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sexta-feira, 12 de outubro de 2012

"Goin' for gold!"

Generaliza-se muito, demasiado, e convém dizer que dos bifes são os irlandeses os que menos piada acham a piadas que metam sexo. Vem ao caso que, mal entrei num bar tradicional da Praia da Rocha, o Ireland's Eye, topei um casal de idade sábia sentado por ali; calmos e divertidos, os irlandeses, a observar os bebadozitos. "Paddy The Punk", um algarvio de gema nascido na Irlanda - está por cá a cantar na época alta, que amanhã termina -, histérico do Manchester United (hein?), animava a malta com a sua versão da versão da Amy Winehouse da 'Valerie' e outras, até que apostou num slow, e algum tipo de mérito tenha a minha memória se me lembrar que música era. Não demorou muito até o tal casal de idade sábia abrir a pista de dança. Ali perto, encostado ao balcão, a iniciar o meu Jameson com água natural, fiz-lhes txim-txim aéreo e, não satisfeito, aplaudi-lhes um passo de dança mais nobre. O senhor, que tinha o nariz muito vermelho, abriu a pestana de admiração e admirado continuou o resto da dança, fitando-me amiúde até ao último acorde, com cara de quem vai aprontar. E assim foi: mal a música acabou, aproximou-se e perguntou: "What you havin'?, ao que respondi "oh!, i'm fine - as you can see, sir, thanks!", disse apontando para o meu copo ainda cheio, e ele semi engasgou-se de propósito e já com a voz clara insistiu, "son, what YOU havin'?", e eu respondi, "this sir, this, Jameson with still water!", e ele sacou da nota que o barman pediu - "five, please" -, pagou-me o copo e cumprimentou-me com o brilhozinho nos olhos de quem se despede de um amigo em casa de quem se passou férias.

"Paddy The Punk" estava em forma e contou a anedota dos preservativos olímpicos. O marido foi às compras e trouxe para casa uma caixa. Deu a notícia à mulher, que ficou intrigada.

"What makes them so special?"
"There are three colours", explicou o marido. "Bronze, silver and gold".
"What colour are you gonna wear tonight?", perguntou a mulher, atrevida.
"Gold, of course".
Ela respondeu: "Really? Why don't you wear silver?"
Marido: "Well, it would be nice if you came second for a change."

A noite prosseguiu pelo Ireland's Eye até perto do fecho da casa, pelo menos para nós. Muito antes, o tal casal de sábios irlandeses levantou-se da respectiva mesa e, já perto da porta de saída, o marido deteve-se e gritou, alto e bom som: "goin' for gold!"

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Há coisas que nunca mudam


Cada um é de onde vem e na forma de quem o rodeia. Nada tenho contra a malta que se identifica com o Inverno, que não resiste a um bom dia de ossos a tremer, roupa encharcada e pele amarela, mas eu cá gosto é de ter os pés bem assentes na areia e num ameaço de espuma ver as ondas morrer aos pés de gente escurecida pelo rei sol, com rugas de expressão e sem pressa, eu é mais tirar o salitre do corpo, caracóis e cerveja gelada ao fim do dia, demorar-me no regresso a casa - "vamos a pé?" - e chegar com o cheiro de peixe fresco a virar na grelha, ouvir o canto estridente dos grilos em noites brancas de jantar na rua e viver paixões destinadas a acabar estateladas contra as rochas. É isso que eu quero. Sou.

terça-feira, 9 de junho de 2009

A cerveja morna e triste

O Zé da gaita tem 112 quilos, mas não parece. Usa roupas largas, confortáveis, e está sempre a colar os cantos da boca às orelhas, como o cheiro de casca de banana ao olfacto dos passageiros nos autocarros, pelo que ninguém se lembra do peso. Quem frequenta ou vive na Praia da Rocha sabe bem onde encontrá-lo: caminha duas horas à beira-mar, logo que acorda, pela tardinha, e de noite é mais sensato não o procurar; ele dá uso à gaita em todo o lado, de modo que acabará por nos achar. E pedir uma taça de tinto, 'Com uma pedra de gelo, derretida', antes de socorrer os aventureiros de karaoke com os adoráveis arranjos da sua harmónica. O Zé pinta telas de cores festivas e passa a vida em trânsito para com elas ganhar o seu vinho, mas é pela música que o coração lhe bate mais veloz. Não há género musical que iniba o Zé de dar à gaita. Mas nem tudo o inspira. É um animal como nós e também perde a cabeça - sobretudo quando conhece gente mal educada. Para essas pessoas regula o espelho de outra forma. 'Eu não sou agressivo: sou mau', explica, a esse propósito. 'Fico como o Bat(e)man', acrescenta. Hoje, bem dentro dos quarentas, o Zé serve-se da gaita com a mesma destreza com que, há uma dezena de anos, teve de se desembaraçar de um cliente inoportuno num bar que então geria. O espaço era pequeno, e enchia com frequência. Foi o caso, naquela noite. Sete mesas com o suporte embutido na parede pareceu um número especialmente curto. Havia 1,2,3, demasiados clientes à porta, demasiados turistas desesperados por trocar as economias por uma ressaca na praia no dia seguinte, demasiadas carteiras a suplicar por atenção, 'Olhe para mim, chefe, estou gorda que nem uma vaca e quero esvaziar tudo para dentro da sua caixa registadora'.



Uma mesa destacava-se das demais: estava ocupada por um homem sozinho, ou quase - fazia-se acompanhar por uma cerveja morna e triste há quase hora e meia. Atento, o Zé varreu o suor que acumulara na testa com os dedos médio e indicador da mão direita e avançou para o cliente. De forma educada, fez-lhe ver o inconveniente de agir daquela forma - 'Amigo, está a entupir-me o negócio, como vê'. Nem perto esteve de obter a reacção que desejava. O cliente permanecia impávido, como se nada fosse, 'Estou a beber o meu copo', dizia, espreitando o caldo amarelo-morto uma vez conhecido por cerveja. Decidiu então lançar-lhe um ultimato: 'Oh meu grande cabrão, vou ali atrás mijar. É bom que não estejas aqui quando eu voltar'. O Zé arrastou os seus 112 quilos em passada larga rumo à casa de banho, e uma vez lá dentro, esqueceu-se do urinol. Isso sim, fitou-se ao espelho, chapinhou o rosto com água, voltou a encontrar os próprios olhos, escuros de asco, a pedir uma decisão, limpou as mãos ao toalhetes do Lidl que a casa promovia e regressou à mesa do cliente inoportuno, que permanecia de olhar inquieto e discurso afiado onde se sentara há mais de hora e meia. 'Paguei um copo. Daqui não saio'. O Zé insistiu uma última vez: 'O senhor vai ficar?' Ao ouvir a resposta que não queria, flectiu ligeiramente os joelhos, abriu os braços e arrancou a mesa da parede, como o Chief arrancou um lavatório do chão no Voando Sobre um Ninho de Cucos para rebentar um vidro e por ele escapar do hospital psiquiátrico. 'Agora já não tens onde pousar o teu chá meu grande cabrão, rua daqui', ordenou, no tom sereno e cavernoso que lhe define a voz. Conta a lenda - ele, o Zé da Gaita - que o senhor inoportuno apresentou queixa em tribunal. Acrescenta a mesma que não ganhou coisa alguma com isso, apenas o melão olímpico da noite em que teve menos sede do que devia.