segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Crónicas de um algarvio desempregado: dia zero



A primeira coisa que fiz depois de assinar a rescisão foi comer uvas que eu e Fátima trouxemos da videira do quintal da casa dos pais dela, quando estivemos de férias, antes de saber que ficaria sem emprego. Maduras, maneirinhas e gostosas, as safadas, como aquela tropa dos anúncios classificados.
De seguida arrumei as minhas coisas, abracei colegas de trabalho, desumanizei-me, enxotei lágrimas que noutro mundo teriam seguido o seu rumo natural e ala, que se faz tarde. Antes ainda dei um salto à copa, queria tirar um café para o caminho, mas a máquina do café estava avariada, como quase sempre esteve. Existindo, aqui e ali Deus mostra um sentido de humor matreiro, o Grande Criador sabe ser o futebolista da equipa que está a ganhar e na parte final dos jogos atira-se voluntariamente para o chão, rebolando de dores que não sente só para levar a melhor.
Quando li a indicação "máquina avariada" parti-me a rir, de maneira que a rir me afastei do edifício. Três anos no Destak, cinco no Metro, oito na Cofina.
Quis passar as minhas primeiras horas de desempregado com a Fátima, por aí. Como já tinha começado a enviar currículos e agendado uma entrevista, permiti-me reservar o resto do dia e activar o modo beber para esquecer. Quando cheguei a casa encontrei a Fátima à minha espera, pronta para o que desse e viesse, claro. Dei-lhe um beijo que tinha amor, tinha tudo. Minutos depois já tínhamos batido com a porta, desenfreando-nos a pé pela cidade.
Mal subimos a nossa rua agarrei-me à linda cintura da Fátima, tentando desta forma acompanhar-lhe o passo, sem lhe pisar os calcanhares, como numa dança. Parámos ao pedido de uma senhora antiga muito carinhosa que se cruzou connosco, com vontade de nos falar. "Ai, tão queridos", disse, juntando as palmas das mãos, bem abertas. Sentimo-nos especiais e trocámos um olhar cúmplice, a Fátima e eu. Depois a senhora antiga atirou-me para as mãos um almanaque religioso que só custava um euro. Meio confuso, comprei aquilo. Trazia receitas de culinária.
Ao contrário do ovo e da galinha, sabemos que primeiro veio a aldeia, só depois a cidade, e quanto mais a cidade souber conservar esses traços originais de proximidade, que tornam possível os amigos viverem em família, bem aconchegadinhos, melhor.
Por isso soube bem retomar o caminho de almanaque na mão, caminhar duzentos metros numa rua de Lisboa e encontrar uma amiga. Ela bebia uma cerveja com outra amiga na esplanada de um café. Os filhos de ambas brincavam lá dentro, protegidos de um sol que ainda picava. O puto da minha amiga está um homenzinho cheio de pinta e disse-me "olá" pela janela, pelo que dei a volta e fui lá dentro despenteá-lo. Ao regressar trouxe duas cervejas e juntámo-nos às moças. A minha amiga trabalhou comigo; falámos de trabalho, ou, no meu caso, da falta dele. Falámos também dos Açores, que a amiga dela tinha acabado de visitar, e da vida. Uma outra rapariga entretanto juntou-se. Vinha manca porque tinha caído de mota e doía-lhe um joelho. A moça que foi aos Açores gostou de tal forma daquela força da natureza que amou o "cheiro horrível" a enxofre das Furnas, na ilha de São Miguel. Dissemos até já e retomámos o nosso caminho, que era para descobrir a pé.
Chegámos à Graça e descemos para o Martim Moniz. Ao longe ouvia-se música, suficientemente longe para se tornar imperceptível que tipo de música seria. Projectámos um concerto no largo, como na véspera. Entretanto a Fátima lembrou-se da Associação Renovar a Mouraria. Andámos alguns minutos perdidos até que a encontrámos no cimo da uma rua estreita: era de lá que vinha a tal música, ainda por cima cubana, maravilha. Da maneira que o cenário estava montado, com uma banda a tocar num pequeno palco instalado na rua e a malta a fazer fila para comes e bebes no interior da associação, a festa era um autêntico arraial, o Santo António de volta, saudades mortas. A banda tocava várias músicas dos Buena Vista Social Club num estilo de rua, com ginga.
"El Cuarto de Tula; le cogió candela.
Se quedo dormida e nó apago la vela."
Ali ao lado dançava em lentos movimentos circulares uma mulher alta, bonita, talvez cubana. A pose de rainha nunca perdia; olhava a plebe de cima, sem mostrar os dentes. Como companhia tinha duas amigas, uma delas indiana, cujas vestes tradicionais salpiquei com cerveja quando tentei, em vão, equilibrar o copo ao mesmo tempo que tentava pôr a gravar o Chan Chan, ou o carinho instantâneo que aquelas e quaisquer outras pessoas sentem quando ouvem os primeiros acordes desse som tão belo e triste. Multipliquei pedidos de desculpa à indiana, mas nada, ela fugiu para o interior da associação sem sequer me fitar. Nunca mais a vi, já a cubana lá continuava, na dela, que em certa medida era a de quase todos. Fiquei muito atrapalhado e só voltei a dançar três ou quatro minutos depois, quando o fim do ataque de vergonha me libertou.
A banda fez uma pausa. Por essa altura já tínhamos partilhado Coxinhas do Ronaldo, uma com frango, outra com vegetais. Estavam tenrinhas. No intervalo passaram um disco que compila cumbias psicadélicas do Peru: Roots of Chicha, primeiro volume. Não foi assim há tanto tempo que andava a ouvir este disco quase todos os dias, achei muita graça. A Fátima também, tanto que sorria e cantava:
"Nunca, pero nunca
me abandones cariñito."
O sol desaparecia, o calor nem por isso, pelo contrário, deixava de ser o efeito de uma causa para se tornar numa incompreensível massa pesada de ar quente, um convite tardio ao suor, um exagero.
Entretanto deixei cair o copo de vez e salpiquei os pés de um casal, que, acto contínuo, sacudiu-me, derrubou-me e fuzilou-me com os olhos.
Foi nesse momento que o Marco Fortes que há em mim percebeu: estava bem era na caminha.

domingo, 31 de janeiro de 2016

Quando até A Bola faz uma capa destas...


O fiscal de linha levanta a bandeirinha para anular um golo. Está de frente para o lance e vê que há fora de jogo. Faz o que lhe compete num jogo de futebol.

O árbitro tem uma multidão à frente, não pode ajuizar o lance; nem tem como ver - é para isso que existe a função de fiscal de linha, para fiscalizar o que só se consegue ver a partir da linha. Presume-se que o jogo seja retomado. Presume-se mal.

O árbitro corre até ao fiscal de linha. Não aceita a decisão e pressiona-o para que a mude. "Vou-te dar uma ordem que não podes recusar". De repente o fiscal de linha já não acha que viu o que viu, passa a ver o que não viu. Golo validado. O segundo aldrabado, que no primeiro há um jogador da Académica em fora de jogo, mesmo em frente ao Patrício, que não vê a bola sair. E um penálti sobre o Mané que um assobio para o lado arrumou. 

O futebol português de regresso aos anos 90. Outros Pratas, a mesma sensação de que tudo é possível. 

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Bowie

Músicas poderosas ao ponto de nos fazer sentir maiores que este frágil saco de emoções, carne e ossos.

Crescem, agigantam-se-me pernas e braços, fico capaz de rebentar quando oiço a Heroes, e, rebentando, PUM!, chuva de flores em todo o mundo. Todos os sonhos ao meu alcance quando canto que serei rei e tu rainha.


Perco o chão quando o Bowie recorda Berlim - Where are we now? 

Uma música que parece ser desde sempre porque leva nela a melancolia de todos os adeus - pequenas mortes; que nos obriga a fechar os olhos com a força possível, soltar pela boca o que sai como ar mas por dentro rasga como a melhor faca. Tudo o que ficou por dizer, em quatro minutos e tal. Ainda aqui estarmos; os nossos sonhos é que não.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Aveiro não tem rock, excepto se abrires a pestana


A Fátima contemplava o lago do jardim do hotel sem perceber se um peixinho branco muito quieto seria efectivamente um peixinho branco ou um calhau. Era um peixinho branco. Talvez por isso, lembrou-se do tempo em que teve um bicho-da-seda. A Fátima gostava muito da lagarta; quando esta morreu, enterrou-a numa caminha de algodão e procurou uma explicação que a confortasse. Concluiu que a lagarta tinha morrido de solidão e decidiu que para a próxima teria não um, mas dois bichos-da-seda, que um casal sempre dura mais.

Depois teve cágados. Também morreram.

Chegámos a Aveiro em espírito de missão: era preciso desconstruir o mito de que a cidade não tinha rock. Antes disso enchemos a barriga n'O Mercantel, que fica na Praça do Peixe. À nossa frente, um jantar de natal daquele tipo de malta que se embebeda com um copo de sangria; na televisão, o Carrillo fazia slalom entre bandeiras na relva. Na nossa mesa, cabrito no forno mais espetada de porco com gambas mais Esteva. A par do café pedimos um licor da terra e a dona do restaurante deu-nos um do bairro (Beira Mar). O licor levava menta, por isso era verde. Achámo-lo espesso. Pedia licença para passar na garganta. Não repetimos.

A dona era de tal maneira do tipo de agradar que não nos deixou sair sem nos levar à janela para indicar a cúpula da Capela de São Gonçalinho, do lado de lá de um dos canais da ria de Aveiro. É lá que acontece o ponto alto das festas de São Gonçalinho, no início de janeiro: aveirenses, devotos e malucos sobem à cúpula e atiram cavacas para pagar promessas ao padroeiro da cidade, de quem se diz ser entendido em resolver problemas de romance e ósseos.

As cavacas são doces, mas também são duras, por isso a multidão tenta apanhá-las com um guarda chuva virado ao contrário. O culto local ao beato é grande, e ficámos a saber que dali a dois dias haveria um cortejo de oferendas "pastoras" e um leilão. Cheirou-nos a forrobodó. Prometemos ir. Fomos. O cortejo era animado por uma fanfarra, um quarteto com peso e idade que incluía tambor, seu fiel bombo, saxofone e acordeão. A organização ficou a cabo da Mordomia de São Gonçalinho. Os cânticos eram das pastoras e do Grupo de Xailes. Na frente arrastavam-se duas mulas com focinho de quem preferia estar a pastar noutro lado.

Terminado o cortejo, os mordomos esperaram que as crianças, os antigos e a Fátima fizessem festinhas nas mula. Depois lá deram início ao leilão. O primeiro artigo, uma garrafa de vinho de litro e meio, foi arrematado por vinte e cinco euros. O segundo artigo a ser arrematado foi o terceiro, um bacalhau: trinta e cinco euros. Só mais tarde dei conta, porque a Fátima o referiu, que o arrematante tinha sido o Dj do leilão, que era aliás o Dj de um bar onde tínhamos ido na véspera e também um dos 17 mordomos do beato que aproxima corações desavindos e favorece ossos mais frágeis. Encontrámos no cabaz uma garrafa de Jameson; fugimos antes que nos desse ideias.

Não faltou rock na cidade sem rock, assim como não faltou uma música de kizomba num bar de reggae, o Posto 7. Ainda não decidi se o roça/roça de rabo a fazer de mesa ter sido misturado com Serge Gainsbourg melhora ou piora a coisa. Tivemos um problema com o Kitten's, um irish pub: meteram uma Celine Dion a BERRAR Led Zeppelin. Aliás, ali praticamente só passava boa música em segunda mão, de modo que faltou sempre um bocadinho "assim" a um bar até bem acolhedor. Gostámos muito do Mercado Negro, uma associação cultural mesmo em frente ao canal central da ria que ocupa o andar de um prédio comum restaurado. Era noite de passar vinis, cortesia dos donos de uma loja de discos. David Bowie, Beatles, Franz Ferdinand. Nas paredes, gente desenhada com as vísceras à mostra. Resmas de hipsters pelas várias salas do andar.

O último dos bares que visitámos foi o Morgan & Jacob's Guesthouse. A primeira impressão, depressa confirmada, foi que o espaço tresandava a chouriça assada. A segunda foi que o Dj, o tal que arrematou um bacalhau por trinta e cinco euros, não falhava uma. Depeche Mode, Smiths, James, Strokes: pow!, cada tiro, cada melro. Pedi Arcade Fire. Na música seguinte já estávamos a ouvir a Rebellion (Lies). Gente boa.

De maneira que abanávamos os ossinhos à pala da cidade sem rock quando um rapaz caiu redondo, à nossa frente. Caiu de olhos abertos, de costas, desamparado, e bateu com a nuca no soalho. Lembrei-me do Fehér. Gritei à primeira pessoa que o acudiu para o meter de lado, como dizem por aí. O Dj calou o Win Butler e premiu o 112. Algumas pessoas saíram, o cenário não era propriamente coisa de se ver. A maioria das pessoas ficou por ali, atónita, à espera.

Sem cor, com os olhos abertos, o rapaz não se mexeu durante alguns segundos, mas lá pareceu recuperar a consciência. Ao meu lado estavam dois amigos dele. Um, mais velho, dizia que o rapaz estava bem e que deveriámos levantá-lo. Disse-lhe que nem pensar. Ao outro amigo vi em estado de choque. Era mais novo e por vezes ria-se quando lhe faziam perguntas, aquele risinho nervoso dos parvos. À minha questão, olha lá, o que é que vocês meteram para dentro, respondeu, só vinho. Procurei os olhos dele até incomodar e disse-lhe que não acreditava - ninguém acreditaria num puto que tem o amigo quase a morrer e continua no céu com diamantes. Vinte minutos depois chegaram os bombeiros. O rapaz que desmaiara vomitou mal o tentaram erguer. Menos mau. Soubemos no dia seguinte que ele tinha ficado bem, disse-nos o Dj, que nos encontrou à passagem do cortejo e abriu caminho entre as mulas para nos dar a boa nova.

Aveiro pode ser tudo, menos ingrata. A cidade soube modernizar-se, mas cada recanto parece um bom lugar para homenagear quem dela fez o que hoje é. O Zeca Afonso, filho da terra, está em todo o lado. Os pescadores e as varinas também. Gostámos muito das pinturas populares que decoram os moliceiros, os barquinhos que no outro tempo serviam para a apanha do moliço, uma espécie de alga colhida para ser utilizada como fertilizante agrícola, e agora levam o rebanho turístico. Também fomos carneiros. O nosso moliceiro ganhou a simpatia imediata da Fátima porque tinha uma pintura alusiva ao Eusébio na proa. O meu preferido trazia a caricatura de um malandro aos pés de uma mulher de lingerie, a quem dizia, "que rica fruta a menina aqui tem." 

sábado, 15 de novembro de 2014

rio Arade 1-0 rio Tejo

Virámos costas a Lisboa a meio da tarde e fomos para a chuva de Alcochete. A primeira paragem foi num café que tinha o dono e amigos à porta. Pedimos dois moscatéis com gelo, que bebemos sem pressa. O dono e os amigos entraram para fazer ambiente. Um passarinho cantava o tempo inteiro numa gaiola ao pé da casa de banho dos homens. 

Achei piada ao passarinho; já a Fátima achou que tinha ganho uma dor de cabeça. Saímos sem pagar, por insistência do dono, que não tinha troco de dez euros.

Fome era coisa que não nos faltava, e uma boa dose de chuva grossa empurrou-nos para a "Taverna". Tivemos sorte. Comemos ali o melhor pica-pau das nossas vidas. "O segredo está na confecção", atirou a cozinheira, conservando o segredo como tal. Melhor do que aquele petisco só mesmo a notícia do nascimento do Gonçalinho, o novo primo da Fátima, o novo Felício. Entrámos na igreja Matriz e a Fátima piscou o olho a quem de direito.

Com o apetite já aberto ainda passámos por um bar, o "Riskbar", seis da tarde como se fosse meia noite, e de seguida fomos jantar. Queríamos peixe, e na vila incentivaram-nos a experimentar o "Alcochetano". Assim fizemos. Mal passámos a porta demos com um rapaz mais ou menos da nossa idade: tinha a cabeça rapada, dois ferros redondos cravados nas orelhas, a barba do Edward Norton no América Proibida e uma t-shirt preta com um cão nervoso açaimado. Pareceu-me ser o filho do dono.

Perguntei-lhe se iam passar o Portugal vs. Arménia na televisão. Disse que podia ser, mas lamentou a coisa: estava a ver o Braveheart e, de qualquer forma, não ligava nada a futebol, muito menos à Selecção.

Perguntou-me se gostava do Braveheart; disse-lhe que sim. Depois perguntou-me se gostava de filmes épicos; disse-lhe que mais ou menos. Por fim perguntou-me se éramos do Benfica; respondi-lhe que a Fátima sim, mas eu não, era do Sporting, o que levou o sósia do Edward Norton no América Proibida a questionar se eu teria sofrido algum trauma de infância.

Devolvi-lhe a simpatia com o mesmo tipo de francês, mas depois fitei a t-shirt preta do cão nervoso açaimado e fiz o pedido com a minha melhor cara: linguado para a Fátima; salmonetes para mim; branco da casa.

Dei a provar à Fátima os meus salmonetes. Ela disse que lhe sabiam a camarão e afirmou, que "belos salmonetes, Rui!". Corei. 

Entretanto o rapaz da t-shirt preta do cão nervoso açaimado lá se lembrou de mudar de canal aos dez minutos de jogo, curiosamente logo a seguir a ter perdido uma mesa de gente que preferia ver a bola a gramar escoceses a mostrar o rabo a ingleses. Esteve algum tempo a fazer-nos companhia, o sósia do Edward Norton no América Proibida. Antes de terminarmos rosnou qualquer coisa sobre os Nome Name Boys que não percebi; indignado, também se queixou de um polícia que uma vez o tratou como um criminoso só porque circulava em excesso de velocidade. Pedimos a conta, desta vez pagámos, cumprimentámos toda a gente que lá trabalhava, especialmente o rapaz que não gostava de futebol, muito menos da Selecção, e voltávamos à selva. 

Seis horas antes, ao estacionarmos em Alcochete mesmo junto ao estuário, fiz ver à Fátima que aquela vista sobre o Tejo era a vista perfeita, com Lisboa lá longe; não a convenci e levei com uma resposta à moda de Santana de Cambas.

"O rio Arade é mais bonito. Quando estou na Mexilhoeira da Carregação e olho para Portimão, é mais bonito."

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Farsas

La Dolce Vita, Fellini

A doce vida do Marcello, cheia de álcool, mulheres, mentiras, luxo, nada. Como um vintém é um vintém, uma boa farsa é uma boa farsa. Contem comigo para essas. As outras não.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Não percebo nada de futebol

Numa fase boa, o Sporting entra em Gelsenkirchen a perguntar ao Schalke, quem és tu? Joga como quer, os alemães também pouco se aventuram, não percebo se por estratégia do italiano que agora lá mora ou incapacidade; talvez um pouco dos dois. Quando entra o primeiro golo (Nani) já devia ser o segundo (Slimani). Mais um par de jogadas com princípio, meio e o fim desejado ali tão perto. Gosto de quase tudo o que vejo, excepto mais um amarelo idiota do Maurício - mais uma entrada estúpida sobre um adversário a meio campo, como se a vitória dela dependesse -, e naquele momento desafio o pessimista que há em mim: não vejo forma de o Sporting não ganhar aquilo; penso nisso.

Mas alto lá que alguma coisa se arranja. Num piscar de olhos o Sporting perde o Slimani (lesão), o burro do Maurício (expulsão), a vantagem (empate) e a confiança toda-poderosa do Patrício (frangalhada no 1-1). Uma sucessão de eventos para deixar knock-out qualquer equipa que a sofra, sobretudo a este nível. E por falar em knock-out, 2-1 para o Schalke em fora de jogo e logo o 3-1, tudo ali no início da segunda parte. Meia hora por jogar, temos dez em campo e menos dois golos que os alemães, e naquele momento desafio o optimista que há em mim: não vejo forma de o Sporting não perder aquilo; penso nisso.

Mas alto lá que alguma coisa se arranja. Os jogadores recuperam os sentidos, dois ou três passes com lucidez e o Carrillo serpenteia até à área dos outros, onde é pisado. O Adrien não perdoa. 3-2. Satisfeitos por perder por poucos, uma vez que jogamos com dez? Era o que faltava. Quem tem medo compra um cão, e como o Sporting não parece conhecer o provérbio, atira-se à garganta do adversário na luta pela sobrevivência. Com prémio. Numa jogada só possível para quem acampa no meio campo contrário, à grande, eis o empate, de novo pelo Adrien; de cabeça, imagine-se. Ainda faltava uns 12, 13 minutos para o jogo acabar, mais, sei lá, três, quatro minutos de compensação, e muita coisa poderia acontecer, mas quem consegue recuperar dois golos de desvantagem com menos um jogador em campo não pode deixar de ser feliz, e naquele momento desafio o pessimista que há em mim; não vejo forma de o Sporting não empatar aquilo; penso nisso.

Mas alto lá que alguma coisa se arranja. Desta vez algo cujo entendimento me escapa. Não percebo nada de petróleo. Só de futebol. Quer dizer...

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Justo. Escasso.


É sempre catita ganhar, mas fazê-lo com os nossos putos é outra coisa - sabe melhor. Entrego a bicicleta ao Dier, por quem ninguém passou nesta Taça de honra. Para o João Mário, que na minha opinião joga demasiado bem futebol, vai um triciclo bem bonito. 

Menção honrosa nas papoilas para um tal de Luís Felipe, que até nome de craque tem. Vai dar que falar, fiquei fã.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

O sentido da vida

O sentido da vida deve ser não a perder na estrada. Que estupidez seria. E tão fácil que é. Uma, duas, várias noites mal dormidas. Uma viagem. Os olhos a ceder. Um segundo. Dois. Nada. Suficiente.

Somos isto, capazes das coisas mais extraordinárias, e nada, nada.

Destruir o carro e sair dele pelo próprio pé, sem um arranhão. Gente a acudir. Logo. O impulso de ajudar o outro antes do receio do que se vai encontrar. Homens-coragem. Mulheres-coragem. 

"Amigo, está bem?"/"Sim."/"De certeza?"/"Sim. Sim."

Escapar à puta de negro. A minha melhor finta. Puta, que me querias tão cedo, volta para o buraco de onde saíste.

Chegar. Abraçar quem amo. Estou aqui.

Respirar. Poder fazê-lo. Descobrir esse prazer.

Tanta coisa boa à minha espera.

domingo, 18 de maio de 2014

Sobre a Ti Piedade do Forno e o seu jeitinho para remediar o padrão caído

A Ti Piedade do Forno era a melhor curandeira de Marim, que fica a seguir a Olhão, assim como quem vai para Quatrim do Norte.

O normal era sair de casa de manhã com os animais, para os levar a pastar a uma fazenda no Laranjeiro, e ter uma feira de éguas, cavalos, burros, mulas e homens armada à porta de casa quando regressava, quase sempre na última hora da noite. Filha do João do Forno, a Ti Piedade tinha especial apetência para lidar com o padrão caído, uma doença que a Vivi não sabe em que consiste, na certeza porém de que só ataca homens, diz.

Montados nas suas queridas bestas, os homens faziam fila à porta da Ti Piedade para cuidar do padrão caído, e não havia quem não remediasse o padrão caído com as benzeduras da melhor curandeira de Marim. Até porque "não há benzedura que seja má", diz a minha avó. Quando perguntei à Vivi quantos homens iam a casa da Ti Piedade por noite, ela respondeu: "Muitos. Durante o dia tratava dos animais; à noite tratava dos homens".

terça-feira, 22 de abril de 2014

Santana de Cambas, a aldeia onde putos sem bigode jogam à malha


Depois do sino moderníssimo da igreja, cujo som lembra um instrumento do Noiserv, a gargalhada do Manuel Zé impõe-se mais do que qualquer outra coisa em Santana de Cambas. O Manuel Zé é pai da Ana Raquel, prima da Fátima (miúda muito gira de Santana), e é daquelas pessoas muito fáceis de se gostar. Numa das saborosas refeições entre sexta-feira e sábado preparadas pela mãe da miúda gira, perguntou-me se queria vinho branco ou tinto e antecipou-se à minha resposta com um "chêo!", seguido de uma valente gargalhada. Na segunda tarde passou por nós de carro com amigos, depois de todos bebermos café na Sociedade; seguia no banco do pendura. Lembro-me de o Luís, genro do Manuel Zé que por estes dias não pode comer sopa porque está de dieta, observar que o passeio do sogro só poderia ser perigoso na medida em que o condutor, o Sebastião, era maluco e não tinha dedos. Não cheguei a perceber se a causa de uma coisa era o efeito da outra.

Na véspera fomos desmoer o almoço para o poço de Santana, onde a miúda gira e as amigas passaram grande parte da infância - poço esse que, segundo a Ana Rosa, está abençoado com "uma vista espectacular sobre o cemitério". A tarde foi animada pelas memórias das meninas e pela cadela da Ana Raquel, que não pára quieta e respira como quem adormece de barriga para cima depois de encher a cara de vinho, ou como um porquinho.

Santana de Cambas é uma aldeia do Baixo Alentejo, concelho de Mértola, e apresenta mais méritos do que se possa pensar. Praticamente não se apanha rede de telemóvel, mas as portas das casas estão quase todas abertas, e as pessoas juntas; não tem multibanco, mas há um café que troca o cálice de aguardente de medronho por oitenta cêntimos; não tem posto médico, mas a paragem do autocarro está protegida com um vidro duplo para que ninguém se constipe; não tem muitos putos, mas encontrei três ainda sem idade para ter bigode a jogar como gente grande à malha. Compreendi, ao deitar-me na segunda noite, vindo do Baile da Pinha, que estava ali uma das povoações mais evoluídas que alguma vez conhecera.

O Baile da Pinha foi animado pelo Tiago Catarino, um acordeonista que parecia mais velho do que era na foto do cartaz de promoção afixado na paragem do autocarro, ou "a casinha", onde passámos algumas horas na primeira noite a beber vinho e a morder pipas. Aproveitei os largos minutos de reflexão que o Tiago Catarino tirava entre as músicas e fui ao pé dele pedir Pink Floyd. Respondeu-me que não seria possível, mas que poderia passar kizomba. Fiz cara de peido e optou-se por um funaná que não convenceu ninguém.

A família da miúda gira recebeu-me da melhor forma possível. Notei que a Dona Odete, a mãe, cozinhava sempre com uma pitada de carinho; que o pai, Armando, tem a poesia na alma; que o irmão, Pedro, é uma enciclopédia de conhecimento técnico com pé de dança. Há também o Armando filho, que tem o sorriso dos bons e chegou no segundo dia com a noiva, a Sónia, e a pequena Sofia, que ainda não tem um ano mas já vê o mundo por uns olhos azuis muito grandes e tem umas bochechas que parecem maçãs, muito rosadinhas, e dança no colo da família e é o "ai Jesus" daquela gente, a par da bebé Francisca, a filha da Ana Raquel e do Luís.

Atirei-me com vontade às ofertas gastronómicas da dona Odete, que foi bastante hospitaleira e passou o tempo a encher-me a boca de doces. De resto, havia sempre muita gente à mesa, como é de bom hábito no Alentejo. Na sexta-feira santa comemos ao almoço um bacalhau com natas que me pareceu gratinado a preceito, e para a sobremesa a mãe da miúda gira colocou-me à frente uma cesta com peças de fruta, mais uma tigela com mousse de café e pratinhos com tarte de natas e bolo de laranja. Trinquei uma pêra, devorei os doces todos e repeti a mousse. É fácil de perceber que no regresso a Lisboa também já tinha a barriga repetida, além de um saquinho que a mãe da miúda gira me meteu na mão, antes de me fazer à estrada, e que trazia um folar com ovo, dois queijos frescos e um chouriço.

De maneira que não está inteiramente certo aquilo que o padrinho da miúda gira disse à saída da Sociedade, onde toda a gente da aldeia parece estar para ficar, na tarde em que o Manuel Zé foi passear com o amigo sem dedos: "Cuidado com o sol alentejano; traz preguiça!". É preciso dizer que, do Alentejo, no que me toca, trouxe amor e enchidos, entre outras coisas, sendo que preguiça não foi uma delas.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Nick Drake: magia



O disco Pink Moon é o terceiro e último acto da tragédia de Nick Drake, o rapaz que, uma de duas, morreu a tentar matar-se ou levou longe de mais o esforço de sobreviver (sucumbiu a anti-depressivos). Nick era bom no que fazia, como agora se sabe, mas demasiado tímido. Mau a olhar nos olhos, não funcionava ao vivo. Um desastre mesmo. Nem entrevistas dava - há registo de uma, para esquecer.

Em 1969 fez nascer 'I was made to love magic', tema que aparece em compilações depois da sua morte (1974), mas antes do sucesso. A letra diz, 'I was made to love magic/I was born to sail away/Into a land of forever".

Desengane-se quem pensar que a carreira de Nick se parece com a de outros artistas que gozaram de sucesso póstumo: o do britânico apareceu, sim, mas uma vida depois. Literalmente. Se morrer tão cedo (26 anos) e de forma tão triste não foi suficiente para o público ficar curioso sobre o que o músico tinha para cantar, isso aconteceu no virar do milénio passado, dezembro de 1999, à boleia de... um anúncio publicitário. O bom gosto foi da Volkswagen, que promoveu o (então) novo Cabriolet ao som do tema-título do último álbum de Nick Drake, Pink Moon. O vídeo também ajuda: é todo ele magia e mistério, e hoje o spot da vida de muita gente, como se percebe pela caixa de comentários.

Nesta tragédia de ironias, Nick Drake vendeu mais discos num mês de exposição pelo anúncio da Volkswagen do que em 26 anos de vida. E então sim, voou para todo o lado, para sempre, como um dia quis.

quarta-feira, 19 de março de 2014

"This song always makes me laugh"


Do arquivo murder songs, disponível a quem respire, escolho a Miss Otis Regrets do Cole Porter, escrita quando a Vivi tinha sete anos. Podia ser a Hey Joe dos The Leaves, que correu mundo pela guitarra do Hendrix, mas essa toda a gente conhece. Acho. Espero. 

Miss Otis Regrets conta a história de uma mulher que teve um fim triste depois de conhecer um homem. Toda a gente tem o seu fim depois de fazer qualquer coisa, como um dia aprendi no jornalismo, pode é ser menos cruel que este. Acontece que Miss Otis, menina com os modos mais recomendáveis, estava na dela quando foi seduzida, e já se via na dele quando foi abandonada. Não se faz. Vai daí, perseguiu-o e toma lá chumbo.

Presa pelo homicídio, foi levada da cadeia por uma multidão que faria justiça pelas próprias mãos. Antes de morrer, Miss Otis ergueu a cabeça e, a chorar, lamentou, na terceira pessoa - registo popularizado várias gerações depois pelo Miguel Veloso, agora só Miguel: "Miss Otis Regrets, she's unable to lunch today". A história é contada por um criado a uma senhora de modos tão recomendáveis como os da pobre Miss Otis, Deus a tenha.

Nos comentários às várias versões desta música sobressai a dimensão doce e triste do que se relata, e de como se relata, mas o meu preferido, que aparece nesta, a que tem a tripa a nu e o som de batata a fritar do vinil, é de uma utilizadora com a foto de perfil de uma ruiva a olhar de lado: "This song always makes me laugh".

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Sou um tractor

Gravei no telemóvel o contacto necessário e reencaminhei o programa do evento para o meu email pessoal. Tínhamos de estar às 8h15 de quarta-feira em frente ao Ritz. Quando cheguei a casa fui conferir se estava tudo certo. Estava tudo errado: nada tinha no email, e no telemóvel também não.

Cheguei uns minutos antes da hora combinada, confiante: tenho trinta anos, não me iria escapar um aglomerado de pessoas diante do Ritz. Acontece que o rei de Espanha estava em Portugal e foi no Ritz que se pôs à vontade, de modo que o ponto de encontro teve de ser arrastado para o hotel mais acima, o Tiara; pelos vistos toda a gente sabia disto, menos eu.

No dia em que o rei de Espanha estava instalado no Ritz, dei a volta ao hotel não uma, nem duas, mas três vezes. Fazia-o olhando em todas as direcções, em ritmo lento, de pára-arranca, cheio de dúvidas. Tipo o Sporting na terça-feira. Reparei que à segunda passagem um rapaz com altura para apanhar figos, estacionado à porta da entrada principal, deu uma discreta cotovelada a outro rapaz de igual mérito. Eram muito parecidos, tinham uniforme azul escuro e empunhavam uma shotgun. Não posso dizer que fossem mal encarados, porque tinham a cara tapada, mas algo lhes perturbava. Ocorreu-me que a vida não lhes estivesse a correr muito bem.

Continuei na minha e, já na outra entrada do Ritz, dirigi-me a um polícia. Perguntei se o Ritz era ali. Respondeu que sim, que era ali. Em desespero, perguntei se havia então outro Ritz em Lisboa. Respondeu que não, que só havia aquele.

Já passava da hora combinada. Da forma que as coisas se punham, teria de ir buscar o carro e fazer a viagem por conta própria. Mas não foi preciso: o treinador do Borussia Dortmund, também conhecido por L.C., ligou-me com voz de quem não foi à cama e informou-me que "eles" andavam à minha procura, o que era curioso, porque eu também andava à procura "deles". Contactos, lá nos encontrámos e seguimos viagem.

O rapaz da comunicação ia ao volante e era simpático. Fez conversa. Primeiro perguntou se alguém no carro era do Sporting. Em quatro, éramos três. Fez-se silêncio. Projectei a viagem toda assim. Mas à saída de Lisboa o condutor voltou a meter-se connosco e perguntou que estação radiofónica gostaríamos de ouvir. Apresentei uma argumentação violenta a favor de tudo o que não seja a Comercial e a RFM, que incluiu fazer pouco de quem a ouvia. O rádio estava sintonizado na Comercial.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Sou um verme

À ameaça de um espirro escondi a cara nas mãos, e quando me recompus percebi que as tinha deixado num estado lastimável. Olhei em volta, desconfiado. “Ah, parece que ninguém reparou, fixe”. Fiquei ali a fingir que fazia qualquer coisa, como se nada fosse – muito era, acreditem -, e depois fugi para a casa de banho. Estava já a poucos metros da porta do boneco com calças, descansado por manter a dignidade intacta, quando saiu disparada uma colega de trabalho pela porta do boneco com saia. Entrei em pânico. Temi o pior. Depois acalmei-me: afinal,  compreendi, este era um daqueles momentos que fazem de um homem aquilo que ele É. A primeira tentação foi meter cara feia e fitar o chão para evitar qualquer hipótese de contacto físico, que toda a gente tem um dia mau e até tem chovido e tudo isso, mas ela não me deu saída porque me mostrou logo os dentes e pediu um “áifáive”. Não tive alternativa: deixei-a de mão pendurada. De seguida foi vê-la afastar-se, acusando-me de ser um verme, à maneira dela - “que falta de chá!” -, ao mesmo tempo que as palavras se atropelaram na minha boca sem que tenha dito porra nenhuma.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Confúcio: "Aquele que diz que pode e aquele que diz que não pode... têm ambos razão."



Este foi o ano em que me tornei menos egoísta. Em que respeitei mais os outros. Em que passei mais vezes a perna às minhas ignorantes certezas. Em que passei mais tempo com a família. Com os meus.

Este foi o ano em que mais vezes joguei a mão ao pescoço dos meus medos. É incrível o que consegues quando te propões a fazer algo e dás o que tens. Este foi o ano em que percebi que a vontade de ser melhor para mim me torna mais apto a ser melhor para os outros. É contagiante, e convém: ninguém pediu para nascer, mas estamos todos metidos nisto.

Este foi o ano em que percebi que não sou uma ilha por viver num só corpo. Que não sou especial por ter os olhos verdes. Que o Mundo não me deve nada, nem está contra mim. Que de nada me serve meter cara de peido e queixar-me da má sorte. Que nada vai mudar, zero, se eu não fizer por isso.

Este foi o ano em que compreendi que só temos uma certeza - um pouco chata, diga-se. De resto, se excluirmos o que não podemos controlar, percebi que grande parte do que nos acontece é escolha nossa. É sempre bom imaginar isto como uma viagem no tempo, a revienga que o Jesse deu à Celine para a convencer a passear com ele por Viena no Before Sunrise. Uma viagem no tempo, portanto: é imaginar que daqui a 20 anos surge a hipótese de recuarmos no tempo e mudarmos o que nos tornou naquilo que não gostamos. E aconteceu: aqui estamos, 20 anos antes. Temos mais uma hipótese. Agora é connosco.

Entrem no ano novo com os dois pés, a única maneira de entrar. Vemo-nos amanhã no Macdonald's.

domingo, 29 de dezembro de 2013

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Prendinhas pelo intercomunicador


O jantar teve em mim um impacto tal que acordei de noite para ir à casa de banho e quando de lá saí já era de dia. À falta de gente, lá fora a luz fraca do primeiro sol descobria as ruas, as casas e os carros, caso do meu, cujo pára-choques tinha ganho uma camada extra de mosquitos mortos - lembranças da viagem da véspera. Olhei à minha volta. A mesa tinha sido levantada mas a toalha continuava posta, agora à espera do pequeno almoço, e transmitia uma mensagem desligada do cenário que integrava: a sala parecia ter sido visitada por um ladrão apressado, que procura uma coisa em específico e não a encontra. Roupa pelo chão, almofadas atiradas para trás do sofá... tudo com um aspecto remexido e fora do sítio. Aos meus pés, no meio do caminho, encontrei os nossos sapatos, aninhados.

Preparava-me para voltar à cama quando reparei que o telefone de porta estava tombado, suspenso pelo fio. De maneira que estivemos juntos, não tenho é a certeza se sós.