domingo, 31 de janeiro de 2016

Quando até A Bola faz uma capa destas...


O fiscal de linha levanta a bandeirinha para anular um golo. Está de frente para o lance e vê que há fora de jogo. Faz o que lhe compete num jogo de futebol.

O árbitro tem uma multidão à frente, não pode ajuizar o lance; nem tem como ver - é para isso que existe a função de fiscal de linha, para fiscalizar o que só se consegue ver a partir da linha. Presume-se que o jogo seja retomado. Presume-se mal.

O árbitro corre até ao fiscal de linha. Não aceita a decisão e pressiona-o para que a mude. "Vou-te dar uma ordem que não podes recusar". De repente o fiscal de linha já não acha que viu o que viu, passa a ver o que não viu. Golo validado. O segundo aldrabado, que no primeiro há um jogador da Académica em fora de jogo, mesmo em frente ao Patrício, que não vê a bola sair. E um penálti sobre o Mané que um assobio para o lado arrumou. 

O futebol português de regresso aos anos 90. Outros Pratas, a mesma sensação de que tudo é possível. 

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Bowie

Músicas poderosas ao ponto de nos fazer sentir maiores que este frágil saco de emoções, carne e ossos.

Crescem, agigantam-se-me pernas e braços, fico capaz de rebentar quando oiço a Heroes, e, rebentando, PUM!, chuva de flores em todo o mundo. Todos os sonhos ao meu alcance quando canto que serei rei e tu rainha.


Perco o chão quando o Bowie recorda Berlim - Where are we now? 

Uma música que parece ser desde sempre porque leva nela a melancolia de todos os adeus - pequenas mortes; que nos obriga a fechar os olhos com a força possível, soltar pela boca o que sai como ar mas por dentro rasga como a melhor faca. Tudo o que ficou por dizer, em quatro minutos e tal. Ainda aqui estarmos; os nossos sonhos é que não.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Aveiro não tem rock, excepto se abrires a pestana


A Fátima contemplava o lago do jardim do hotel sem perceber se um peixinho branco muito quieto seria efectivamente um peixinho branco ou um calhau. Era um peixinho branco. Talvez por isso, lembrou-se do tempo em que teve um bicho-da-seda. A Fátima gostava muito da lagarta; quando esta morreu, enterrou-a numa caminha de algodão e procurou uma explicação que a confortasse. Concluiu que a lagarta tinha morrido de solidão e decidiu que para a próxima teria não um, mas dois bichos-da-seda, que um casal sempre dura mais.

Depois teve cágados. Também morreram.

Chegámos a Aveiro em espírito de missão: era preciso desconstruir o mito de que a cidade não tinha rock. Antes disso enchemos a barriga n'O Mercantel, que fica na Praça do Peixe. À nossa frente, um jantar de natal daquele tipo de malta que se embebeda com um copo de sangria; na televisão, o Carrillo fazia slalom entre bandeiras na relva. Na nossa mesa, cabrito no forno mais espetada de porco com gambas mais Esteva. A par do café pedimos um licor da terra e a dona do restaurante deu-nos um do bairro (Beira Mar). O licor levava menta, por isso era verde. Achámo-lo espesso. Pedia licença para passar na garganta. Não repetimos.

A dona era de tal maneira do tipo de agradar que não nos deixou sair sem nos levar à janela para indicar a cúpula da Capela de São Gonçalinho, do lado de lá de um dos canais da ria de Aveiro. É lá que acontece o ponto alto das festas de São Gonçalinho, no início de janeiro: aveirenses, devotos e malucos sobem à cúpula e atiram cavacas para pagar promessas ao padroeiro da cidade, de quem se diz ser entendido em resolver problemas de romance e ósseos.

As cavacas são doces, mas também são duras, por isso a multidão tenta apanhá-las com um guarda chuva virado ao contrário. O culto local ao beato é grande, e ficámos a saber que dali a dois dias haveria um cortejo de oferendas "pastoras" e um leilão. Cheirou-nos a forrobodó. Prometemos ir. Fomos. O cortejo era animado por uma fanfarra, um quarteto com peso e idade que incluía tambor, seu fiel bombo, saxofone e acordeão. A organização ficou a cabo da Mordomia de São Gonçalinho. Os cânticos eram das pastoras e do Grupo de Xailes. Na frente arrastavam-se duas mulas com focinho de quem preferia estar a pastar noutro lado.

Terminado o cortejo, os mordomos esperaram que as crianças, os antigos e a Fátima fizessem festinhas nas mula. Depois lá deram início ao leilão. O primeiro artigo, uma garrafa de vinho de litro e meio, foi arrematado por vinte e cinco euros. O segundo artigo a ser arrematado foi o terceiro, um bacalhau: trinta e cinco euros. Só mais tarde dei conta, porque a Fátima o referiu, que o arrematante tinha sido o Dj do leilão, que era aliás o Dj de um bar onde tínhamos ido na véspera e também um dos 17 mordomos do beato que aproxima corações desavindos e favorece ossos mais frágeis. Encontrámos no cabaz uma garrafa de Jameson; fugimos antes que nos desse ideias.

Não faltou rock na cidade sem rock, assim como não faltou uma música de kizomba num bar de reggae, o Posto 7. Ainda não decidi se o roça/roça de rabo a fazer de mesa ter sido misturado com Serge Gainsbourg melhora ou piora a coisa. Tivemos um problema com o Kitten's, um irish pub: meteram uma Celine Dion a BERRAR Led Zeppelin. Aliás, ali praticamente só passava boa música em segunda mão, de modo que faltou sempre um bocadinho "assim" a um bar até bem acolhedor. Gostámos muito do Mercado Negro, uma associação cultural mesmo em frente ao canal central da ria que ocupa o andar de um prédio comum restaurado. Era noite de passar vinis, cortesia dos donos de uma loja de discos. David Bowie, Beatles, Franz Ferdinand. Nas paredes, gente desenhada com as vísceras à mostra. Resmas de hipsters pelas várias salas do andar.

O último dos bares que visitámos foi o Morgan & Jacob's Guesthouse. A primeira impressão, depressa confirmada, foi que o espaço tresandava a chouriça assada. A segunda foi que o Dj, o tal que arrematou um bacalhau por trinta e cinco euros, não falhava uma. Depeche Mode, Smiths, James, Strokes: pow!, cada tiro, cada melro. Pedi Arcade Fire. Na música seguinte já estávamos a ouvir a Rebellion (Lies). Gente boa.

De maneira que abanávamos os ossinhos à pala da cidade sem rock quando um rapaz caiu redondo, à nossa frente. Caiu de olhos abertos, de costas, desamparado, e bateu com a nuca no soalho. Lembrei-me do Fehér. Gritei à primeira pessoa que o acudiu para o meter de lado, como dizem por aí. O Dj calou o Win Butler e premiu o 112. Algumas pessoas saíram, o cenário não era propriamente coisa de se ver. A maioria das pessoas ficou por ali, atónita, à espera.

Sem cor, com os olhos abertos, o rapaz não se mexeu durante alguns segundos, mas lá pareceu recuperar a consciência. Ao meu lado estavam dois amigos dele. Um, mais velho, dizia que o rapaz estava bem e que deveriámos levantá-lo. Disse-lhe que nem pensar. Ao outro amigo vi em estado de choque. Era mais novo e por vezes ria-se quando lhe faziam perguntas, aquele risinho nervoso dos parvos. À minha questão, olha lá, o que é que vocês meteram para dentro, respondeu, só vinho. Procurei os olhos dele até incomodar e disse-lhe que não acreditava - ninguém acreditaria num puto que tem o amigo quase a morrer e continua no céu com diamantes. Vinte minutos depois chegaram os bombeiros. O rapaz que desmaiara vomitou mal o tentaram erguer. Menos mau. Soubemos no dia seguinte que ele tinha ficado bem, disse-nos o Dj, que nos encontrou à passagem do cortejo e abriu caminho entre as mulas para nos dar a boa nova.

Aveiro pode ser tudo, menos ingrata. A cidade soube modernizar-se, mas cada recanto parece um bom lugar para homenagear quem dela fez o que hoje é. O Zeca Afonso, filho da terra, está em todo o lado. Os pescadores e as varinas também. Gostámos muito das pinturas populares que decoram os moliceiros, os barquinhos que no outro tempo serviam para a apanha do moliço, uma espécie de alga colhida para ser utilizada como fertilizante agrícola, e agora levam o rebanho turístico. Também fomos carneiros. O nosso moliceiro ganhou a simpatia imediata da Fátima porque tinha uma pintura alusiva ao Eusébio na proa. O meu preferido trazia a caricatura de um malandro aos pés de uma mulher de lingerie, a quem dizia, "que rica fruta a menina aqui tem." 

sábado, 15 de novembro de 2014

rio Arade 1-0 rio Tejo

Virámos costas a Lisboa a meio da tarde e fomos para a chuva de Alcochete. A primeira paragem foi num café que tinha o dono e amigos à porta. Pedimos dois moscatéis com gelo, que bebemos sem pressa. O dono e os amigos entraram para fazer ambiente. Um passarinho cantava o tempo inteiro numa gaiola ao pé da casa de banho dos homens. 

Achei piada ao passarinho; já a Fátima achou que tinha ganho uma dor de cabeça. Saímos sem pagar, por insistência do dono, que não tinha troco de dez euros.

Fome era coisa que não nos faltava, e uma boa dose de chuva grossa empurrou-nos para a "Taverna". Tivemos sorte. Comemos ali o melhor pica-pau das nossas vidas. "O segredo está na confecção", atirou a cozinheira, conservando o segredo como tal. Melhor do que aquele petisco só mesmo a notícia do nascimento do Gonçalinho, o novo primo da Fátima, o novo Felício. Entrámos na igreja Matriz e a Fátima piscou o olho a quem de direito.

Com o apetite já aberto ainda passámos por um bar, o "Riskbar", seis da tarde como se fosse meia noite, e de seguida fomos jantar. Queríamos peixe, e na vila incentivaram-nos a experimentar o "Alcochetano". Assim fizemos. Mal passámos a porta demos com um rapaz mais ou menos da nossa idade: tinha a cabeça rapada, dois ferros redondos cravados nas orelhas, a barba do Edward Norton no América Proibida e uma t-shirt preta com um cão nervoso açaimado. Pareceu-me ser o filho do dono.

Perguntei-lhe se iam passar o Portugal vs. Arménia na televisão. Disse que podia ser, mas lamentou a coisa: estava a ver o Braveheart e, de qualquer forma, não ligava nada a futebol, muito menos à Selecção.

Perguntou-me se gostava do Braveheart; disse-lhe que sim. Depois perguntou-me se gostava de filmes épicos; disse-lhe que mais ou menos. Por fim perguntou-me se éramos do Benfica; respondi-lhe que a Fátima sim, mas eu não, era do Sporting, o que levou o sósia do Edward Norton no América Proibida a questionar se eu teria sofrido algum trauma de infância.

Devolvi-lhe a simpatia com o mesmo tipo de francês, mas depois fitei a t-shirt preta do cão nervoso açaimado e fiz o pedido com a minha melhor cara: linguado para a Fátima; salmonetes para mim; branco da casa.

Dei a provar à Fátima os meus salmonetes. Ela disse que lhe sabiam a camarão e afirmou, que "belos salmonetes, Rui!". Corei. 

Entretanto o rapaz da t-shirt preta do cão nervoso açaimado lá se lembrou de mudar de canal aos dez minutos de jogo, curiosamente logo a seguir a ter perdido uma mesa de gente que preferia ver a bola a gramar escoceses a mostrar o rabo a ingleses. Esteve algum tempo a fazer-nos companhia, o sósia do Edward Norton no América Proibida. Antes de terminarmos rosnou qualquer coisa sobre os Nome Name Boys que não percebi; indignado, também se queixou de um polícia que uma vez o tratou como um criminoso só porque circulava em excesso de velocidade. Pedimos a conta, desta vez pagámos, cumprimentámos toda a gente que lá trabalhava, especialmente o rapaz que não gostava de futebol, muito menos da Selecção, e voltávamos à selva. 

Seis horas antes, ao estacionarmos em Alcochete mesmo junto ao estuário, fiz ver à Fátima que aquela vista sobre o Tejo era a vista perfeita, com Lisboa lá longe; não a convenci e levei com uma resposta à moda de Santana de Cambas.

"O rio Arade é mais bonito. Quando estou na Mexilhoeira da Carregação e olho para Portimão, é mais bonito."

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Farsas

La Dolce Vita, Fellini

A doce vida do Marcello, cheia de álcool, mulheres, mentiras, luxo, nada. Como um vintém é um vintém, uma boa farsa é uma boa farsa. Contem comigo para essas. As outras não.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Não percebo nada de futebol

Numa fase boa, o Sporting entra em Gelsenkirchen a perguntar ao Schalke, quem és tu? Joga como quer, os alemães também pouco se aventuram, não percebo se por estratégia do italiano que agora lá mora ou incapacidade; talvez um pouco dos dois. Quando entra o primeiro golo (Nani) já devia ser o segundo (Slimani). Mais um par de jogadas com princípio, meio e o fim desejado ali tão perto. Gosto de quase tudo o que vejo, excepto mais um amarelo idiota do Maurício - mais uma entrada estúpida sobre um adversário a meio campo, como se a vitória dela dependesse -, e naquele momento desafio o pessimista que há em mim: não vejo forma de o Sporting não ganhar aquilo; penso nisso.

Mas alto lá que alguma coisa se arranja. Num piscar de olhos o Sporting perde o Slimani (lesão), o burro do Maurício (expulsão), a vantagem (empate) e a confiança toda-poderosa do Patrício (frangalhada no 1-1). Uma sucessão de eventos para deixar knock-out qualquer equipa que a sofra, sobretudo a este nível. E por falar em knock-out, 2-1 para o Schalke em fora de jogo e logo o 3-1, tudo ali no início da segunda parte. Meia hora por jogar, temos dez em campo e menos dois golos que os alemães, e naquele momento desafio o optimista que há em mim: não vejo forma de o Sporting não perder aquilo; penso nisso.

Mas alto lá que alguma coisa se arranja. Os jogadores recuperam os sentidos, dois ou três passes com lucidez e o Carrillo serpenteia até à área dos outros, onde é pisado. O Adrien não perdoa. 3-2. Satisfeitos por perder por poucos, uma vez que jogamos com dez? Era o que faltava. Quem tem medo compra um cão, e como o Sporting não parece conhecer o provérbio, atira-se à garganta do adversário na luta pela sobrevivência. Com prémio. Numa jogada só possível para quem acampa no meio campo contrário, à grande, eis o empate, de novo pelo Adrien; de cabeça, imagine-se. Ainda faltava uns 12, 13 minutos para o jogo acabar, mais, sei lá, três, quatro minutos de compensação, e muita coisa poderia acontecer, mas quem consegue recuperar dois golos de desvantagem com menos um jogador em campo não pode deixar de ser feliz, e naquele momento desafio o pessimista que há em mim; não vejo forma de o Sporting não empatar aquilo; penso nisso.

Mas alto lá que alguma coisa se arranja. Desta vez algo cujo entendimento me escapa. Não percebo nada de petróleo. Só de futebol. Quer dizer...