o que era curioso, porque eu também andava à procura "deles". Contactos, lá nos encontrámos e seguimos viagem.

O rapaz da comunicação ia ao volante e era simpático. Fez conversa. Primeiro perguntou se alguém no carro era do Sporting. Em quatro, éramos três. Fez-se silêncio. Projectei a viagem toda assim. Mas à saída de Lisboa o condutor voltou a meter-se connosco e perguntou que estação radiofónica gostaríamos de ouvir. Apresentei uma argumentação violenta a favor de tudo o que não seja a Comercial e a RFM, que incluiu fazer pouco de quem a ouvia. O rádio estava sintonizado na Comercial.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Sou um verme

À ameaça de um espirro escondi a cara nas mãos, e quando me recompus percebi que as tinha deixado num estado lastimável. Olhei em volta, desconfiado. “Ah, parece que ninguém reparou, fixe”. Fiquei ali a fingir que fazia qualquer coisa, como se nada fosse – muito era, acreditem -, e depois fugi para a casa de banho. Estava já a poucos metros da porta do boneco com calças, descansado por manter a dignidade intacta, quando saiu disparada uma colega de trabalho pela porta do boneco com saia. Entrei em pânico. Temi o pior. Depois acalmei-me: afinal,  compreendi, este era um daqueles momentos que fazem de um homem aquilo que ele É. A primeira tentação foi meter cara feia e fitar o chão para evitar qualquer hipótese de contacto físico, que toda a gente tem um dia mau e até tem chovido e tudo isso, mas ela não me deu saída porque me mostrou logo os dentes e pediu um “áifáive”. Não tive alternativa: deixei-a de mão pendurada. De seguida foi vê-la afastar-se, acusando-me de ser um verme, à maneira dela - “que falta de chá!” -, ao mesmo tempo que as palavras se atropelaram na minha boca sem que tenha dito porra nenhuma.