segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

UCEMA 2009 - Canções da Década


Como na lista dos discos, também a das canções reúne tudo o que não tenha 2009 metido ao barulho. Essas entram noutras contas.

20. Bright Tomorrow, Fuck Buttons (2008)
Ruído gutural para meninos.

19. The Great Escape, Patrick Watson (2006)
O Patrick senta-se ao piano e o resto deixa de existir.

18. Bros, Panda Bear (2007)

Podia ser um belíssimo EP.

17. Do You Want To, Franz Ferdinand (2005)
Um descontrolo contagiante, talvez destacado no belíssimo repertório dos Franz por ser dos mais tolinhos descontrolos contagiantes. Há muitos e bons. Longa vida à Escócia.

16. The Greatest, Cat Power (2006)
A mulher mais bonita da música fez das músicas mais bonitas que conheço.

15. PJ Harvey & Thom Yorke, This Mess we’re In (2000)
Génio conhece génio e os dois fazem uma canção genial.

14. White Winter Hymnal, Fleet Foxes (2008)
Música de lareira, veste a época e é de uma beleza fantasmagórica – o medo atrai.

13. Crane Wife 3, The Decemberists (2006)
Adorável.

12. Me & Mr. Jones, Amy Whinehouse (2006)
Damn sexy music.

11. Behind the Yashmark, Esbjörn Svensson Trio (2002)
A melhor peça de jazz que ouvi de uma banda que lamentavelmente já não poderemos ver ao vivo, uma vez que o líder morreu este ano, imaginem, a fazer mergulho.

10. Elephant Gun, Beirut (2007)



Celebração à vida.

9. Haiti, Arcade Fire (2004)



Magia.

8. How to Disappear Completely, Radiohead (2000)



Rendo-me, enfim, à bandeira da obra, ainda não consigo é dizer o mesmo da obra - Kid A.

7. Fireworks, Animal Collective (2007)



Como quase tudo aquilo em que o Noah Lennox se mete, primeiro estranha-se, depois faz parte de nós, é a banda sonora de tantos dias. A sensação com que se fica é a de que, quando terminaram esta faixa, os Animal Collective eram uma banda feliz.

6. Blind, Hercules and Love Affair (2008)



Hino dançável da década.

5. Pogo, Digitalism (2007)



Ups, este é que é (o vídeo é que não).

4. The Past is a Grotesc Animal, Of Montreal (2007)



Encomendei um livro vagamente erótico directamente de França por causa disto – 'nough said. Pena é que o YouTube não deixe ouvir tudo, bah.

3. Magick, Klaxons (2007)



O irresistível caos (o vídeo também, não tenho culpa e aliás chove tudo lá fora neste domingo que já não é).

2. Maps, Yeah Yeah Yeahs (2003)



A balada da década, vinda de um trio que até aí nunca tinha tocado a menos de 300 à hora.

1. Last Nite, The Strokes (2001)



Laaaaaaaaaaast niiiiiight!!

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

UCEMA 2009 - Discos da Década


É um trabalho sujo, mas alguém tem de o fazer: arrumar o que de melhor se fez e partir de vez para 2010. O Castelo começa pelos discos da década, onde não entram os álbuns deste ano - esses ainda não tiveram tempo que chegue a maturar no refogado, há que lhes tirar bem o gostinho antes de andar para aqui a fazer comparações tontas com trabalhos já lendários. Os de 2009 vão ficar juntinhos com os de 2009, numa lista que há de chegar.

20. The Reminder, Feist (2007)
19. Silent Alarm, Bloc Party (2005)
18. In Rainbows, Radiohead (2007)
17. In Ghost Colours, Cut Copy (2008)
16. American Idiot, Green Day (2004)
15. You & Me, The Walkmen (2008)
14. Stories from the City, Stories from the Sea, PJH (2000)
13. Person Pitch, Panda Bear (2007)
12. Strange Place for Snow, Esbjörn Svensson Trio (2002)
11. Show Your Bones, Yeah Yeah Yeahs (2006)

10. Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not, Arctic Monkeys (2006)


Pós-punk made in England em diálogo com as suas raízes. O primeiro grande petardo a rebentar caído da geração My Space. God Save the Arctic Monkeys.

9. Strawberry Jam, Animal Collective (2007)


Se um mérito pode, com algum consenso, ser concedido aos Animal Collective, é o de se terem apropriado de um som – electrónica, ruido, rock e folk ao molho e fé neles mesmos - que não existia, e dele fazerem a sua adorável e esquisitinha bandeira. Olá, eu sou o Paco Bandeira e escrevo no Castelo sobre música.

8. Franz Ferdinand, Franz Ferdinand (2004)


Ainda me lembro da primeira vez que ouvi isto: foi no quarto ao lado do meu, na segunda casa para onde fui morar em Lisboa, esta, onde então também dormia o Hugo, de Gondomar, que ressonava como um urso. (Esta faceta esteve devidamente documentada em telemóvel durante alguns meses, até que, numa noite de nevoeiro denso, mergulhei o bom do bicho electrónico no meu copo de cerveja). Sempre achei pobrezito o som que as discotecas me ofereciam quando comecei a sair à noite, e agora percebo que era este funk-rock que então queria ouvir. Não sei se será o melhor álbum da década, mas anda lá perto, e é muito provavelmente o mais dançável.

7. Sound of Silver Advance, LCD Soundsystem (2007)


Cada canção é um triunfo na pista de dança, e nunca me esquecerei de ter lido algures que o James Murphy - sábio conhecedor da disco e do funk dos anos 70 e 80 - nunca deu um concerto sóbrio, o que perfaz o elogio do álcool de uma forma que me leva as palavras.

6. Vampire Weekend, Vampire Weekend (2008)


Escrevem sobre arquitectos franceses do século XVII e têm canções cujo título se chama Campus, mas, de alguma forma, a musicalidade destes meninos que se formaram em quaquer coisa na Universidade de Columbia, em Nova Iorque, tem alma que chegue para rapidamente esquecermos o que parece e devorarmos o que é: pop africana, música tradicional irlandesa, punk-rock de etiqueta – tudo aqui é fusão do bom e do melhor.

5. Back to Black, Amy Winehouse (2006)


Aretha, céus!, que pálida! (Toda a novela patética sobre a vida dela fora dos palcos – e depois dentro, lamentavelmente – que se seguiu, à parte).

4. Gulag Orkestar, Beirut (2006)


Um puto norte-americano do Novo México viaja pelo Velho Continente aos 17 anos e antes dos 20 encerra-se num quarto, para compor um álbum de música popular dos Balcãs. Ah!, sozinho. É tão genial como assim de repente parece e sempre que o oiço fico com vontade de que o meu nome acabe em ic.

3. Is This It, The Strokes (2001)


São de Nova Iorque e salvaram o rock logo após o pesado virar do milénio. Simples, directo e diabolicamente bom. Assim mesmo, sem anestesia. Eles apareceram e quem ambicionava fazer rock independente seguiu-lhes o passo.

2. Myths of the Near Future, Klaxons (2007)



A espera pelo sucessor de Myths of the Near Future é cruel. Editá-lo, depois de uma obra de estreia visionária, lunática, incendiária, capaz de agarrar no punk e embarcá-lo numa viagem electrónica vertiginosa, com abismo anunciado a cada acorde, não deverá ser menos.

1. Funeral, Arcade Fire (2004)


A música sempre foi uma coisa subjectiva, mas depois há o disco de estreia dos Arcade Fire.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

O concerto de uma vida deverá ser qualquer coisa como isto

Dizer que o Patrick Watson saltou com a banda para o meio do público só é novidade para quem não o conhece. Palco frio, plateia quente. Que a luz tenha falhado três vezes no concerto de encerramento de um festival de música é que já será notícia. E juro a pés juntinhos (suster a respiração): quando isso aconteceu, ele e os outros três músicos, como se nada fosse, como se em causa não estivesse a derradeira imagem após uma longa digressão europeia, como se não tivessem motivos para querer bater em alguém, como se o São Jorge fosse um parque de diversões, estacionaram ali ao nosso lado para fazer a festa - ou, mais precisamente, juntinho da P., que o ama, e do N., que sente o mesmo e aliás fazia anos. A sala maior do São Jorge a pingar devotos pelas costuras e eles estacionaram ali, ao nosso lado, no aniversário do N., que o ama, para uma serenata às escuras. (O brilho aguado no olhar de quantos ali estávamos bastaria para iluminar dois ou três latifúndios). Espero desde sábado por um vídeo que já não tenho grande esperança em ver chegar. Algo que documente o que as palavras só caricaturam. Estas já tiveram espaço que chegue - na memória de quem conserva a pulseira do Super Bock em Stock viverá o resto.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

no rules, grrrreat band

o sr. kapranos não se cansou de dizer que amava lisboa, o que tem a sua graça: lisboa sente precisamente o mesmo mas só na quarta-feira é que arranjaram um encontro a dois, e a foto é da Rita Carmo, pois claro

Passavam 15 minutos da hora marcada quando se ouviram os primeiros assobios, logo silenciados por um coro de aplausos dionisíacos. Será que isto é uma espécie de estádio de Alvalade?, pensei, ou que os Franz Ferdinand vão fazer de Paulo Bento quando subirem ao palco, logo na primeira vez que tocam por aqui em nome próprio, que também é a primeira em que os vejo ao vivo? Outros 15 minutos em cima dos primeiros e a coisa repete-se. Pontualidade britânica só no cinema.

Evidência: não mereço o blogue que tenho, ou o título daquele, que vai dar ao mesmo. Perdoa-me, Escócia.

Ah!, ei-los!, para cima de meia hora depois.

Arranca o concerto.

No you Girls logo na entrada fez-me comichão. Não dava para esperar um pouco mais, deixar a temperatura subir até, digamos, ao insuportável? Eh!, expressei, quando de seguida entraram os primeiros acordes da Dark of the Matinée. Em vão passei as horas anteriores ao concerto a tentar imaginar uma forma de saltar para a plateia, uma vez que o meu bilhete era de bancada, e, agora, ali, no meio dos sentados, no meio dos bem vestidos e comportados, dos bonitinhos e penteados, parecia a Elaine do Seinfeld quando dançou no jantar da empresa, perante o horror de quem assistia.

Mais uma e depois a pergunta-chave: Well Do Ya, Do Ya Do Ya Wanna? – claro que quero, quero muito, quero tanto, quero tudo. Mas havia arame farpado a dividir plateia e bancada. (Se não for farpado é só arame, e se não for arame é qualquer coisa que, a par dos seguranças a arfar com as órbitas muito abertas, atentos como felinos antes de atacarem as suas presas na calada da noite, fez-me pensar duas vezes antes de saltar para a confusão, e todos sabemos o mal que faz isso de pensar, quanto mais duas vezes).

A companhia também recuperava de uma fuga recente aos bichos A. Fiquemos então pelo plano B, de bancada, que não é mau de todo – podiamos sempre estar em casa a escrever sobre aquilo que os outros fazem, ao invés de sermos nós a fazê-lo, para depois o escrever.

Twilight Omens, This Fire. Numa prova de que o mundo é redondo e perfeito, um senhor com óculos de ciclista e mosca pediu-me, de perna traçada e um humor de cão sem dono, para me sentar, por favor, gostaria de assistir ao espectáculo. Isto porque, imagine-se, ousei manter-me em pé e esticar os ossos de forma nervosa, como me é habitual quando a música os agrada. Virei-me e saquei da minha retórica mais chocada: quer que eu me sente na This Fire?!? Eh!, pensei, fuzilando-o com os, portanto, olhos, enquanto sacudia ainda mais os ossos feito demente. Com cara de poucos amigos ficou o senhor com mosca e óculos de ciclista, ou o ciclista com óculos de mosca, ou os óculos com mosca de ciclista, ou a mosca com um ciclista de óculos. O pagode seguiu rumo com mais dois bolinhos de côco até que a Take me Out recebeu o que a This Fire, abordada num estilo muito cru, muito rock n’ roll, muito aquilo que o vibrante quarteto de Glasgow é ao vivo, muito mais do que em estúdio, merecia: uma tocha que incendiasse o Campo Pequeno. O rapaz em questão estava a pedi-las – Take me Out – e o segurança fez-lhe a vontade mais cedo do que tarde. Já falam de ti na blogosfera moço, e esse momento de fama terá sempre mais de 15 minutos. É já depois da Ulysses que oito mãos desatam à pancada com pratos e tambores. Outsiders como a banda sonora de um rito medieval: a malta curte à brava e ninguém arde ao meio, tudo boas notícias.

O encore traz a bonitinha Walk Away em registo balada, Michael e, antes da pedra que é e foi Lucid Dreams, um momento importante da noite. Eh lá, isto soa a LCD Soundystem, desabafei comigo mesmo. Pois, soa porque é, respondi-me. All My Friends, era no Campo Pequeno que os queria na chuvosa noite de quarta-feira.

E entre nuvens de substâncias para rir e afins se esfumou um concerto de quase duas horas, guitarra, baixo, sintetizador, vozes, tudo junto, petebum petebum petebum bateria, oberigadou Lisboa!

outsiders.



walk Away.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Parte favorita do ok computer: 0:00 – 53:27

Por um conjunto de razões que não cabe num tirinho pensado, este disco teria sempre de ser aquilo que é: maior do que a vida. Um dia destes ganha asas.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Gabo: amor à primeira e segunda vistas e terceira, quarta...

Cego por uma fúria insensata, fui partindo contra a parede todas as coisas do quarto: as lâmpadas, o rádio, a ventoinha, os espelhos, as jarras, os copos. Fi-lo sem pressa, mas sem pausas, com um grande estardalhaço e uma embriagez metódica que me salvou a vida. A menina deu um salto ao primeiro estrondo, mas não me olhou e enroscou-se de costas para mim, e assim permaneceu com espasmos entrecortados até que cessou o barulho. As galinhas no pátio e os cães da madrugada aumentaram o escândalo. Com a lucidez ofuscante da cólera tive a inspiração final de pegar fogo à casa, quando apareceu na porta o vulto impassível de Rosa Cabarcas em camisa de dormir. Não disse nada. Fez com a vista o inventário do desastre e verificou que a menina estava enroscada sobre si mesma como um caracol e com a cabeça escondida entre os braços: aterrada mas intacta.

- Meu Deus! - exclamou Rosa Cabarcas. O que eu não teria dado por um amor como este!

Memória das Minhas Putas Tristes, García Márquez

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

É natal quando lisboa quiser

21 Novembro
Micachu & The Shapes – Loft (O Baile), ZDB era tanga

22 Novembro
Massive Attack – Campo Pequeno;

29 Novembro
Muse – Pavilhão Atlântico;

02 Dezembro
Franz Ferdinand – Campo Pequeno;

04 Dezembro
Legendary Tigerman – Tivoli, SBST;

05 Dezembro
Juan Mclean – Maxime, SBST - Houston
Patrick Watson – São Jorge, SBST - we
Hercules and Love Affair – Lux - have
Beach House – Tivoli, SBST - a problem.

07 Dezembro
Prodigy – Pavilhão Atlântico

10 Dezembro
Maccabees + Editors – Pavilhão Atlântico.

27 Dezembro
Joplin + Morrison + Hendrix + Cobain - Sala por confirmar.

(e para trás ficaram os kings of convenience e depeche mode e ali à frente estão os arctic monkeys e la roux e este post já vai longo, pronto, vou dormir.)

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

encontrar num centro de emprego de lisboa uma amiga de portimão que nasceu um dia antes de mim e a quem terei dado o meu primeiro beijo

Eu - Olá!
Ela - Oi!, há tanto tempo! Que fazes aqui?
Eu - Vim pra me lerem a mão. Será a direita ou esquerda?
Ela - Oh, parvo, diz lá, a sério.
Eu - Vou mudar pra estágio profissional e tenho de me inscrever aqui.
Ela - Mas continuas no mesmo sítio?
Eu - Sim. Olha, acho que faz um ano amanhã. Ou depois.
Ela - Ah, ok.
Eu - E tu, também continuas onde estavas?
Ela - Eu?
Eu - Sim, tu.
Ela - Fui demitida ontem.
Eu - Porquê?
Ela - Problemas internos.
Eu - Chato, isso.
Ela - Mas agora tenho um projecto. É tão ambicioso, tão ambicioso - nem imaginas.
Eu - Pois não. Qual é?
Ela - Oh!, não te vou dizer, não é?

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Sa-Ra: da Califórnia, com amor

Durante anos produziram os trabalhos dos outros. Kanye West, Erykah Badu, John Legend, Iggy Pop, Herbie Hancock. Chegado o tempo - 2009 - de fazerem, de raíz, o primeiro disco de originais - há outro, sem esse estatuto, que remonta a 2007, mas, que escrevo eu, não o conheço -, os Sa-Ra apresentam Nuclear Evolution: The Age of Love, uma orgia superior de música negra em que a soul emerge sempre como o elemento que, bem sentidas as coisas, fecunda. (Posso muito bem ter acabado de inventar a pior metáfora de sempre). Um êxito instantâneo, tipo os textos do JPC sobre culinária e a dança dos corpos que a M. evoca e a paixão descontrolada que o J. tem pela relação som-imagem e por secretos de porco preto. Este 'Love Czars', fffffuu, é de tirar o fôlego.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

pela estrada fora


olhos nas guias contínuas da berma e mão no volante, nevoeiro e noite dentro, o nevoeiro que chega sem aviso noite dentro, para assombrá-la, dirão os do copo meio vazio, para torná-la mais irresistível, dirão os outros, nada se vê em todo o alentejo, ali em frente roda um condutor que não desliga os quatro piscas, deve ter receio que o vejam tarde de mais, rodamos a 70; outros, dementes, voam por nós à velocidade da demência, mas eu sigo-te de perto, a ti, o dos quatro piscas - o caos da cidade grande ficou para trás e estou contigo nisto, oiço o revolver dos beatles e sei que ambos queremos sair bem disto, queremos poder contar a quem nos queira ouvir, ou ler, não tanto que acabe já, só mais um pouco, prolonguemos a dúvida - é uma espécie de banho, ficaremos bem.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

hey judd


o zé quer impressionar a malta na segunda leva: tem tantos militantes como independentes e, nas caras novas, tantos homens como mulheres: quatro - entre estas uma sindicalista, uma escritora e uma actriz. avante!, camarada.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

uma coisa absurda



não sei se há uma música má no novo dos temper trap, quer dizer, é tudo assim.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

O Mourinha não pesca nada disto



Foi na apresentação do filme Parlez-moi de la pluie, cujo título em português se transforma em Deixa Chover. Presente no São Jorge, onde o seu mais recente filme foi apresentado na abertura da Festa do Cinema Francês, a belíssima Agnès Jaoui respondeu a perguntas sobre o título - "escolhê-lo foi uma dor de cabeça e, no fim, nada tem a ver com o filme" -, sobre a hipótese de ter realizado uma comédia agridoce para gente madura - "vá, pode ser" - e à entrevista que lhe fez o Jorge Mourinha, publicada no Ípsilon, onde se lê, com base no visionamento do filme, que "Agnès Jaoui está zangada com os políticos franceses". Resposta para cinéfilo ouvir: "Ele não percebeu nada".

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Morocco, nice!


Acordei a pensar que o dia estaria uma merda. Brrr.. quando saí do banho. Coisa estranha. Troquei a habitual t-shirt por uma sweat. O verão morreu, pensei, ao dar com os meus braços cobertos. Viagem para Lisboa no horizonte.

Sem gasóleo que chegasse, passei pelo E. Leclerc para corrigir a coisa. Pensei: “A mangueira é ágil que chegue para sobrevoar o topo do carro e chegar ao lado contrário para entrar no buraquinho antes de começar a cuspir combustível". Enganei-me. A mangueira do E. Leclerc de Portimão está um pouco enferrujada, e tantas dificuldades tive em prosseguir os passos atrás descritos que em menos de nada ela já besuntava chão, chapa do carro, pés do rui, uma festa. Três horas depois sentiria o cheiro na pele tão intenso como naquele momento – assim nos interrogamos até que ponto a porta tem força suficiente para servir de bandeira em exemplos de teimosia.

De caminho para a capital percebi que os tempos são velozes, de modo que o tecto lá em cima ganha nuvens à mesma velocidade com que as perde. Lá a porra, hein!. T-shirt recuperada enquanto os quatro-piscas pediam desculpa pelo carro estacionado à berma da estrada.

Cheguei. Feriado é dia de trabalho porque, já se sabe, jornalista colhe no dia seguinte o que semeou na véspera. Bem, uma parte da fauna. (A minha avó podia ter dito isto para cinco segundos volvidos se esquecer completamente).

Projectei um dia calmo. Escrever sobre desporto e o destaque para o Benfica, que jogaria já sem sol. Chega a minha editora. “Olá P.!”; “Olá Rui,”. A virgula não é inocente. Atarefada, pediu-me um favor. Olha daqui a um bocado vai ligar alguém para entrevistares os Backstreet Boys. “Quê?”, perguntei, como se não tivesse ouvido.

Falei com o moço que se desorientou aí uns tempos com grandes mocas. Tossiu mais do que falou. Estavam todos com gripe. O mundo sabe ser cruel.

O dia foi longo e, como de costume aos domingos e feriados, tive de inventar um estacionamento quando cheguei a casa. Antes encostei o carro ali perto e tirei as malas. Olá Rui, olha está cá um chileno agora!, disse-me da varanda um colega de casa. Um chileno?, peguntei, como se não tivesse ouvido. Era tarde.

Subi as escadas e disseram-me que o chileno queria jantar. Quase meia noite. Tem a Portugália: digam-lhe que vou tentar estacionar o carro e posso levá-lo. Batem-lhe à porta. O chileno aparece. Saco do meu espanholês. Olá puedo levarte para cenar se quieres, ballet?

Nem uma, nem duas. Nada. Ali perto, o espanhol da casa explicou em inglês ao chileno o que eu lhe tinha dito. "Nice!, nice!", respondeu. Ocorreu-me perguntar que espécie de chileno era ele. Resposta: “Morocco, nice!”

Como chovia cats and dogs, expressão que utilizo para me fazer entender à I., resolvi acompanhar o Ahmed - Ahmed como o terrorista-marioneta que está mais ou menos morto - à Portugália e jantar com ele. Não come porco, naturalmente, é muçulmano. O melhor filme é o Casablanca, onde nasceu, e a melhor comida é a marroquina, explicou-me, sem demasiados detalhes. Depois anunciou que não renega álcool – “makes me happy and is good to dance” – e tem namorada – “everyone has a girlfriend” - e mostrou jogo de rins quando lhe dei a minha opinião sobre essas coisas da religião.

Cada um virou o seu bife de vaca e no fim enganei-me nas contas com o empregado, que veio atrás de nós exigir os 10 cêntimos que faltavam. Perdi a cabeça e dei-lhe uma moeda cheia, 50 cêntimos. Fique com o troco. De alguma forma o homem não quis a oferta. “Isto é seu”.

Chovia mesmo muito pelo que mudei de ideias: já não vou deixar o carro ali perto, onde estacionei. Vou tentar a minha sorte perto de casa. Encontrei um lugar com estacionamento permitido das 20h às 8h. Acordo às 07h50 e depois volto, que amanhã estou a fechar o jornal e, raios, estou cansado. Às 05h acordei porque tinha sonhado que me atrasara em vinte minutos e me tinham levado o carro. Quase não preguei olho desde aí. Cheguei ao carro depois de passar pelas pessoas penteado pela almofada e desloquei-o para o outro lado da estrada. Rodas em cima do passeio, todo torto. Mudei-o mais para a frente. Três tentativas e muita remela no canto do olho. Estacionado. Fujo. Cama. Sonhei que fui e voltei de Amesterdão.

sábado, 3 de outubro de 2009

Fuck Buttons: vísceras, beleza e isto de dizer palavrões

A experiência de assistir pela primeira vez a um concerto dos Fuck Buttons, que estiveram em Lisboa na quinta-feira para apresentar o novíssimo disco Tarot Sport, assemelha-se a essa fase dos namoros a que chamarei de ‘paraíso’. Este atravessa o conhecimento mútuo de duas pessoas, passa pelo jogo da sedução e estende-se para lá do laço criado entre ambas - na maioria dos casos, o ‘paraíso’ dura algumas semanas na vida real, aqui e ali prolonga-se por meses e nos filmes é para sempre.

Além do talento que têm para produzir música electrónica experimental, o duo formado pelos ingleses Andrew Hung e Benjamin Power navega na crista da onda sónica actual. As vénias das mais prestigiadas publicações especializadas sucedem-se um pouco por todo o mundo. Até à data faltava que a tinta das portuguesas tivesse a oportunidade de, sem apanhar um avião, tentar explicar porquê.

O encanto peculiar que os distingue, e que lotou a diminuta Galeria Zé dos Bois, explica-se de seguida: para uma banda que faz do ruído o seu ritmo cardíaco, na senda do legado deixado por outras como Mogway (a melancolia pop), My Bloody Valentine (distorção, para que te quero) ou The Field (a circularidade do techno minimal), os Fuck Buttons têm uma noção melódica que desarma o mais desprevenido.

Temas como ‘A Bright Tomorrow’ e ‘Sweet Love for Planet Earth’, do álbum de estreia Street Horrrsing (2008), ou ‘Surf Solar’ e ‘Space Mountain’, de Tarot Sport, são, sobretudo, belas. A conclusão retira-se pela ressonância admirável que o frente-a-frente de Hung e Power teve nos suados aventureiros que cozeram no forno da ZDB. O programa arrancara com os portugueses Ninjas!.

Hora e meia depois do início do concerto, quando o silêncio se impôs, a energia que pairava no ar dizia-nos que se tinha escrito história ali mesmo, ao vivo, à frente de todos nós. Portugal já sabe: os Fuck Buttons, que ainda hoje reclamam divertir-se à brava com o nome que escolheram para o seu projecto, desfizeram em cacos o epíteto de ‘hype’ que inevitavelmente é associado a uma banda que salta para a ribalta no seu álbum de estreia. Street Horrrsing já pode reclamar o estatuto que bem entender depois de o duo noise de Bristol ter elevado a fasquia com Tarot Sport.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

15 anos é muito ano



Para que não restem dúvidas: na tal (falta de) conversa sobre os três discos que levaríamos para uma ilha deserta, se para lá tivéssemos de rumar só podendo levar mesmo três, eu enfiava na mala um qualquer dos Beatles, outro de bebop, bem puxadinho, e o Dookie (1994). Conheço-o de forma doentia, de fio a pavio, e nele encontro memórias de levantar pó, de tempos sem responsabilidade, em que se agia duas vezes antes de pensar – aperta o peito. Daí que ouvir ao vivo a ‘She’ logo no encalce da ‘Basket Case’, ou a ‘Welcome to Paradise’, não tem explicação. Quer dizer, seria inútil. Pena o final abrupto. Não estive no Coliseu em 2000. 15 anos para veres ao vivo uma das bandas da tua vida é muito tempo.

domingo, 27 de setembro de 2009

(L)



adoro o truffaut adoro o truffaut adoro o truffaut adoro este filme adoro este filme adoro este filme adoro esta música adoro esta música adoro esta música adoro o truffaut adoro o truffaut adoro o truffaut.

sábado, 26 de setembro de 2009

Soul, baby

Sugestão: já de noite, no quarto ou na sala, esqueçam as luzes, cerrem os olhos e lancem o JIM (2008), do Jamie Lidell. Depois, asas soltas, não vão, não podem acreditar que a voz deste inglês, também ele um berlinense, não o torna no irmão mais novo de olho azul do outrora Terence Trent D'Arby, agora Sananda Maitreya, que o disco a tocar não é das coisas com mais soul produzidas nos tempos modernos, que o Will Ferrell não parece ter o rosto cuspido de como o Jamie se apresenta nesta foto, e que conduzir a reflexão deste texto assim, pela negação, não o torna - lá está - bem mais confuso do que poderia ter sido.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

as pessoas

há coisas tão explicáveis como o papa ter uma erecção.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

perdi o cartão multibanco pela segunda vez em três semanas

Partilho algumas semelhanças com a minha avó: somos os únicos algarvios numa família de angolanos, gostamos de beber vinho à refeição sem que haja motivos para reuniões anónimas, temos uma memória miserável. Não fosse a minha avó ter sido despassarada a vida toda e a minha mãe já teria motivos de sobra para pensar que ela tem alzheimer, como me disse à bocadinho. (Pelo contrário, a minha mãe tem um disco rígido na cabeça.) A referência levou-a a perguntar-me como andam os meus esquecimentos. Disse-lhe que não me lembrava deles no trabalho, o que exige uma luta terrível comigo próprio, mas reconheci: na descompressão vem tudo em catadupa. Adoro a palavra catadupa. Catadupa catadupa catadupa. O que ela não sabe, e duvido que chegue a saber a menos que alguém lhe dê a morada do Castelo, é que ontem cheguei a Portimão às 02:30, um par de horas mais tarde do que o costume sempre que venho a casa nas noites de quinta-feira, e, portanto, com todos a comunicar de quarto para quarto através do estranho grunhido do sono, porque perdi o cartão multibanco pela segunda vez em três semanas. E no tempo que levei a percebê-lo consegui ficar também sem a caderneta, engolida por essa garganta olímpica que tem a máquina da Caixa Geral de Depósitos da Morais Soares – é o que costuma acontecer quando se digita três vezes o código do cartão perdido quando estamos a utilizar a caderneta. Resultado: fui recebido como um herói de guerra, coitadinho, anda a trabalhar tanto, notem a que horas sai do emprego para chegar ao Algarve noite dentro, vejam o corpo magro dos bons e as olheiras como medalhas. Nada se perde, tudo se transforma.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

brel

como é que hoje me descreveram o brel?, como era mesmo?, ah, a voz que vem de dentro, de dentro, da boca de baixo, à nick cave, à nina simone, boca de baixo para não lhe dar outro nome, foi assim que hoje me descreveram o brel.

domingo, 13 de setembro de 2009

Até o rato Mickey ganhava estas eleições ao Sócrates

A coisa já estava suficientemente feia para o Zé antes de alguém tapar a boca à Manuela Moura Guedes. E todos sabemos como aquela boca é grande - o empenho em tapá-la deve ser encarado em proporção. Sem certezas sobre a origem da proeza, ainda que me tenha lembrado assim de repente de uma famosa citação do Miguel de Cervantes sobre bruxas, mais sentido fará projectar os efeitos que o caso pode arrastar para o Zé. "Arrivederci", como observou ao Castelo a versão caçadora de nazis do Brad Pitt - esse grande poliglota -, será o mais votado. Ora aí está um grandioso equívoco. A ideia atrás resumida, que chegou a ser partilhada por mim, revela imprudência. Precipitação. Desconhecimento de causa. Senão vejamos: do outro lado dos supostamente moderados, a liderar o PSD, está uma outra Manela que, instada a comentar até que ponto as grandes obras públicas ajudam a combater o desemprego no país, respondeu: "O desemprego de Cabo Verde e da Ucrânia ajudam. O de Portugal duvido". Assumamos: subestimámo-la. O potencial suicida da mulher é inesgotável. Há sempre munições extra para novos tiros no pé. Só mais um. E eis que ela voltou a premir o gatilho. Quando o grosso do país já seguia em romaria para as floristas mais próximas, em busca, naturalmente, de flores para o Zé - os cemitérios estão cheios delas -, a Manela saca da cartola a seguinte reflexão: bem, o caso TVI está a tomar conta da pré-campanha, a comunicação social não se cala com a asfixia democrática, pelo que é amiga, tudo corre pelo melhor; posto isto, devo sem dúvida visitar o Alberto João e dizer que a democracia na Madeira é que é. E negar que por lá exista qualquer vestígio da tal democracia esganada. E sorrir com a minha pinta de gueixa morta quando o Alberto João treinar o seu inglês técnico com os jornalistas: "Fuck them"! Ora, depois de no debate de ontem com o Zé ter visto a Manela esticar o dedo médio ao TGV, não vá a corja espanhola retirar mais proveitos do projecto do que propriamente nós, os portugueses, depois de ter ouvido a Manela, que em tempos trabalhou no Banco Santander, ter dito que não gostava "dos espanhóis misturados com os portugueses" quando o tema de fundo era o TGV, esse projecto para consumo entre muros, orgulhosamente só, tenho a dizer que não gosto do Pedro Marques Lopes do Eixo do Mal, mas há um mas. (Aquela opinião de cadeira e chicote não colhe para estes lados). O mas é este: concordamos que até o rato Mickey ganhava estas eleições ao Sócrates. E pelo andar da carruagem, com mais um par de tirinhos nos pés até ao dia 27, a Manela deve conseguir a verdadeira proeza de as perder.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

noites daquele branco branquinho

... havia festa no miradouro de são pedro de alcântara em volta da roda de choro de lisboa, e haverá poucos miradouros como aquele, assim, a oferecer castelo e sé e a insinuar o tejo, que de noite é mais imaginado daqueles lados do que propriamente visto, e depois passou talking heads no bar que por ali abriu; a noite esteve belíssima, daquela beleza ofuscante, capaz de fazer corar o dia mais vaidoso, branca como o dostoievski imortalizou; amigos de hoje e de ontem, mocas a condizer e a inês, claro, a inês que era o motivo de tudo aquilo e anda a sofrer por antecipação uma mudança de vida - em boa verdade, já gastou por cá metade da dor -, a inês que cortou o cabelo e estava uma gata de cinema com os amigos e as mocas e a inês que agora tem uma capa de jornal só para ela; noites brancas sem despedida, é pisado mas também não gosto delas, e a inês que ronrona no ombro próximo quando vira o copinho que resultou da ideia fixa "só mais um" e há-de ver o cinema paraíso em cardiff, ou noutro lado qualquer, se é que ainda não o viu, para nos créditos finais abrir uma janela, todos queremos que a inês abra janelas, e gritar a pulmões cheios: "Alfredo!"

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Betty é outra coisa


All About Eve, Joseph L. Mankiewicz, 1950

Lloyd, o escritor - The general atmosphere is very Macbeth-ish. What has or is about to happen?

Margo, a actriz - What is he talking about?

Bill, o namorado da actriz - Macbeth.

Karen, a mulher do escritor - We know you. We've seen you like this before. Is it over, or is just beggining?

Margo, a actriz - Fasten your seatbelts: it's going to be a bumpy night.

domingo, 6 de setembro de 2009

Já nem falo dos outros; de quantos remates precisa o melhor do mundo para fazer um golo?

Lição do dia: uma baliza de futebol de onze com as medidas oficiais tem 7,32 metros de largura por 2,44 de altura.

Nota: O Liedson está dispensado da aula.

sábado, 5 de setembro de 2009

Uma noite em Lisboa

Queijo amanteigadíssimo de Azeitão com broa mal nos sentamos à mesa, esfomeados como supermodelos? Sim. Caipirinha de aperitivo, sem açúcar - a nossa é diferente? Vai lá enganar outro. Plumas de porco preto tenrinhas, menos salgadas do que os secretos, desfazendo-se a pedido dentro da boca? Claro. Empurrá-las com um Periquita, tinto, para homenagear Azeitão à séria? Óbvio. Bolo de brigadeiro para fechar? Só se tiveres um estômago de aço, depois de tanta confusão que para lá enfiaste – mas pedes a sobremesa na mesma, chama-se gula. Serviço: atenciosidade + educação + simpatia + charme = há guardas prisionais mais delicados. (Ou então dá mesmo azar ir à Adega Já Fumega, Rua Campo de Ourique, número 13, a uma sexta-feira).

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- copo obrigatório na bica pelo meio -

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Marginal ao Bairro Alto - rua Poiais de São Bento, 37 - e, verdadeiramente, a tudo o que mexe dentro do género na noite de Lisboa. Há muitos, muitos anos. Para dançar já sabemos como é, como sempre foi: na pista de dança até às 02:00 e depois onde os nossos pés estiverem estacionados, ou para onde nos empurrarem. Deixaram a malta a penar pela rua das cidades/países/continentes do Cais do Sodré durante Agosto, em desespero para que cinco bares-discoteca cumprissem juntos o papel de um, mas isso já lá vai. A porta azul-garagem reabriu. Ontem: Joy Division, The Killers, The Gossip, Editors e por aí fora. Vida eterna ao bigode retorcido do D’artagnan e sua toca profana.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

É sempre de ouvir em repeat # 43

O surrealismo já era: I'm going away é o álbum mais acessível dos Fiery Furnaces até à data, diz O NME. Ainda não o varri por inteiro, mas esta música é a mais bonita que ouvi nos últimos tempos, digo eu. (O vídeo deve ter sido filmado por um japonês aspirante a wong kar-wai lá do bairro).

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

É sempre de ouvir em repeat # 40, 41 e 42



jj é doce ao primeiro ao contacto. Há um EP do bicho. E ninguém sabe quem o bicho é.



Estas teclas perseguem-me o dia todo, e podia agora mesmo fazer uma analogia com melgas, dada a perseguição, mas não faria grande sentido porque, enfim, até a bióloga mais querida se deve sentir realizada quando esmaga uma.



Pela amostra, muito cuidadinho com o novo disco do projecto com o melhor nome do mundo, e arredores. (Agradecimentos ao oráculo do costume).

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Volta ao Minho, dia três

09:00 é muito cedo para mim, é mesmo, e agora lembrei-me que ela é, ou era, a cara chapada da vocalista dos Texas, lembrei-me do quanto me desorganiza querer colar os calcanhares ao rabo antes de dormir para os primeiros escorregarem lentamente até à posição muito direita do morto, ou o mosquito que goza comigo há duas noites sem que o consiga apanhar, daí escrever o relato do terceiro e último dia no Minho já hoje, a ver se o encontro aqui por cima, desprevenido, o cabrão, mais esperto que sei lá o quê. Confiámos no GPS para rumar ao Gerês. Um erro aqui, outro ali, mas foi-nos bem útil. O Ricardo acha que eu me comovo com o óbvio, e tem 97,7% de razão. Uma língua torta de azul límpido entre montanhas e clique, clique - o tolinho age como se nunca tivesse visto tal coisa. 2% dos 2,3 que faltam cabem no cartaz da oficina da Citroen de Viana do Castelo. Os outros 0,3 entram nas lagoas que encontrámos Gerês acima, até à cascata de Portela do Homem, na fronteira. Tão acima que, salvo melhor solução em território português, estacionámos em Espanha, na Serra do Xurês, regressando a pé cerca de um quilómetro ou dois para enfiar a pata nas águas cristalinas, quase frias, do rio Homem. Andar por ali, de rocha em rocha, apenas para ver de perto um rio entre pedregulhos que se despenha numa lagoa é claramente estúpido, tal o perigo - uma miúda espanhola escorregou numa réplica da cascata maior e, bem, ouch! Mas nós, animais extremamente racionais, fazemo-lo à mesma, que só se vive uma vez e aquilo é giro à brava. A estrada que nos levou a Portela do Homem era tão sinuosa, tão íngreme, que arriscámos dar a volta pelas belíssimas estradas galegas rumo a Paredes de Coura, onde, como há um ano, estava agendado novo jantar na casa da família do Sr. Carlos, dono da cervejaria Solar dos Mouros, ali nos primeiros metros da Calçada lisboeta do Poço dos Mouros. Chegámos ao sítio de Chão, onde o Sr. Carlos mora, já com o Sporting a perder com o Nacional. A viagem foi longa, umas duas horas?, e, na verdade, o clube que por estes dias só me dá alegrias esquisitas não precisa de muito tempo para ficar atrás dos outros. O amor é fodido, já diria o MEC. Como na cervejaria, a Dona São, mulher do Sr. Carlos, apostou em fazer churrasco para um regimento de infantaria. Come mais Rui, olha tanta comida. Pois isso vejo eu Dona São, já azul, olhando de ladeiro para o Sr. Carlos, que nunca me deixou ter o copo vazio de Alvarinho verde branco - o suspeito do costume. A Carla, filha, ia para Ponte de Lima ver Daniela Mercury. Com o assentimento do Ricardo, a Célia acha que eu me ando a fazer à mocinha. Não percebo. Seguindo o rasto de Colin McCarlos, já com uma sarda considerável, descemos e subimos e curva contracurva até Sapardos, onde a grande festa anual de Nossa Senhora de Fátima atraía centenas de casais que ali chegavam em carros de matrícula francesa. As mulheres, pintadíssimas; os homens, de patilha fina em diagonal e cruz dourada ao pescoço. Cabeças de um cartaz monocéfalo: Função Publika, pois então. Com vários membros novos, entre os quais um argentino chamado Carla, esta big band teima em arrastar multidões no querido mês de Agosto. Covers de Bombocas, Queen e Roberto Leal fizeram parte de um repertório versátil, como a enumeração adivinha, mas não esgotaram um espectáculo farto em surpresas. "Vamos oferecer uma bengalazinhas cintilantes e uns balõezinhos amarelos de borracha", anunciou, de repente, um membro espanhol da banda, elevado numa plataforma que apareceu no meio do público, tal como em 2008. Porra, pensei, feliz, isto é Portugal! O fogo de artifício que interrompeu a actuação meteu os narizes em sentido e colheu aplausos apoteóticos. E nós, já depois de o Sr. Carlos, escapando à mulher, me ter levado por um braço para beber um último copo, mal sabendo eu, zonzo de tanta coisa junta, que este seria de penálti, voltámos a Antas, Esposende, que havia um comboio para apanhar no Porto pela manhã. Dormi - tentei dormir - quase uma hora sentado, não fosse a bílis tecê-las. Um punhado de horas depois já me encontrava na redacção, sentado em frente a um computador, tac tac tac num domingo sem pessoas. A tradição ainda é o que era.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Volta ao Minho, dia dois

09:30 é muito cedo para mim. Quem também se orientar por um horário de trabalho de vampiro que se sente ao meu lado. Daí que me tenha sido doloroso o despertar do corpo, não tanto o da mente, quando o telemóvel chateou. (O telemóvel é uma dor no rabo, diriam os ingleses). Destino: Castelo do Neiva. Um intenso fedor a estrume recebeu-nos antes da chegada a um areal quase deserto. O exacto oposto do que foram 12 dias no Algarve. O equilíbrio desejado - dispensava era o perfume. Castelo do Neiva. Para outros lados não se podia, observou a voz da razão. A areia naquela zona é mais espessa do que aquela a que me habituei, mas nem por isso notei diferenças quanto à temperatura da água. Esperava um ataque furioso de lâminas afiadas e eis que se mergulhava sem especial dor. De passagem por casa para um almocinho light - salada e douradinhos - depressa partimos para Viana do Castelo rumo à Citroen. Para quem nunca valorizou especialmente o potencial de sedução desta empresa, aqui fica a minha sugestão: roda batida para a oficina de Viana e mãos em baixo quando se depararem com o cartaz que se encontra estrategicamente afixado na parte de dentro do vidro de um dos escritórios de atendimento, com o que interessa virado para fora. Depois fechem os olhos e sintam a coisa. Feita a revisão ao carro, seguimos viagem para uma caracolada. A ideia inicial era rumar até à casa de pasto Os Telhadinhos, em Ponte de Lima, onde a ementa nos acena com iguarias tão irresistíveis como fodinhas quentes (pataniscas de bacalhau), mentirosos (bolinhos de bacalhau que, é certo e sabido, têm mais batata do que bacalhau) e, claro, corninhos de marcha lenta (caracóis), mas ficámo-nos ali perto, por Viana, no Diplomático. A condizer com o nome, o Diplomático tem empregados extremamente correctos, mas a cozinheira fala pelos cotovelos. Quando esta reparou que a Célia, namorada do Ricardo, não estava a dar o palito à corda tantas vezes quanto isso, veio até junto de nós para saber os motivos de tamanha timidez. Até estou a comer bastante, replicou a Célia, apontando para os três ou quatro caracóis vazios que já tinha espalhado pela loiça. A Célia não gosta de caracóis. Três ou quatro era mesmo um (justificado) elogio. Deixámos o horizonte engolir o sol na companhia de dois amigos do Ricardo: o Manuel Iglesias, que lutava com muita droga previamente prescrita contra uma infecção no estômago, não podendo por isso beber durante três meses, e o amigo discreto, de aspecto nórdico, que era mesmo discreto, de modo que nada sei dele. De seguida, arroz de cabidela. Não dá para comer assim a coisa com arroz normal? Aquela pasta de sangue, só de pensar.. dá, não dá? Deu. Gente boa. Misturei-o só com o molho da carne, para não ficar tão branquinho, pelo menos, a destoar tanto. E o vinho, bem, o vinho estava divinal, como sempre, mas menos fresco, o que se nota. Alvarinho, salvo erro, tal como no jantar da última noite, já na típica localidade de Chão, Paredes de Coura, Cruzes Credo, onde tudo acaba. Antes houve copo e paleio em Viana do Castelo, num bar que eu pedi que fosse de rock e vá que tinha reggae, e olha que bem fixe, algumas horas de sono e a visita possível ao Gerês, em contra-relógio. Aviso do Ricardo: amanhã é para levantar cedo. Cedo?, desesperei. Mas, mas, cedo até que ponto?

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Volta ao Minho, dia um

Vai para cima de uma dezena de anos que Espinho é passagem. Longe - tão longe - vão os Verões passados no pátio de um apartamento mesmo em frente ao liceu, no topo da cidade, que é uma colina grande e urbanizada, e as idas e vindas a pé com o meu primo Pedro até à praia e ao gélido mar de Espinho, eu e o meu primo Pedro a fazer disparates a caminho da praia de Espinho com o Guilherme, que jogava hóquei em patins, e nunca com a Joana, que me deu 100 escudos em troca de um beijo. A minha primeira experiência como prostituto gerou trauma cá dentro: a Joana não tinha culpa, mas era muito feia. Fins mais altos, porém, se levantaram - a vitrina de uma pastelaria ali perto da casa do meu primo. Com o estômago a sofrer e a hora de jantar distante, fiz o sacrifício. Teria uns dez anos. Nunca mais fui o mesmo. Agora Espinho é só passagem. E de comboio, como mais gosto. Foi uma das últimas cidades por onde passei no meu sortudo roteiro de quinta-feira 13, quando varri o país num dia. Às 12:00 no Algarve; às 20:00 no Minho. De carro, primeiro, entre Portimão e Lisboa. De comboio, depois, entre a capital e o Porto, onde me esperava o Ricardo, que depois me levou até à casa onde cresceu, em Esposende. Um ano depois voltei à casa da mãe do Ricardo, aos cozinhados da mãe do Ricardo, à simpatia da mãe do Ricardo. E à família da irmã da mãe do Ricardo, que, nem de propósito, vive na casa ao lado. Localizada em S. Paio de Antas, concelho de Esposende, a casa da mãe do Ricardo era uma coisa antes de ser construída a auto-estrada que lhe passa por cima. Vá, um bocadinho ao lado. Agora é outra. Jantando no terraço ouvíamos de vez em quando o chiar das guias sonoras, aquelas linhas brancas sem fim que nos dizem, Abre a pestana, quando esta teima em fechar. Estará tudo maluco?, pensei. Tanta chiadeira junta, tudo no mesmo local? Explicação: os amigos da família passam ali para se meterem com eles, que é o mesmo que dizer Olá na linguagem muito própria dos carros. Niiioounnnn. Nioun para ti também. Depois de metermos a conversa em dia sobre um arroz de peixe empurrado a vinho verde fresco, fresquíssimo - só melhora - e de ter conhecido o Quique, uma caturra que canta e encanta, segundo me tentou convencer o clã Saleiro, não tendo eu porém ouvido mais do que o esganiçar de cria de gaivota, perto do que um amigo meu entoou há dias ao arriscar o Stayin' Alive dos Bee Gees no karaoke do Boogie Bar, esse trampolim para a fama reservado aos grandes talentos. Fomos a Esposende beber um copo. Espaço escolhido: Pé no Rio - ou Penúrio, como a proximidade entre letras sugeria, ou Penúrias, como depressa lhe baptizei. O Penúrias tem todo o aparato de ser o bar mais bonitinho da zona, com música ao vivo no interior e uma esplanada muito moderna, com wireless e puffs. Mas era lá dentro que tudo se passava. Liderado por uma vocalista de nome Mónica Coelho, um quinteto revisitava projectos como Bryan Adams, Pink Floyd e até deu uma perna num fadinho. À segunda caipirinha - três euros, esperava outra multa, gostei - ouvi a cantora chamar um casal à pista de dança e dedicar-lhes uma espanholada qualquer. De não pouco espanto foi vê-los a dançar como verdadeiros profissionais. Provavelmente porque o são, pensámos, depois de os ver junto de outros casais que tais a ensaiar novíssimos passos de dança a cada música seguinte. Tudo sem falhas. Um longo bocejo. Era parte do staff. E aplaudiam em apoteose cada solo de um músico. E perfaziam entre si quase metade da lotação naquela noite. E dois terços da festa. E nós com uma dúvida: seremos os únicos a perceber isto? Não regressámos a casa sem que antes eu tivesse apanhado a grande desilusão da viagem. A árvore no meio da estrada. Fotografei-a em 2008 na certeza de que estava perante um monumento de rara beleza. A natureza a ser quem mais ordena. Agora, caput. Menos mau que deixaram as raízes, e a estrada já está lentamente a empinar. Entretanto, aviso do Ricardo: amanhã praia. É para levantar cedo. Cedo?, desesperei, Mas, mas, cedo até que ponto?

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

1692

A maresia cumpre com nota máxima o seu papel de despertador mais eficaz de Portimão. Diferente de outras cidades, onde este odor é elogiado - 'ah!, o cheiro a maresia'.. -, na minha tem o fedor acumulado de casca de banana a viver há quatro dias num cestinho do lixo com aquele que deve emanar dos cadáveres em decomposição. Na madrugada de 13 de Agosto anunciou-se pelas janelas abertas da cidade antes da alvorada, pilhando o sono a quem ainda o procurava ou, verdadeiramente, nunca o teve. Para o que esta história interessa, eu, menino, que nunca prego olho antes de viajar a menos que me canse à séria, entro no grupo dos primeiros. Do meu quarto, na minha cama, revirando-me numa noite de calor demoníaco, cheirou-me a ataque químico. Um exagero sem explicação, à medida de tudo o que por ali mexe em Agosto. Como hoje a conheço, a maresia de Portimão pode muito bem justificar o temperamento neolítico dos que por estes dias chegam à cidade. É um fedor de enlouquecer, que não se pode, e que me dá ideias sobre uma chegada a Nápoles depois de ler o Gomorra, do Roberto Saviano. Como tenho por hábito fugir da cidade nesta altura do ano - faço-o desde 2006 -, encurtei as minhas férias em família e apontei para norte. Horas antes, na minha última refeição das férias em Portimão, jantei num refúgio ali a uns 20 quilómetros serra dentro. Paragem: Caldas de Monchique. A resposta ideal para quem chega ao Algarve em busca de sossego. Era o meu caso, depois de 12 noites e poucos dias. Situadas no coração da serra, a cinco quilómetros de Monchique, as Caldas são a única estância termal do Algarve. Ali o cheiro é outro: vegetação, ar puro. Diz-se que por ali mora a maior magnólia da Europa, e eu, claro, esqueço-me sempre de a procurar. Come-se, bebe-se e paga-se bem no restaurante 1692, que deve o nome aos primeiros registos de utilização pública daquela água termal. Quando o tempo ajuda é na esplanada que se deve jantar. De entrada atropelámos um queijinho amanteigado daqueles que só na serra. De saída foi à bruta: pão com chouriço caseiro, genuíno. Dá-se o caso de que, em certas casas, não demasiadas, o pão com chouriço tem mesmo chouriço. E sabe a chouriço. Pelo meio demorei-me num bife à portuguesa que me esqueci de fotografar, e para o empurrar socorri-me de um Quintas do Douro, very white, de 2007. No fim uma amêndoa amarga - sem limão, por favor, que eu gosto mesmo é de como a amêndoa sabe. Para o fim, a cereja: sessão de cinema ao ar livre - é a lei às quartas-feiras (quartas-feiras ou quarta-feiras?) de tempo simpático. Desta vez passou o Vicky Cristina Barcelona, do Woody Allen, a partir das 21:30. Houve quem, acto contínuo, travasse a sua refeição a meio para assistir ao filme. Podiam atrasar a projecção uma meia horita, rendia mais, digo eu. Bottom line: recomendadíssimo.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Vou contar-vos uma história de amor

Para quem desconhece, a melosa é uma das melhores coisas que o Algarve algarvio tem para oferecer, naturalmente a seguir ao convívio com a minha avó, a Vivi. Juntar as duas entre dois dedos de conversa na digestão de uma refeição foi, até ao último dia 10, um dos meus objectivos mais dignos de vida por realizar. Concretizei-o, entretanto, por ocasião do jantar de aniversário do meu irmão. Como a conheço, a melosa nasceu na serra de Monchique, sabe bem que se farta, bate que é bonito e, last but not least, deita por terra a mais teimosa das constipações. A preparação é simples: meio litro de água no fogo azul com 500/600 gramas de mel, uma casca de limão e um pau de canela. Quando a mistura ferver contem até mil, sem grandes pressas. Arrefecido o combinado, juntem-lhe meio litro de aguardente de medronho e depressa perceberão o que é bom - estupidamente bom! - para a tosse. Um cálice é óptimo. Dois soa e sabe melhor. Mas a minha avó, que, sabe-se lá como, nasceu ali para os lados de Olhão há mais de 82 anos e não fazia a mais pequena ideia do que vinha a ser isso da melosa, virou três depois de se ter encantado com o primeiro - este a pedido da família Coelho. Só pela excitação que lhe causou a primeira investida, a Vivi derrubou pela mesa, ao segundo trago, o que dele sobrava. 'Ai que pena que tive, isto soube-me tão bem', deixou escapar, desolada, ao ver o líquido espalhado na toalha. Refeita do percalço, que o mundo não acabava ali, só parou de virar copinhos quando o dono do restaurante fugiu com a (já levezinha) garrafa para dentro da copa, assustado com a sede dos Coelhos, a quem vinha oferecendo cálices de quando em quando, o que, pareceu-nos, só lhe ficou bem. Até se deitar, pela primeira vez em muito tempo, a minha avó esqueceu-se das dores na coluna que todos os dias a curvam um bocadinho mais. Dormiu bem, acordou melhor e prometemos-lhe a garrafa 'com aquela coisa muito boa' que pediu com o sorriso bobo que tinha quando a coluna não a chateava. O prometido é devido.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

É sempre de ouvir em repeat (nas fériaaaaaaaasssss) # 39 e 40



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(onde se prova que isso do wally ser um desenho inanimado é letra - firme e hirto no post de baixo; aqui aos pulinhos)

terça-feira, 28 de julho de 2009

FMM: vinte horas no paraíso

Já as gaivotas se cumprimentavam, trocando novidades junto ao mar, quando, no carro, sem forças, ouvi as últimas palavras do Bob Marley em 'Redemption Song'. Olhei o relógio, 07:30. Parecia a forma perfeita para os esquizofrénicos DJ do Bailarico Sofisticado dizerem, "Xau canalha fixe, voltem para a tenda, ou caravana ou carro ou toalha de praia ou praia sem toalha de praia, xau, durmam como vos for possível depois deste festival maravilhoso, durmam tortos, de lado, de pé, nus, ou aliás como o sol deixar, 'tá cá um bafo, e quando acordarem isto vai parecer tudo um grande sonho, como no cinema, e quando vos perguntarem se foi verdade vocês responderão que de nada se lembram. E será mesmo assim". Como qualquer espertalhão, tomei decisões em menos de nada. Olhei-me no espelho, vi pele de tomate e olheiras gigantes na tentativa frustrada de emprestar alguma majestade ao momento, dei à chave e ataquei 150 quilómetros de sol australiano rumo a Lisboa. Eu e a cerveja enganámo-nos duas vezes no caminho e quase nos deixámos dormir ao volante umas, vá, trinta. Lá cheguei - parecia impossível -, duas horinhas de sono e roda batida para a redacção. Já li por aí que a festa em Sines continuou. (Então era este paraíso que eu andava a perder.)

Melech Mechaya, depois de tostar na praia

Apanhado em flagrante durante a 'Dança do Desprazer' - sempre tive jeito para descobrir o Wally - embora vergonhosamente de braços em baixo, ainda que depois tenha invadido o palco. Vénia a um quinteto que merecia uma avenida inteira mas teve que se contentar com uma plateia de cento e tal pessoas num auditório pequenito e mais uma dezena delas a dançar na rua, espreitando pelo vidro, aquela coisa ali do lado esquerdo.

Bibi Tanga & The Selenites, antes de jantar

Pisava merda de novo.

James Blood Ulmer, depois de jantar

Morninho, a malta queria era parvoíce, não leves a mal.

Alamaailman Vasarat, já meio fora

Jazz e heavy-metal a copular como dois coelhos famintos.

Lee 'Scratch' Perry, todo fora

Era preciso bêr o mestre. Bêr. 73 anos. Tão bom, tão bom, tão bom.

Speed Caravan, "Onde é que 'tás?; "'Tou aqui!"

Se dúvidas houvesse de que Sines é uma espécie de Meca.

Banho de créditos: Mário Pires

sexta-feira, 24 de julho de 2009

charlyn

a minha vizinha de baixo ouve cat power.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Quem quer viajar entre Lagos e Alvor num colchão de brincar?

Não tenho conhecimento de que o Nelas leia blogues. Sei que já teve um, hoje encomendado às traças virtuais, e tenho sérias dúvidas de que leia este. Nem eu o leio. Na pior das hipóteses ficará famoso quando chegarmos ao final desta frase, onde se desvenda que, nele, caucasiano com traços indonésios muito pouco precisos, habita um testículo negro. Só um. Há-de lhe passar. Mas por agora é mesmo assim: um negro, outro branco. Tudo aconteceu nas primeiras aulas que frequentou de kitesurf - modalidade na qual entendeu especializar-se poucos dias antes de fazer 28 anos. Uma queda dolorosa, como se adivinha. De espírito bom, o Nelas faz amigos com facilidade. Amigas também. Por isso, através do seu professor, conheceu uma rapariga que foi parar ao Algarve numa carrinha que conduziu desde a Áustria. Esteve acompanhada por amigas até onde se podia dizer que era França, primeiro; sozinha até Portugal, depois, porque o bicho de quatro rodas avariou.

600 euros de arranjo!, vociferaram-lhe os franceses.

Caro como os perfumes e vestidos e colares e aneis e pulseiras e brincos e sapatos e cintos e bolsas e saias das tias do Rui, pensaram as amigas, e bem, depressa tomando o caminho de volta a casa. Persistente, a austríaca apanhou boleia do reboque até onde se podia dizer que era Alemanha. Aí encontrou um mecânico que arranjou o fusível dorido da carrinha sem encargos. E depois aconselhou-a: "tem cuidado com o trânsito; há sempre gente com o juizo varrido - ainda mais para sul".

Apesar de ter retomado a rota inicial sozinha, a austríaca fez-se acompanhar por uma amiga inglesa quando chegou a Portugal. Não sei como as duas se conheceram, mas o Nelas explicou-me em Alvor que a outra, inglesa, tinha vindo até ali desde Lagos num colchão de praia. O vento aqui sopra sempre de norte, não há problema, explicou-me.

Por ter feito anos durante a semana, festejando-os derrubado na cama depois de ter partilhado demasiadas garrafas de rosé com um cliente na véspera, o Nelas convidou a malta para um sábado na vivenda dele, a partir das 13:30. Menu para curar ressaca: piscina, grelhados, minis e mojitos. No que me toca, tinha marcada uma caracolada com o meu irmão para o final dessa tarde, pelo que apostei na primeira e nos últimos, não necessariamente por esta ordem. A noite anterior fora longa, começando numa prova de vinhos que nos custou três euros e acabando a dispersar de uma discoteca em ladies night logo após dois caramelos terem andando à pancada porque um cortejou a matulona que o outro cercara primeiro. Há um acordo tácito nisto da rapinagem em pista de dança: ninguém ataca a mesma 'presa'. O ar pode ser de todos, mas a matulona é minha, reclama aquele que primeiro se insinuar. Não perguntem.

(Vá, não tenho culpa. Foi há nove ou dez anos. Rsrsrsrsrs. Sete).

A noite que fazia pesar o dia ficou também marcada por um espectáculo de última hora que teve lugar no mui bem afamado Boogie Bar, por engenho de uma agente da autoridade muito magra, morena e feia, com os dentes forçosamente alinhados numa placa verde fluorescente, uma mulher que executava essa fantástica manifestação de flexibilidade que é a espargata com a prontidão de uma stripper, as certezas de um bispo e o entusiasmo de um espermatozóide que descobriu a luz.

Parêntesis: Quinta da Cabaça, Portalegre, 2006 - eis, por consenso, o nosso tinto vencedor. Este, lê-se no site alentejopress.com, "é um vinho irreverente, guloso, com personalidade jurídica, frutado, brincalhão, de cor granada e aroma suave a frutos vermelhos, soberbo, democrata, charmoso, ginasta, advogado, dermatologista, psicólogo, eterno".

Do lado protegido do balcão o meu irmão pedia sensatez. Assentindo, chorávamos de mãos na barriga para não nos desfazermos de riso com as mãos na barriga.

Afinal vem tudo do mesmo lugar, pensei, enquanto a agente da autoridade executava uma espargata a dois tempos, e perfeita teria sido a um só caso ela não tivesse perdido o equilíbrio no momento em que se preparava para levantar a saia e mostrar o rabo magro, triste e só.

Ao morder que nem um bárbaro um pedaço de porco grelhado que disputei a duas ou três vespas que também marcaram presença na festa do Nelas, reparei no tapete novo do court de ténis. Quem também reparou que eu reparei nisso foi o pai do Nelas, a quem tinham enganado algumas dezenas de minutos antes dizendo que os mojitos poderiam sem dúvida substituir água em caso de aperto, de modo que beber quatro de seguida poderia ser a exacta medida da felicidade para aquele que mais sede tivesse. E o pai do Nelas, que naquele momento insista com o filho para que este lhe tirasse uma fotografia junto da Raquel, a quem elogiara sem descanso os contornos do carácter e afins, tinha muita. Isto para dizer que vou avançar com um programa de visitas guiadas em colchões de brincar ao longo da costa algarvia. Num piscar de olhos, visitem o portal http://www.barcoamotoreparameninos.pt/ e saibam tudo sobre este novíssimo nicho de mercado que promete fazer-vos mudar de blogue mais cedo do que tarde.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Vinte segundos

Compreendendo que a morte é certa, ela achou que não seria correcto negar o corpo e resistir-lhe quando, ao ouvir entrar a primeira nota, achou-o irresistível. Sentado ao piano, já lançado em melodias cortantes, de gestos demorados, ele contava a história do homem tão elegante que dormia de perna traçada, e ela não pôde conter uma gargalhada que logo a indentificou aos olhos de quantos naquela sala se encontravam - uns fitavam-na abanando a cabeça; outros (outras) roíam as unhas; ele encontrou-a com a curiosidade voraz das batidas cardíacas galopantes. Quando se recompôs, já com o homem elegante fora de cena, ela sentiu uma melodia muito densa e bonita entrar-lhe fundo no peito inquieto, aí acomodando-se, nota a nota, sem pedir licença como quem descasca uma banana na casa de alguém que acabou de conhecer e depois justifica a iniciativa com o chamamento do estômago. Ela achou-o irresistível e guardou o adjectivo para lho sussurrar ao ouvido, baixinho, pela manhã, depois de por ele esperar no final do concerto - "deves ter sede" -, acompanhando-o até ao bar mais próximo, e voltou a achá-lo irresistível espreitando-o a partir do balcão - "são duas cervejas geladas" - quando ele esperava por ela e mordia o lábio inferior enquanto dançava os dedos sobre as coxas fitando uma planta seca imaginária, e por dançar os dedos sobre as coxas pensando que ninguém o via fez com que ela o achasse irresistível, guardando o adjectivo para lho sussurar ao ouvido depois de ambos se terem atropelado nas escadas do apartamento dela e na mesa da sala dela e na cama do quarto dela e no chão da lavandaria dela, sem luz, sem espaço, sem tempo a perder, ela achou-o irresistível pela manhã depois de concluir que o hálito perfeito quando se acorda é um mito, lembrando-se de um dia ter lido qualquer coisa assim, e achando-o irresistível acabou por adiar o adjectivo, e acordou-o pedindo-lhe ao ouvido, como quem ordena, baixinho, "quero-te outra vez".

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Um rascunho sobre o Alive!09

Créditos: Rita Carmo

9 de Julho
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Silversun Pickups: Aposto duas minis como a baixista é mãe de três filhos a caminho dos seis, vai à missa ao domingo e no final do dia ouve Smashing Pumpkins às escondidas.

Delphic: Nada mau para quem lançou um single.

Air Traffic: Bah.

Tv On The Radio: Banda mais cool do festival?

Klaxons: Eles próprios nem queriam acreditar no festim que desencadearam.

Crystal Castles: A Amy Whinehouse é uma menina de coro ao pé da Alice Glass.

Metallica: A primeira vez é sempre aquela base de dados.

Créditos: Rita Carmo

10 de Julho

(despachado.)

11 de Julho

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A Silent Film: A música mais bonitinha, assim ao lado da 'Crash into me' (DMB)?

Ayo: Reggae na voz que o Michael Jackson tinha quando cantava com os irmãos.

Los Campesinos!: Espero que alguém tenha tido o bom senso de filmar alguma parte do concerto e publicá-la na net. Eu não tive.

Chris Cornell: Vá lá que deixaste o Timbaland no estúdio...

Black Eyed Peas: Também gostamos muito de ti, Fergie.

Autokratz: E aqui o lampadinha a perder tempo com Black Eyed Peas!

Likke Li: Que ninguém ensine a uma sueca como se fazem canções pop. Podem é ligar à Everything is New e explicar-lhes uma ou duas coisas sobre alinhamentos de bandas em festivais de música.

Dave Matthews Band: O concerto do festival? Não tocaram foi a 'Bartender', sacanas. Não cabia lá em quase três horas?

Créditos: Rita Carmo

Menção especial aos Homens da Luta - E o povo, pá?

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Adeus Amélie


Esqueçam o compositor requintado que assinou as bandas sonoras dos filmes O Fabuloso Destino de Amélie (Jean-Pierre Jeunet, 2001) e Adeus Lenine (Wolfgang Becker, 2003). Yann redescobriu a electricidade dos tempos em que ainda não era conhecido por Tiersen, e assentou como rocker. Dos bons.

Na verdade, sendo mais preciso, a linguagem musical ontem privilegiada no Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, no encerramento de uma mini-digressão que passou por Figueira da Foz e Famalicão, vem sendo cada vez mais utilizada nas actuações ao vivo do músico. Ainda que de formação clássica em piano e violino, Yann Tiersen integrou vários grupos rock na sua juventude. Dust Lane, disco a editar no final do ano que serviu de mote ao concerto no CCB, é, 14 anos depois do trabalho de estreia, La Valse des Monstres (1995), o registo que devolve o compositor às descargas eléctricas.

Para trás ficam as paisagens melancólicas dedilhadas ao piano, ou abraçadas ao acordeão. Por outras palavras: toda uma reputação.

O violino, esse, ainda estrebucha, aqui e ali, mas nas poucas vezes em que o músico dele se apoderou - sensivelmente as mesmas em que deu uso à sua voz sofrível - foi para o utilizar como instrumento de ataque a canções de rock experimental, não para fazer soluçar os espectadores. Atentos como estátuas, aqueles pareceram surpreendidos ao testemunhar o novo rumo que Yann deu à sua carreira - qualquer coisa de que os Sonic Youth ficariam orgulhosos.

Os mais preparados podem muito bem passar a seguir o músico bretão como se o concerto que este deu no CCB tivesse o impacto fresco de uma primeira vez; os restantes ter-se-ão sentido como cobaias no final do encore, regressando a casa com a sensação de que não teria sido para aquilo que dela saíram.

"Toca a Amélie!"
À cerca de hora e meia de actuação faltaram praticamente todos os hinos do autor de Rue des Cascades (1996), pelo que melhor será falar no que o quarteto que o acompanhou não esqueceu. Junto de Stephane Bouvier (baixo), Dave Collingwood (bateria), Christine Ott (teclas e o psicadélico ondas Martenot, um instrumento electrónico dos anos 30), e Robin Allender (guitarra), Yann (voz, guitarra e violino) espantou a assistência mais desprevenida com o ruidoso bloco de cinco primeiras canções do alinhamento.

Desconhecidas, decerto ficarão associadas a quem de direito assim que Dust Lane estiver disponível nas lojas.

Na recta final da quinta faixa entrou em acção o aguardado violino. Prenúncio de regresso ao último disco de estúdio, Les Retrouvailles (2005), ou até do seu mais recente trabalho, Tabarly (2008) - terceira banda sonora para filme assinada por Yann Tiersen?

Nem por isso. O violinista de formação clássica só se mostrou como tal a sensivelmente meio do concerto, numa versão do tema originalmente escrito para piano, 'Sur le Fil', do albúm Le Phare (1998) - mais tarde aproveitado n'O Fabuloso destino de Amélie.

Descabelado como se pede a um artista indie, avançado um passo, recuando dois, esquerda, direita e de novo esquerda, inquieto, Yann ofereceu ao público um solo arrepiante. Este devolveu-lhe a ovação da noite. Dali em diante, cada vez mais intensas, as descargas eléctricas comandaram canções de queda livre, esporadicamente cantadas por todos os músicos, excepto o baterista.

"You fucking rock!", ouviu-se da assistência.

Tímido - há coisas que nunca mudam -, Tiersen deixou-se ouvir apenas três vezes entre músicas. Nunca foi além de um imperceptível "obrigado" de olhos fixos nos pés. Também poucos esperariam que cuspisse fogo pela boca.

Aguardava o público, isso sim, por, enfim, ouvir os arranjos originais de uma das bandas sonoras de culto da década. "Toca a Amélie!", suplicou alguém, quase para dentro, com o tom de voz conformado de quem sabia que esse pedido não seria satisfeito.

Mas foi precisamente com o tema 'La Valse d'Amélie', ainda que atacado com arranjos de guitarra distorcida, que Yann Tiersen fechou uma actuação curta, de alto risco, mas conseguida. O legado rock do músico bretão contrói-se dentro de momentos.