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segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Três segundos ou o tempo que o Mota demora a ter a certeza de não ter vergonha na cara


Ontem dominava a revolta. Se já nem a história do Natal pegava, se o Sporting continuava a ganhar, e bem, era preciso sujar as mãos. E o momento foi o ideal, aproveitando a visita a Alvalade de uma boa equipa, que resistiu mais de uma hora e até podia ter marcado antes. Vi agora o resumo e, se pensava que já tinha visto tudo no futebol, estava bem enganado. Falo do momento em que o Mota apita. É preciso muita confusão naquela cabeça para anular um golo três segundos depois de a bola entrar. "Ora bem, não aconteceu nada, mas é preciso fazer o serviço... apito, não apito... porra, é hoje, tenho de apitar". Três segundos para pensar no que fazer, tal a convicção. De ontem não passava. E não passou. Dois pontos a voar para o sapatinho de quem fez a encomenda. Serviço cumprido. Nota máxima. Subsídio de Natal chorudo. Festas felizes.

Hoje domina o orgulho. Das sobras de um grupinho de solteiros e casados nasceu a equipa que vai virar o ano na frente do campeonato, que pratica o melhor futebol, que marca mais golos, que tem o melhor jogador, que tem o melhor marcador, que tem o melhor treinador, que mais adeptos arrasta do Algarve ao Minho. Um exemplo para todos nós, a prova de que com pouco dinheiro e muito trabalho se pode fazer tão bem ou melhor do que aqueles que compram o sucesso fácil. Vão ter de se esforçar muito para nos fazerem cair.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Antes que amanheça, Vítor!


A pergunta é: como é que este craque só chega a um grande clube aos 29 anos? Vendo-o jogar, sempre de cabeça levantada e a tratar a bola com uma classe quase sem paralelo em Portugal, compreendo que andou tudo a dormir até agora. Esta oportunidade concedida ao Vítor de fazer carreira no Sporting lembra-me aquela cena inicial do Before Sunrise, em que o Jesse convence a Celine a sair do comboio e a visitar Viena com ele durante umas horas, com o argumento de ser uma espécie de viagem no tempo, uma oportunidade para ela recuar até à idade dos sonhos e saber como teria sido se tivesse conhecido melhor aquele rapaz interessante que a abordou, saber se teria sido mais feliz com ele do que com o marido chato que atura, dez ou vinte anos depois. O Jesse concedeu-lhe essa oportunidade, tal como o Sporting o fez com o Vítor. Que ambos aproveitem da melhor forma esta viagem no tempo.

domingo, 25 de agosto de 2013

Académica 0-4 Sporting: só perdi nos traçadinhos

Sr. Pinto: a fazer estudantes levar os dedos à goela desde 1978

Já a digerir o leitão do nosso almoço, porco novo ao qual, no entender da mocinha do meu amigo Ricardo Chirola Saleiro, "faltava febra", vagueámos pela alta de Coimbra à procura do Pintos, um café histórico local. Há dez anos que o Chirola não se permitia visitar Coimbra, cidade onde se fez licenciado, e frágil vai aquela memória no que toca a lembrar-se dos caminhos e cantos onde foi enchendo a cara ao longo do curso. Lá demos com aquilo, fruto da boa vontade de duas senhoras que, sentadas à sombra dos edifícios altos que pontuam a paisagem, falavam de forma retraída após serem por nós abordadas - "olá, onde fica o Pintos?". Na verdade, pareciam verbalizar apenas metade daquilo que pensavam. Mais tarde acabariam por declarar que, ao contrario da maioria do nosso grupo de cinco, não eram do Sporting.

Coimbra parecia o que restou de uma cidade que em tempos foi atingida por uma praga de insectos e, de uma forma ou de outra, perdeu o rasto humano sem jamais o recuperar. Durante a tarde, papando calçada romana à procura das rotas universitárias do Chirola, o mais frequente foi estarmos a sós com a cidade. Aqui e ali lá aparecia um turista, mas era raro. Na prática, sem a azáfama da Universidade, Coimbra fechou para férias.

É importante referir que me desorientei quando chegámos à Alta de Coimbra: pelo ar ressoava a 'Guilty', um cafuné em forma de canção gravado pelo bom do Al Bowly em 1931 e que integra a banda sonora do Fabuloso Destino de Amélie, do Yann Tiersen. Apercebi-me pouco depois que era esse disco que alguém ouvia, algures, puxando pelas colunas tanto quanto possível. Gritei várias vezes, "GANDA SOM!", mas fui ignorado. Adiante, pensei, ao reparar que o Chirola já irrompia pelo Pintos a pedir dois traçadinhos - vinho branco com gasosa. O restante do grupo juntou-se de seguida e em menos de nada o Pintos já se tornava o espaço mais animado da cidade, Estádio Cidade de Coimbra À parte. Sentados no interior do café estavam dois clientes; cá fora, com o rabo na calçada romana, um casal de espanhóis. Um amigo do Chirola não pôde deixar de reparar que a espanhola não trazia cuecas. Há 35 anos que o senhor Pinto abriu a porta do seu pequeno café-bunker, mas naquela tarde fazia o seu regresso ao balcão depois de recuperar de uma perna partida. Caminhava com dificuldade, seis meses depois do acidente. Momentos difíceis, para quem já é octogenário. Tirámos fotos e trocámos aquele tipo de impressões que parecem urgentes no momento mas o tempo torna perfeitamente dispensáveis. Já o Chirola apontou amigos mútuos que ocupavam fotografias emolduradas na parede de uma sala que tresandava a abandono. O Chirola sentiu-se em casa e venceu-me nos traçadinhos.

Aproximava-se a hora do jogo e ainda tínhamos de ir buscar os bilhetes às mãos de quem os pagou, já nas imediações do estádio, mas vimo-nos forçados a fazer uma derradeira paragem: na casa de quem tinha passado a banda sonora do Fabuloso Destino de Amélie. É que agora a cena era o Desintegration dos The Cure. Quer dizer, não há coração que aguente. Ao perceber a minha inquietação, o Chirola disse que a coisa a fazer era tocarmos à porta. Desconfiava que se tratava de uma república, e desse modo poderia eu conhecer uma a sério. O Chirola aviou a porta com os nós dos dedos e logo apareceu um puto com cara de pouco amigos e que rapidamente desapareceu para trás de um portátil. De seguida surgiu uma miúda descalça, apenas vestida com uma t-shirt branca que lhe ficava como fica nas garotas que vestem as t-shirts dos namorados.

Avisou-nos que estavam em limpezas, coisa que teríamos percebido de imediato, mesmo que ela não o dissesse. A casa era ampla, repleta de quartos carregados de coisas, e cada um destes quartos aproximava-se a passos largos de um curral se nada fosse feito por eles ao nível de balde, esfregona e caixote do lixo. Pelos corredores multiplicavam-se mensagens contra as praxes e o poder. "Praxismo é fascismo", li. Também vi uma citação da Simone de Beauvoir, mas não a fixei. A garota chamava-se Raquel e era açoriana, São Miguel. Disse-nos que estudava Geografia, o que achei romântico. Não percebia se tinha passado do segundo ano para o terceiro ou do segundo para o primeiro. Despedimo-nos com afecto e, eu, pessoalmente, com admiração - não é qualquer um que abre a porta a estranhos adornados com adereços de clubes de futebol que falam alto. Ou se calhar até é e eu devia era ter tirado o curso noutro lado.

Estádio. Bilhetes. Sporting.

O estádio era quase por inteiro nosso, o que não surpreende: onde quer que jogue, o Sporting rouba a cena, nem que seja em decibéis. O que chegou a meter dó foi a falta de comparência dos adeptos da Académica, a quem tinha em boa conta. Tive pena do speaker que, a dada altura, deixou de gritar, "BRIOOOOSA!", de tanto levar com "SPOOOOORTING!"

O jogo foi um descanso. Mudou aos dois, terminou aos quatro. Sob o olhar indecifrável do Jardim mais discreto da Madeira, a rapaziada joga e vence com alegria. Parece fácil, mas dá trabalho. O regresso foi ao som do Abbey Road enquanto a mocinha do Chirola dormia no banco de trás. Não cheguei a parar numa área de serviço para beber água, apesar da sede de cão, não fosse ela acordar. Sou um moço bem formado.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Sporting 5-1 Arouca: quotas, pinos e poesia


O novo espaço de atendimento ao cliente do Sporting tem o charme de uma lavandaria romena no tempo do Ceausescu - não que alguma vez tenha visto uma, filmes no King à parte. Calma com os cortes, pá. Não era suposto lá estar a meia hora de começar o nosso primeiro jogo do campeonato, mas como sou parvo esqueci-me de pagar as quotas e/ou memorizar os dados para o pagamento via multibanco. Cinco funcionários atendiam centenas, malta como eu, que se esquece de se lembrar de pagar o que deve. 

Esperei meia hora e o número da senha continuava o mesmo, o 51, longe de avançar para o 78, o meu. O jogo que me fez antecipar num dia o regresso das férias começava dentro de cinco minutos. "MERDA". 

Lembrei-me de ligar para o meu irmão: "Joe!, o que tens a fazer é correr para um computador, entrar no meu gmail, procurar os mails do Sporting, entrar no mais recente, sacar os dados para o último pagamento de quotas e enviar-mos por SMS. Já." O meu irmão achou aquilo tudo muito confuso, mas lá me fez a vontade - é de se dizer que por aquela altura eu batia o calcanhar direito de forma insistente, gesticulava ferozmente e maldizia o calor,  os contratempos, o esquecimento e o destino.

De seguida, abri caminho por entre a multidão que se atrasou para o jogo e suava nas filas sem fim e fui de encontro ao multibanco mais próximo. Chegaram-me os dados ao telemóvel, cortesia do meu irmão. Inseri-os. Deu erro. Não me ocorreu, naquele momento, duvidar daqueles dados, na certeza porém de que o montante ali disposto era 48 euros e a quota mensal apenas 12. Irmão é irmão. Certo é que não conseguia fazer o pagamento, por muito que insistisse, de modo que meti a viola no saco e fui para a zona da restauração do Alvaláxia ver a primeira parte numa televisãozinha sem som, acompanhado de mais que muitos sportinguistas que tinham desistido de esperar ao sol por um bilhete, nas filas.

Vi o Arouca meter o primeiro, sem surpresa - segundos antes um antigo ao meu lado tinha-o comunicado para quem pudesse ouvir o que ele próprio já ouvira no rádio. Um dos grandes flagelos da sociedade, e sem conserto, mas ao mesmo tempo algo ternurento, isto dos antigos insistirem em ouvir os relatos via rádio nas casas que mostram os jogos na TV. É como recusar a abandonar um grande amor.

Respondeu à altura o centralão Maurício, que não está ali para brincadeiras: deu uma marrada na redonda e pim!, 1-1. Não festejei por aí além: o tal antigo ao meu lado já anunciara o empate. Aproximava-se o intervalo e regressei à lavandaria romena, onde alguém gritou "golo!". Por exclusão de partes, teria de ser do Sporting. "Montero!", confirmou o meu irmão via SMS.

A lavandaria romena continuava mais composta que muitos estádios de futebol, mas o atendimento acelerou, como que por milagre. Lá me chamaram. A primeira coisa que fiz foi reclamar com o funcionário do balcão 1. "Não consegui pagar a quota e por causa disso perdi a primeira parte!", disse-lhe, mostrando o telemóvel no qual jaziam os dados na SMS que o meu irmão enviara. Mais calmo que o Putin perante um urso polar de jejum há uma semana, o funcionário concordou comigo, notando, contudo, que a quota mensal é de 12 euros, não de 48, o que poderia justificar o erro. Engoli em seco, ri-me - o riso nasce frequentemente do desconforto -, voltei a meter a viola no saco, paguei e corri para a maior Curva de Portugal, onde expliquei ao meu camarada Ricardo Chirola o motivo de chegar ao intervalo quando tinha vindo de propósito de Portimão para ver a nossa estreia no campeonato.

A bola voltou a saltar e celebrámos mais um, dois, três golinhos. No 5-1, o Montero transformou um defesa do Arouca num pino. Quanta pinta. O Sporting tem um ponta de seta com pés de maestro. Foi mais ou menos por aí que me lembrei dos versos que me chegaram aos ouvidos na sexta-feira, por um médico amigo, e que pertencem ao Freitas, um poeta da Guarda que estudou em Lisboa nos anos 70.

"Não sei porque sou leão,
Motivo deve haver, 
E talvez alguma pista.

Mas estou muito agradecido,
A este destino atrevido, 
Que me fez sportinguista."

terça-feira, 30 de abril de 2013

Jesualdo Ferreira: obviamente para ficar

O professor ensina, os putos aprendem. É isto. Tem de ser isto.

Votei no Bruno de Carvalho, festejei a eleição dele como uma grande conquista do Sporting, mas vou cobrar. Desde logo, a continuação do Jesualdo. Os pontos na era dele conquistados ajudam, mas é o futebol dos putos que mais seduz. O crescimento táctico. Os mecanismos. A confiança. A resiliência. A união. A aposta num onze tipo. Pequenas coisas que dão trabalho e só resultam com quem percebe (mesmo) da coisa.

É o homem certo para ajudar a xavalada a potenciar o inesgotável talento que tem. Independentemente de se chegar à Europa ou não, por muito que custe escrever isto - e custa muito. Chega de aventuras. Haja juízo. Haja paciência. Isto melhora.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Obviamente Bruno de Carvalho




Gosto do Couceiro, mas vou votar no Bruno de Caravalho.

Há qualquer coisa naquele ar de "quero, posso e mando" que molda com mãos de oleiro o Bruno de Carvalho ao cargo de presidente de um clube de dimensões bíblicas como o Sporting Clube de Portugal. O Bruno de Carvalho é aquele puto arrogante, sempre chateado com o mundo, que namora a miúda mais gira da turma. O Couceiro, o puto porreiro, questiona, "mas que tem ele que eu não tenha?!", mas não encontra uma explicação que o próprio entenda. No fim das aulas é com o outro que ela sai de mão dada. (Pouco popular, o Severino acumula negativas nos testes e falta frequentemente às aulas para se meter a fumar com um amigo atrás do pavilhão).

Será Bruno. Tem de ser. o roquetismo está por horas. A brigada do croquete vai dispersar. A pouca vergonha vai acabar. O Sporting voltará a ser servido, não a servir. Foi para ver chegar as eleições de amanhã que me fiz sócio: um dia, se isto correr mal, como diz um amigo, terei o consolo de ter feito algo pela vontade de mudar.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Petróleo em Alvalade

Categórico. Normal. A melhor formação do mundo a ser a melhor formação do mundo. Ver consecutivamente os leõezinhos a fazer travessura destas e depois tentar perceber o que tem acontecido a este Clube no que toca à gestão da equipa profissional deve ser tão fácil como infiltrar-me na Mossad, rezar cinco vezes por dia virado para Meca e ninguém estranhar.


terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Godinho: qual é a parte do RUA que não percebes?



Já vi um ministro das finanças penhorar a sanita de uma casa de banho do estádio de um clube por dívidas ao fisco, e falo do clube que ao mesmo tempo era folgado de tesouraria o suficiente para oferecer “fruta” e “chocolate” aos árbitros de modo a construir a hegemonia que hoje tem no futebol português.

Já vi o clube do outro lado da rua erigir uma capelinha onde se pudesse orar antes dos jogos, e falo do clube que pagou o Futre com dinheiros públicos para depois andar a mendigar junto dos respectivos adeptos, a bem da sobrevivência.

Mas não, nunca vi uma coisa assim, um boneco que tresanda a mofo, infinitamente incompetente, estar não só apostado em destruir um dos grandes clubes desportivos que o mundo já conheceu como confiar que o vai conseguir - tudo o indica, por este caminho. Ganha vergonha na cara e sai, palerma.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

SCP



Gostava que estivesses aqui. Não estás.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Sporting Clube de Portugal


Há uma certeza quando se fala no Sporting: a grandeza inscrita em 106 anos de história do nosso símbolo não pode, em momento algum, ser confundida com a pobreza de espírito daqueles que, por  má sorte ou uma qualquer teoria da conspiração, assumiram o poder no clube para se servirem dele, e não o contrário. É fácil olhar para 1995, aquando da criação da SAD, e aí encontrar o ponto de viragem. A conquista no Jamor - a minha primeira -, o Figo, o Balakov, o Amunike, o Iordanov. Os craques da minha infância. Foi ali que tudo começou a ser minado, mas só o soubemos mais tarde, com duas grandiosas bebedeiras pelo meio (2000 e 2002).

Hoje, 17 anos depois, sabemos que não há dinheiro, que até para pagar despesas correntes é uma aflição, mas também sabemos como o fomos gastando enquanto o tínhamos. Sabemos que o passivo era de 30 milhões em 1995 e que hoje é de 400 milhões, com a agravante de que, agora, o clube já não tem património. Sabemos que o nosso presidente fala a verdade quando diz que a escolha do treinador não é uma prioridade, mas depois jogamos as mãos à cabeça quando pensamos que ele próprio já despediu dois em pouco mais de um ano, um deles o homem que levou uma equipa como o Braga a lutar pelo título português (2009/2010) e pela Taça UEFA (2010/2011), de modo que nos reservamos ao direito de questionar - afinal, quem é o incompetente número um?

Será que o Domingos tudo desaprendeu em sete meses? Do Sá nem falo, coitado, fez o pouco que podia.

A resposta é óbvia: claro que o problema maior do clube não é o treinador da equipa de futebol, o tal que "está perfeitamente identificado" mas ninguém sabe dele. Tenho pena do Oceano, o próximo a ser queimado, e pena tenho do que depois dele aparecer, pois voltará a estar desprotegido quando começar a somar desaires. A incompetência é total.

Temo pelo que aí vem. Não conseguimos ganhar um jogo de futebol a ninguém quando se sabe que a participação na Liga dos Campeões 2013/2014, e daí em diante, é uma urgência, literalmente um caso de vida ou morte do clube. Mas, raios, ainda acredito que é possível reerguer isto, lentamente, a partir dessa constância de receitas, a partir da qual o crescimento desportivo será possível. Estou condenado a alimentar-me dessa fé, esse jeito muito próprio de ser sportinguista.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Processos defensivos e cenas


Este é o futebol em que olhar para a baliza adversária se tornou secundário. Marcar golos? Isso pode esperar. A cena agora é anular o rival. Estudá-lo à lupa para depois lhe castrarmos as virtudes. Pressionamos aqui, esperamos acolá. Neste futebol ganha o estatuto de herói da bancada aquele (Gelson) que mais correr atrás deles. Se se der o azar de nos calhar a bola, que se vire sozinho quem a tiver - urge meter pouca gente na frente, a bem dos equilíbrios. Não podemos ser apanhados desprevenidos, Deus nos acuda! 

De modo que um 0x0 ao intervalo é coisa para se aceitar sem estrebuchar muito. Temos tempo para ganhar o jogo. Temos também um recorde do mundo por defeito - dispomos de apenas um ponta de lança no plantel inteiro, o qual remata aos 23 anos com potência e técnica típicas de quem tem 15.

Para o Sá, a primeira grande injustiça do Universo é a fome das criancinhas em África, a segunda consiste na barbárie liderada pelo governo sírio contra o próprio povo e a terceira são todos os resultados desportivos do Sporting que não envolvam o confronto com electricistas dinamarqueses, o que me põe a questionar: se estamos "muito, muito fortes", como ele repete no fim de cada desaire, e não marcamos um golo a ninguém que faça do futebol a sua profissão, o que acontecerá no dia em que jogarmos, vá, "de forma não tão apreciável quanto isso"? 

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Soube a pouco, Matias

El Crá : 20 golos em 115 jogos pelo Sporting

Está de saída do Sporting um dos grandes craques que passaram pelo futebol português desde que me conheço. Um número 'dez' puro, que preferia ter nas costas o mais discreto e nem por isso menos simbólico '14' - Johan Cruyff gosta disto. Daquelas chuteiras chilenas sempre destilou um perfume diferente, "coisas bonitas" nas palavras do Artur Jorge. Mati é uma espécie em desuso no futebol, o sobredotado que corre menos do que os outros e a quem os adeptos perdoam a insolência como se de um filho se tratasse, na certeza de que em breve uma traquinice os irá derreter. Ao Matias faltou sempre alguma urgência nas acções: o futebol europeu é terrível, corre-se muito, não há espaços; não poucas vezes o vimos ultrapassado pelas circunstâncias - leia-se: o advento deste futebol físico, a lei de Darwin virada do avesso, que rejeita quem bonito joga e a destruição coroa. Outro senão: as lesões musculares constantes que o afectam desde que chegou ao futebol europeu no início de 2007, concretamente ao Villareal, e condicionam o tipo de jogo que apresenta, hoje mais dado aos passes mágicos de rotura e nós cegos em espaços curtos do que propriamente em cavalgadas à Maradona como esta aqui em baixo, que em 2006 lhe valeram o prémio de melhor jogador sul-americano e que, aqui em Portugal, seriam impossíveis de acontecer - El Crá já estava a comer relva à segunda revienga.


Imagino-o a gingar entre os defesas nos anos 80, solto, talvez com o '10' nas costas, construindo uma aura de ídolo no futebol mundial. Talvez tenha nascido 20 anos depois do devido, pois nada tem de lógico que o veja trocar o Sporting Clube de Portugal pelo 13.º classificado da liga italiana, a Fiorentina, longe das provas da UEFA, de tudo o que interessa, entrando num futebol ainda mais calculista e cinzento do que o nosso. 

Florença terá um novo Príncipe e o Sporting paga a factura de atempadamente não ter renovado ou vendido o jogador, deixando-o entrar no último ano de contrato e aceitando quaisquer trocos para evitar a saída a custo zero. Assim se vê partir um craque que em três anos não ganha qualquer troféu pelo clube e que, tendo sido contratado por 3,635 milhões de euros, vai sair, ao que tudo indica, sem criar mais valia financeira - dos quatro milhões que se fala é preciso fatiar 25% dos direitos económicos que foram entretanto alienados pela nossa direcção, sabe-se lá a quem e por quanto. É mais um exemplo do modus operandi das gestões à Sporting, que deixaram o clube no estado financeiramente calamitoso em que o vemos.

Não consigo deixar de me torturar a pensar que, caso tivesse aterrado no aeroporto Sá Carneiro, há três anos, o Matias Fernández estava hoje a ser vendido para um Manchester Unitedzinho por 20 ou 30 milhões. Deve ter sido pelo menos essa a promessa que os genes lhe fizeram.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

San Mamés é outra coisa


Redes de galinheiro e ao fundo, à direita, pilares assentes no meio da bancada, old school

Algures durante quatro anos na Católica a tirar comunicação fui à mesquita de Lisboa entrevistar o sheik David Munir, o imã local, a propósito de um qualquer trabalho. Comigo estavam dois colegas de turma: um de Setúbal, outro de Vila Viçosa. Provavelmente os meus dois grandes amigos do início ao fim da Universidade. O sheik Munir já estava à nossa espera e recebeu-nos com afecto. Conversámos durante horas, os quatro. Entusiasmados, curiosos, nós, miúdos, batemos o recorde mundial de perguntas no menor espaço de tempo, mas o que até hoje conservei foi uma só resposta do sheik. Com as têmporas bem abertas, disse: "o Islão é amor!". Tínhamos sido conduzidos para uma espécie de escritório, e não uma sala de orações, e por isso não tivemos de descalçar os sapatos. Estava ali a prova de que podíamos ter uma tarde agradável sem ser a beber cerveja numa esplanada. (Não comprem isto).

Coisa bem diferente foi aquela que se passou há uma semana no San Mamés, o estádio do Athletic. Antes de a velhinha Catedral de Bilbao ir abaixo, já em 2013 - o novo anfiteatro do clube está a ser construído num terreno ao lado do velhinho -, devo partilhar com o mundo que antes de entrar no estádio os stewards do jogo com o Sporting me obrigaram a... tirar os sapatos. No meu caso, as botas. Não queria acreditar. Praticamente sem voz quando ainda faltavam quase duas horas para o apito inicial, sentei-me num degrau com o whisky em copo de plástico preso pelos dentes e descalcei-me ao mesmo tempo que um adepto dos nossos me passou uma caixinha com pastilhas elásticas. "Nem esta merda pode entrar: tira uma e vai passando!", disse-me, ao que obedeci parcialmente, tirando duas.

"É isto?!"

Visto por fora, o San Mamés assemelha-se a uma fábrica abandonada. "É isto?!", perguntei com não pouco espanto ao meu camarada sportinguista de aventura, o Bruno, que por sua vez anunciava em directo e exclusivo, no Facebook, ter feito 856 quilómetros (1723, ao todo) para, afinal, estar a ver a estrutura exterior da estação de metro do Campo Grande. Sim, era aquilo o San Mamés. Com capacidade para 40 mil pessoas, o estádio é tão antigo que uma das centrais está suportada por pilares encaixados… no meio da bancada - leia-se: entre os adeptos. Qualquer coisa como a resposta ingénua dos bascos aos lugares atrás de placards, e portanto sem visibilidade, que, após a edificação do novo José Alvalade, achou-se por bem destinar aos adeptos cegos do Sporting. (Ficção enfrenta Realidade e perde).
Confirmava-se: o ambiente era bem diferente de tudo aquilo que alguma vez tinha visto em estádios de futebol. Não é que, por exemplo, as claques em Bilbao sejam especialmente espectaculares: a esse nível, como os próprios bascos reconheceram, fomos os mais criativos, entusiastas e respeitadores que por lá passaram em anos. A pólvora é mesmo a forma como o estádio inteiro puxa pela equipa a uma só voz, tal como eu próprio já testemunhara nas ruas, no meio deles, a puxar pelos nossos - correu melhor que bem quando tinha tudo para correr mal, um encontro muito à imagem daquele entre escoceses e irlandeses no Braveheart.

Antes da batalha tipo escoceses/irlandeses no Braveheart, travada com abraços

Poucos cânticos, os dos bascos, mas bons. Cada ataque um pretexto. Cada canto uma festa. Cachecóis ao ar: "Athletic! Athletic! Athletic!". Na bancada destinada aos nossos vi o Manzarra à minha esquerda e o Bruno de Carvalho à direita. Antes, na plaza Mouya, o nosso local de concentração, já tinha visto o Eduardo Barroso escondido num impermeável. Nós estávamos no meio do Directivo Ultra XXI. À nossa frente o "maestro" da orquestra era um dos rapazes que caiu ao fosso de Alvalade quando tentava agarrar a camisola oferecida pelo Capel, em Novembro, depois de um jogo com o Leiria. Ao nosso lado enrolavam-se mortalhas e ensaiava-se o cântico que mais pegou esta época, com versos de Baudelaire para cima. "Braços no ar/Todos de pé/Vamos cantar/Sporting Allez". O ambiente era imelhorável, exista ou não este palavrão. A bexiga a apertar. "Tivesses apostado no whisky mais cedo..."

errr...

Foi quando me despachei da casa de banho, reentrando no sector dos nossos adeptos, que fiquei perfeitamente tolo. Da parte de cima daquele cubículo não se via qualquer das balizas. Mesmo eu, mais ou menos numa fila central, não conseguiria, já na segunda parte, ver o remate do Insúa ao poste. Tínhamos pago 65 euros e não víamos as balizas! Mais: havia uma rede de galinheiro, bem grossa, a obstruir-nos a visão. Melhor: no fim do jogo, à saída do sector, topei que havia um mini banco de madeira envernizada que tinha sido colocado na última fila. Interroguei-me se os anões também pagariam 13 contos pelo bilhete. À saída, por outros motivos, o queixo permaneceu caído: em vez de irem festejar a passagem à final para as avenidas principais, centenas de adeptos do Athletic, a maioria deles muito jovens, tinham esperado por nós cerca de 45 minutos - aqueles em que ficámos presos no galinheiro basco por imperativos de segurança - e formaram um cordão humano para nos congratular, isto sob o olhar atento de centenas de polícias com capacetes vermelhos e gorros de assaltantes de bancos enfiados na cara. Quem não se metia com eles era eu. Na memória dos bilbaínos ficara a homenagem que fizemos em Alvalade ao Iñigo, adepto do Athletic morto por uma bala perdida da polícia durante os festejos da passagem às meias-finais da Liga Europa, à custa do Schalke. Homenagem essa, que, de resto, foi por nós repetida em Bilbao, fora e dentro do estádio.

onde está o wally?

A resposta foi uma comunhão leonina tremenda entre os Leões de Espanha e os de Portugal: todos nos aplaudiam e cumprimentavam ao ritmo de "Ésporting! Ésporting!"; pediam, "cambio!", "cambio!" - aludindo à troca de camisolas ou cachecóis; cabisbaixo, afastava-me do San Mamés ao som alheio de "arriba, animo!" e de um muy espanholês "bom juego, Ésporting!". Já num banco de jardim perto do Guggenheim, enquanto acabávamos as cervejas e a quiche com modos beirãos, cheia de tudo, da mãe do Bruno, duas garotas passaram por nós com cachecóis do Athletic ao pescoço e interromperam-nos o repasto com o mais bonito dos coros. "Aupa Sporting!". Na looonga viagem do regresso, sempre a cantar, sempre a cantar, um dilema não deixou de me ocupar as ideias ao volante: "merda para estes bascos, não os podemos odiar nem um bocadinho?". 

Em BIlbao é sempre Euro 2004

Já em solo português parámos numa área de serviço para um último assalto a sanduíches preparadas na véspera. Havia mortadela, chourição e queijo. Houve também um auto-denominado padre católico holandês que foi deixado por um condutor perto do nosso carro e que se aproximou de nós assim que meteu os pés no asfalto. Primeiro perguntou se falávamos inglês ou francês. "Sim". Depois, se íamos para Lisboa. "Vamos, pois". Posto isto, a conclusão: "then i'm going with you!"
Eu olhava o Bruno, o Bruno olhava para mim, ambos olhávamos para o padre católico holandês. O aspecto do prior era, na melhor das hipóteses, assustador. Tinha estampa de atleta de basquetebol, óculos de garrafão e capachinho. Este pormenor fez a diferença: não confio em padres que usem capachinho. Dono do carro, o Bruno tinha algo a dizer sobre a questão da boleia, e o que disse, por mim secundado, não foi do agrado do alegado mensageiro de Deus. "Ok, you're not very friendly!", acusou-nos, para nosso descanso, e apressou-se a procurar boleia com outras pessoas, de preferência que não estivessem trajadas à hora de almoço com as cores de um clube de futebol, a somar duas directas, uma dor localizada no lado esquerdo e vozes de Olavo Bilac de tanto puxar pelo Nosso Grande Amor.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Bilbao Ocupada

Plaza Mouya

Atacar a estrada foi o que fizemos de nós,
E trinta horas quanto soubemos dar de nós.
Não nos faltava razões para ver o mundo.

Tivemos tempo p'ra lembrar o Iñigo.
Recebemos vénias, vénias vos digo.
Antes de cerrar os dentes e jogar.
Bonito foi ver tudo junto a cantar.

Coração apertado, golo do Athletic.
Deixámos arder, deixámos arder.
Empata o Sporting, parecíamos putos.
"Não temos aulas amanhã!"

Mas os bascos são feitos de algo mais.
Apertaram demais. Apertaram demais.
Ficou a carne para os chacais.

O tempo que passou, 
Passámo-lo sem medo. 
Mas o fim do dia chegou,
Tingido de negro.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

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Só vi a meia hora final nos Barreiros. A caminho do Bairro Alto, com uma amiga, passei por um taxista eufórico, a gesticular do lado quente do vidro em reacção a algo que, percebia-se, ouvira na rádio. Pensei: golo do Marítimo. Já sabia que estava 1x0 para eles e confirmei-o ao chegar a um bar. 2x0. Sentámo-nos. Pedi uma cerveja; ela, nada. Os minutos passavam. A ganhar por dois o Marítimo dava a iniciativa ao Sporting, que, como é costume, não sabia o que fazer à bola. A minha amiga queixava-se do namorado de uma amiga dela. Médico. Quezilento. Arrogante. Filho da puta. Nos Barreiros tudo na mesma. Bola em nossa posse da direita para o centro, do centro para a esquerda, da esquerda para o centro, do centro para a direita. Longe da baliza do Marítimo. Muito longe. Nenhuma jogada colectiva, nenhum risco individual, nenhum sinal de se querer agitar o marasmo. O médico continuava com as orelhas a arder. Entre outras coisas fiquei a saber que no regresso de uma viagem a terras montanhosas o bicho queixou-se em alta voz à namorada por ter de distribuir pelas respectivas capelinhas os viajantes que com ele viajavam – a minha amiga incluído; durante essa mesma viagem também não procurou a namorada em duas noites consecutivas. “Um merdas”. Já em período de descontos o Ribas tem a bola a jeito e, perto da baliza, quase não lhe acerta. Não chegou a ser um ‘remate’, mas também é exagerado falar-se de um ‘passe’ torto. Foi só 'nada', ou 'coisa nenhuma', salvo maior precisão. Fim do jogo. O Marítimo joga mais à bola e ganhou sem problemas. Andamos pelo quarto ou quinto lugar, já nem sei.

Para não me estender demasiado, até porque a vontade é pouca, vou limitar a minha reflexão ao actual estado de coisas com a minha cara, que corresponde à do título deste post, quando em conversa com um amigo fiquei a saber há bocado que o pequeno Pereira tinha jogado de início – o pequeno e notável Pereira que não vestia a mais bela desde Dezembro e em quatro jogos a titular esta época para o campeonato saiu ao intervalo em três.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

O pugilista


Os futebolistas que ganham bem, ganham demasiado. É ponto assente. Mas a carreira deles é curta e perigosa. É um desporto bonito de se ver, mas violento de se jogar. Há lesões graves. O Marat sabe do que estou a falar. Apesar do talento que todos lhe reconhecem, o joelho direito não lhe tem permitido jogar futebol durante aqueles que deveriam ser os melhores anos da carreira (25-30). Lembro-me da estreia oficial dele, no Verão de 2007: estava em casa de um amigo, em Vila Viçosa, na véspera de começar o meu segundo interrail, quando o vi dar-nos uma Supertaça com uma direita do meio da rua que deitou ao tapete o maior mercado abastecedor de fruta do país. “Mas que golo!”, gritou o Hélder Conduto na RTP. Rapidamente ganhou em mim um fã com a finta curta que o caracteriza, sempre com a baliza no horizonte. Cruza bem. Remata melhor. O colectivo, para ele, está sempre primeiro. É o meu jogador e profissional preferido do Sporting. Hoje, em Vila do Conde, aos 29 anos, volta a calçar as luvas depois de o joelho direito, sempre o joelho direito, ter voltado a deixá-lo grogue durante quatro meses. Mas ‘knock out’ é um termo que não assiste ao Marat. Os da fruta que se cuidem. Como ele gosta deles...

quinta-feira, 3 de março de 2011

O astrónomo Carl Sagan define o termo cosmos como sendo "tudo o que já foi, tudo o que é e tudo o que será"


O candidato vencedor das próximas eleições presidenciais do Sporting terá de reunir um conjunto de condições mínimas para desempenhar o cargo com sucesso, nomeadamente ser tu-cá-tu-lá com o professor bambo ou, de preferência, ter a capacidade de mudar o cosmos.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

o grimi...


a) devia pedir desculpa aos dois ou três bons defesas esquerdos que jogaram comigo e nunca chegaram sequer perto de um clube como o Sporting;

b) devia reduzir a dose diária de água da escócia, a ver se acerta uma.

c) não existe: na verdade trata-se de um cantor de karaoke amador que ficou com ideias ao ver o "face/off" com o nicolas cage e o john travolta, em 97, e, há coisa de três anos , fez por chegar junto do leandro grimi, um argentino do milan.

d) é só estúpido, não exageremos.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Se o Izmailov fosse jogador do Porto seria titular sábado contra o Olhanense


Como noutros casos, noutras paragens da nossa querida sociedade, o do Izmailov é um gato escondido com o rabo da Jennifer Lopez de fora. E de discreto o rabo da Jennifer Lopez nada tem. Como noutros casos, o Sporting geriu a (grave) lesão do rapaz com a caçadeira destravada na direcção dos próprios pés e, claro, sai tão prejudicado disto como ele, que não pode jogar futebol mas também não pedala de borla no ginásio. Como noutros casos, sabe-se lá devido a que ordem cósmica, o Sporting ficou sem o contributo de um dos melhores jogadores que já teve nos últimos anos, com quem a massa adepta criou uma afinidade rara e de quem já agora sou fã desde o primeiro dia. Como noutros casos, sem que algo o fizesse prever, o jogador avisou que 'não', já 'não podia mais', e um pára-quedista de fatiota circense bateu no peito e em nome dos céus gritou que 'sim', 'sim podes', 'sim deves', 'não és ninguém', 'não acredito em ti', 'obrigo-te a jogar'. Como noutros casos, ao Sporting bastou o Sporting para se enfraquecer, abrindo caminho a um festival de decisões erradas de parte a parte. Como noutros casos, desde que o Figo partiu para Barcelona por altura da revolução francesa, o número sete amaldiçoou a carreira de um craque do Sporting. Como noutros casos, olho para norte e não vejo, nem consigo imaginar, coisa alguma que se aproxime desta trapalhada que pelos vistos terá continuidade com o regresso daquele joelho direito à faca, ou da faca àquele joelho direito, parecendo óbvio que se perderam demasiados meses até, no fim de contas, verificar-se este escabroso retorno do Izmailov ao bloco operatório, a mais meses fora de cena, a mais pedaladas no ginásio, a mais falta de talento na equipa, a (cada vez) menos Sporting. Sobre o título ali em cima, há dúvidas?

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Carta aberta ao paulo sérgio


Pediste um pinheiro a caminho dos dois metros, deram-te um arbusto mais baixo que o djaló (1,68 - 1,71). Podia ser pior – sei lá, deixa-me pensar nalguma coisa verdadeiramente bizarra... ah!, já sei, teres recebido o Celsinho de volta.

Ahahahaha.

Mas quando te perguntarem até onde desceu o clube para que, uma vez abordados pelo Sporting, o Trezeguet fuja para o todo-poderoso Hércules e o Morientes tenha deprimido ao ponto de terminar a carreira, frisa que redescobriste o valor do meio campo em losango, que, agora, ao fim de múltiplas experiências potencialmente suicidas de laboratório, já queres ver a equipa com bola, que o Matias passa - aleluia! - a ser o maestro e é preciso um substituto que também saiba pautar o ritmo da orquestra, que este Tales tem nome de história da carochinha e no mês passado não serviu para o Sporting de Braga mas serve para o de Portugal e aliás o Benfica também despachou o Deco e o Estrela da Amadora fez o mesmo com um tal de Ronaldinho, que este Tales é mesmo bom de bola e a prová-lo estão as mais que muitas internacionalizações pela canarinha, que metáforas a relacionar goleadores sem vontade própria e madeira não são mais do que isso mesmo, metáforas, e vai daí por vezes imprudentes, uma vez que Pinheiro até rima com Saleiro – boa?