Mostrar mensagens com a etiqueta Povo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Povo. Mostrar todas as mensagens

sábado, 14 de março de 2009

E depois do adeus (há o Lux)

Pintura: Le Moulin de la Galette
Artista: Pierre Auguste-Renoir
Corrente: Impressionismo
Data: 1876
Casa: Museu D’Orsay, Paris

O adeus é uma declaração de intenções que P. compreende estar sobrevalorizada. Chega a recusá-la. Daí que, nos tempos da faculdade, depois de um longo jantar boémio, P. preferisse dar continuidade à manhã quando os amigos devolviam os respectivos pés às pantufas, sobre o pretexto de que aqueles já se queixavam, de tão doridos. Sobre estas e outras coisas se debruçava P., luz das letras, poeta urbano, dandy, quando, a seu lado, I., muito atenta - acabara de o conhecer -, não deixou de verbalizar o espanto que se lhe assomou quando de P. ouviu: «Pá, ia para o Lux sozinho. Mas não era para o engate».

I. – (chocada) Que é que ias fazer para o Lux sozinho.?’????
P. – (contra-chocado) Dançar!

segunda-feira, 9 de março de 2009

Bogotá dos pequeninos


O senhor barbosa não gesticula quando se expressa, mas fá-lo com os olhos muito esbugalhados; talvez por isso force uma atenção dos seus interlocutores que verdadeiramente não está a ter. Fumava ao meu lado, muito, tanto, e notei-lhe a atenção dividida: encaminhava as palavras para mim, que o ladeava, a par do meu irmão, mas concentrava o olhar nos movimentos precipitados de um grupo de quatro mulheres que haviam chegado àquele irish pub há poucos minutos, e se havia aninhado ali junto a nós, o que despertou um sentimento de repentino entusiasmo no outrora entristecido anfitrião do karoke. De coração espaçoso, o carlos é primo do jorge palma, e já teve piada, mas apaixonou-se, de modo que perdeu-a – está ainda no first flush com a companheira, é o paraíso, e teme-se que um dia lhe dedique um tema do joão pedro pais.

Com o empenho dos bons, o senhor barbosa relatava-nos de que modo iniciara a sua manhã de quinta-feira. «Fui levar a minha mulher à escola e eles ainda lá, parados à porta do continente. O comandante da PSP de Portimão disse-me que, no total, chegaram a estar lá 70 polícias». A fonte policial lamentou ao senhor barbosa que, estando devidamente protegidas as saídas pelo terraço, frente e traseiras, os seis encapuzados que assaltaram a ouriveraria do continente, em portimão, se tivessem lembrado de fugir por uma das várias portas de saída que o parque subterrâneo de estacionamento propicia - hipótese que escapou a todos os elementos das forças de autoridade envolvidas, que chegaram a disparar para o ar, atingindo de raspão o bico de uma gaivota distraída.

Juntando-se à conversa, com sinais de evidente desconforto estampados no rosto, após uma noite mais longa, o barman Ricardo vestia o mesmo casaco de ganga que trajara na véspera, e também tinha algo a dizer. Contou ter saído da Praia da Rocha «às 07h, todo de lado», e, a caminho de casa, ter reparado num «aparato descomunal» junto ao continente, com ruas fechadas e um polícia em cada buraco. O Ricardo confidenciou-nos o quanto achou por bem, no momento, travar o carro junto de um polícia e perguntar-lhe que raio se passava.

«Não posso dizer, isto é um assalto», ouviu de resposta, enquanto se aproximava da zona vedada, em marcha lenta, logo pedindo licença a um outro agente para lhe deixar passar rumo ao epicentro dos eventos. «Faça favor, colega», ouviu o Ricardo, agradecendo por entre soluços e ameaças aziagas de um sempre inoportuno vómito.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

A galinha dos ovos de ouro


Temos uma máquina de jogos Megatouch numa cópia baratinha de cabaret que abriu não muito longe do nosso bar. Num Inverno rigoroso, sem turistas, é a nossa galinha dos ovos de ouro. De regresso à terra para o fim-de-semana, fui lá ontem à noite, pela primeira vez, atrás do meu irmão. Fim: picar o ponto – ver a galinha, leia-se.

Grande parte da comunidade de ciganos da zona podia ser encontrada junto ao palco, onde zurravam de forma entusiasta às vazas de três a quatro brasileiras sem frio que ali se substituíam de três em três minutos depois de cada uma se abanar ao som da Christina Aguilera. Muito atento, de pé, encostado a um sófá, um rapaz que conheci pouco depois de se ter casado observava o espectáculo.

O momento pedia algum tipo de discrição. Talvez por isso, numa decisão não inteiramente consensual, escolhemos um sofá longe da zurraria para nos sentarmos a beber o copo que já pediramos no bar.

A virar whisky desde o meio dia, um amigo do meu irmão, profundo conhecedor da casa, perguntou-me se eu queria um broche. Virei o pescoço de chicotada e olhei a nossa máquina de relance. Depois reencontrei-lhe os olhos, sorri, e respondi "não". O amigo do meu irmão que bebia whisky desde o meio dia insistiu, dizendo qualquer coisa, que à quarta ou quinta vez percebi ser: "Um bróchezinho, dé. É bém vi como marcáste aquèla lá ao fundo vestida de leoparde, na te faças de esquesite".

Fiz-lhe ver que tudo correra bem até àquele momento, pelo que não havia necessidade de mudar as coisas. Por essa altura, num sofá ao lado do nosso, já se tinha acomodado com uma funcionária da casa o amigo que conheci pouco depois de se ter casado. Por lá ficaram um par de minutos, logo desaparecendo para dentro de uma sala contígua ao espaço.

Nisto, já baralhado de tanto zurro feito eco, o meu irmão verbalizou uma ideia. "Bem, vamos embora daqui”, disse - iniciativa que agradou a quase todos.

Antes de nos encaminharmos para a porta de saída, o amigo do meu irmão que bebia whisky desde o meio dia agarrou-me pelo braço e dirigiu-nos à rapariga vestida de leopardo, para logo lhe fazer notar que eu não a queria. Ela sorriu, eu também. Era muito bonita. Disse-lhe qualquer coisa tão conveniente como "não tem nada a ver contigo", e, já fora do estabelecimento, despedi-me do amigo do meu irmão de uma forma - "consegues ser tão desagradável" - que o chocou profundamente, pelo que me deu as costas e regressou em passo precipitado ao cabaret onde mora a nossa actual galinha dos ovos de ouro.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Teremos sempre a Paiva Couceiro


O arrumador de carros da minha rua anda a comer uma senhora que tem um fio dourado muito grande preso ao pescoço, e que se pinta muito e cedo. Barbeado, muito posto, acompanhava-a no sábado de manhã, pela praça Paiva Couceiro, dez e meia. Carregava quase tantos sacos da Zara quanto ela, e vestia um pólo cor-de-rosa, como os rapazes que por estes dias se portam mal. Faltava-lhe as suiças muito finas a unir as duas orelhas em arco para poder passar por um verdadeiro menino mau – aquele que leva as míudas todas no Liceu. E coxear.

Enquanto esperava numa passadeira da Paiva Couceiro pela boleia de um amigo - ia jogar à bola -, compreendi que, do lado oposto da estrada, o arrumador de carros caminhava indeciso pela fila de táxis da praça, em passo acelerado, optando ora por um, ora por outro, para depois regressar ao primeiro. Noutra velocidade, prudente, a senhora percorria sempre metade desse caminho, pelo que se cansou menos. Num gesto precipitado, o arrumador tomou a decisão mais sensata após minutos de indecisão: abriu uma porta dos bancos de trás do primeiro táxi da fila, e nele fê-la entrar.

Imaginei o que se teria passado para que tivesse virado as costas à amante sem se despedir. Fechou-lhe com estrondo, junto à cara, a porta que, cavalheiro, previamente abrira. Vi-o afastar-se, de mãos nos bolsos, rumo ao jardim muito feio da praça Paiva Couceiro, à medida que a senhora do fio se afastava no carro amarelo, com diversos sacos da Zara esborrachados contra o vidro de trás. Podia também ser a mãe que o fora visitar – tinha idade para isso.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

O sábio disse


Ser-se português, neste momento, é uma coisa alternativa.

João Aguardela (1969 - 2009), baixista d’ A Naifa, em Fala da Tribo, Rádio Comercial, Maio de 2006.

Créditos: o Mário Pires é o maior.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Já não me lembro…


... da última vez que vi miúdos a jogar à bola na rua, provavelmente descalços, com muros, casacos ou livros a servir de balizas, e o mais gordinho a ver. Vai daí porque na altura talvez estivesse eu próprio no meio deles, enfrentando aos saltinhos a permanente ameaça de partir um vidro da casa mais próxima, e levar um par de estalos.