segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Isto é uma espécie de declaração de amor


Caetano e Chico, juntos, e ao vivo. Os dois trovadores, queridos inimigos da ditadura militar que governou no Brasil de 1964 a 1985, a driblar a censura com onze temas, daqui e dalí, reunidos num concerto único, com menos de 40 minutos e sem dúvida transbordante; um espernear simbólico da Música Popular Brasileira contra o regime opressor. Gravaram-nas no Teatro Castro Alves, em Salvador da Bahia, 1972, mas nem sempre como as passámos a trautear. A relação zangada de Caetano com Deus - "Partido Alto" -, a sugerida entrega de "Bárbara" a outra mulher, capítulo do maravilhoso livro que é o "eu" feminino de Chico; tudo coisa para censurar mais cedo do que tarde. Se não for pela desarmante "Atrás da Porta", se não for pelo mosaico perfeito de "Ana de Amsterdam", valerá sempre a pena ouvir “Bárbara”, dueto entre esta e aquela personagens, uma e outra vez, e aplaudir tão entusiasticamente quanto possível quando sentimos chegar os versos proibidos:

"Vamos ceder enfim à tentação
Das nossas bocas cruas
E mergulhar no poço escuro de nós duas."

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Um Castelo na Escócia Song Awards 2008

Critério: de bichinhos diferentes; mesmo, mesmo boas.

15. "Gobbledigook"; Sigur Rós
14. "Ragged Wood"; Fleet Foxes
13. "2080"; Yeasayer
12. "This boy’s in love"; The Presets
11. "A-Punk"; Vampire Weekend
10. "Another Day"; Jamie Lidell
9. "Silence"; Portishead
8. "Goodnight, Bad Morning"; The Kills
7. "Graveyard Girl"; M83
6. "Time to Pretend"; MGMT
5. "In the New Year"; The Walkmen
4. "You! Me! Dancing!"; Los Campesinos

3. "So Haunted"; Cut Copy
2. "Ghost Under Rocks"; Ra Ra Riot

1 - "Blind"; Hercules and Love Affair

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Hum, e The Walkmen a noite inteira, não?


É difícil estar a dez metros de Hamilton Leithauser, e, de olhos fechados, deixar de pensar que Bob Dylan está de volta. Não que a música dos Walkmen tenha algo a ver com a que o cabecinha de “Blowin’ in the Wind” compunha nos tempos em que, sem querer, era o megafone de uma geração. O motivo é outro, tem a ver com a voz do rapaz, que é igual à do primeiro Dylan, nos anos 60, quase constipada; assustadoramente igual. A garganta bem aberta, os gritos ao vento – lá está -, em jeito de sermão, o timbre, o tom, igual. As semelhanças, porém, terminam aí.

Na primeira vez que aterram em Portugal para tocar em concerto, no segundo dia do festival de Inverno Super Bock em Stock (SBST), os Walkmen tinham como público um conjunto de pessoas que ia do mais devoto ao curioso que ainda nem os conhecia, mas que tinha ido parar ao Tivoli porque o trânsito entre salas - São Jorge, Variedades e Maxime incluídas - assim o proporcionava. Um sentimento algo desconfortável unia esta gente toda: saber onde cada um ficar, perante o dilema etiqueta/paixão colocado por aquele espaço numa noite em que se escrevia história.

Explicando: o Tivoli, casa de outros andanças, condicionava na medida do diminuto espaço entre cadeiras reservado aos espectadores; está mesmo a pedir que a malta fique ali sentada, direitinha, muito atenta, sem dar corda aos ossos. Por outro lado, o momento era de euforia: recebíamos pela primeira vez o quinteto The Walkmen – banda empacotada no chamado indie-rock que trazia na mala alguns temas do recente disco “You & Me”, mas também se preparava para recuperar outros clássicos que fazem as delícias de uma certa fauna que os ama. E queria mostrá-lo. A solução chegaria entre o segundo e terceiro temas do alinhamento, muito naturalmente, sem dramas.

De lata super bock na mão – a dada altura imaginei como seria maravilhoso que um dos cinco músicos da banda tirasse da cartola uma carlsberg -, Leithauser, vocalista, ocasionalmente guitarrista e líder a tempo inteiro dos Walkmen, cumprimentou a malta e abriu o concerto com “New Country”, um prefácio lento, mas espirituoso, do que viria a seguir. Tivoli atento, e sentado, de acordo com a etiqueta. Segundo tema do alinhamento: “In the New Year”; Tivoli em êxtase colectivo, há criançada a chegar-se junto ao que poderiam ser grades de protecção ao palco – não existem -, e entoa-se a uma só voz uma tirada de esperança: “It’s gonna be a good year”. À terceira, com “The Rat”, está a sala conquistada – meio Tivoli de pé tem de significar algum tipo de conquista -, e do jeitinho intimista de Marcelo Camelo (ex-vocalista de Los Hermanos) já pouco resta.

Agora é tempo de sentir o ressoar de canções populares melodramáticas – forma como estes rapazes nascidos em Washington explicam na sua página myspace o que fazem -, que se percebem saídas da era pós-Sex Pistols, confortáveis no terreno dos Joy Division, e que hoje ecoam com as dos National. De não pouco espanto é a estrepitosa voz de Leithauser: regada a duas cervejas e meia garrafa de água durante a hora de concerto, consegue, de alguma forma, fazer-se ouvir quase sempre acima dos instrumentos, naquela forma de soar própria de quem partiu alguma coisa por dentro, ou pretende que se parta noutro lado qualquer.

Erro de casting

À medida que a curta hora de concerto se esgotava, já depois da aconchegante “Canadian Girl” e do inesquecível riff de sete degraus a subir de “All Hands and the Cook”, começou a deserção: era meia noite, e a festa da Liberdade continuava do outro lado da Avenida, com X-Wife no Variedades e, assim se podia ler no programa de bolso, Frankmusic no Maxime - dali até à 01h. Mas nem tudo é como se lê, o que foi possível constatar após algumas indefinições sobre o vindouro e final destino da noite – a propósito, pelo Tivoli andava David Fonseca com óculos cool de psicopata imberbe -, já no antro do senhor Manuel João.

Lá nos esperava a dupla de DJ’S Stereo Addiction, e a verdade é que até nem tinhamos nada contra; a sociedade parecia coerente, um baixava e o outro levantava – depois trocavam -, mas o que nós queríamos mesmo era perceber porque razão não havia sinal de Frankmusic, sendo 00h45, e os da batucada electrónica já ali acampados, com início previsto para a 01h15. Foi depois de me esclarecerem – “ah, esse (Frankmusic) já tocou, acabou mais cedo” – que surgiu a grande dúvida que dali a pouco me perseguiria até casa, e teima em ficar: “Será que os Walkmen foram beber um copo ao Maxime?”

Créditos: A Rita Carmo é a maior, e a malta da reportagem do IOL também; sobretudo o Luis Silva - olho de lince na edição de imagens.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Um Castelo na Escócia Record Awards 2008


Há tanto de inofensivo numa lista pessoal de melhores discos de cada ano como no bafo da Amy Whinehouse ao acordar. Ainda assim:

1. Cut Copy (Melbourne, AUS) – In Ghost Colours
Música de levantar voo, para se ouvir no carro a caminho da festa, e na festa. Ponte belíssima entre rock e sintetizadores pop dos anos 80; canção a canção, só melhora. Um triunfo com eco semelhante ao dos britânicos Klaxons em 2007, e o consagrado "Myths Of The Near Future". Até o nome da banda, que já tinha um disco editado em 2004, tem tudo a ver com o estarmos aqui, e agora.

2. Vampire Weekend (NY, EUA) – Vampire Weekend
Meninos de aspecto lavado, com um pé na curvilínea pop africana e outro no punk-rock à desgarrada. Por eles engolimos pó durante uma hora, a 10 de Julho, quando se estrearam em Portugal na tenda do Optimus Alive! 08, dia um. Dá para ouvir o albúm de estreia num só fôlego se entrarmos na estação de metro Amadora-Este e sairmos na do Oriente. E de tal forma esses 40 minutos passam num instante que, olhem, já passaram.

3. Los Campesinos! (Cardiff, GB) – Hold on now, Youngster…
Aqui celebra-se a separação de ego e juventude num festim tal que ninguém vai ter tempo de se lembrar da idade ou dos sinais de pontuação do sistema ortográfico porque aquilo que a malta destes tempos verdadeiramente quer é rock pujante com sininhos.

4. Ra Ra Riot (NY, EUA) – The Rhumb Line
Percussão nervosa, a fazer lembrar a batida cardíaca de “Boxer”, dos National, à qual se junta uma espantosa sociedade entre violino e violencelo; puro deleite barroco, não aconselhável a pessimistas.

5. MGMT (NY, EUA) – Oracular Spectacular
Sonoridade andrógina, exemplo pródigo da geração myspace que tudo funde em prol do caminho para nenhures, rodeado de flores e substâncias psicotrópicas, onde tudo vai bem.

6. dEUS (Antuérpia, BEL) – Vantage Point
Alta-costura, discreta, que não comove de entrada, finíssima, menos ruído de cordas elétricas a conduzir os temas, uma velocidade a menos: assim vai o último disco destes belgas, um daqueles à antiga; vai-se gostando cada vez mais, aos poucos, até nos apercebermos que só lhe demos tempo porque cá dentro já há território marcado.

7. The Kills (Londres, GB) – Midnight Boom
Rock n’ roll, baby.

8. Coldplay (Lon, GB) – Viva la Vida or Death and all his Friends
(É certo que cada canção tem o seu piano a entar de mansinho, depois a voz em falsete debaixo dos lençóis para ninguém ouvir, junta-se a bateria, seguida de um coro de estádio, a coisa vai crescendo, progressiva, até à grande explosão, e depois regressa aos poucos, a planar, como quem vem da festa - mas, que diabo, estes tipos são mesmo bons).

9. Silver Jews (Tennessee, EUA) – Lookout Mountain, Lookout Sea
David Berman ensina ao menino e à menina como ironizar o coração: por vezes dá jeito. Guitarra acústica em punho, dispara histórias sobre o folclore norte-americano e ra-ta-ta-ta, tudo rendido.

10. Yeasayer (NY, EUA) – All our Cymbals
Sonoridade tribal, a descer, lenta, do imenso espaço. 2080 é uma das músicas do ano.

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10 melhores da Uncut:
1. Portishead – Third
2. Fleet Foxes - Fleet Foxes
3. TV On The Radio - Dear Science
4. Bon Iver - For Emma, Forever Ago
5. Vampire Weekend - Vampire Weekend
6. Elbow - The Seldom Seen Kid
7. Neon Neon - Stainless Style
8. Nick Cave & The Bad Seeds - Dig!!! Lazarus, Dig!!!
9. Kings Of Leon - Only By The Night
10. Paul Weller - 22 Dreams


10 melhores da Blitz:
1. Portishead - Third
2. Hercules and Love Affair - Hercules and Love Affair
3. Silver Jews - Lookout Mountain, Lookout Sea
4. TV On The Radio - Dear Science
5. The Kills - Midnight Boom
6. MGMT - Oracular Spectacular
7. Vampire Weekend - Vampire Weekend
8. American Music Club - The Golden Age
9. Bon Iver - For Emma, Forever Ago
10. Erykah Badu - New Amerykah: Part One (4th World War).

Créditos: o senhor picasso é o maior.

sábado, 29 de novembro de 2008

Micah P. Hinson: trovador autêntico


Voz de sexagenário, mas ainda puto, pinta de geek, mas com passagem pela prisão aos 19 anos, Micah P. Hinson encontrou, a dada altura da sua errante caminhada, a estranha capacidade de parecer autêntico no mundo das grandes farsas. Fórmula mágica: projectar um feliz combinado de rock, country e gospel, dar-lhe ritmo progressivo e eis que se solta o trovador desesperado por partilhar os vários tombos, tantos, que deu em apenas 26 anos. Estreou-se em 2004, com “Micah P. Hinson & The Gospel of Progress”, seguindo-se “... & The Opera Circuit”, em 2006, para fazer sair em Julho passado “... & The Red Empire Orchestra”. Natural do Tennessee, a sua voz rouca, grave, de eterna ressaca – lembra Shane McGowan, dos Pogues, mas com dentes -, corpo de letras simples, a vir de dentro, passou quatro vezes aqui pelo penico da Europa: duas em Famalicão, uma em Braga, outra no lisboeta Alquimista. Do segundo trabalho fica este estupidamente bonito “Don’t You? (Part 1 & 2)”, que podia ser uma carta de despedida deixada em k7 junto de quem dormia.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Desafio

Hum, anda por aí uma corrente de desafios a tomar conta da vizinhança e resolvi juntar-me ao rebanho, que tem mais piada. Objectivo: responder a certas perguntas com uma música que nos pareça apropriada. Achei apropriadíssimo, no meu caso, investigar o que os Beatles tinham para oferecer. E podia ser mais ou menos o que se segue.

1) És homem ou mulher? I’ve got a feeling;
2) Descreve-te: With a little help from my friends;
3) O que as pessoas acham de ti? Fixing a hole;
4) Como descreves o teu último relacionamento: Let it be;
5) Descreve o estado actual da tua relação: Within you without you;
6) Onde querias estar agora? Across the universe;
7) O que pensas do amor? Everybody’s got something to hide;
8) Como é a tua vida? Dig it;
9) O que pedirias se pudesses ter só um desejo? Oh! Darling;
10) Escreve uma frase sábia: Ob-la-di-ob-la-da.

Entendo perfeitamente o rapaz das abóboras, mas não posso deixar de constatar o quanto gostaria que a minha avó respondesse a este desafio. De resto, que se debruce sobre isto quem tiver a real pachorra, ou jante congelados em frente ao computador com os olhos cansados e vermelhos e sem vontade própria de os tratar melhor.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

"Onde fica a Igreja Evangélica Africana?"


Como muitas pessoas já tiveram de saber, porque eu faço a absoluta questão de o partilhar, a primeira coisa que fiz quando estagiei no Público foi sair do Público e almoçar com os estagiários. Fiquei a saber que B. – um colega de faculdade que saía duas a três vezes por aula rumo à casa de banho – acabava de ser expulso devido a uma busca online intensiva por excentricidades. O feito correu meia Lisboa. B. passou a ser figura pública: ainda que as pessoas não saibam quem B. é, por certo que já terão ouvido uma história.

Terminado o estágio, fiquei em contacto com duas ou três pessoas das oito ou nove que estavam naquela mesa. Ontem, mais de dez meses após esse almoço, houve jantar para reunir essa fauna a convite de uma estagiária, minha conterrânea, que já tinha saído do Público quando entrei.

O convite chegou por e-mail: prometiam-se pizzas por encomenda. Desnorteado pela oferta, saí do trabalho e corri para a Quinta das Conchas com a Raquel, uma das duas ou três pessoas que ficaram do P grande. À porta do prédio onde morava a Joana – anfitriã do jantar - estava o Augusto a.k.a imperador Augusto. Tinha ficado a contrato, talvez no grafismo, é possível. Não me soube o que responder quando lhe perguntei se havia bebida em casa. O Augusto bebe coca-cola. Eu é mais tinto. Minutos depois já nós tinhamos a confirmação de que havia um branco algures no frigorífico – um branco para seis pessoas. Voltámos à rua.

Faltavam poucos minutos para o que já eram umas tardias 21h. Pensámos em super, médios e mini-mercados, se possível a um mini-preço. Nisto, já descíamos a rua quando avistámos um senhor a caminhar em sentido contrário. “Pergunto já a este” – disse à minha amiga, na esperança de que nos pudesse ajudar. O senhor em causa parecia um moçambicano forçado, de solário. A barba era espessa, e muito branca, e brilhava no imenso escuro. Pensei que poderia ser a encarnação fiel do anão Atchim.

- Boa noite, olhe, sabe de algum local aberto por estas horas onde se possa comprar comida e isso? Não conhecemos esta zona, andamos à toa. E já passa das 21h.

A isto responde o dito senhor que sim, conhece – haveria um pingo doce ao fundo daquela rua, na direcção para onde nos dirigíamos. O timbre era sereno quando nos lembrou que já passava das 21h. Perguntámos por mais opções. Falou em Telheiras. Desanimámos.

Mecanicamente, voltámo-nos para a perspectiva dolorosa da rampa, e acompanhámo-lo durante alguns metros. O suficiente para que o digno nos tivesse dito que procurar comida estaria bem, mas que ele próprio, também na demanda de alguma coisa, fazia melhor: procurava alimento espiritual. Daí que, entre vírgulas, não tenha hesitado em confessar-nos que já fora comunista, mas agora estava curado devido a Jesus.

- Sabem, vocês são jovens, mas só Jesus interessa. Eu sei porque já o vi. Jesus apareceu-me e curou-me da esquizofrenia, epilepsia e asma. Ele anda por aí, tem o cabelo curto.

A minha amiga tinha ouvido tudo até à fase das curas. O resto nem tanto, porque entrou em transe.

- Não sou pastor, estejam descansados. Sabem, eu era comunista mat-materialista, mas agora sou homem-espiritual. Sabem onde fica a igreja evangélica africana? Não? Hoje há culto às 21h, já vou atrasado.

Olhávamos um para o outro com a barriga a doer. Acho que disfarçámos pouco. O senhor, porém, permanecia sereno, sem ser pastor, e então apercebemo-nos que tínhamos virado na praça errada rumo ao que deveria ser o carro da minha amiga, mas passava por ser um beco sem saída. Entendemos igualmente que atrás de nós ainda seguia o senhor que ficara curado do comunismo mat-materialista, por esta altura já desconfiado que não teríamos carro nenhum. Olhou para o relógio e abordou-nos uma última vez ante a aproximação de um par de crentes.

- Digam lá: vocês precisam de dinheiro para comer? Vejam lá, sou homem-espiritual. Há aqueles que estão lá em cima e depois vão parar lá abaixo.

Já com outra cor, a minha amiga abria muito os olhos e contorcia-se a rir com grandes convulsões. Eu já estaria a rebolar no chão se pudesse ter sido honesto. Ocorreu-me depois do jantar - giro, com direito a tinto do continente de Telheiras -, antes de adormecer, que aquele senhor calminho parecido com o anão Atchim nos tinha oferecido dinheiro para comer enquanto procurava a igreja africana evangélica da Quinta das Conchas, onde havia culto às 21h para um ex comunista mat-materialista convertido em homem-espiritual. Tudo teria, forçosamente, de estar pelo melhor.

sábado, 15 de novembro de 2008

Stôr, Stôr!


Não deverá haver muitas amostras quotidianas por aí com mais cinema para oferecer do que uma turma de liceu, em Paris, onde convivem miudos de 13 a 15 anos oriundos do Mali, China, Marrocos, e até de França.

“Entre Muros” - ou, da forma mais objectiva que, por cá, nos conseguimos lembrar, “A Turma” – deverá ter começado a distanciar-se da concorrência na corrida à Palma de Ouro 2008, que ganhou, no instante em que o realizador Laurent Cantet se lembrou que a realidade imita mesmo a ficção - tantas vezes à descarada -, e que já havia sido escrita a história que, nessa lógica, lhe interessava adaptar para cinema: a que vem redigida no homónimo “Entre les Murs”, livro onde o professor, jornalista e escritor François Begaudeau relata a sua experiência a leccionar numa escola multiétnica parisiense.

Ideia luminosa: Cantet convidou Begaudeau a fazer de Professor Begaudeau, e deu-lhe a gerir uma turma de carne e osso que, por sua vez, também se vestiu de si mesma enquanto era filmada para montagem futura. Trata-se de uma vertiginosa crónica da Europa contemporânea, entre quatro paredes - metáfora com pele de uma França que, já lembra o Chico Buarque, deixará de ver nascer franceses não miscigenados mais cedo que tarde, pelo que melhor será que nos entendamos. (quem achar isto fácil que atire o primeiro calhau).

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Casa quê?


Afinal, a ultra-conservadora América já não é tão conservadora quanto isso, e volta a ser cool, como no cinema.

Pequeno-grande senão: preocupa que aquele que se mostrou um gracioso candidato republicano, na hora da derrota, não tenha, ele próprio, sido poupado a diversas vaias pela sua fervorosa massa apoiante, sempre que felicitava Obama pela eleição, ontem, no discurso com que se despediu do sonho de manter a ocupação norte-americana no Iraque outros 1000 anos. É que sempre foram cerca de 46% os eleitores norte-americanos que votaram em John McCain, apesar de Obama ter excedido o dobro dos votos eleitorais amealhados pelo seu adversário. Mas adiante, pese o par de destinos que se conhece a quem ousou, um dia, ser um líder de Homens munido de letais poderes oratórios, um diplomata de pontes e um resistente à santíssima trindade com que se vem governando este país nos últimos oito anos: armas, bebés e jesus.

Ele conseguiu. Reescreveu a história que ninguém viu chegar há mais de dois anos, quando um então desconhecido e exótico senador do Illinois lançou a sua anónima candidatura para a eleição no partido democrata, tendo em vista a corrida à Casa Branca. A história, porém, revelou-se outra; o mundo já conhece o novo presidente nos Estados Unidos da América e, pela primeira vez em 44 presidências e 232 anos, observa que ele tem a pele escura. Hoje não só deve ser um dia para Luther King festejar, algures, enquanto ícone da comunidade afro-americana que lutou com palavras pelo direito a ser visto como os demais, na terra dos sonhos. Importante para estas pessoas, importante para nós, deste lado do paraíso; uma lição vinda de um país que todos estimamos, e, vá, com uma pontinha interminável de razão, em criticar compulsivamente. Só faltamos nós, europeus, visionários nisso de içar a bandeira da igualdade entre semelhantes, seguir o exemplo e, um dia destes, abrir caminho à inédita eleição de um presidente europeu negro – aparecendo quem tenha a capacidade para o efeito.

Se Obama – Obaminha, vá, que fiquei mesmo satisfeito - a tem, é coisa por ver. O que esperamos dele, interna e externamente, não cabe num quadro que fuja do milagre. Será Obama um milagre? Realmente parece: ao ouvi-lo falar, no seu discurso de consagração, até o mais fiel dos ateus deve acreditar que Deus existe. Mas esqueçamos isso. Para já, apenas uma certeza, de regresso à terra: até Janeiro ainda será o Sr. W. Bush a dormir na Casa que deixará, por fim, de ser Branca por sentença iluminada. E que tão cedo não voltaremos ao medonho pesadelo no qual os republicanos mantêm assento no governo dos states, agora sob a cabecinha de uma caçadora de alces após o presidente John McCain ter sucumbido ao peso do tempo.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Este blues é outra coisa


I
Chove em Lisboa. Quinta-feira. Cheira a Inverno. Ficar em casa? Eh!

Saímos do trabalho, pouco passa das 19h, já com perdição destinada: a melhor alheira de Lisboa. (Este texto poderia ter arrancado de outra forma).

Outras vezes percorrido em busca do copo perdido (pedido?), o trajecto que geralmente conduz à pacífica Bica levar-nos-ia desta vez para um belo repasto, logo alí no primeiro degrau do Bairro. A sangria, desde logo e segundo a versão oficial, era “fresquinha”. Quando o presidente do Portimonense embarca para o Brasil num avião vazio, em Junho, e volta com ele cheio, duas semanas depois, as pérolas que por cá aterram também dizem que têm “remate fácil” quando a malta lhes pede uma amostra falada do que valem. Esta sangria, valha a verdade, tinha o seu valor. E era fresquinha. Houve também pataniscas de bacalhau a compor a mesa, sobremesas denominadas “pijama” e a alheira, claro, da qualidade que se esperava.

Guardo com afecto o elegante Bolhão que fizemos daquela mesa durante a hora e meia que por lá estacionámos. Entre outras conversas filosóficas, registe-se a persistente e talvez visionária evocação a um certo tipo de Tarzan que, na sua própria cabeça, já terá feito - arriscamos - um bonito filme onde perde os três. Fechando a objectiva em mim, note-se que, naturalmente, não trazia dinheiro para pagar a despesa, além de que ao chip do meu cartão multibanco parece causar sempre um certo embaraço aquele processo de “ok, *, *, *, *, ok”.

Levantar dinheiro foi, assim, o grande propósito que tive para a noite que teria continuação no Santiago Alquimista, onde o Paulo Furtado voltava a ser aka Legendary Tigerman. Acabei por conseguir meter dinheiro ao bolso numa busca que demorou mais de meia hora, desde o Alquimista até ao Terreiro do Paço, ida e volta. Uma pista: nessa aventura que pedia destreza na relação entre tempo e espaço, tinha por companhia uma espécie de Rui.

II
Queres ser Homem-tigre? Eis o que te valerá primeiro: ser one-man show, o que compreende dominar ofícios como o de VJ, tocar guitarra blues, kazoo, harmónica e bateria. Todos, ao mesmo tempo. Mas porque nem o Lendário em causa possui o dom da desmultiplicação de membros, ajuda que, num registo ponha-aqui-o-seu-pézinho, graves algo que transporte o teu público directamente para um saloon do profundo Mississipi. É essa a ideia, pelo menos. Algo que nos aproxime de uma entrada triunfal entre duas portinholas de madeira, enquanto seis ou sete homens-vaca dividem-se entre os que bebem ao snooker e os que o fazem junto ao balcão.

Por fim, e sem desdenhar: ter uma arena inteira a olhar para nós, e aguentar, ou não, com as frequentes piadinhas em voz alta que, “pec, pec, pec”, por todo o lado se ouve, quando a maioria dos presentes leva no bracinho a pulseira de convidado; pinta 80’s, bola de espelhos a rodar sobre as veias. A lata é que nós, os da alheira, também a tínhamos. Mas adiante, que não era contra nós que eu ia disparar.

Sobre esta última vertente do espectáculo, o músico conimbricense teve algo a dizer (depois de se travar a meio de um tema e olhar sobre o ombro esquerdo, como se estivesse a elevar a mira para o piso superior, o que não chegou a acontecer): “Esse senhor aí em cima, do lado esquerdo. Importa-se de se calar um bocadinho? Obrigado.” Surpreendidos? Zero.

Em entrevista concedida à Blitz, em Julho de 2006, o Paulo Furtado já tinha explicado como é que lhe agradava que as coisas se processassem num palco destinado a ser seu. “Quando o público não se entrega, prefiro que haja algum confronto e animosidade saudáveis do que nada.” Ei-lo, o confronto, novíssimo, com o engraçadinho do primeiro andar. Finalizava aí um concerto no exacto instante em que arrancava outro.

O que até então fora blues sujo, guitarra distorcida a desenhar intermináveis paisagens áridas para oeste, passou a cavalgadas vertiginosas de uma sonoridade fora de moda, que só alguém como o Paulinho pode colocar no mapa musical deste milénio computadorizado. Puro sexo entre blues e rock'n roll. Por cá, e, sobretudo, por . Nota: já durante o segundo concerto, diz-nos que passou o dia no hospital a fazer exames, e estava ali, diante de nós, pela boa vontade de uns sempre amáveis analgésicos. A esmagadora ovação com que foi brindado após o segundo e último encore explicou porque motivo o Lendário, que interpretou temas como "Honey, you're too much", ou a perfeita cover da mais-que-perfeita "Get your kicks on route 66", tomou a decisão acertada quando resolveu passar a noite de quinta-feira em Lisboa.

III

O síndrome “Magda no Lux” durou uma semana. “Ói: ela é a princesa do minimal, polaca, 29 aninhos; vamos? Sim? ‘Bora”! As apostas para o início do concerto intervalavam-se entre as 23h e as 02h. Entrámos pelo Lux (já sei que é uma discoteca, e o artigo coiso, mas soa melhor) dentro antes da 01h, e às 02h já era tudo nevoeiro pra nós. Improvável? Experimentem tomar conhecimento de que, na primeira meia-hora em que lá chegam, podem pedir quantos Grant’s entenderem: é oferta da casa. Bebam, sem pagar.

- Grande? Oferecem um grande? Mas é quê, um balde?” – perguntei.
- Sim, Grant’s, é uma promoção – devolveu-me o barmoço.

Quantidades à parte, soube bem uma abébia no antro mais improvável de encontrar alguém que nos ofereça alguma coisa nesta cidade. Connosco estava uma amiga que convidei para se juntar ao grupo. Não tinha jantado até àquela hora, mas já ia no segundo do que se promovia quando lhe chegou a tosta de queijo e tomate que entretanto pedira.

Acto contínuo: deixou logo evidente que não comeria uma das metades, tal a generosidade das mesmas. E quando fui conhecer (a-ham, sim) o terraço do Lux, onde voltava a chover copiosamente após um breve período de tolerância a conta-gotas, ela começou a perguntar a quem mexia se não gostaria de arriscar umas trincas naquele pedaço de pão que trazia pendurado nas mãos. Aceitou o repto um xavalo de olhos esbugalhados, à terceira tentativa, o que resvalou a minha amiga para um misto de orgulho de si e revolta dos outros, no que podia ser mais fácil de explicar mas se pode resumir no bom coração que ela tem.

A promoção deu asas ao tempo, e só demos pelo relógio quando, já no piso inferior, víamos o aproximar das 03h sem sinal da Magda. Teria perdido o avião? Ou seria esta uma boa altura para eu me lembrar que à entrada, no caixa, a mocinha que me atendeu já tinha dito, e foi troçada por isso, que ela poderia não entrar antes das 03h30? Passavam alguns minutos dessa previsão quando a bela Magda tomou conta do set, e 45 minutos depois já procurávamos o carro para voltar a casa. Quando ela ainda aquecia.

Deu para perceber a mestria nas passagens. O jogo de rins talvez maior do que o do príncipe do minimal, James Holden, que é o próximo convidado do espaço que naquela noite oferecia whisky até à 01h30. E que a minha amiga gosta muito da ala direita do piso inferior do Lux, onde fica, segundo a própria, o melhor spot debaixo do ar condicionado da pista. Ponto bom da saída precoce: a nossa sexta-feira poderia ter sido bem mais parecida com um pesado domingo do que realmente foi.

Créditos: a Titemarilyn é a maior.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Sobre diamantes e loucura


Capicua: foi há 33 anos que o David Gilmour lançou a grande dúvida do nosso tempo ao Syd Barrett, a partir de um rabisco do Roger Waters:

“... did you exchange
a walk on part in the war
for a lead role in a cage?”


Eu já. (ferida fechada).

sábado, 25 de outubro de 2008

GêPê fez de Chico


Assumo: pode ser uma fixação. Aquilo de ser aluado - atitude, fala e gestos sem ponta de ligação num ébrio reformado, mas ainda afiadíssimo na reflexão; talvez não me importasse de ser assim aos 38 anos. Se calhar já tenho 38, ou tive, ontem. Percebi a tempo de mudar de ideias, uma vez que já pensava em desertar para casa logo após o turno da noite, que uma amiga altamente versada nas artes teóricas da cozinha lusitana fazia anos na noite em que o JP Simões acampava no Music Box, a pedir emprestados os 64 do Chico Buarque. Lema do espectáculo denominado "carioca express" (concerto-homenagem ao músico brasileiro que JP já apresentara na sua Coimbra-natal, em 2001): “Não preciso de ter as cuecas do Chico para me sentir mais próximo da sua obra".

O disfarce assumido, enfim!, o alívio de poder encarnar o mestre por cuja música o GêPê um dia se apaixonou perdidamente, num encantamento que o ultrapassa e frustra – é público -, ali, diante de todos, exposto, é qualquer coisa de baixar braços. Houve os convidados Vitorino e Luanda Cozetti de tinto na mão a cantarolar em dueto “a rita”, houve duas araras sentadas na frente da plateia que se permitiram dançar uma mistura de cha-cha-chá e sevilhanas em temas como "bom conselho" e "com açucar, com afeto", e houve muitas canções bem feitas, “estupidamente bem feitas”, entoadas pelo fumador mais rápido do Oeste, o GêPê de sempre - aquele sacana que procuramos para nos entreter fora de horas com o seu fogo simultaneamente cerrado e descomprometido sob as mentalidades de penico. É a segunda vez que o persigo por Lisboa em menos de três meses. Achei-o mais magro.

Alinhamento aldrabado na omissão e na ordem:
Bem Querer
Eu te Amo
A Rita (Vitorino e Luanda, com JP a chocalhar uma caixa de tridente)
Samba e Amor
Com açúcar, Com afeto
Bom Conselho
Morena dos olhos d’Água
Gota d’Água
Você não entende nada/Cotidi
Vai Levando
Cotidiano
Doze Anos
Essa Moça Tá Diferente.

(texto publicado na manhã seguinte ao concerto, tendo dormido duas horas na medida em que combinei às 10h na minha rua, com um amigo, para ir jogar à bola, e apareci às 09h).

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Sonny Rollins: O génio que também deverá ter fornicado numa jaula de leões congoleses


De prodígios auto-destrutivos está o paraíso cheio. Bud Powell, Chet Baker, Charlie Parker, Dexter Gordon, Sonny Stitt: todos lendas do jazz, de alguma forma capazes de manter uma certa aura sagrada em seu redor, nascidos nos loucos anos 20 e maiores do que o seu tempo num - vá - banho celestial de substâncias psicotrópicas.

Fazemos o elogio deles nas publicações especializadas, nas conversas de café, entre copos, nos bares, nos blogues, desde e para sempre; como se génio e junkie andassem de mão dada como causa e respectivo efeito. Nada contra: a maioria dos músicos que citei até são meus amigos, oiço-os diariamente e isso faz-me bem à saúde. Mas há mais para contar: muitos deverão ser os talentos do jazz não erguidos a um estatuto talvez merecido (o Miles Davis não conta); nomes que, ao contrário de outros, deixaram de merecer novos significados devido à sua viagem pessoal pouco publicável.

O saxofonista na imagem, naturalmente absorto numa jam que envergonha a pauta diante de si, não é um desses génios lamentavelmente esquecidos que nunca fornicou com a mãe da namorada numa jaula de leões congoleses (e foi fotografado). Prometo não baixar a guarda. Não será, posto isto, pela candura de hábitos que Sonny Rollins é aqui lembrado, e muito menos por se tratar de um talento esquecido no meio, mas antes porque esta lenda de ares distraídos, que nasceu em 1930, sendo contemporânea de todos os músicos citados no primeiro parágrafo e tocado com o Thelonious Monk, Miles Davis e John Coltrane, está viva e recomenda-se.

Exemplo? Sobe ao palco esta terça-feira, 21, e no próximo dia 25 de Outubro, em São Paulo, no brasileiro TIM Festival onde constam igualmente nomes como os Klaxons, The Gossip ou os nossos melhores amigos, Gogol Bordello, e na quinta, 23, no Rio de Janeiro. Chamam-lhe a última lenda viva do jazz (que os 87 sábios anos do Dave Brubeck perdoem, algures, alguém), o que se percebe face ao seu já-mais-de-meio-século de carreira, onde se destaca “Saxophone Colossus” – disco que Rollins inventou em 1956 e que é consensualmente tido com uma das pérolas na história do complexo hard bop. Nunca veio a Portugal. Ainda vamos a tempo.

Curtam o bicho: mestre no género do grande improviso, que ao longo da sua longa carreira teve o respeito suficiente pelos seus fãs para investir em dois períodos sabáticos, após os quais voltou para se reinventar (Ave, Zach Condon!).

sábado, 18 de outubro de 2008

Um ano deste Castelo na Escócia


Neste dia tão refrescante, em que pela primeira vez consigo festejar um aniversário de qualquer coisa em que me tenha razoavelmente envolvido, deixo um especial agradecimento ao gang de pombos que ontem despejou uma quantidade industrial de merda no meu casaco preferido, quando me dirigia para o trabalho. Coincidência ou não, o certinho é que tinha enfiado os braços nele porque combinara ir com pessoal da empresa ao Lux, quando saíssemos já fora de horas, e daí em diante tudo mudou de sítio. Da ideia de se abanar o esqueleto passou-se para o copo no bairro onde, aí sim, faríamos um grande festim, mas isso também perdeu força, resultando que marchei directo para casa. Só para que saibam o que para aí anda. Para festejar a preceito estes 12 meses de independência escocesa, nada como voltar à genial ideia que tive no primeiro post, publicado a 17 de Outubro de 2007, em que a sugestão de acompanhamento musical ao texto então publicado chegava depois deste ser lido - (L)

Sugestão de acompanhamento musical:
"I've got ham, but i'm not a hamster" - The Killers

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Este filme auto-destruir-se-á dentro de 5, 4..

"Osbourne Cox? I thought you might be worried. about the security. of your shit."


Já passou um dia, e ainda não percebi se o novo dos Coen, "Burn After Reading"...

a) é parvo, mas só aos solavancos;
b) faz do Wes Anderson o grande mestre das bolas de berlim sem açúcar;
c) explica por a+b aquilo da Mona Lisa;
d) é tudo o que vem nas hipóteses anteriores, selado numa caixa e aberto depois de chocalhado efusivamente.

- em todo o caso, sou o mais recente fã do Brad Pitt como personal trainer, qualquer coisa como um feliz cruzamento entre o Johnny Bravo, o Macaulay Culkin e o João Baião.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

40

"It annoys me how pretty my voice is... how polite it can sound when perhaps what i'm singing is deeply acidic." Thom Yorke


Faz hoje quarenta anos que a pálpebra esquerda do Thom Yorke abriu menos do que era suposto. Quarenta anos de uma voz naturalmente irritante, entre o tenor e o falsete, que nos arromba num jorro descontrolado de lamentos fantasmagóricos a vestir letras com mais dúvidas que certezas. Quarenta anos que pensaram discos à frente dos Radiohead - a carreira a solo produziu o solitário e moderadamente aclamado "The Eraser" (2006) - que são obras da vida de muito navegador de águas imprecisas, como "The Bends" (1995) ou "OK Computer" (1997); desarmante benção colectiva ao rock como expressão artística sem fronteiras, ou preconceitos de género.

Hoje, ao abrir o email, recebi o regresso dos Depeche Mode a Portugal, mais precisamente na varanda nortenha do SBSR. Agora é esconder-me ali nos lençóis e esperar que, amanhã ou depois, ao acordar, leve em cheio com o retorno de outro grupo de bifes: um que é liderado por alguém que hoje – fácil se torna imaginá-lo – terá bebido tanto que se arrastou oficial e directamente do sexto para o oitavo dia de Outubro.

sábado, 20 de setembro de 2008

Acham que já leram tudo e nada vos choca?


George Bataille certamente teria a sua visão muito única do mundo. Percebemo-lo às primeiras ideias de “Story of the Eye” (1928), um visceral ataque aos sentidos do leitor, que é convidado a acompanhar as aventuras sexuais de dois adolescentes desesperados por escapar ao grande bocejo quotidiano. Mono divinal, trapezista entre as margens do lixo e da arte, caiu nas boas graças do Jean-Paul Sartre e consta ser o livro favorito da Bjork. Mete ovos, leite e testículos de touro. E mete também tudo isso em que estão a pensar, e onde estão a pensar, mas de uma forma que não tolerariam projectar. Cheguei até ele porque é referido num verso do estonteante épico “The past is a grotesc animal” (Hissing Fauna, Are you the Destroyer? - 2007), dos norte-americanos of Montreal. Não me lembro de um livro mais inapropriado para recomendar. Naturalmente que passou pelo século XX em surdina. Nojento, bizarro, doentio. Li-o de uma assentada. Não o façam a menos que se entendam parcialmente desequilibrados, e queiram ver até onde é possível este autor francês chegar. De contrário, confiem em mim: o mais provável é que o abandonem antes do virar da primeira página. Seria compreensível. É que esta sinopse tem muito mais de eufemismo que de exagero.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Para português aprender


Quantas vezes Steven Gerrard já ganhou jogos para o Liverpool? Quantos remates vitoriosos para figurar nos achados de compilações anuais já sairam dos seus pés? Quantos festejos mutuamente devotos junto dos adeptos “reds”, quando o relógio tiquetaqueava para o final do tempo regulamentar e a vitória não aparecia?

Terminado o ruído balnear em torno da hipotética transferência de Moutinho para o Everton, lembro-me de uma considerável legião de médios-centro que fazem o mesmo pelos seus clubes, desde sempre; marcam golos, decidem jogos. Xavi, Lampard, Pirlo, Ballack, Sneijder, Fàbregas. Finda essa viagem, rememoro no caminho de volta mais uns quantos, bem familiares - Deco, Lucho, Maniche -, e regresso àquele que hoje, em Marselha, voltou a provar ser, possivelmente, o melhor de todos. Como se precisasse. Ninguém ouvirá este rapaz dizer que nada tem a provar – anúncio veiculado por muito craque nos dias que correm, e que Moutinho achou por bem recuperar na abordagem ao jogo desta noite, em Barcelona. Gerrard tem outras ideias, e sustenta-as dentro de campo, pelo meio e ao fim da semana, tenha pela frente o Marselha, Middlesbrough ou Milan.

Enquanto o pequeno João não ganhar o hábito de fazer algo que tenuemente se assemelhe a isto, permanecerá confinado à dimensão de um jogador irrequieto e dotado das melhores intenções. Faltar-lhe-á sempre aquele "bocadinho assim" para entrar no lote de jogadores acima identificado, e ao qual há muito se vaticina vê-lo chegar.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

A Beira Alta pariu um diamante


Aquele querido mês de Agosto, de Miguel Gomes

Miguel Gomes quis muito ser português num plano: um dos últimos, onde filma de perto um lençol sarapintado ao primeiro encontro de ventres; entende-se a bisbilhotice na medida em que já o filmara, de outro ângulo, no plano anterior, depois de ter explicado ambos, previamente, quando o jovem protagonista, ladeado nos lençóis pela sua congénere feminina, rebolou para cima desta embalado pelo optimismo vespertino. “Oh, que exagero!”, exclamou alguém, chocada, algures na plateia – bem me contorci por decifrar o ícone, mas em vão -, com a doçura que uma gargalhada generalizada posteriormente anunciou.

Para trás, e no pouco que faltava até ao tombar dos créditos finais, fica uma caldeirada bem portuguesa de canções, triângulos amorosos e emigrantes quadrados que circunscreveriam com a mesma harmonia geométrica uma sala em Cannes ou Arganil (por arrojado que seja imaginá-las na localidade beirã). Para rememorar os clássicos da música ligeira portuguesa – ah, Marante! –, juntamente com a fauna do King, no que é um tremendo naco de cinema português, toca a reunir para ver “Aquele Querido Mês de Agosto”.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Wasser


Ela estranhou, não acreditou
Disse que não, não era assim.
E então exclamou:
“Ele fugiu!
Cantando o amor, descia o rio.
E assim partiu, não mais se viu.”
E agarrou-se, sem certeza,
Sem nobreza, sem apreço
A outro copo, novo berço.
Soluçou, baixinho.
E acompanhou, e dividiu.
Projectos mil e o recomeço,
Com o violino, errante
Salvou o amor, a cada ano,
Na guitarra, ou no piano.
Venceu a dor, lancinante;
Perder a mãe, depois do amante.

08 Novembro, Guimarães - Centro Cultural Vila Flor
09 Novembro, Sintra - Centro Cultural Olga Cadaval

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Comédia italiana: víuva, mas alegre


Il Vedovo, de Dino Risi (1959)

Foi com o coração nas mãos que João Bénard da Costa, director da Cinemateca, introduziu ao pouco público que ganhou a noite de terça-feira para assentar na sala Félix Ribeiro, pelas 21h30, o primeiro de sete filmes incluídos num ciclo não integral de homenagem ao realizador italiano Dino Risi.

Largas vezes esquecido quando mencionados os nomes que construiram a idade de ouro do cinema transalpino – anos 40 a 70 -, Risi apresenta-se ao público português tão tarde quanto o título póstumo pode significar em si mesmo. Deixou o Grande Circo em Junho deste ano, mas regressa a nós já nos primeiros passos de Setembro, na rentrée da Cinemateca após o habitual retiro de Agosto. Fá-lo com "Il Vedovo" (O Víuvo Alegre, 1959), comédia negra exibida numa cópia não legendada, mas de qualidade superior a toda a linha.

Há um nó a enlaçar a trama logo na cena inicial: travelling lateral acompanhando o diálogo andante de Alberto Sordi, que aqui faz de Alberto Nardi - figurinha do pós-Guerra miserabilista, optimista de meias esburacadas, projectos dantescos e conduzido, chaffeur incluído, num mini adorável, a quem a vida, bingo, não está fácil -, com o seu "braço direito", o “Marquês”, protótipo do italiano desenrascado que luta pelos cacos do desenvolvimento económico numa sociedade pós-deprimida; por eles, à semelhança de uma certa fauna que integra, tudo suportará.

Teor da conversa: Nardi conta em que medida se viu, num sonho, a ficar víuvo por vontade própria. Falta-lhe dinheiro e uma assinatura da mulher, aval necessário à formalização de um projecto que lhe renderia muitos zeros de liras, à direita. Ela, crendo-o megalómano e cretino, nega fazê-lo. Solução: matá-la, e ficar com os zeros.

Raras vezes surpreende, raras vezes aborrece: esta divertida comédia (o que nem sempre, coiso, não é?) que vive à base de esquemas montados para disfarçar uma narrativa cedo desmascarada, já valeria a pena só por - agora víuvos de Risi - nos carimbar um sorriso tonto no rosto, a caminho do metro.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Quem é o advogado que escreveu um best-seller #1 do New York Times?


- entrevista exclusiva a “Um Castelo na Escócia” -

Não pude deixar de recordar, um ano após ter emparedado um separador entre as páginas 32 e 33 do livro "The Innocent Man", em Florença, como o autor John Grisham duvidava da minha perícia mental a cada centímetro quadrado. Acto contínuo: fiz uma curta visita à cidade das grandes olheiras, e encontrei-me com este escritor norte-americano, responsável por um best-seller #1 do New York Times, em 2006 – assim o anunciam as costuras da obra. Do método, pretendi extrair a ciência. A entrevista em baixo publicada recolhe apenas alguns trechos do que foi uma longa e terna conversa entre amigos.

Nos últimos degraus da página inicial do teu “The Innocent Man”, deslumbras os leitores com uma ritmada e precisa visão sobre a cidade que acolhe a narrativa. Cito: “A baixa de Ada é um local mexido. Não há edifícios escondidos ou vazios na Rua Principal. Os comerciantes sobrevivem, embora muito do seu sucesso tenha sido deslocado para os subúrbios. Os cafés estão cheios ao almoço.” O que te levou a escrever um romance não-ficcional pela primeira vez, tú, amigo, cujos livros são tão conhecidos, e até comprados?
“Bem, estou sempre a rondar uma história. Ahm, estou sempre à procura de histórias, ahm, em revistas, jornais, televisão, onde quer que vá, adv... publicações de advogados; ahm, tudo o que lide com a Lei, obviamente: advogados, julgamentos, interrogatórios, litígio (...), tudo diferentes aspectos da Lei. Nunca pensei encontrar a história num obituário, e foi daí que a história de Ron Williamson (o rapaz injustiçado) veio. Ahm, 09 de Dezembro de 2004, há quase dois anos; na secção de obituários, ahm, do New York Times.”

Ron Williamson é, simultaneamente, o rapaz cujo sonho de se tornar numa estrela de beisebol pode ser destruída por advogados como o que tú eras, aos 35 anos, e aquele que depende de ti, hoje - escritor de oferta larga e peregrina procura -, com 50?
Bem, eu cresci no sul profundo, numa pequena cidade do Arkansas; região do país onde as pessoas estão tremendamente apaixonadas pela pena de morte. Não faz sentido nenhum. Ahm, mesmo como advogado eu apoiei a pena de morte, sabes, estamos tão enojados com a violência criminal que queremos combatê-la de alguma forma; quando estava a fazer pesquisa para "A Câmara de Gás", em 1993, fui ao corredor da morte várias vezes, no Mississipi. Falei com os prisioneiros, os guardas, os carrascos e, ahm, foi aí que mudei. Percebi que aquilo não era a coisa certa a fazer, e tornei-me moralmente contra a sentença de morte emitida pelos Estados.

Não seria pouca a satisfação dos nossos leitores se, por afável bondade, nos revelasses onde estaciona o paradeiro da tua admirável inspiração, tú, escritor de vendas massivas.
Quando acabei de escrever “O Corretor”, em Dezembro de 2004, não estava à procura de uma história. Acabo todos os livros por altura do Dia de Acção de Graças (feriado nacional nos EUA e Canadá, algures no Outono, em que as familias comem peru em atenção ao Criador), é o objectivo anual, o expirar do prazo, e eu realmente deslizo pelas férias. Não trabalho muito durante as férias, e de repente tinha esta história que era irresistível; quando dei por mim já o obituário praticamente coçava a superfície da trágica vida de Ron Williamson.

“The Innocent Man” denuncia, sobretudo, mas também ensina. Exemplo: “As suas mudanças de humor foram notadas desde cedo, mas nunca causaram um particular alarme. Ronnie foi simplesmente uma criança difícil, por vezes. Talvez por ser o filho mais novo, e porque tinha uma casa cheia de mulheres cercando-o de afectos”. Em que medida ser advogado afectou a tua escrita messiânica, privilégio de um dos autores mais lidos no país das grandes promessas?
Não teria escrito uma palavra se não fosse advogado. Isto não foi um sonho de criança. Não foi algo em que tenha pensado na Universidade. Chegou mais tarde na vida, ahm, e se eu não tivesse sido inspirado por histórias que tivesse visto, rondado ou ouvido, como advogado, não teria inspiração para escrever. As histórias vieram primeiro. A Lei foi crucial, e ainda o é.

Certa crítica acusa a tua escrita de ter por Lei o esganar da imaginação alheia; corte a foice, desde o Arkansas às mais belas cidades italianas.
O livro vende, por isso vou mantê-la assim (sorri).

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

“Nem todos podem ser domadores de leões”


Lawrence da Arábia, de David Lean (1962)
De domador de leões, T.E.Lawrence tinha pouco: era insolente na decisão, esquivo ao método, demasiado ginasta - assim o tinha a coroa britânica – no pensamento; repescava-se a vulnerabilidade e o encanto. Estes traços causavam o seu incómodo nos rigorosos eixos do Império, de modo que providenciou-se enviar os seus olhos de vidro para Meca. Intuito: “avaliar a situação”.

“Vai ser muito divertido”, prognosticou o coronel Lawrence (ou El Laurens, como os árabes lhe tratariam), ao receber o anúncio de que teria 12 semanas para prosseguir a sua missão na Península da Arábia. Consumido pela ideia do deserto, Lawrence, 27 anos de enciclopédicos conhecimentos com passagem de honra em Oxford, deixou-se ir. O deserto tornar-se-ia no seu parque de diversões privado. Assim foi, pelo menos por algum, pouco, tempo; aquele que se esgotou quando Lawrence (Peter O’Toole - O Último Imperador, 1987) conheceu a morte.

Não a sua, nem a que se constituia enquanto forma de diálogo predilecta entre tribos nativas, mas a que só não banhou com sangue as suas mãos porque foi anunciada com disparos, seis, de um revólver por si empunhado. Ao erudito estudante de Oxford, chegado à Arábia para brincar às 1001 revoluções, sucederá uma outra pessoa, de olhar preso no horizonte longínquo, guerreiro tresloucado que ceifa o turco-otomano que mexe - rumo à grande glória do nada -, esmagado entre a febre da novidade e o majestoso disparate chamado guerra.

Filme de aventuras obrigatório para a boa saúde da espécie humana, realizado por David Lean (Doutor Jivago, 1965) a partir da verídica empresa realizada por um inglês que, chamemos-lhe exótico, ousou saltar da carruagem colonialista entre Guerras; vemo-lo acabar, sem temperatura, numa cena inicial que o prostra após um acidente de motorizada, aos pés de um patriotismo espectral, porque não cumprido.

"Lawrence da Arábia" recomenda-se especialmente a pessoas com belos desvios patológicos na massa idiota, respire esta folgada ou sob penosos espartilhos. Sugestão: observá-lo atentamente numa madrugada de serviço público, entre a 01h30 e as 05h00 da manhã, com o despertador a ladrar o emprego às 07h00.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Volta ao Minho em dois dias

I

Foi na sexta-feira em que o país desceu ao Algarve que, saíndo do trabalho, dirigi-me à estação do Oriente e entrei em contra-mão, rumo ao Minho. Objectivo: reviver cá dentro, de certo modo, os oitavos meses em que acelerei lá fora, de comboio, nos últimos dois anos, e trazer uma história para contar. Pelo meio haveria o festival M.U.N.D.O (Mais Uma Noite De Ócio), em Viana do Castelo, e uma anunciada visita a um “sítio”, em Paredes de Coura, de onde o Sr. Carlos - dono da cervejaria onde venho jantando duas a cinco vezes por semana nos últimos quatro anos -, e família são naturais, e em cuja casa seria tratado com privilégios de realeza rural.

Posto isto, nada faria prever que, já dentro do comboio, nos assentos imediatamente atrás do meu, um casal levasse ao colo duas crianças que imitaram ininterrupta e perfeitamente o bezerrar do Sapo Maluco durante as três horas de viagem que nos levaram de Lisboa ao Porto; a acutilância dos pequenos era tal que tudo tive de ouvir, ainda que derramasse – som no máximo – para os ouvidos, entre outros albúns, o “Time Out”, artefacto da Idade Média produzido pelo quarteto de Dave Brubeck, e “Viva la Vida or Death and all his Friends”, peixinho fresco dos Coldplay.

Mais: ao que a nós, restantes passageiros daquele comboio, parecia uma bárbara violação dos direitos humanos, nunca menos do que um atropelo aos preceitos fundamentais para o efeito proclamados na Carta das Nações Unidas, correspondia a boa disposição dos pais que, emocionalmente inválidos para avaliar o que quer que fosse devido às circunstâncias sanguineas, achavam um piadão àquilo.

Recuperando os Agostos de 2006 e 2007, entendi que a cura poderia estar ali perto, no bar. Suficientemente longe, porém, para que a goela do Sapo Maluco e seu legado não me atormentassem mais os tímpanos. E pudesse beber pela vida. Mas como os tempos são novíssimos em tudo o que me toca, e respectivos rins, não movi o traseiro; aguentando o posto, cheguei ao Porto em dia de feriado com a audição parcialmente inanimada, e o “Crónica de uma Morte Anunciada” (G.M.M) despachado.

Dentro da minha cabeça, a distância entre a “inbicta” e Viana do Castelo seria percorrida num pequeno tiro de carabina, a dez metros; a realidade, porém, é que o Ricardo – meu colega de casa, natural de Antas, Esposende, que me foi buscar -, ainda fez tremer o seu estoico Corsa 1000 o tempo suficiente para que chegássemos a uma hora em que o jantar já teve de ser caseiro, dado que visitaríamos o segundo dia (e último dia) do M.U.N.D.O naquela noite, furtando-nos a gastar trocos num tasco e à companhia prematura dos manos Iglésias. Não sei se ele, o Ricardo, chegou a notar, mas foi para um “jantar caseiro em Antas, Esposende” que deixei de ir a casa no único fim-de-semana em que não houve Linda-a-Velha no meu mapa desde 07 de Julho.

Entre beijos de conhecer e bitaites de voltar, fomos servidos: empurrado por o que poderia ser (ou não) um Outeiro da Águia tinto chegou uma caldeirada de cabrito, logo seguida por outro assado. Antes, queijo fresco e presunto dignos de um espirituoso conto de fadas. A minha assumida hipocrisia em, simultaneamente, consumir matéria animal e não poder ouvir falar no processo que a leva à mesa elevou-se a um controlado choque quando, a dada altura, uma amiga do Ricardo, arregalando os olhos, revelou em tom febril o quanto adorava “ver ganir” um porco depois deste ser atravessado. E quando me informaram que o papá bode do cabrito que estávamos a comer tinha nome, era o Brás, senti comichão durante quase seis segundos. Depois comi o resto que nem um primata esfomeado.

Antes de nos dirgirmos a Viana do Castelo, onde encontrariamos os manos Iglésias, sentados, a beber cerveja ao som dos locais Madame Godard, comi um “31” elaborado pela Andrea: a irmã do Ricardo pincelou a chocolate o interior de vários copos de plástico, recheados de uma sobremesa feita de gelatina e morango, com a idade do primo. Começava da melhor forma a minha nobre intenção de estrangular a dieta anti-cálculos renais a que me venho auto-sujeitando neste renovado verão.

II


Não seria incrivelmente sedutor imaginar “Rak Song”, faixa do recente “Lusitânia Playboys”, do duo português Dead Combo, como fundo sónico de um silencioso tiroteio num saloon do Louisiana, captado pela câmara lenta de Tarantino? Não seria tenebroso pensar que o realizador norte-americano não montaria essa cena sem ter o cuidado prévio de serpentear entre tipos que tilintam cruzes ao pescoço, à medida que agarram máquinas de pinball pelas orelhas com a doçura de quem as espanca?

Precisando de ajuda, aqui a têm: Tó Trips e seu calcanhar nervoso, a desafiar, sapato de bowling, calça à boca de cáuboi com bordado em forma da pentagonal mitra de bispo, padrão roxo sarapintado a romãs escanzeladas e cartola como telhado das ideias, onde, curvado, e sob um ninho de moribundos cucos, desenha paisagens de Viana do Castelo ao faroeste.

Não há como fugir: estes são os Dead Combo (a dada altura Pedro V. ri-se, há testemunhas), arrastaram-se – arrastaram-nos – até ao festival M.U.N.D.O - amálgama de projectos de raiz inteiramente portuguesa para, em fusão com outros géneros musicais, cantar a novidade no Castelo de Santiago da Barra, onde recentemente decorreu o Anti-Pop -, querem explicar-nos qualquer coisa.

“Esta música é uma verdadeira cáuboiada que já deu milhares de dólares”, revela Trips, entre uma “Sopa de Cavalo Cansado” e “Cuba 1970”. A referência é sugestiva, e do público pedem-lhe que imite "O assobio" de Vasco Santana no “Pátio das Cantigas” - o que foi imediatamente concretizado. A festa dos corpos lentos estava lançada.

Começa a chover. Haja chavão: ver Dead Combo à chuva é esperar que, algumas dezenas de minutos antes, a Deolinda não fizesse encore com “Fon Fon Fon”, regressando ao palco sem que alguém o reclamasse. Ao meu lado, a única pessoa que acompanhava aquele nevoeiro da América profunda com palmas era um dos manos Iglésias, o Jorge, e fazia-me recuperar o nome da Ana Bacalhau, e todo o valor que nele repousa, uma vez a cada cinco minutos durante o concerto dos Dead Combo.

Num festival testemunhado por aproximadamente três centenas de pessoas, éramos quatro. Seriam menos aquelas que, dois pares de horas mais tarde, permitir-se-iam dançar ao som de Balkan Beats (DJ Set) sob um céu minhoto em torneira aberta, depois de uma espera que excedeu facilmente os três quartos de hora; eu, naturalmente, era um deles.

O milagre sónico dos balcãs chegou quando uma das quinze pessoas que entretanto subira ao palco resolveu o problema da inevitável falha de energia que, além de baralhar as ideias da mesa de mistura já preparada para abanar esqueletos, interrompeu um solo do (agora) cheinho Luis Varatojo, ontem cabecinha dos Peste e Sida e hoje a dedilhar a guitarra portuguesa d’ A Naifa, que fechou as actuações de bandas no festival. Mas eis que tropeço na ternura do DJ: por mim solicitado a emprestar uma das várias toalhas que tinha ao seu dispor, limitou-se, enxuto, a devolver-me sorrisos. Acto contínuo: regressámos a casa (eu queria mesmo era uma toalha, para me secar).

Note-se o concerto de alma cheia oferecido pel’ A Naifa, quarteto de cumplicidades liderado pela vocalista Maria Antónia Mendes (Mitó), que acasala fado e música electrónica entre letras sem saudade; vieram apresentar “Uma inocente inclinação para o mal”, terceiro disco do projecto e, sem carregar demasiada culpa aos ombros, retiraram um grandioso naco de brilho – estamos no Minho, em Agosto, pelo que só poderia estar ali quem verdadeiramente quisesse, antentando a que chovia - o que terá ajudado a Deolinda a portar-se bem; esta, note-se, borrou por si mesma a pintura de uma actuação sem mácula - final em apoteose que o hino da nação, "Movimento Perpétuo Associativo", de Zé Mário Branco, sempre propicia -, até ao dito e prostituído encore.

Motivo: Ana Bacalhau dizia-se sem voz para entoar “Eu tenho um melro” quando, entre nós, público, já estava tudo bem; não era preciso mexer mais.

III

Ao segundo dia foi a urbana Esposende, primeiro, e a profunda Chão, depois. Na cidade banhada pelo Atlântico e atravessada pelos rios Cávado e Neiva, e depois de um tardio e caseiro “polvo à lagareiro” ao almoço, entendi que a natureza continua a delimitar o seu território das formas mais admiráveis, sendo que algumas azinheiras podem levar esta ideia mais longe do que imaginamos. Aprendi igualmente que existem megafones a cada esquina derramando uma entusiasta música de vidros abertos; é verão, e os cidadãos merecem.


Era uma suspeita, mas verifiquei igualmente que Viana é Lima, que por sua vez é chuva na maior fatia do ano, e paira sê-lo nas restantes horas. Concretizámos a ideia ao visitar de pescoço joystick a bela Ponte de Lima, vila mais antiga do país que se parece com uma pequenina Praga, pelo empedrado, riqueza e ponte (não é a Carlos pela decoração, largura e comprimento, mas podia ser pela fragilidade da memória – privilégio a que nem todos podem aceder). Àquela hora, o Lima era um santuário de paz, navegado por casais em flor, devagar, como quem não quer chegar, e nós um pontinho negro com mil cavalos rumo à Serra de Arga, no Alto Minho, onde encontraríamos a moradia do Sr. Carlos numa localidade que, bem a propósito, dava pelo nome de “Chão”.

IV


Com vista para a natureza bruta e rodeada de cruzes a nascer por geração expontânea em sinuosos caminhos de cabras, a casa que procurávamos revelou-se um achado para o Sr. Carlos, na medida do enorme terreno que comprou a um preço imberbe, da cuidada decoração de interiores, do pouco cheiro a mofo que se fazia sentir - a casa é ocupada dois meses por ano-, e na da nossa traça que, da ânsia por ser presenteados com petiscos regionais, era já considerável.

Fomos recebidos com um vinho verde branco da casta Alvarinho, que o Sr. Carlos não parou de elogiar durante quatro horas, em registos progressivamente mais atenciosos e arrastados. Receberam-nos a Carla, filha da Dona São, esta, esposa do Sr. Carlos, o próprio, e a nora - ainda que não tivessemos notado qualquer som revelador da sua presença, pelo que poderia muito bem tratar-se de um amicíssimo holograma -, com a filha.

A entremedada e o frango no churrasco chegaram já na companhia da segunda verdinha, com a Dona São a censurar o marido de esguelha, a Carla a ralhar com a filha da nora, esta muito atenta à nossa esfomeada linguagem corporal, e o Sr. Carlos a enxotar-nos para a sala, de modo a testemunharmos a final da Supertaça entre Porto e Sporting de forma mais precisa.

Levantou-se a mesa para a cozinha, ficaram os homens - e o vinho - na sala. Levantou-se o Sr. Carlos em busca da terceira, e levantámo-nos nós a ulular de entusiasmo pelo primeiro golo do Yannick Djaló. Regressou o Sr. Carlos, a louvar a dimensão da sua garagem – "cabem lá seis carros", garantiu-nos, sem nos conduzir à ciência – e deixámo-nos convencer a acompanhá-los rumo a uma festa em Sapardos, freguesia de Vila Nova de Cerveira; em 2001, de acordo com o Instituto Nacional de Estatística, Sapardos tinha 396 habitantes.


Dobrando esse número, e acrescentando a big band e fenómeno local Função Públika, temos a Festa de Nossa Senhora de Fátima, para onde nos dirigimos com modos espirituosos após a vitória do Sporting confirmada pelo segundo do Djaló; tombando estrada para depois a escalar, fintando as vertigens do escuro e o motor do Fiat Punto Qualquer Coisa conduzido por Colin McCarlos, chegámos a Sapardos.

Nos 365 dias de um ano normal, trata-se de uma freguesia que vive do pequeno comércio, da transformação de madeira, agricultura e pecuária. Entre 15 e 17 de Agosto, porém, junta-se aos pares e vai bailar aos ritmos da cerveja, do vinho carrascão, da bifana (aqui a A.S.A.E nem cheira), do bigode, e que tais – tudo a que temos direito numa festa popular. Inclusive a música. Não esperávamos, seguramente, é que a sofisticação neste campo fosse uma evidência tão consistente entre os melómanos de Sapardos.

Os Função Públika são uma banda de onze elementos, provenientes de metrópoles tão díspares como Buenos Aires, Chaves ou Tavira. Apresentam-se no seu endereço electrónico como uma “banda diferente”, e dão-nos as boas vindas a um “mundo”, o deles, onde “luz, som e música” são o isco para cavarmos a cova mais fundo na demanda da sua obra.

Naquelas duas horas, os Função Públika abordaram inicialmente um dos nove mil “hits” de Tony Carreira, logo encarnando cinco ou seis malhas consecutivas do que de mais hard rock os Queen compuseram; depois recuaram nove e ficou exposto o juntinho dueto Telma Correia e Luis Mendonça, que atacou “We’ve Got Tonight”, fazendo as vezes de Kenny Rogers (cada vez - infelizmente - menos parecido com aquele que sempre fora o seu sósia, o Capitão Iglo) e Sheena Easton, no momento romântico da noite que não deixou de emocionar especialmente o bom Carlos.

Em todo o caso, não rezaria pelo delicodoce o restante programa de festas, pelo menos aquele que presenciámos até regressar a Chão, dizendo "até já" aos nossos amigos minhotos, (pai do Sr. Carlos - mal me viu, teve a bondade de me oferecer o vinho mais intragável desde Guimarães, 1128 -, incluído).

Os populares estavam tomados por certa febre, acredito que inflamada por toda a encenação futurista que os Função Públika foram proporcionando; nela constava, por exemplo, o supreendente tombo de um par de pistas laterais, ao melhor estilo da digressão mundial em que os U2 promoveram “Elevation” - embora estes tivessem um circuito fixo e aqueles um problema de memória, pois esquecerem-se de avisar o público para fugir do local onde aquilo descia. Viram também a eclética banda travar um tema a meio, para se apresentar a preceito; um a um, os músicos dos Função Públika foram sendo nomeados, reagindo ao estímulo com apaixonados solos.

Depois anunciaram que o concerto ia para descanso, em prol do fogo de artifício que seria projectado num terreno ali próximo; seria uma questão de segundos. O espanto foi generalizado, e de boca aberta permaneceu o povo ao experenciar sete minutos de intenso fervor pirotécnico onde, consta-se, foi gasto aproximadamente muito. Durante esse interregno os onze músicos voltaram a reinventar o conceito de concerto: deixaram cair um pano negro sobre o palco, onde vinha anunciado o lettering da banda e, sonho, deverão ter mudado de roupa.

Despedimo-nos com trocadilhos entre aquela que pegou, trincou e meteu-nos na sesta, e fogo; de Sapardos, freguesia do concelho de Vila Nova de Cerveira, despedimo-nos com dinamite e ambiciosas promessas de voltar a um Minho de gente boa, com "uma inocente inclinação para a chuva" (Ricardo dixit).

V


Só ouvia o incansável e narciso bate-seco dela a despenhar-se contra o espelho quando, orgulhosa pelo feito - travar a minha sonolenta jornada -, se revia naquele. Repensei a estratégia. Dando-me por vencido pelo João Baião dos insectos, deitei-me e vegetei alerta. Concretizaria o homícido sofisticadamente, contra todas as previsões. Uma chicotada junto ao espelho com aquela que rapidamente se tornaria a minha antiga t-shirt de viagem valeu-me oito horas de um doce apagão, após duas de genuína tortura no regresso a Chão.

VI


Domingo: dia de retorno ao caos, noite dentro, já de autocarro, já acompanhado; de agradecer a simplicidade das pessoas, a leveza e respectivos dotes culinários, de fotografar um cão a dormir a sesta num pátio de Viana. Comi chocolate suiço (ou seria alemão?) em casa do primo do Ricardo, onde revi a legião de minhotos que compreendia ex-aniversariantes, grávidas e cada vez mais refinados especialistas em memória desportiva.

Sugeriram ao Ricardo que me levasse ao alto de Santa Luzia, numa etapa de montanha de refinadíssima categoria com vista para o paraíso. À primeira tentativa, esbarrámos com um PSP que atravessou a passagem com o seu rafeiro de chapa azul e branca: “Está cheio, lá em cima”. À segunda, e à hora do chá britânico, o Lima parecia um telhado de zinco.

Créditos: o Rui Luis é o maior.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Este é um filme, digamos, totó


"The Hottest State", de Ethan Hawke

Encha o peito de ar; não respire.
Directos à história, que se despacha num descarregar de autoclismo: um jovem actor do Texas tenta a sua sorte em Nova Iorque, mas conhece uma rapariga morena por quem tomba de amores e perde o controlo de si. De tal modo a batida cardíaca do rapaz acelera que vemo-lo sair de um quarto, onde estava com ela - menina de sotaque aspirante a cantora -, para atacar 200 metros de nova-iorquinos obstáculos, como quem diz: “vejam como estou feliz, atentem como o meu ânus e eu nos sentimos perfeitamente relaxados ao correr por entre vocês, povo, nas ruas da cidade que nunca deixou de ter grandes olheiras". Uma viagem depois, porém, já ela, morna, lhe tentava fugir, e fugindo à fuga, deixou-o aos trambolhões, suplicando que tudo pudesse regressar à temperatura das primeiras camas. E para que não haja dúvidas de que o rapaz nutria os sentimentos mais nobres pela morena, ouvimo-lo ameaçar matar-se por desamores, num monólogo com o gravador de chamadas dela.

Pode respirar.
Agora que o pior já passou, vejamos o que há a dizer sobre “The Hottest State”, terceiro filme realizado pelo escritor, actor, argumentista e, digamos, realizador, Ethan Hawke. Cortando aos pedaços: como actor, Hawke não terá insónias quando se lembrar do seu papel em “Training Day”, ou da sua imberbe participação em “Dead Poets Society”; o mesmo, porém, não se pode aplicar a um certo príncipe “Hamlet”, perfeitamente integrado nas novidades da cidade moderna, não deixando de se fazer entender num inglês do século XVII.

Como argumentista, o texano de Austin quase assassinou “Before Sunrise (1994)” – contracena com a adorável Julie Delpy -, no instante em que achou por bem dar sequência àquele argumento, escrito a meias por Richard Linklater e Kim Krizan, com o bastardo “Before Sunset (2005)”. “The Hottest State” é o segundo filme escrito pelo desmultiplicado Ethan, e também um segundo despiste do qual só saiu ileso por dois motivos; a aura com que o primeiro "Before..." a todos abraçou, e o seu tão cláustrofóbico quanto maravilhoso plano-sequência final, com direito a Nina, dança e valsa.

Chegados à realização, importa sair à velocidade que entrámos. Ethan Hawke, que se baseia no romance homónimo de que é autor, repete neste filme a fórmula do díptico supracitado: diálogos longos, quase verosímeis, para intelectos folgados, que resvalam perto da insinuação sexuada, sempre o improviso. Não é, contudo, a falta de talento dos actores que mais pesa sobre “The Hottest State”. São mesmo as falas a revelar-se sobretudo pobres, o que pode ser um problema num filme que nelas insiste, e não retrai. Não tinha de ser assim. O tema é gasto, de modo que isto das primeiras cólicas emocionais merecia outro tratamento.

As intenções seriam espirituosas, não duvidamos, mas que pretendeu Hawke ao alternar planos de sugestão sexual progressista razoavelmente prolongados, com outros num estilo mais lácteo, não desdenhando que os protagonistas de uns e outros fossem os mesmos? A dada altura, Sarah (Catalina Sandino Moreno - "Maria cheia de Graça", Paris Je T'Aime) pede um favor ao rapaz que posteriormente rejeitaria: “Quero que me fodas”.

É, todavia, bem provável que, antes ou depois, já o casal arfe na cama como se estivesse à beira da primária explosão, quando todo o movimento corporal se processa a uma velocidade incomparavelmente maior dentro da cabeça do espectador. As imagens, manipuladas, levam-nos à procura de algo que não mexe e julgamos ver mexer. Não, não é para maiores de 18.

Concebido no banco de trás de um carro, William gasta os créditos de não ter crescido com o sustento emocional dos pais ao primeiro despiste amoroso, para logo a seguir definhar o amor evocando-o a uma média de sete vezes ao plano.

O amor é fodido, já sabíamos disso porque o Miguel Esteves Cardoso nos contou. Parecerá bem, deste modo, que a neurose do rapaz tenha mais motivos que não os de ter crescido numa família disfuncional. Dê-se-lhe outros méritos, ao invés de copiar uma fórmula gasta para unir histórias diferentes; é magia que não se repete. Celine e Jesse não moram mais aqui.

(Revelar nos créditos finais que a banda sonora deste filme inclui Leslie Feist, Norah Jones e Cat Power pode ser bastante perturbador, ainda que, no fundo, e como tudo o que mexe, perfeitamente compreensível; algo que terá escapado a Ethan Hawke.)

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

A arte de seguir em frente


Ra Ra Riot

O primeiro LP tem nome, mas ainda ninguém o encontrará à venda: “The Rhumb Line” é editado nos Estados Unidos a 19 de Agosto, estando previsto que tombe das árvores europeias algures pelo Outono. Mas quem anteontem armasse tenda em Paredes de Coura podia vê-los num palco principal ainda naturalmente iluminado, disparando energias positivas na antecâmara das entusiasmantes (e entusiasmadas) Au Revoir Simone.

O sexteto Ra Ra Riot lançou-se em 2006 com um EP de título homónimo ao da banda. Um par de aberturas dos Editors depois, e já o “curte isto” dos melómanos passava um abençoado hype pela net, à marroquina.

A trágica subtracção do primeiro baterista do grupo - John Pike morreu em Junho de 2007 -, forçou uma pausa, felizmente curta, nos trabalhos. Desse fecho para balanço resultou uma louvável decisão: seguir em frente. O resultado é um disco com parto anunciado, e que tem gerado enormes expectativas após o exuberante EP de estreia.

Passeando pela página myspace da banda, e para quem tudo o que seja Ra Ra Riot soe a novidade, é possível encontrar cinco temas do primeiro trabalho.

Apaixonante, o single “Dying is fine” é um catártico requiem a Pike: à ternura que a sociedade entre violino e violoncelo suscita - de uma espirituosa manta cobre a letra -, corresponde a confiança progressista de um baixo ciente do seu papel enquanto instrumento que ataca o horizonte porvir.

E, se quisermos, há “A manner to act”, tema onde convivem sisudos riffs “made in Interpol" – ou seja, Joy Divison -, com a voz ameninada de Wesley Miles, que poderia ser a de Johnny Borrell (aquele que um dia partilhou com o mundo que se tinha como melhor compositor do que Bob Dylan; e agora urge rebentar a corda deste parêntesis olímpico, e relembrar que foi Dylan, na maravilhosa "Mr. Tambourine Man", quem ordenou: "Let me forget about today until tomorrow."), garganta e cérebro dos Razorlight.

De tanto torcer os testículos ao bucolismo, os RA RA Riot conseguiram a enciclopédica proeza de abrir a pestana à malta urbana que gosta de se refrescar num domingo camponês. O efeito ganha tanto relevo quanto maior era a certeza generalizada de que, ao longe - perto das 02h -, e a trotear, vinha o lounge dos Thievery Corporation rumo a uma Paredes de Coura em ebulição desde as 19h.

Ao invés de um concerto sedativo, consta que os DJ's Rob Garza e Eric Hilton abanaram o Minho na medida das grandes batidas cardíacas. E que pouca gente recolheu ao seu respectivo palácio até chegar o acolhedor Caribou.

Os líderes da tribo – não me ocorre outro termo para apelidar o conjunto de pessoas que passa a vida nisto – dizem que os RA RA Riot fazem bem à saúde da música alternativa.

Não há nada de errado nesse efeito. Tenho é dúvidas sobre o que vem a ser isso de música alternativa. Alternativa a quê?

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Já não vamos ao circo com JP Simões


Longe vai o tempo do bigode. Aqueles que outrora acompanhavam os exóticos projectos musicais de João Paulo Simões – Belle Chase Hotel e Quinteto Tati à cabeça -, em busca da grande farsa, podem abordar o concerto de amanhã na Zé dos Bois (ZDB), às 23h, por um de dois métodos: ignoram-no, ou juntam-se à manada e preparam-se para experimentar uma outra coisa: JP Simões, a solo, mais cáustico no seu eterno equilibrismo pelas traves da lusofonia e, decididamente, numa outra ve-lo-ci-da-de.

Antes perseguia-se um moderníssimo fantoche de cabaré - baton e bigode, traje feminino na madrugada do Técnico -, hoje contemplam-se as diabrices linguísticas do homem que refinou por detrás desse mesmo fantoche, filho bastardo de uma geração hedonista que tropeçou em si mesma, e a cantar caíu. Não que fosse uma urgência - "Exílio", dos Quintento Tati (2004), é delicioso -, mas a mensagem do músico conimbricense aprumou-se: aos 38 anos, escreve com autoridade sobre uma colheita da qual ele próprio brotou, uma Coimbra a olhar para os lados, esvaziada de sentido, arrastando-se pelo experimentalismo dos anos 80.

“A minha geração já se calou”, avisa JP Simões, na canção que dá título ao seu disco de estreia a solo, “1970”, ano em que o próprio nasceu e sabrina sobre a qual o concerto de amanhã rodopiará; espartilhado entre a geração “dos grandes paizinhos do céu”, e o borbulhar do egocentrismo convicto, JP é metade de tudo, metade de nada.

Noutros tempos, entraríamos na ZDB à procura de uma evocação colectiva do esdrúxulo, que é simultaneamente detalhe e, enfim, o essencial. Mas como já não há bigode, e muito menos traje de cabaré para perseguir, o melhor é mesmo pedir o nosso copo e aproveitarmos a boleia do novo JP: alguém com a perfeita dicção, que canta "os mesmos dilemas, mais velhos", e estatelou-se “docemente contra o céu”.

terça-feira, 15 de julho de 2008

.. e Nova Iorque não foi o centro do mundo


10 de Julho

Era pelo menos cruel o cartaz deste festival. Meses de comoção antecipada. Quem, de alguma forma, soube (ou quis) desacelará-la sofreu um pouco menos quando percebeu que vários concertos teriam forçosamente de se sobrepôr. Ainda que o bilhete estivesse comprado há já dois intermináveis meses, foi já perto do grande dia 10 de Julho que essa percepção verdadeiramente chegou. Talvez se compare o momento deste tipo de escolha, entre duas necessidades primárias, com a expressão culpabilizante do náufrago Matt Berninger, voz dos fabulosos The National, quando agarra o microfone com as duas mãos como se de uma bóia de salvação se tratasse. À imagem de tantas outras bandas a quem devemos mais do que nos é possível explicar, segui outro caminho – o dos MGMT.

Se dermos alguma importância ao facto de ambas serem de Brooklin, talvez o processo acima referido doa menos. Não foram as únicas. Lisboa foi Nova Iorque. Nota: pode ser apenas engano de ego opinando sobre ego, mas em muito este timbre de escrita poder-se-á parecer com o tratado de paz que é a voz de Ben Harper. Acompanhado dos Innocent Criminals, o músico californiano fechou com um concerto de alcance panorâmico – assim se sentiu do sofá - o que foi um festival sem raças, idades, etnias ou nacionalidades. Tudo era mesmo de todos. Algures na tenda Metro Stage resistia MSTRKRFT e a sua bíblica tarefa de abanar esqueletos já com vista para um certamente grandioso 2009. Consta que a superou com a esperada distinção (que bom é ter a possibilidade de não pedir menos do que o melhor num festival de música).

Será nesse registo que a organização - este ano assegurou a presença, a título de amostra, dos novatos Vampire Weekend e MGMT, dos libertinos Gogol Bordello e The Gossip, dos agora mais calma e, aliás, corrosivamente lendários Bob Dylan (cuja voz cada vez se parece mais com a portuguesa da personagem Cell, respeitante à série animada Dragon Ball) e Neil Young, e de um regresso no domínio do mito para os Rage Against the Machine, oito longos anos após a prematura separação da banda californiana -, terá de trabalhar.

Tamanho brilho, diga-se, terá diminuído a possivel desilusão que muitos terão sentido perante as ausências forçadas dos "Cancelei de Ser Sexy" e Nouvelle Vague. Dada a desproporção verificada entre tanta qualidade e o pouco tempo que houve para dispersá-la por dias e palcos, esse episódio terá provavelmente facilitado a vida a muita gente. Particularmente aos que se preparavam para carregar sozinhos um pesado fardo: escolher uma banda de que se gosta em detrimento de outra que se adora, podendo a ordem destas inverter-se sem problemas de maior. E todos nós sabemos o alívio que fugir disto nos pode trazer.

Vampire Weekend


Ao vivo e a pó – o chão da tenda Metro On Stage era metade gravilha, metade tapete -, os meninos-com-aspecto-de-quem-vai-estudar-quando-chegar-a-casa-porque-têm-frequência-para-a-semana-que-vem não desiludiram quem deles faz a bandeira do novíssimo fervilhar musical de Brooklin (a par de Santogold, Yeasayer e dos MGMT, que os substituiriam mais tarde do que o previsto) apresentaram-se no Alive! 08 como a nova banda de estimação da geração myspace. A missão, adivinharam, passava por massificar o produto Vampire Weekend no cosmopolitismo inegável de Lisboa, que a recebeu com o nervosismo e ânsia próprios de uma primeira vez com alguém que queremos.

As cores contudo, poderiam ser outras. Não só o imenso e citado pó que era chão atrapalhou o “escrever história” numa tenda com capacidade para aproximadamente 6000 pessoas, como o concerto tarde-dentro soou a erro de casting na medida do espaço escolhido.

Sugestão: tivesse a organização colocado os rapazes a tocar na parte de trás da tenda Metro On Stage - qualquer coisa como Stage Metro behind the Tent - onde o sol das 19h não pudesse agredir bárbaramente a visão do público, juntado uma tenda de caipirinhas às de hamburgueres e da Sagres, e talvez aqueles (mais de) 6000 se lembrassem de temas como “Bryn” ou “Walcott” daqui a dois pares de décadas, quando tivessem de pôr a dormir algum neto que troque a obediência por uma história divertida. Mas já se sabe como é isto do complicador.

O punk-pop dos Vampire Weekend - banda de meninos que não percebem o fascínio por uma cerveja gelada num dia de esturrico colectivo, sobretudo quando podem beber um copo de leite fresco -, que é África no registo mais esbranquiçado de David Byrne ou Simon & Garfunkel, acabou por satisfazer sem deslumbrar; a mim, particularmente, que esperava por um número que nunca chegou (a improvável kisombada que abriu o concerto, "Mansaard Roof", - que perdi -, terá sido ímpar no contacto com o público). Ainda assim, e ao contrário dos vindouros MGMT, tocaram dois temas novos, de modo que pouca gente terá olhado para o relógio com demasiadas reticências.

Resulta que, em todo o caso, os vampirinhos ficaram aquém do estatuto que ergueram no veloz - e muitas vezes frágil - passa-palavra da internet. A qualidade, percebemos, não é problema. Já se sabe é como funciona isto de primeiras vezes.

MGMT


À imagem do que acontecera com a vampirada vizinha, na actuação anterior, também os MGMT tinham pouco para mostrar. Pior: o anúncio de que os brasileiros "Cancelei de Ser Sexy" não tinham viajado para Lisboa dava-lhes a ingrata possibilidade de estender por mais algumas dezenas de minutos o seu concerto. E tudo iria pelo melhor, terá pensado o duo de rapazes que forma a banda, não fosse o seu repertório de originais esbarrar nas dez músicas que compõem "Oracular Spectacular" - disco de estreia.

Sem jogo de rins para números ensaiados em cima do joelho, os MGMT tocaram ainda menos tempo do que os Vampire Weekend. O público, cuja ansiedade pela cerca de meia hora de atraso da banda foi canalizada na convicta vaia com que brindou a chegada ao palco daquela, delirou. Afinal eram os The National que no palco principal – longe – amoleciam plasticina com um rock nublado e (quase) imperdível, viagem interior aos lugares menos explorados do "eu". A diversão era, pois, uma urgência.

Recuperando Zé Mário Branco, e uma certa fixação com o vocalista dos The National, “não pode haver razão para tanto sofrimento” quando Matt Berninger se aproxima de um microfone. Não fosse a tremenda qualidade dos músicos que formam a banda, aliada ao recuperar de um certo refrão orelhudo que deu razão de ser às grandes bandas de estádio dos anos 80 - e a aura de encantar serpentes, e a cirurgia lírica, e o negrume aconchegante, e que não desça mais o olhar nesta reflexão aquele que assentir ao que acima foi disposto -, e os nova-iorquinos estariam possivelmente condenados ao mais perfeito anonimato da garagem, recalcando a depressão própria de quem só se sente quando nos relembra as inquietações que já repisámos, convertendo-as a faixas de um disco (Boxer, 2007) que não se abandona. Haverá pouco músico por aí, é uma aposta segura, que transmita em palco de uma forma tão evidente a ideia de que precisa de um abraço como este senhor.

Ainda assim foram os hinos dos MGMT, “Electric Feel", “Weekend Mars” e, sobretudo, “Time to Pretend”, que desenharam os primeiros contornos de um festival notável, não tanto lembrado como mais um na conta dos inúmeros que se espalham pelo país em tempo de banhos e sol, mas pela comoção que gerou em quem o experienciou no passeio marítimo de Algés. A tal coisa estranhíssima de se assistir a um acontecimento histórico no local onde ele acontece, de percebê-lo à medida que os nossos sentidos assimilam a equação “génio + génio = isto vai ficar entre nós”. Também por isso, o concerto de MGMT chegou atrasado, foi intenso, e pareceu confrangedoramente curto.

Gogol Bordello


Numa entrevista realizada momentos antes de subirem ao palco em Sines, no Festival Músicas do Mundo do ano passado, o vocalista dos Gogol Bordello, Eugene Hütz, disse: “Nós conhecemos a nossa cultura (Eugene cresceu numa comunidade de ciganos ucranianos), mas a nossa ideia de cultura é ter a capacidade de perceber outra cultura. De outro modo serás apenas um idiota nacionalista”.

Se ele o diz, nós acreditamos. Na verdade, e depois da forma desenfreada como passou (saltou) por Paredes de Coura e Sines em 2007, e da festa que liderou no primeiro dia do Alive! 08, já acreditamos em tudo o que um membro dos Gogol Bordello disser. Principalmente aquele violinista com ar de corsário da Idade Média.

Bem, fazemo-lo em quase tudo, exceptuando talvez aquele prelúdio a “Start Wearing Purple”: “Ela não gosta de mim”, lamentava o vocalista-compositor-contrabandista, num "brasilês" admirável. Talvez confiemos mais na boa vontade das fãs do grupo norte-americano/ucraniano, particularmente de uma rapariga que se avistou num dos ecrãs empunhando um cartaz direccionado a Eugene. “Quero beijar o teu bigode sexy”, podia ler-se.

No mais, foram cerca de 90 minutos de um fervoroso carnaval protagonizado por aquela que deverá ser uma das bandas mais acarinhadas pelo púbico português, sábio papagaio de temas como o citado “Start Wearing Purple”, “Ultimate” e “Not a Crime”. A primeira grande festa do Alive! 08, treino de pré-época que deixou alguns entusiastas perfeitamente arruinados para acompanhar The Hives, logo de seguida. O regresso à tenda Metro Stage foi consensual. Além de alma, o grande grito de raiva contra a máquina, que chegaria após a actuação do quinteto sueco, precisava de pernas (e coluna, no meu caso).

Hercules and Love Affair


Como se esperava, o andrógino Antony Hegarty (vocalista dos Antony & the Johnsons e também destes Hercules and Love Affair - projecto do DJ nova iorquino Andy Butler) não apareceu, de modo que a sonoridade disco dos anos 70 e 80 da banda ficou secundada pela estranha imponência de Nomi: assim o é quando vemos subir (ou descer ou fintar, alguma coisa se passava ali) ao palco alguém que fitamos ser uma inacreditável mulher – elas também concordavam com esta ideia, que eu bem ouvi entre o público -, e depois tomamos conhecimento que essa mesma Nomi continua a ser uma ela, já tendo sido um ele: é um transexual.

Arrasadora à distância, ela (sim, hoje é uma ela pelo pouco que percebo disto) passou uma hora a arriscar venenosas danças com os seus quadris descartáveis. O público, já nem arrisco definir de que género, achava tudo aquilo bastante injusto. Bem a contrastar, diga-se, com a outra vocalista da banda - espécie de menino estagiário, cliente assíduo e sistemáticamente afastado das rondas iniciais de programas como os “Ídolos” e, afinal, a única menina nascida enquanto tal da banda. Kim Ann Foxman, toda ela andrógina, pois claro. Nem era a timidez. Cantava mesmo pouco.

Tal como o género, também o som que ouvimos dos Hercules and Love Affair é perfeitamente indeterminado. Vale que, durante o tempo em que estiveram em palco, ninguém parou entre o pó e o tapete, varrido que esteve aquele espaço por uma cirúrgica fusão de géneros dançáveis, qualquer coisa que nos é familiar numa era – hoje – que se define precisamente pelo conceito melting pot. Literalmente, no caso amoroso deste Hércules com voz de mãe.

Rage Against the Machine


Para alguns, o 10 de Julho deverá ter implodido na tenda Metro Stage, lotada com as bandas mais ligadas ao b.i da nova cena cool: o pop-tudo dos (tidos como) esquisitinhos. Mas por muito que estes, os novos esquisitinhos portugueses (e espanhóis, ingleses, norte-americanos e por aí fora), tivessem a pole-position diurna com as actuações de Vampire Weekend e MGMT, a noite tinha lugar marcado com a História para outros fãs, os de Rage Against the Machine (RATM).

Oito anos depois: muito tempo para quem cresceu a ouvir o sermão subversivo de Zach de la Rocha, com o virtuoso Tom Morello nas descargas eléctricas, Tim Commeford no baixo e Brad Wilk na bateria – estes três formaram os Audioslave em 2001, logo após a separação da banda, enquanto Zach perdeu-se em projectos a solo e parcerias que foi abandonando sucessivamente. De punho ao alto e bem cerrado, avistando a enorme cruz vermelha que alimenta a iconografia da banda, milhares de fieis devotaram-se ao quarteto californiano com a paixão de um soldado que regressa a casa após uma eterna missão militar.

Talvez tenha sido isso que aconteceu. Os míudos que os ouviam aos 18 anos têm agora 26. Já entraram no mundo sujo do trabalho. Possivelmente já descobriram "o que era aquilo do desemprego". Já perceberam o culto da papelada. A soberba do mesquinho. O passar por cima. O isto por aquilo.

Na quinta-feita ouviram-se as mesmas músicas compostas no outro milénio, mas as letras sofreram alguns ajustes. É o passado a instalar-se no presente, com o futuro inteiro pela frente: tal como há oito anos, os RATM alinharam a consicência de quem esteve no passeio marítimo de Algés, convertendo indecisos e não desiludindo os fieis (tantos).

Homenagear os camaradas com uma bandeira de Che Guevara estendida no palco, respirando entre hinos, mais tarde, para aclamar a obra do escritor português José Saramago, é perceber muito desse processo. E se um grande concerto pede comunhão total entre músicos e público, então os RATM deram uma prova bem cabal do quanto o seu rapcore está aí para o combate. Foram 40 004 aos saltos durante quase duas horas. Memorável.

O comboio é de todos

À saída, espanto: disponibilizados que estavam – assim nos rezou quem de direito – comboios para os melómanos do festival até às 04h, pouca gente terá chegado a saber que só haveria um. Às 04h. Um comboio e 40 000 pessoas. Naturalmente que houve quem tenha perdido os sentidos, uma vez no vapor das 04h. O resto dividiu-se entre estender-se na estação - até o amanhecer trazer consigo novíssimas carruagens -, ou voltar para casa a pé. Seguramente que uns e outros estarão presentes na próxima edição do melhor festival de música que o país conheceu este ano, até ver.

Não o seria se ninguém se tivesse luminosamente lembrado que um comboio era o bastante para engolir 40 000 pessoas. E que estas respirassem. Ao acordar já os tinhamos perdoado, e 2009 ao virar da curva. Já circulam nomes. Um tal D., com presença assegurada. David Bowie? O mais seguro é mesmo voltar lá para confirmar.

Créditos: a Rita Carmo é a maior.