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quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Alegria

floresta desencantada
O D. fala com autoridade sobre os melhores trompetistas de Chicago, Paris ou Colo do Pito - povoado de Castro d’Aire -, a mesma com que o Gabriel Alves nos dava a conhecer o prato preferido de um futebolista antes de este cobrar um penálti. Dá a ideia de que sabe tudo o que há para saber sobre jazz. Está preparado. Por isso mesmo, e porque é bom moço, aceitei o convite dele para acorrer à reabertura do Hot Clube, ainda na praça da Alegria mas uns números abaixo do espaço anterior. Após estacionar a custo, dei por ele e outro amigo na cauda de uma fila que faria corar de orgulho qualquer funcionário que atenda num centro de emprego em Portugal. É que se perdia de vista. Dez, vinte, trinta minutos; cinco, dez, quinze metros. Entretanto já se percebia qualquer coisa a acontecer perto da entrada. Pareceu-me ver sair de lá o António Costa. Era o António Costa. Pareceu-me que estava acompanhado pelo Sá Fernandes advogado. Era o Sá Fernandes político. (A boina – faltava-a). A fila avançava a passo burocrático e exprimi impaciência através de um cordial “espero que haja uma torneira de cerveja logo à entrada, foda-se”, mas esse e outros argumentos eram de pronto rebatidos pelo D, cujas observações fantasiosas sobre as vantagens de estar lá dentro eram desarmantes. Demorámos quase uma hora a aparecer diante do porteiro. Já tinha ouvido desabafos em meu redor sobre o quanto aquilo estava congestionado, de modo que lhe pedi um conselho. Tive-o: deveria “empurrar as pessoas para ganhar espaço e encostar-me à parede do lado direito”, cito. Obedeci ao génio.

Para quem conhecia o primeiro Hot Clube as comparações são inevitáveis, até dolorosas. Não sei se aquilo é para ficar assim, mas, para já, “aquilo” é isto: uma sala interior possivelmente mais pequena que a prévia, já de si diminuta, com cortinados e paredes verde azeitona, praticamente desprovida de mobília – errr... nem um quadro? -, longe de fazer entender que é pelo jazz que ali estávamos. Como perdi muito tempo na fila para a entrada já só ouvi três ou quatro temas do Septeto do Hot Clube, que fechava os concertos. Clap, clap, clap. Fui depois lá fora, ver o que se passava. Fiquei surpreendido: deparei-me com uma espécie de jardim de Inverno, arborizado mas sem a força do verde. Árvores simples, nuas, tristes. Um espaço com potencial para receber coisas giras, mas, daquele modo, uma floresta desencantada, "careta", "árida", disse em voz alta, demasiado perto de um debate em círculo. Não sei se foi o “careta” ou o “árida” mas algum dos dois termos mexeu com a namorada italiana de um antigo colega de faculdade, que ouviu a descrição e depressa me informou que ali entre nós estava o arquitecto do espaço, que já agora também era o patrão dela. Pensei num bom plano para desaparecer de forma graciosa, mas não encontrei alçapões. Seja como for o D. mostrava-se embevecido com a noite: queria fazer parte daquele recomeço, dois anos depois de ter ardido um dos mais antigos clubes de jazz do mundo. Não lhe quis roubar o chocolate. Aguentei-me à bronca tácita, bem caladinho, que é como melhor estou. Uns minutos, vá.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Respondendo a quem já me fez esta pergunta e não percebeu a resposta


Entre outros motivos mais ligados ao instinto, comecei a entrar no jazz dos anos 30, 40 e 50 por causa das imagens – cada músico retratado parece estar a ter o tempo da sua vida ali em palco, acho que pensei nunca ter visto pessoas tão felizes como o louis armstrong (foto em cima) ou o lionel hampton ou o oscar peterson (foto em baixo), sorrisos tão grandes, tão livres como aqueles que as objectivas eternizaram.


O meu interesse redobrou quando fui atrás das histórias de vida de cada um e, espanto, deparei-me com um rasto profundamente triste. Pensei, ‘hum... tenho de ter isto na minha vida’. É preciso também não esquecer que a música pop(ular) da época não era outra senão o jazz. Chegou a Nova Orleães de barco, pela boca dos escravos africanos, ainda na forma de blues, e depois ganhou forma no contacto com o ragtime americano. Basicamente era o que o povo ouvia. Só hoje, nestes estranhos tempos, é que tocar corneta e afins passou a ser coisa de gente fina.

sábado, 23 de maio de 2009

Smalls

Os sentidos apuram-se: noto, e não é a primeira vez, que as probabilidades de ser acordado em portimão pelo palrar de um pardal são exactamente proporcionais às de, em lisboa, ouvir o meu despertador precocemente substituído por uma sequência interminável de buzinadelas, devidamente acompanhadas por referências às mães dos que estorvam a saída dos carros. As segundas filas dão cabo de mim. Coisa frustrante esta de nada poder fazer quanto a elas. Existem, e é só. Na melhor das hipóteses, em lisboa, sou acordado pelo arrumador de carros da minha rua – “VAI SAIR????” -, cujo tom médio de voz é idêntico ao que deverá ser um grito do Pato Donald quando lhe queimam a cauda. E isso, digo eu, pode ser uma experiência particularmente dolorosa para aqueles que se deitam tarde (3:30) e querem acordar cedo (09:30), mas não tanto (07:30) – faço-o ao sábado para calar os apetites do jogador de futebol fantasma que vive em mim. (Nove anos a dar pontapés na bola é o argumento que encontro). Isto para dizer que vou ficar de consciência bem pesadinha – agora é que a malta se tranca em casa de vez -, mas a mensagem tem de passar: concertos e mais concertos e mais concertos, todos os dias, entre a 00:30 e as 09:00 (hora portuguesa, acho que é isto), no Smalls, um dos clubes de jazz mais consagrados de Nova Iorque. 6 mil quilómetros à distância de um clique. Este.