segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Beirut: o Zach "desromantizou a parada"


Hoje ouvi um disco do início ao fim. Foi mesmo assim: pu-lo a tocar, despenhei-me no sofá e não fiz mais porra nenhuma enquanto ouvia aquilo, oferta da minha Cleópatra, que concorda em não trocar prendas comigo no dia dos namorados e à noite aparece-me com um disco novo.

Parece coisa de malandro: em pleno 2019 um homem chega a casa depois do trabalho, dá uma corrida, toma um banho e estica-se no sofá a ouvir um disco. As músicas todas, 12, que lata! Tanta coisa para me ocupar e, qual quê, pura e simplesmente oiço um disco. Já não há respeito pelo multitasking. Isto já não devia estar para horas vagas, somos feitos para trabalhar, até parece mal, ainda alguém fica a saber, e depois, o que vão as pessoas pensar?

Um disco. Pff.

Já agora, é o novo dos Beirut, que, de início, parece recuperar alguma da energia do início da carreira deles, faz-de-conta-que-estamos-num-casamento-nos-Balcãs-e-vamos-beber-até-cair-para-o-lado-e-cantar-em-coro-por-cima-de-trompetes-cavaquinhos-e-serpentinas-que-a-vida-são-dois-dias, mas o Zach Condon já não tem 19 anos e, à medida que o disco avança, transparece a ideia de que o nosso amigo já passou por umas coisas e tem outro tipo de histórias para contar que não propriamente as de uma noite de festa, o que pode ser aferido logo por alguns dos títulos das músicas do disco - aludem a morte, exílio, maldições e fim.

Como li na caixa de comentários do vídeo desta Landslide, que é ocupada quase na totalidade por brasileiros - acontece com qualquer música dos Beirut ,- o Zach "desromantizou a parada".

Há algum experimentalismo pop por aqui, mas pouco convicto, como se se fizesse outra coisa só para não se fazer a mesma. Gosto muito da música número 2, Gallipoli, que dá título ao disco, aquele crescendo até ao refrão instrumental é um clássico instantâneo da banda; outras há de fazer encolher os ombros, como a bossanovazinha mal amanhada da número 7, "Corfu" - o guitarrista lembra aquela malta, tipo eu, que, quando era puto, só sabia tocar um acorde e, à falta de melhor, tocava-o com mais afinco para me fazer ouvir mais alto, evocando o que poderia ter sido uma evolução, sem o ser.

"Divertida" já não pode ser a forma como resumimos a música dos Beirut. Vamos ter de nos acostumar ao piloto automático melancólico que ouvimos nesta Landslide e noutras que tais. Entranhá-lo pode levar o seu tempo. 

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Para 2019: mais rock, menos merda


O David Fonseca estava à espera de quê, chegar à zona ribeirinha de Portimão numa noite fria, 10 graus na escala térmica de dor portimonense equivale a 2 ou 3 negativos no resto do país, tocar o novo álbum e ter logo a malta a beijar-lhe os pés? Não, nada disso, já diz o Samuel Mira que "o trono é egoísta, nada filantropo", e o nosso é do Nakajima e mais ninguém. Primeiro que a malta se entregue a um músico destes, armado em esperto, com o desplante de fazer música pop sem uma única ordem expressa para a plateia mexer o bumbum, é preciso que muita coisa boa aconteça num curto espaço de tempo.

Mas o David parece ser um gajo esperto e, aos poucos, lá soube conquistar a malta. Depois de um começo aborrecido, com intervalos incómodos entre músicas, nos quais atirava trivialidades para ganhar tempo, pensar onde se tinha metido e o que podia fazer para quebrar o gelo, perguntou se nos sentíamos sensuais. Claro que toda a gente achou que se sentia extremamente sensual e ele lá sacou um Rod Stewart para gáudio da malta que ouve a m80, e dos bifes, que não eram poucos, nunca são.

A coisa animou e não demorou muito até que o David aquecesse os corações dos mais antigos. "De manhã, que medo que me achasses feia" - era a Amália a navegar ali ao lado, num barco negro passeava pelo Arade e o David a dizer-lhe adeus como quem diz olá, um truque que aprendi com a minha avó Vivi e que dá mais que pensar e menos que dizer.

Foi mais ou menos por esta altura que a malta tirou a cara de "fim do mês e já conto os trocos" para cantarolar os inúmeros hits do David, um puto reguila de 45 anos que andou aos saltos durante quase duas horas, cantou, tocou guitarra e bateria e ainda fez turismo pelo meio do público, não foi propriamente a estraçalhar a goela a cantar "rock n'roll" durante 10 minutos num crowdsurf à Tigerman, mas vá, deixou-se ver.

Do meu lado esquerdo tinha um homem com aspeto de ser um dos duros dos cafés de Portimão, talvez pescador, trazia um barrete do Reino Unido e filmou o concerto todo sem abrir a boca, topei que já tinha os olhos trocados e passou mais tempo a filmar o que estava para trás dele do que aquilo com que se deparava adiante, no palco. Atrás de mim, outro foco de interesse: um grupo de indianos dançava desligado do concerto, eram 4 ou 5, formavam uma rodinha mal feita e filmavam-se com alegria e despropósito.

Quando o David Fonseca entrou pela plateia dentro, ele e a guitarra, foi recebido em festa e com muitas, muitas mãos assim que entrou no círculo indiano, ele e a guitarra, e lá tiveram de avançar os seguranças para tirar o David dali, ele e a guitarra. A partir dali o David prosseguiu a caminhada pelo meio da plateia, mas só ele, passando a erguer a guitarra bem por cima da cabeça, para não dar tanto trabalho aos seguranças.

Uma vez terminado o concerto, o senhor responsável por musicar a debandada do povo escolheu a tal música do outro que dá ordens para mexer o bumbum e outras como aquela em que o cantor sabe que 180 com 180 dá 360. Pus-me a pensar que, para 2019, gostaria de ter e de desejar aos outros mais música e menos matemática, entre outras coisas absolutamente necessárias para que a felicidade continue a ser procurada, e que todos sabemos bem quais são.  

Rock on.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Engolir em seco



Na caixa de comentários deste vídeo da 'Home', do Patrick Watson, alguém diz que soube naquele mesmo dia, há três anos, que lhe tinha sido diagnosticado um cancro, que teria 40% de hipóteses de sobreviver e que ouvir esta música lhe dava algum conforto para o que a partir dali viria.

Instantaneamente, centenas de pessoas quiseram deixar palavras de coragem a esse doente, que foi agradecendo. Agradeceu várias vezes durante aquele ano - o YouTube só distingue a data dos comentários entre anos e deu para perceber que esses comentários eram referentes a 2014. Fui descendo na barra cronológica, e quanto mais descia mais o coração acelerava e apertava, até estabilizar em 2017, na incerteza: todos os comentários que encontrei, a partir de 2015, foram das pessoas que queriam saber como é que o fã do Patrick estava.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Um arrepio na pele, água na boca


   
Sabe-se há alguns anos que a música é coisa para fazer o nosso cérebro libertar uma substância química associada ao bem bom, a dopamina. Foi o que me aconteceu com Modern Girls & Old Fashion Men, o lado B do single Reptilia, dos Strokes, um dueto com a Regina Spektor no qual tropecei por ter acordado com o lado A a tocar no meu radiozinho interior. Um arrepio na pele, água na boca, isso tudo que o Marco Paulo explicou.

(Dez meses sem vir ao Castelo, assim de repente lembrei-me do Gil Scott-Heron, que já depois dos 60 cantou: «I'm new here, will you show me around?») 


domingo, 23 de outubro de 2016

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Cartas da Guerra: cinema-cinema


Pouco ou nada tenho ido nos últimos anos, e já não me lembrava disto, como pode ser verdadeiramente mágico, o cinema-cinema, não o outro, como é verdadeiramente mágico que limitações de orçamento e uma nesga de luz te levem por caminhos que trazem ainda mais encanto à tua obra, rodar a preto e branco, que dádiva para o nosso imaginário de repente saírem debaixo das pedras os Fellinis e tantos outros mestres, o drama cómico da existência tocado a flautas que não encantam só serpentes, não, e embalados assim vamos com o Lobo Antunes até onde o Ivo Ferreira quiser, aliás, puder, vamos, que não podíamos ir melhor, hipnotizados pela voz-ao-ouvido da Margarida, que passa o filme a dizer-nos coisas de uma maneira que, minha mãe.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Sporting: abrir a pestana em Vila do Conde


Já a frio, e porque massa crítica é coisa que nunca me faltará, a primeira coisa que tenho a fazer é criticar aquele que sempre defendi enquanto treinador e de quem sempre me ri enquanto figura do futebol, um barrasco que anima um universo de falsas modéstias, que faz falta. Não sei se o Jesus quer concretizar no Sporting o sonho de ganhar a Liga dos Campeões, mas sei que actualmente a melhor equipa que ele tem foi a que jogou bem e perdeu mal no Santiago Bernabéu, não a que jogou mal e perdeu bem em Vila do Conde.

Alguma coisa mudou naquela cabecinha pensadora, e, se assim foi, estamos mal. O homem tem é de meter no campeonato os melhores, porra. Acho que isto não tem discussão possível.

Este parece-me o primeiro erro do Jesus, virar o bico ao prego e dar prioridade à prova secundária. O segundo está nas opções tomadas no domingo, e entronca no discurso fanfarrão da véspera.

A ideia que passa é que o Jesus pensou que qualquer combinação de jogadores servia para ganhar, uma vez que o treinador era ele. Fosse em Vila do Conde ou em Sarilhos Pequenos. O que nos meteu em sarilhos grandes.

Mesmo mudando quatro peças, era possível ter uma equipa mais bem preparada para ganhar ao Rio Ave. Tem de haver equilíbrio. Não houve.

Ao lançar em conjunto os dois laterais mais ofensivos (Schelotto e Bruno César), os dois extremos mais avançados (Joel Campbell e Gelson Martins) e dois avançados que não defendem (Alan Ruiz e André), o Jesus boicotou o próprio modelo de jogo, que vive da capacidade de pressionar colectivamente e roubar a bola logo no meio campo adversário. Não vi o jogo, mas entretanto já espreitei o resumo e é fácil de notar que nos três golos do Rio Ave há jogadores deles que vão por ali fora sem que alguém lhes faça frente. Neste ponto, miserável a postura do Campbell, que não me parece capaz de jogar neste modelo como o médio ala inteligente e solidário que o mesmo pede.

Só Adrien e William para correr atrás dos outros não chega, ainda por cima depois do esforço da dupla em Madrid. Tinha tudo para dar errado. O Rio Ave soube tirar partido do adormecimento do Sporting quando saía para o ataque e tem a capacidade que falta a outras equipas de aproveitar os espaços da melhor maneira. Depois, primou por um índice de eficácia que, por exemplo, teria dado ao Braga a liderança do campeonato, tal a quantidade de golos cantados que falhou na Luz, um cenário idêntico ao da Supertaça. 

A segunda casca de banana está já ali

De maneira que demos o primeiro tiro no pé à quinta jornada, o que ficou ainda mais exposto devido à vitória do Benfica. Perdemos o primeiro lugar, cuja relevância em Setembro passou a ser indiscutível, do dia para a noite. E agora? Agora é despachar o Estoril e abordar com juízo o próximo jogo da Champions, a meio da semana, com os polacos, de maneira a que na visita que se segue, a Guimarães, tenhamos a melhor equipa, na melhor das formas. Tudo com equilíbrio, se não for pedir muito.

Ainda sobre o Jesus, insisto: gosto muito dele enquanto treinador de futebol, acho-o o melhor treinador que poderíamos aspirar a ter. Mas gosto interminavelmente mais do Sporting. Por isso, menos conversa, menos bazófia, mais e melhor trabalho, que aqui não se dá carta branca a ninguém. Vá.