terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Confúcio: "Aquele que diz que pode e aquele que diz que não pode... têm ambos razão."



Este foi o ano em que me tornei menos egoísta. Em que respeitei mais os outros. Em que passei mais vezes a perna às minhas ignorantes certezas. Em que passei mais tempo com a família. Com os meus.

Este foi o ano em que mais vezes joguei a mão ao pescoço dos meus medos. É incrível o que consegues quando te propões a fazer algo e dás o que tens. Este foi o ano em que percebi que a vontade de ser melhor para mim me torna mais apto a ser melhor para os outros. É contagiante, e convém: ninguém pediu para nascer, mas estamos todos metidos nisto.

Este foi o ano em que percebi que não sou uma ilha por viver num só corpo. Que não sou especial por ter os olhos verdes. Que o Mundo não me deve nada, nem está contra mim. Que de nada me serve meter cara de peido e queixar-me da má sorte. Que nada vai mudar, zero, se eu não fizer por isso.

Este foi o ano em que compreendi que só temos uma certeza - um pouco chata, diga-se. De resto, se excluirmos o que não podemos controlar, percebi que grande parte do que nos acontece é escolha nossa. É sempre bom imaginar isto como uma viagem no tempo, a revienga que o Jesse deu à Celine para a convencer a passear com ele por Viena no Before Sunrise. Uma viagem no tempo, portanto: é imaginar que daqui a 20 anos surge a hipótese de recuarmos no tempo e mudarmos o que nos tornou naquilo que não gostamos. E aconteceu: aqui estamos, 20 anos antes. Temos mais uma hipótese. Agora é connosco.

Entrem no ano novo com os dois pés, a única maneira de entrar. Vemo-nos amanhã no Macdonald's.

domingo, 29 de dezembro de 2013

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Prendinhas pelo intercomunicador


O jantar teve em mim um impacto tal que acordei de noite para ir à casa de banho e quando de lá saí já era de dia. À falta de gente, lá fora a luz fraca do primeiro sol descobria as ruas, as casas e os carros, caso do meu, cujo pára-choques tinha ganho uma camada extra de mosquitos mortos - lembranças da viagem da véspera. Olhei à minha volta. A mesa tinha sido levantada mas a toalha continuava posta, agora à espera do pequeno almoço, e transmitia uma mensagem desligada do cenário que integrava: a sala parecia ter sido visitada por um ladrão apressado, que procura uma coisa em específico e não a encontra. Roupa pelo chão, almofadas atiradas para trás do sofá... tudo com um aspecto remexido e fora do sítio. Aos meus pés, no meio do caminho, encontrei os nossos sapatos, aninhados.

Preparava-me para voltar à cama quando reparei que o telefone de porta estava tombado, suspenso pelo fio. De maneira que estivemos juntos, não tenho é a certeza se sós.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Três segundos ou o tempo que o Mota demora a ter a certeza de não ter vergonha na cara


Ontem dominava a revolta. Se já nem a história do Natal pegava, se o Sporting continuava a ganhar, e bem, era preciso sujar as mãos. E o momento foi o ideal, aproveitando a visita a Alvalade de uma boa equipa, que resistiu mais de uma hora e até podia ter marcado antes. Vi agora o resumo e, se pensava que já tinha visto tudo no futebol, estava bem enganado. Falo do momento em que o Mota apita. É preciso muita confusão naquela cabeça para anular um golo três segundos depois de a bola entrar. "Ora bem, não aconteceu nada, mas é preciso fazer o serviço... apito, não apito... porra, é hoje, tenho de apitar". Três segundos para pensar no que fazer, tal a convicção. De ontem não passava. E não passou. Dois pontos a voar para o sapatinho de quem fez a encomenda. Serviço cumprido. Nota máxima. Subsídio de Natal chorudo. Festas felizes.

Hoje domina o orgulho. Das sobras de um grupinho de solteiros e casados nasceu a equipa que vai virar o ano na frente do campeonato, que pratica o melhor futebol, que marca mais golos, que tem o melhor jogador, que tem o melhor marcador, que tem o melhor treinador, que mais adeptos arrasta do Algarve ao Minho. Um exemplo para todos nós, a prova de que com pouco dinheiro e muito trabalho se pode fazer tão bem ou melhor do que aqueles que compram o sucesso fácil. Vão ter de se esforçar muito para nos fazerem cair.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

O Nalitzis é um gringo


O que têm em comum o Nalitzis, esse mesmo, o manco que chegou ao Sporting para colmatar a lesão do Niculae, em 2001/2002, na época da dobradinha - em seis meses meteu um golo -, e a forma como na América Latina se trata os anglo-saxónicos, sobretudo a malta dos Estados Unidos? 

Não digo. Quer dizer, já lá vou.

Sempre tive alguns problemas com quem não tem noção das coisas. Com os Estados Unidos, por exemplo. Sim, meteram o Homem na lua, mas o que é aquilo de se auto-intitularem "América"? "God Bless America", como? Do Alaska à Argentina? Não me lixem. 

E há pior. Nos últimos dois anos os Miami Heat foram campeões da NBA para todos os povos que o saibam, mas na "América" são considerados "World Champions". Campeões do mundo, como? Da Califórnia à Papua-Nova Guiné? Não me lixem.

Isto para falar no termo "gringo". Já todos o ouvimos por aí, na televisão, no cinema ou pela boca de algum nativo americano - parece que aquilo é um continente a dar para o grandito e já lá havia uma boa dose de índios antes de os ingleses cruzarem o Atlântico e inventarem os EUA, já depois de a Espanha se ter posto à vontade mais a sul. Pesquisei vários textos sobre a origem do termo e encontrei a explicação mais razoável num site chamado Wikipédia, o qual reza que a culpa é do Shakespeare. Ou melhor, do que diziam os monges latinos na Idade Média, quando era para copiar manuscritos gregos - "Graecum est; non legitur" (em português: "É grego; não percebo uma piroca"). Segundo o tal Wikipédia, que compreendi ser uma fonte de saber sem igual, o Shakespeare aproveitou esta tirada em Júlio César quando escreveu, "(...) Aqueles que o compreenderam trocaram olhares e abanaram a cabeça; mas para mim aquilo era grego". 

É a origem do ditado, "isso para mim é grego", relativo a algo que não se percebe e que ganhou a variação "isso para mim é chinês" em países como a Grécia, onde se percebe o grego perfeitamente.

Outros textos com fontes e datas, certamente inspirados no texto do Wikipédia, concordam na tese de que gringos é a variação fonética de griegos, gregos em espanhol, e aparece pela primeira vez em 1787, no El Diccionario Castellano. Escreve um tal Esteban de Terreros que "gringos era o que se chamava em Málaga aos estrangeiros, os que têm uma certa espécie de sotaque que os priva de uma locução castelhana fácil e natural; e o mesmo em Madrid, e pela mesma causa ou particularidade a respeito dos irlandeses."

Só quase 100 anos depois, em 1849, é que o uso da palavra gringo em inglês seria gravado, ali mesmo a seguir à Guerra dos Estados Unidos com o México (1846-1848), aquela em que os gringos invadiram, ou, segundo os manuais ortodoxos, instalaram-se no Texas.

"We were hooted and shouted at as we passed through Cerro Gordo, Veracruz, and called Gringoes", escreveu John Woodhouse Audubon, um pintor da terra dos livres.

De maneira que, mesmo sem quererem, os Estados Unidos estão a dar um passo maior que a perna e até levam o Nalitzis, que por ser grego também é gringo, pelo menos aos olhos dos povos del Sur. Nova Iorque ou Atenas, dá no mesmo: tudo gringo. Não me lixem...

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

O Cantinflas do rock ligeiro

Entrámos no Buddha Bar de Milfontes durante a pausa do músico que lá ia tocar pela primeira vez, no sábado à noite. Queríamos, e até poderíamos ter chegado a tempo - era o combinado -, mas tivemos de nos demorar na Tasca do Celso porque a mulher do dono nos ofereceu licor de bolota e um cestinho com nozes, amêndoas e figos. O Duarte Gomes também lá estava a jantar. Encheu a boca de sei lá o quê e bebeu cola zero, na companhia de uma garota com dentes de vinho, e em menos de nada se pôs a andar. Gosto de pensar que se desfez em - pronto, nisso mesmo. Ela que seja feliz.

O músico do Buddha Bar de Milfontes trazia uma camisa pálida enfiada numas calças de ganga muito grandes e via por óculos; tinha uma voz grave e desolada; era pequeno como um pinipom.

Recomeçou nas cantigas com a ‘I’m on fire’ do Bruce Springsteen e daí passou para a ‘This is the Life’, da Amy Macdonald. Ocorreu-me pensar nele como o Cantinflas do rock ligeiro. Numa das mesas, tal como na véspera, estava um rapaz que não deve fazer a barba há 15 anos e a namorada, que lembrava a Juliette Binoche e dizia nunca ter acordado ressacada na vida, apesar de lhe dar bem na cerveja. Jogavam ao dominó.

O rapaz da barba até ao umbigo passou a segunda parte do concerto do Cantinflas do rock ligeiro a pedir ‘Ring of Fire’ do Johny Cash, mas não teve sorte porque o músico não tinha nada disso no repertório dele. Não satisfeito, esperou que o Cantinflas abandonasse a guitarra e, quando isso aconteceu, precipitou-se para o palco e atirou-se à ‘Ring of Fire’ alegando estar farto de ver a namorada dar-lhe na tromba no dominó.

Tocava e cantava “(…) The taste of love is sweet (...)’ como se fizesse vida daquilo, e pelos vistos faz. É guitarrista numa banda de destruição maciça chamada 10 000 Russos.

Ainda tocou mais alguns temas e depois regressou à mesa para dissertar sobre a influência do Bob Marley na história da música, que dizia ser coisa nenhuma. “O Lee Perry, os gajos que inventaram o dub, isso sim; o Bob Marley não fez nada que já não tivesse sido feito”, argumentava. Quanto à Rosa, dona do bar que por essa altura já se tinha juntado à confusão, contrapunha que o Bob Marley era muito bom porque ela gostava muito dele.

Começámos a falar de cumbia e em poucos segundos já tínhamos assaltado a aparelhagem com Chicha Libre. Dançámos como macaquinhos, bebemos e os clientes fugiram. “Voltem!”, pediu a Rosa na despedida.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

O Lou Reed é do hip hop



Não sou um histérico do Lou Reed. Mais depressa saco da cartola a altura do Vujacic (acho que um metro e noventa, já confirmo*), um defesa que deixou Belgrado em 1993 (chama-lhe burro) para vestir a nossa verde e branca, do que consigo nomear aqui, de repente, sem recorrer ao Google, três discos com o Lou Reed metido ao barulho.

1 - Velvet Undeground & Nico (o álbum da banana)

2 - Transformer (a solo)

3 - ... hum... já fui.

*Confirma-se: 1,90m.

Dito isto, vou dar o contributo possível à causa post-mortem do Lou Reed e dizer que sempre pensei nele como um homem com olhar de mulher. Interessava-me o estilo; era tudo mais ou menos ao contrário. Desde logo, cantava a falar. Nesse sentido, era muito do hip hop. O Lou Reed parecia um narrador afastado da dor que narrava. As histórias que contava... é como se não fossem nada com ele. Estava bem fodido, o Lou Reed, se a legitimação dele como bandeira do rock-para-gente-mais-ou-menos-perdida dependesse de rasgar as vestes e bater com os punhos no peito.

Passei e continuo a passar tempo de qualidade com o álbum da banana. Acho adorável que, enquanto líder dos Velvet Underground, o Lou Reed tenha feito música de embalar enquanto falava de drogas duras. Se isto não é mudar a história da música, não sei o que será.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Esta música vai perseguir-vos o resto da vida

Não é para começar a ouvir e depois interromper, não vale fazer uma pausa para ver o que se passa no Facebook, espreitar o site do Record, ir à casa de banho... não, isto aqui não é para abandonar a meio porque já se ouviu sete ou oito minutos e a música tem mais de 23, porque é demasiado longa e vocês têm mais que fazer. Se for esse o caso, nem a comecem a ouvir. Amigos como dantes. Aos que estão realmente dispostos a entrar nesta viagem de ida sem volta à querida e velha Europa, essa puta autoritária; aristocrata e libertária; burguesa e operária; venham daí e apertem o cinto. Prometo uma flauta no fim da tempestade. 

domingo, 6 de outubro de 2013

Vai, Sporting!


Passar a noite em primeiro 
Verde e branco pelas ruas  
Jogo santo, de recreio 
E o Montero a dar mais duas (é normal).

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Crónica sobre o filho da puta de um siso

Se havia uma coisa de que sempre me orgulhava era de raramente ter tido que visitar dentistas, exceptuando uma vez em que tentei pular o portãozinho lá de casa que dá para o churrasco, desafiado por um primo de Espinho. Na altura o meu primo disse, "vai tu primeiro", e eu fui, valente, mas perdi metade de um dente da frente à custa de um salto imperfeito. Já o meu primo deixou-se estar.

Claro que tinha problemas dentários como qualquer um, e a prova é que andava a comer há um ano para o lado direito devido a dores absurdas no canto esquerdo do queixal de cima. Era o bom e o bonito sempre que ia lá parar algo gelado ou mastigava sem querer. Acontece que o meu plano de sobrevivência falhou, e, compreendi, após alguns dias a proteger a bochecha esquerda por fora, como se isso a sarasse por dentro, que não iria conseguir ser dono do meu destino, concretamente do destino dos meus dentes. A dor que durante um ano ia e vinha tornara-se mais intensa do que eu podia suportar. Dentista.

Aproveitando a minha ida à terra de fim de semana, o meu irmão marcou-me consulta para uma clínica ao pé de casa - é tudo ao pé de casa quando estou em casa -, e lá me dirigi às dez da manhã. O dia estava abafado e a cidade cheirava a cão molhado. Chovia. Um dia perfeito, diria o meu irmão.

O meu nome começou por surpreender a recepcionista da clínica onde entrei. "Rui Coelho? Não temos aqui nada com o seu nome." Sugeri-lhe que revisse a lista de marcações. Nada. Foi aí que a recepcionista resolveu o impasse e disse-me: "Pode acontecer que você esteja na clínica errada. Aqui ao lado há outra. Passe por lá."

Já na clínica certa fui observado por uma dentista brasileira, a qual notou que o meu siso de cima do lado esquerdo teria de sair do sítio, e sem demora, de maneira que chamou um colega para tratar do serviço. O momento ultrapassou-me. Quando dei por mim já tinha um senhor de bata verde debruçado sobre mim, à bulha com o filho da puta do meu siso.

Percebi que a extracção não estava fácil quando o senhor da bata verde, também ele brasileiro, pediu um raio x à assistente e declarou: "há aqui uma anomalia". Explicou-me que não conseguia tirar as raízes, que elas não lhe permitiam arrancar o dente como deve ser. À falta de melhor alternativa, resolveu levar-me um bocado do osso. Cozeu-me, receitou-me um antibiótico e um anti-inflamatório e mandou-me para casa. 

Percebi logo que tinha o fim de semana estragado e precipitei-me num profundo estado de saudade antecipada. Aproveitei para me despedir dos petiscos e vinhos que naquele fim de semana nunca chegaria a provar. "Merda", pensei.

No primeiro e no segundo dia variei a minha alimentação entre gelado da Olá de chocolate, gelado da Olá de baunilha e gelado da Olá de morango. Numa das refeições arrisquei uma sopa; noutra, perdi a cabeça e atirei-me a uns ovos mexidos. Estava com pouco ânimo e foi especialmente bom que o Sporting tivesse ganho em Braga. No golo da vitória, do Cédric, deixei escapar um grito - "Golo!" - e de pronto joguei a mão à bochecha esquerda. Tomara que não tenha feito asneira, pensei. Como não notei alterações ao espelho, excepto o abcesso que entretanto me crescera, respirei fundo e preparei-me para uma noite descansada.

Mas fosse pelo efeito retardado do grito no golo do Cédric, ou por ter vociferado a 'Abel' dos The National enquanto dormia, o certo é que acordei de madrugada com a boca feita num lago de sangue.

Contei o caso ao meu irmão e ele sugeriu que voltasse a adormecer e esperasse até de manhã para decidir o que fazer junto dos meus pais. Alimentei a esperança de adormecer e acordar só com saliva na boca; tive a fezada de que, se quisesse muito, o sangue desaparecia durante o sono. Não aconteceu. Era mesmo só sangue que lá tinha.

Ao domingo é mais difícil encontrar quem nos acuda, mas ainda há gente boa. Depois de muito ligar, em vão, para o número de emergência da clínica onde me arrancaram o filho da puta do siso, o meu pai lá se lembrou de uma dentista que por acaso andou na mesma escola que eu e até tem uma clínica na terra.

Ela atendeu o telefone e, apesar de ter a clínica fechada, abriu-a só para me tratar. Ao observar-me, disse-me que os pontos ainda estavam no lugar, mas que da zona tinha saído um coágulo. De modo que me abriu de novo para ver o que se passava, felizmente sem nada que a preocupasse, e voltou a cozer-me. Saí da clínica com a parede esquerda da boca a lembrar a Guerra das Trincheiras, mas não sangrava. Era o mais importante. Também recebi uma nova medicação que decerto superaria as coca-colas do Sanchez. "A outra que te receitaram é para crianças", disse-me.

Fui para casa. Comi uma sopa. A hemorragia voltou. Telefonema à dentista. Regresso à clínica. Voltou a mexer nisto. Aconselhou-me a tentar estancar a hemorragia com uma saqueta de chá preto. Deu-me uma carteira de um medicamento que me disse para tomar apenas e só em último caso. A hemorragia não estancava com a saqueta. Tive de tomar a carteira. Estancou.

No dia seguinte voltei a acreditar num mundo melhor e até fiz um esparguete à bolonhesa com a minha mãe. Era vê-la ainda de braço ao peito a ralar cenoura enquanto eu cortava alho francês com uma cara que pareciam duas. Entretanto o abcesso já desinchou bastante. Aos poucos vai ao lugar. No meio disto tudo o mais chato é mesmo a possibilidade, identificada por um raio x, de ficar com sinusite. E o certo é que já ando com umas dores de cabeça que me lembram uma vez em que fui ver um concerto dos My Bloody Valentine e confundi tampões para ouvidos com gomas.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Gaiola Dourada: bah


Tenho um problema com filmes de comédia que não me fazem rir. A Gaiola Dourada não me fez rir. Tenho um problema com a Gaiola Dourada.

A ideia com que fico, depois de ver o filme português mais badalado desde as fitas caseiras de um arquitecto com especial queda pela profundidade, é que o Ruben Alves se perdeu ao querer fazer de tudo um pouco. Em vez de realizar uma comédia realmente cómica, ou de um drama mesmo dramático, quis agradar a toda a gente e acabou a meio caminho de coisa nenhuma. 

(E depois há aquela incrível falta de bom gosto de incluir em várias cenas adereços alusivos ao clube mais emblemático de Carnide, e de mais nenhum clube português, como se não houvesse sportinguistas por aí, em Agosto, que comecem as frases com 'bonjour!' e terminem num ruidoso 'porra!').

Até que é bem esgalhado, o retrato do português emigrado em França. A história central tem razão de ser e é bem ligada. Só que a dada altura o nosso Ruben deixa-se levar pelas emoções - o filme é dedicado aos pais, eles próprios emigrantes em França, o que talvez explique muita coisa - e transforma a Gaiola Dourada numa espécie de peça de teatro de revista meio aborrecida, com saudade a mais e malandrice a menos. Se há momentos memoráveis no filme, são os mais tensos, e isso não pode dizer grande coisa de um filme classificado como comédia.

Ocorreu-me, à saída do cinema, sobretudo pela forma como o filme acaba, que a malta da Revista do Boa Esperança de Portimão faria bem melhor.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Antes que amanheça, Vítor!


A pergunta é: como é que este craque só chega a um grande clube aos 29 anos? Vendo-o jogar, sempre de cabeça levantada e a tratar a bola com uma classe quase sem paralelo em Portugal, compreendo que andou tudo a dormir até agora. Esta oportunidade concedida ao Vítor de fazer carreira no Sporting lembra-me aquela cena inicial do Before Sunrise, em que o Jesse convence a Celine a sair do comboio e a visitar Viena com ele durante umas horas, com o argumento de ser uma espécie de viagem no tempo, uma oportunidade para ela recuar até à idade dos sonhos e saber como teria sido se tivesse conhecido melhor aquele rapaz interessante que a abordou, saber se teria sido mais feliz com ele do que com o marido chato que atura, dez ou vinte anos depois. O Jesse concedeu-lhe essa oportunidade, tal como o Sporting o fez com o Vítor. Que ambos aproveitem da melhor forma esta viagem no tempo.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Viseu é arrumadinha, espaçosa e sacrossanta

Viseu podia de repente mudar-se para um despovoado nos Estados Unidos que ninguém por lá desconfiaria. Apresenta aquelas ruas amplas e arrumadinhas que o cinema sempre vendeu das cidades americanas. É impecável.

Não se vê um papel ou uma lata vazia no chão. Por contraponto, multiplicam-se arranjos de flores, igrejas e rotundas - é quase comovente a insistência de que é com rotundas a cada 100 metros que o trânsito vai lá. Por todo o lado se casa o moderno com o antigo. Abundam construções em pedra que, de tão bem tratadas, evocam uma cidade antiga na altura em que era nova. Há também muito espaço verde - é num parque florestal (Fontelo), por exemplo, que se situa o estádio do Académico de Viseu. O centro histórico é uma graça e, ainda não percebi se por isso mesmo, por ser acolhedor e cuidado, está abandonado como a maioria. Só me lembro de por lá ver um cão fã do Garfield, devidamente fotografado pela Vânia Chagas, e de uma artista que pintava uma procissão numa porta-tela de madeira.

Na próxima vida pode ser que os centros das cidades sejam feios e a malta lhes descubra.

A urbanização é de uma categoria à parte. As ruas são amplas e os prédios não se acotovelam. Têm um espaço próprio. Respiram. De qualquer lado se pode ver boa parte da extensão de uma cidade que parece ser o exacto produto da vontade de quem manda, o senhor Ruas. Não me surpreendi quando, a dada altura, o Pedro Pascoal fez a observação de que em Viseu não há pobres, ou pelo menos não se sabe por onde andam.

Mas nada do que atrás foi descrito pode ser comparado em matéria de espanto com os tomates do pai do Pascoal, uma das grandes relíquias da agricultura local. Oriundos dos tomateiros que orgulhosamente cultiva em 'Fontearcada' - é assim que se escreve? -, a meia hora de Viseu como quem vai para Espanha, chegam a pesar para cima de meio quilo. O pai do Pascoal tem o cuidado de os regar todos os dias, a bem de não murcharem. Mas há tomates ainda maiores: foi com orgulho que, no domingo, a mãe do Pascoal me mostrou um que pesava 900 gramas. A última refeição do fim de semana, um bacalhau assado para não meter defeito, teve-os como protagonistas. Nota 10.

Naquela casinha simpática em Fontearcada encontrei um cesto de basquetebol ao qual emprestei alguma atenção. O Pascoal era mais triplos; eu, afundanços. Lembrei-me de tentarmos um alley-oop, o que à primeira resultou, mas fomos falhando os seguintes, muito por minha culpa, que oriento-me melhor com uma bola no pé do que nas mãos. Senti que tinha de dar mais de mim e à 5ª ou 6ª tentativa ataquei o cesto com tudo, mas tive a pouca sorte de falhar o afundanço e aterrar com o braço direito num gancho de rede. Conduziria de regresso a Lisboa com o braço besuntado de Betadine e a manga arregaçada, à emigrante luso-francês. Só me faltava a meia branca para estar no ponto.

A estadia no apartamento dos pais do Pascoal foi de príncipe. São uma família funcional, muito equilibrada. O pai trata a mãe por mãe e a mãe trata o pai por pai - se pensarmos bem, faz sentido. E gostam de agradar: sabendo-me algarvio, prepararam salmão grelhado na sexta ao jantar e red fish no forno, sábado ao almoço. Vinho: Casa de Santar, branco, 2012. Na única refeição na companhia deles que se fez fora de casa, domingo ao almoço, na celebração do aniversário de uma tia do Pascoal, apostei em filetes de polvo com migas. Tão, tão bom. À sobremesa atirei-me a uma pêra bêbada e ainda provei requeijão com doce de abóbora. E o bolo de aniversário. Só não me lembro da marca do tinto. Pudera. Pode-se dizer que não me trataram nada mal. Ah!, tudo no melhor restaurante do pedaço, o Santa Luzia, ali mesmo junto do moribundo Day After.

As patuscadas tiveram seguimento na véspera, depois de um Sporting vs. Benfica que esteve mais para cá do que para lá, mas dividiu o mal (1 ponto) pela 2ª Circular. Apostou-se numa churrascada no casarão dos pais da Carolina, ainda por cima na rua - cortesia de uma noite perfeita. Quis armar-me em esperto e, topando um rádio ao pé da mesa, sintonizei-o na Antena 2, mas ao invés da candura apropriadamente sacra de um Bach levámos em cheio com o Requiem do Brahms. O Pascoal, que pela segunda vez vestia o casaco preto novo, independentemente da temperatura - e bem que ele suou, sobretudo na véspera -, não ficou especialmente entusiasmado com o que chamou de "missa do sétimo dia". Quem salvou aquilo foi a mãe da Carolina, que no leitor de CDs tinha um álbum dos Pink Floyd. Obrigado, dona Eduarda. A noite terminou na varanda da sala de sobremesas, com a Raquel Balsa a trocar argumentos com o Dr. Freitas sobre vindimas, já depois de um dueto de Buena Vista Social Club entre mim e o irmão da Carolina, e outras coisas igualmente lamentáveis.

O regresso a Lisboa fez-se ao som de Doors e The National, tendo-me parecido que mais tempo demorámos a fazer 80 quilómetros pelo IP3 do que propriamente os outros 200 pela auto-estrada. O IP3 é a pior estrada do país no campeonato daquelas que se acham mais do que são. Aquilo é meia faixa de rodagem e vamos com sorte, o cúmulo da claustrofobia rodoviária, um aborrecimento atroz. O IP3 é o oposto de Viseu.

domingo, 25 de agosto de 2013

Académica 0-4 Sporting: só perdi nos traçadinhos

Sr. Pinto: a fazer estudantes levar os dedos à goela desde 1978

Já a digerir o leitão do nosso almoço, porco novo ao qual, no entender da mocinha do meu amigo Ricardo Chirola Saleiro, "faltava febra", vagueámos pela alta de Coimbra à procura do Pintos, um café histórico local. Há dez anos que o Chirola não se permitia visitar Coimbra, cidade onde se fez licenciado, e frágil vai aquela memória no que toca a lembrar-se dos caminhos e cantos onde foi enchendo a cara ao longo do curso. Lá demos com aquilo, fruto da boa vontade de duas senhoras que, sentadas à sombra dos edifícios altos que pontuam a paisagem, falavam de forma retraída após serem por nós abordadas - "olá, onde fica o Pintos?". Na verdade, pareciam verbalizar apenas metade daquilo que pensavam. Mais tarde acabariam por declarar que, ao contrario da maioria do nosso grupo de cinco, não eram do Sporting.

Coimbra parecia o que restou de uma cidade que em tempos foi atingida por uma praga de insectos e, de uma forma ou de outra, perdeu o rasto humano sem jamais o recuperar. Durante a tarde, papando calçada romana à procura das rotas universitárias do Chirola, o mais frequente foi estarmos a sós com a cidade. Aqui e ali lá aparecia um turista, mas era raro. Na prática, sem a azáfama da Universidade, Coimbra fechou para férias.

É importante referir que me desorientei quando chegámos à Alta de Coimbra: pelo ar ressoava a 'Guilty', um cafuné em forma de canção gravado pelo bom do Al Bowly em 1931 e que integra a banda sonora do Fabuloso Destino de Amélie, do Yann Tiersen. Apercebi-me pouco depois que era esse disco que alguém ouvia, algures, puxando pelas colunas tanto quanto possível. Gritei várias vezes, "GANDA SOM!", mas fui ignorado. Adiante, pensei, ao reparar que o Chirola já irrompia pelo Pintos a pedir dois traçadinhos - vinho branco com gasosa. O restante do grupo juntou-se de seguida e em menos de nada o Pintos já se tornava o espaço mais animado da cidade, Estádio Cidade de Coimbra À parte. Sentados no interior do café estavam dois clientes; cá fora, com o rabo na calçada romana, um casal de espanhóis. Um amigo do Chirola não pôde deixar de reparar que a espanhola não trazia cuecas. Há 35 anos que o senhor Pinto abriu a porta do seu pequeno café-bunker, mas naquela tarde fazia o seu regresso ao balcão depois de recuperar de uma perna partida. Caminhava com dificuldade, seis meses depois do acidente. Momentos difíceis, para quem já é octogenário. Tirámos fotos e trocámos aquele tipo de impressões que parecem urgentes no momento mas o tempo torna perfeitamente dispensáveis. Já o Chirola apontou amigos mútuos que ocupavam fotografias emolduradas na parede de uma sala que tresandava a abandono. O Chirola sentiu-se em casa e venceu-me nos traçadinhos.

Aproximava-se a hora do jogo e ainda tínhamos de ir buscar os bilhetes às mãos de quem os pagou, já nas imediações do estádio, mas vimo-nos forçados a fazer uma derradeira paragem: na casa de quem tinha passado a banda sonora do Fabuloso Destino de Amélie. É que agora a cena era o Desintegration dos The Cure. Quer dizer, não há coração que aguente. Ao perceber a minha inquietação, o Chirola disse que a coisa a fazer era tocarmos à porta. Desconfiava que se tratava de uma república, e desse modo poderia eu conhecer uma a sério. O Chirola aviou a porta com os nós dos dedos e logo apareceu um puto com cara de pouco amigos e que rapidamente desapareceu para trás de um portátil. De seguida surgiu uma miúda descalça, apenas vestida com uma t-shirt branca que lhe ficava como fica nas garotas que vestem as t-shirts dos namorados.

Avisou-nos que estavam em limpezas, coisa que teríamos percebido de imediato, mesmo que ela não o dissesse. A casa era ampla, repleta de quartos carregados de coisas, e cada um destes quartos aproximava-se a passos largos de um curral se nada fosse feito por eles ao nível de balde, esfregona e caixote do lixo. Pelos corredores multiplicavam-se mensagens contra as praxes e o poder. "Praxismo é fascismo", li. Também vi uma citação da Simone de Beauvoir, mas não a fixei. A garota chamava-se Raquel e era açoriana, São Miguel. Disse-nos que estudava Geografia, o que achei romântico. Não percebia se tinha passado do segundo ano para o terceiro ou do segundo para o primeiro. Despedimo-nos com afecto e, eu, pessoalmente, com admiração - não é qualquer um que abre a porta a estranhos adornados com adereços de clubes de futebol que falam alto. Ou se calhar até é e eu devia era ter tirado o curso noutro lado.

Estádio. Bilhetes. Sporting.

O estádio era quase por inteiro nosso, o que não surpreende: onde quer que jogue, o Sporting rouba a cena, nem que seja em decibéis. O que chegou a meter dó foi a falta de comparência dos adeptos da Académica, a quem tinha em boa conta. Tive pena do speaker que, a dada altura, deixou de gritar, "BRIOOOOSA!", de tanto levar com "SPOOOOORTING!"

O jogo foi um descanso. Mudou aos dois, terminou aos quatro. Sob o olhar indecifrável do Jardim mais discreto da Madeira, a rapaziada joga e vence com alegria. Parece fácil, mas dá trabalho. O regresso foi ao som do Abbey Road enquanto a mocinha do Chirola dormia no banco de trás. Não cheguei a parar numa área de serviço para beber água, apesar da sede de cão, não fosse ela acordar. Sou um moço bem formado.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Sporting 5-1 Arouca: quotas, pinos e poesia


O novo espaço de atendimento ao cliente do Sporting tem o charme de uma lavandaria romena no tempo do Ceausescu - não que alguma vez tenha visto uma, filmes no King à parte. Calma com os cortes, pá. Não era suposto lá estar a meia hora de começar o nosso primeiro jogo do campeonato, mas como sou parvo esqueci-me de pagar as quotas e/ou memorizar os dados para o pagamento via multibanco. Cinco funcionários atendiam centenas, malta como eu, que se esquece de se lembrar de pagar o que deve. 

Esperei meia hora e o número da senha continuava o mesmo, o 51, longe de avançar para o 78, o meu. O jogo que me fez antecipar num dia o regresso das férias começava dentro de cinco minutos. "MERDA". 

Lembrei-me de ligar para o meu irmão: "Joe!, o que tens a fazer é correr para um computador, entrar no meu gmail, procurar os mails do Sporting, entrar no mais recente, sacar os dados para o último pagamento de quotas e enviar-mos por SMS. Já." O meu irmão achou aquilo tudo muito confuso, mas lá me fez a vontade - é de se dizer que por aquela altura eu batia o calcanhar direito de forma insistente, gesticulava ferozmente e maldizia o calor,  os contratempos, o esquecimento e o destino.

De seguida, abri caminho por entre a multidão que se atrasou para o jogo e suava nas filas sem fim e fui de encontro ao multibanco mais próximo. Chegaram-me os dados ao telemóvel, cortesia do meu irmão. Inseri-os. Deu erro. Não me ocorreu, naquele momento, duvidar daqueles dados, na certeza porém de que o montante ali disposto era 48 euros e a quota mensal apenas 12. Irmão é irmão. Certo é que não conseguia fazer o pagamento, por muito que insistisse, de modo que meti a viola no saco e fui para a zona da restauração do Alvaláxia ver a primeira parte numa televisãozinha sem som, acompanhado de mais que muitos sportinguistas que tinham desistido de esperar ao sol por um bilhete, nas filas.

Vi o Arouca meter o primeiro, sem surpresa - segundos antes um antigo ao meu lado tinha-o comunicado para quem pudesse ouvir o que ele próprio já ouvira no rádio. Um dos grandes flagelos da sociedade, e sem conserto, mas ao mesmo tempo algo ternurento, isto dos antigos insistirem em ouvir os relatos via rádio nas casas que mostram os jogos na TV. É como recusar a abandonar um grande amor.

Respondeu à altura o centralão Maurício, que não está ali para brincadeiras: deu uma marrada na redonda e pim!, 1-1. Não festejei por aí além: o tal antigo ao meu lado já anunciara o empate. Aproximava-se o intervalo e regressei à lavandaria romena, onde alguém gritou "golo!". Por exclusão de partes, teria de ser do Sporting. "Montero!", confirmou o meu irmão via SMS.

A lavandaria romena continuava mais composta que muitos estádios de futebol, mas o atendimento acelerou, como que por milagre. Lá me chamaram. A primeira coisa que fiz foi reclamar com o funcionário do balcão 1. "Não consegui pagar a quota e por causa disso perdi a primeira parte!", disse-lhe, mostrando o telemóvel no qual jaziam os dados na SMS que o meu irmão enviara. Mais calmo que o Putin perante um urso polar de jejum há uma semana, o funcionário concordou comigo, notando, contudo, que a quota mensal é de 12 euros, não de 48, o que poderia justificar o erro. Engoli em seco, ri-me - o riso nasce frequentemente do desconforto -, voltei a meter a viola no saco, paguei e corri para a maior Curva de Portugal, onde expliquei ao meu camarada Ricardo Chirola o motivo de chegar ao intervalo quando tinha vindo de propósito de Portimão para ver a nossa estreia no campeonato.

A bola voltou a saltar e celebrámos mais um, dois, três golinhos. No 5-1, o Montero transformou um defesa do Arouca num pino. Quanta pinta. O Sporting tem um ponta de seta com pés de maestro. Foi mais ou menos por aí que me lembrei dos versos que me chegaram aos ouvidos na sexta-feira, por um médico amigo, e que pertencem ao Freitas, um poeta da Guarda que estudou em Lisboa nos anos 70.

"Não sei porque sou leão,
Motivo deve haver, 
E talvez alguma pista.

Mas estou muito agradecido,
A este destino atrevido, 
Que me fez sportinguista."

terça-feira, 30 de julho de 2013

la bronca, carajo!

Disco: Bronca Buenos Aires
Edição: 1972
Música: Jorge López Ruiz
Poemas e recital: José Tcherkaski


Um dedo no cu da ditadura argentina, narrado como um filme da nova vaga francesa e musicado como um clássico. (Há arranjos corais). Todos os músicos foram muito felizes a traduzir em quatro movimentos (La Ciudad Vacía/Relatos/Amor Buenos Aires/Bronca Buenos Aires) a tristeza daqueles tempos. La bronca, carajo!

sexta-feira, 26 de julho de 2013

quarta-feira, 17 de julho de 2013

"A beleza salvará o mundo"


Foi o que o Dostoievski escreveu.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

domingo, 7 de julho de 2013

Deitámo-nos...


a)      em espreguiçadeiras de praia, besuntados de óleo johnson.
b)      numa cama cheia de rosas e acordámos aos espirros.
c)      num calhau gigante, no mato, nus, a ver (as) estrelas.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

03:07

Um casal discute aos gritos na minha rua, no calor da noite - calma, portistas. Não demora muito até aparecer a polícia. (Alguém a chamou, compreendo). Dois agentes entram no prédio devido depois de deixarem o carro parado no meio da estrada com os quatro piscas e a sirene azul ligados. Chega um taxi que no banco de trás transporta uma passageira que tem mais que fazer. Já não oiço o casal; passo a ouvir a passageira. Segundo percebo, não aceita ter o caminho barrado. Um, dois, três minutos. O taxista apalpa a buzina. Não há sinal dos polícias. Quatro, cinco minutos. Buzina de novo apalpada. Seis, sete minutos. Os dois agentes da polícia lá saem do prédio devido e dirigem-se para o carro. A passageira do taxi abre a porta à passagem dos polícias e deixa-os com os ouvidos a arder. 

"Vou ter de pagar mais porque o vosso carro estava no meio do caminho!", queixa-se, com voz de poucos amigos.

O polícia condutor tenta acalmar a passageira. "Se a senhora precisasse de ajuda também gostaria que fossemos rápidos a acudir." 

Erro: ainda ouviu mais. Acto contínuo, o agente baixou as orelhas, escondeu-se no carro, meteu a primeira e seguiu caminho, ladeado pelo colega. Vi o carro da polícia afastar-se com a sirene azul ligada, logo seguido do taxi em cujo banco de trás a passageira gesticulava como um especialista em mímica que pretende traduzir o discurso da Teresa Guilherme num dia mau.

domingo, 9 de junho de 2013

O maior dos Caetanos



Andava a minha avó Vivi na escola quando o avô dela, o Manuel Caetano, empurrou sozinho um barco para o mar. Aconteceu na praia dos Cavacos, ali pelos anos trinta, antes de ela emigrar para Angola. Sentado à beira de uma barraca, a ver atrapalhados seis homens, seis, o Manuel Caetano avançou, meteu-se de costas debaixo do barco e lá venceu a maré vazia. À volta dele aplaudiram e deram de vaia. Nunca mais se esqueceram dele. Tremiam de medo, só de lhe ouvir o nome. Foi o maior dos Caetanos.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Hey, benfica: este é o presidente da república!


Que tenham estranhado o hino português, acho normal: só o André Almeida tinha obrigação de o conhecer; que não tenham esperado pela entrega da Taça de Portugal ao Vitória, também não me faz grande espécie: a grande maioria dos jogadores que vestiam de encarnado tem origem no lado de lá do Atlântico, e provavelmente estariam com pressa para fazer o check-in no aeroporto; agora terem deixado o meu vizinho de Boliqueime de mão estendida por não o reconhecerem enquanto presidente da república portuguesa... tss, tss. "Bolo-rei para todos" não vos diz nada?!

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Alegria


Pedi peixe no forno e dei cabo daquilo na esplanada. Acompanhei com duas minis. Que coisa tão boa. Peixe no forno é uma das iguarias mais subvalorizadas da nossa gastronomia, seguido de perto pelo "Doce além de bom" da minha mãe e das bifanas n'O Típico, na Praia da Rocha.

Já de café bebido, puxei do "i". Repleta de bonequinhos com cara de poucos amigos e gente ao lume ou pendurada pelo pescoço, a foto de capa era alusiva à nomeação urgente de oito exorcistas por parte da Igreja de Espanha, alarmada que está com o aumento de pedidos de ajuda relacionados com influências demoníacas. Fiquei a saber, aliás, que a diocese de Madrid ponderou criar uma linha telefónica para atender pessoas perturbadas. A ideia foi tratada com carinho, mas descartada. Ao longe, na praça, uma banda tocava "Where is My Mind", dos Pixies. Os instrumentos faziam-se ouvir com precisão e a voz da vocalista fazia-se ouvir demasiado. Um golfinho estremeceu à superfície, no Tejo. Era a vocalista tão discreta a disfarçar a adolescência como um espanhol a falar inglês. Paguei, elogiei a cozinheira - bigode assimétrico - e fui espreitar o que se passava.

Como é suposto, a praça estava cheia de velhotes a jogar às cartas nas zonas mais protegidas do sol, cortesia das árvores que por ali abundam, mas hoje também se via povoada de gente nova. Pensei que seria a entourage da banda que ali fazia o soundcheck para o concerto que deverá acontecer daqui a bocado, dada a intermitência com que tocavam.

Não resisto à reacção dos mais desprevenidos, distraídos ou desabituados a um soundcheck. Tudo a olhar uns para os outros, a coçar a cabeça. É um dos meus passatempos preferidos.

Alguns metros diante do palco formava-se um círculo cada vez maior de miúdas, primeiro em pé, depois sentadas. Muitas delas vestiam roupas escuras, botas e meias de renda. Bebiam cerveja e trocavam beijos. Um casal. Dois. Perto do grupo, uma cigana vendia-impingia balões. Um deles, do Mickey, derreteu a filha de uma princesinha algures da Europa de Leste que se tinha sentado ao meu lado, junto da mãe, esta talvez da minha idade - rosto pálido, belo e cansado. A mãe não lhe comprou o balão.

Ao fundo, uma banquinha da JCP, com folhetos a protestar contra os cortes do Gaspar. Ouvi uns putos semi-bêbados (4/5 imperiais) imitar um cântico comum às claques do Sporting.

"Braços no ar!
Todos de pé! Vamos cantar!
Camões allez!

Camões allezzzzzz (...)"

Fiquei perturbado. Serão estes os miúdos os homens de amanhã?! - questionei. "Tá tudo fodido", conclui.

A tudo indiferente, um puto fintava as pessoas aos S enquanto a irmã baixava as calças no centro da praça para fazer xixi. Os pais estavam por ali. Pareceu-me uma família equilibrada: o puto corria atrás da bola, a qual pontapeava com a força possível; o pai corria atrás do puto, reparando estragos com sorrisos; a mãe corria atrás do pai, a ralhar por ele não ralhar com o puto; a irmã corria atrás da mãe, já com o xixi feito, mostrando os dentes a toda a gente, satisfeita.

A dada altura o puto desinteressou-se da bola porque encontrou a princesinha algures da Europa de Leste. Aproximou-se com curiosidade e fez olhos grandes. A princesinha riu-se muito. Depois, irremediavelmente apaixonado, o puto levantou a blusa para lhe mostrar a barriga e desatou a pular. Ainda estava aos pinotes quando me vim embora.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Mulheres que amam, quanta coragem.
Da dor ao prazer a perfeita viagem.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Jesualdo Ferreira: obviamente para ficar

O professor ensina, os putos aprendem. É isto. Tem de ser isto.

Votei no Bruno de Carvalho, festejei a eleição dele como uma grande conquista do Sporting, mas vou cobrar. Desde logo, a continuação do Jesualdo. Os pontos na era dele conquistados ajudam, mas é o futebol dos putos que mais seduz. O crescimento táctico. Os mecanismos. A confiança. A resiliência. A união. A aposta num onze tipo. Pequenas coisas que dão trabalho e só resultam com quem percebe (mesmo) da coisa.

É o homem certo para ajudar a xavalada a potenciar o inesgotável talento que tem. Independentemente de se chegar à Europa ou não, por muito que custe escrever isto - e custa muito. Chega de aventuras. Haja juízo. Haja paciência. Isto melhora.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Em perspectiva

Na calada da noite irrompe um harmonioso assobio. Daqueles que quase irritam: como se atreve aquela pessoa a assobiar assim, tão airosa, tão feliz? Cuspo um fio de vinagre e interrompo a respiração para que ruído algum abafe o assobio; depois retomo-a, senão este texto já não sai. É um assobio muito bonito, podia ser de um tordo apostado em colorir a paisagem urbano-depressiva, só que sai demasiado forte, é sem dúvida humano. Tem um jeito marialva, quer e faz-se ouvir - lembra o Bruma e o Carrillo a fazer pouco dos defesas do Gi Vicente, tal a lata.

Oiço-o com admiração, o assobio - toda a força criadora da primavera está ali. Vou à janela, espreito lá para baixo à procura do culpado. Encontro-o: é o homem do lixo.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Amanhã acordo mais cedo


Saio de casa mais cedo. Coisas a resolver nas finanças. Faço-me à calçada portuguesa. Perigos no chão (aquela moda dos donos de cães a agachar-se com um saco de plástico na mão já era) e no ar (raides aéreos de pombos). Temperatura boa. Desço e subo colinas, um bom teste para o joelho que magoei na manhã de Natal, o segundo teste depois de ter voltado a jogar à bola no sábado de manhã, com os olhos bem vermelhos e quatro horas de descanso no corpo. Tiro o casaco - já suo. Chego à repartição das finanças desejada. Demoro cerca de um minuto a tentar compreender qual das senhas devo tirar. Tiro três – antes prevenir. Nem me sento. A sala de espera está cheia: há uma média de 20 pessoas à minha frente em cada uma das senhas. Ocorre-me que, a enganar-me no balcão devido, terei de me enganar rapidamente de modo a ainda apanhar a minha vez num dos outros dois para os quais tenho senhas. Dez, vinte, trinta minutos à espera. Torna-se curta a hora que tenho para resolver as coisas. Aproxima-se um senhor com uma boina perfeita. Sobrancelhas carregadas e brancas. Mãos trémulas. Voz idem. Pede-me para lhe tirar uma senha ‘E’. Assim faço.

“Ooo-bri-ga-do.”

“Ora essa, chefe!”.

Quarenta minutos. Cinquenta. Observo um quadro com informações. Diz assim: “PODES ESTAR AÍ À VONTADE COM CARA DE QUEM ACHA QUE SE VAI DESPACHAR AINDA HOJE, SEM CHEGAR ATRASADO AO TRABALHO, PORQUE SE OLHARES BEM PARA A TUA CARTEIRA NÃO TENS LÁ O CARTÃO DO CIDADÃO.”

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Chuvinha é que é bom


O tempo uniu o meu irmão ao Inverno. Não escrevo isto para que soe bem, ele gosta mesmo de frio e chuva, de um certo ambiente de fim de mundo. E tanto gosta ele de tais encantos que, a custo, moído por uma noite longa, lá tirou o corpo da cama numa tarde pouco agradável e foi mexer os ossos para o passadiço de Alvor. Eu fui atrás, desconfiado. A minha mãe também. A habitual confusão de atletas, casais e cães naquela zona que envolve a ria de Alvor dava lugar a coisa nenhuma. À primeira vista estávamos sozinhos - enganei-me -, o que não me surpreendeu, dado que chovia e bem. Já no passadiço, e portanto à chuva, cruzámo-nos com dois cães que brincavam. Ao ver-nos passar por eles, acompanharam-nos em silêncio, muito dignos, durante centenas de metros. De fato de treino, o meu irmão ria-se; de calças de ganga, eu apercebia-me que já tinha o tecido bem colado às pernas. Mais à frente cruzámo-nos com um casal de estrangeiros. A minha mãe ficara no carro. “Está a chover”, constatou. Voltámos como volta quem esteve meia hora à chuva. O meu irmão, satisfeito, conseguira despertar o corpo moído ao mesmo tempo que contemplava a natureza sem cor ou temperatura humana - perfeito. Eu, que me tinha portado bem na véspera, ganhei pingos no nariz e a voz do Richard Hawley.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Obviamente Bruno de Carvalho




Gosto do Couceiro, mas vou votar no Bruno de Caravalho.

Há qualquer coisa naquele ar de "quero, posso e mando" que molda com mãos de oleiro o Bruno de Carvalho ao cargo de presidente de um clube de dimensões bíblicas como o Sporting Clube de Portugal. O Bruno de Carvalho é aquele puto arrogante, sempre chateado com o mundo, que namora a miúda mais gira da turma. O Couceiro, o puto porreiro, questiona, "mas que tem ele que eu não tenha?!", mas não encontra uma explicação que o próprio entenda. No fim das aulas é com o outro que ela sai de mão dada. (Pouco popular, o Severino acumula negativas nos testes e falta frequentemente às aulas para se meter a fumar com um amigo atrás do pavilhão).

Será Bruno. Tem de ser. o roquetismo está por horas. A brigada do croquete vai dispersar. A pouca vergonha vai acabar. O Sporting voltará a ser servido, não a servir. Foi para ver chegar as eleições de amanhã que me fiz sócio: um dia, se isto correr mal, como diz um amigo, terei o consolo de ter feito algo pela vontade de mudar.

sábado, 16 de março de 2013

Nada supera...

... uma mulher a dormir no teu colo.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Fazer muito com pouco


"Fixe a capa do metro com o fumo branco. Muito à frente". Miguel Coelho, meu irmão, ser pensante absolutamente imparcial na análise das coisas na medida em que há um ano quase deixou de me falar quando o Sporting Clube de Portugal meteu cinco no saco do Guimarães e, para a chamada de desporto da capa do maior jornal do mundo, escolhemos a vitória por 2-1 do Benfica em Paços de Ferreira.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Mexam-se!

Querem andar bem da vida, mente e corpo fresquinhos ao mesmo tempo que poupam dinheiro e chatices? Epá façam desporto. Deixem-se de merdas. Fora lesões normais para quem, mais ou menos a sério, sempre jogou à bola, nunca tive problemas. Ria-me de quem dizia que doía aqui, doía ali. “Mexe-te!”, respondia.
Dá-se o caso de que fiz um torcicolo a jogar à bola na manhã de 17 de Novembro, coisa normal, ainda assim mais agressivo do que esperava. Fiquei cerca de um mês sem praticar desporto e voltei a mexer as pernas na véspera de Natal, uma corridinha tranquila até à praia antes de encher a boca de fritos. Voltei à praia de manhã, para reparar estragos, desta vez com tio e primo. Fizemos duas séries de meia hora a correr num ritmo palerma para quem, como eu, não mexia os ossos há um mês – quer dizer, seria sempre palerma. Comecei a sentir dores no joelho direito durante a segunda série, após um banho de mar, e cheguei a casa já a arrastar-me. Mal conseguia andar nos dias seguintes e fui ao hospital. A lesão não era grave, mas requer fisioterapia, que ainda não comecei porque estou mais preocupado com as dores nas costas que me afectam há algumas semanas e que automaticamente me expulsam da cama cinco ou seis horas depois de me deitar. Tenho um problema de coluna desde os 18 anos, devido a uma trapalhada com uma mota, mas a prática física constante fortalecia-me a zona e o problema não se manifestava. Até parar. Regressei ao hospital a pensar que seria dos rins – já tive duas crises -, mas não: deve ser coluna. Teria de ver um especialista para confirmar. Acontece que também não fui ver o especialista porque devido a este despertador natural ando a dormir poucas horas, o que poderá muito bem ter contribuído para as dores pulsantes que passei a sentir na fonte esquerda e que me têm ocupado o espírito - enxaquecas, possivelmente.

De modo que aceitem o conselho de quem vos escreve com humor de cão: MEXAM-SE!

(p.s: Mãe, Pai, se me estão a ler, tudo tranquilo!)

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Amour

 
A cena mesmo é ver o Amour ao sábado à noite no King com o tecto do cinema a estremecer durante duas horas devido a um bar que funciona ali no edifício e passa techno de feira.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Petróleo em Alvalade

Categórico. Normal. A melhor formação do mundo a ser a melhor formação do mundo. Ver consecutivamente os leõezinhos a fazer travessura destas e depois tentar perceber o que tem acontecido a este Clube no que toca à gestão da equipa profissional deve ser tão fácil como infiltrar-me na Mossad, rezar cinco vezes por dia virado para Meca e ninguém estranhar.


sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

O cão que mordeu a dona (e outras coisas)

Vê-se todo o tipo de coisas a acontecer num hospital, e, se calha receberes a pulseira verde, há uma coisa que não te vai falar: tempo para as testemunhares. Bastante, no meu caso - contei 24 pessoas à minha frente. Com mais, ou menos queixas, ninguém parecia tão necessitado de cuidados médicos como a miúda entre os 20 e os 30 que estava à entrada do São José. Tinha a cara marcada por feridas, sobretudo no nariz, mais exposto. Dois rapazes falavam com ela. Faziam perguntas, aliás. Apurei o ouvido. Percebi que tentavam ajudá-la, perceber o que se passava. Um deles parecia esperar pelo momento certo para fazer a pergunta óbvia. "Foi um cão?". Ela, incomodada, não respondeu à primeira, mas lá acabou por assumir que sim. O rapaz não desarmou e perguntou se tinha sido o dela. Hesitando, ela respondeu: "Sim". "Um pitbull?" "Sim, mas é problema meu".

Não demorou um fôlego até o rapaz das perguntas notar como os cães dessa raça são perigosos, como "é preciso ter cuidado" com eles, mas a rapariga, cada vez mais desconfortável na pele de vítima do próprio cão, despachou-os em menos de nada até conseguir ficar a sós com as feridas. Desconfiei que não tivesse cartão de utente e falei dela à funcionária da recepção, a qual, em cima de uns saltos épicos, media 1,65 metros a caminho da minha altura.

A sala de espera do São José tem cadeiras em madeira, folhetos informativos sobre logística interna e sobre farmácias de serviço, um, dois extintores, um telefone, uma máquina de refrigerantes e doces, uma casa de banho e uma planta. Não se faz porra nenhuma na sala de espera do São José. Entre tanta cabeça pensante, não houve uma só que se tivesse lembrado de conferir àquele espaço uma imagem mais colorida, leve, que agradasse à vista, servisse de conforto, a ninguém pareceu interessante fazer passar uma música que distraísse os pacientes, Velvet Underground, algo assim, de embalar. Nada. Os sons que ali se ouvem são de bocejos, lamúrias e de uma outra conversa de circunstância sobre os problemas de cada um, mas nada irrita tanto como o barulho das luzes de presença, só comparável na medida da tortura aos cânticos da claque feminina do Nacional da Madeira.

Tinha feito a minha inscrição à meia noite e, mal saí da triagem, fui ouvindo relatos de pacientes que ali se diziam há seis, sete horas, sem ainda terem sido atendidos. Preparei-me mentalmente para chegar a casa já a desviar os olhos do sol e concentrei-me no amigo que tinha levado, o Notícias de Coura. Em breve, nada da actualidade de Paredes de Coura esconder-me-ia quaisquer segredos, o que tanto era benção como maldição - ficava, de novo, sem ter o que fazer. Levantei-me, pedi um papel e uma caneta, voltei ao meu lugar e fui escrevendo isto que para aqui vai. Fazia pausas. Levantava-me, fingia-me interessado na estrutura dos extintores, das paredes, das LUZES DE PRESENÇA, ia lá fora espreitar  se o castelo de São Jorge continuava no mesmo sítio, voltava, escrevia mais um tanto. O tempo, esse, teimoso, não passava. Duas horas e meia de espera e sabia o Universo quantas mais teria pela frente até ouvir o meu nome. Ao mesmo tempo ia actualizando o meu irmão sobre os acontecimentos. O que eu não sabia era que ele estava a beber um copo em Portimão com o pai de uma estagiária precisamente do São José, não percebi se enfermeira ou médica, de modo que se fizeram telefonemas a solicitar pedidos e obtiveram-se respostas com resultados. "Rui Coelho, gabinete dois. Rui Coelho, gabinete dois."

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Noir Destin

Cheguei a casa cheio de mimo, depois de jantar no restaurante com a melhor relação qualidade/preço que conheço. Aterrei no sofá e liguei a televisão. Comando. Passei pela 2: exibiam o filme "Terra Ferma" - a propósito, Relvas, se me lês, vendes a 2 e deixo-te a boiar no Tejo. Descia pelo ecrã a cascata de créditos finais ao som de uma canção incrível e encetei uma perseguição em busca dela. Com sucesso. Percebi que se tratava de uma versão de um tema de 2001, original de uma banda francesa, Noir Désir. A versão que me hipnotizara era de uma cantora suiça, Sophie Hunger. 


Investiguei mais um pouquinho e compreendi que conhecia a banda original, aliás, tinha um disco deles, o que é diferente. Tive sorte: não é que encontrei nesse mesmo disco ("des visages des Figures") a música original? Pu-la a tocar. Era pop, como a outra, mas tinha um ritmo mais animado - percebi depois que com guitarra do Manu Chao, em estúdio. Ainda assim mantinha uma energia e mensagem de certa forma estranhas, perturbadoras. Le Vent Nous Portera/O vento irá levar-nos.


Não sei que raio de pesquisa fiz para, dias depois, dar com um artigo que me informou que o vocalista (Bertrand Cantat) destes Noir Désir espancou a namorada até à morte em 2003. Isso mesmo, um assassino. Em tribunal confessou ter batido quatro vezes na cabeça da namorada, a actriz francesa Marie Trintignant, devido a um SMS que esta recebera do ex-marido, mas insistiu que a matou por acidente. A autópsia revelou 19 golpes na cabeça da Marie, que sucumbiria três dias depois. Um edema cerebral.  Condenado a oito anos de prisão por homicídio involuntário, o músico cumpriu quatro. Bom comportamento e em 2007 estava cá fora. 

Fiquei confuso. Demasiada informação em muitas direcções e pouco tempo. Será possível respeitar o artista e ao mesmo tempo desprezar o homem? Será justo fazê-lo, tendo já ele pago (?) pelo que fez, ainda por cima tendo de viver todos os dias com a culpa de ter morto a namorada? O Universo achou que não e, em 2010, a ex-mulher dele, a quem o Bertrand deixara para ficar com a Marie Trintignant, achou por bem enforcar-se com ele a dormir lá em casa. O cadáver foi descoberto por um dos dois filhos que tinham. Coisa horrível.

Descubro um artigo do Guardian. A jornalista que o escreveu está revoltada: em 2012, Amadou & Mariam, a dupla pop invisual mais conhecida do Mali, convidou-o a participar num disco. No vídeo de um tema chamado 'Oh Amadou' recebem de braços abertos um Bertrand a sair de um comboio, de mochila às costas, como quem chega de uma longa viagem, como quem visa um recomeço. A jornalista do Guardian não aceita: "Nenhuma música bonita do Mali vai apagar a morte de Marie Trintignant", lê-se no título.


Se confuso estava, mais fiquei. Demasiada informação em muitas direcções e pouco tempo. Será possível respeitar o artista e ao mesmo tempo desprezar o homem? Deito-me sem respostas.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Um Castelo na Escócia Record Awards 2012


Estão a ver o argumento que dei para não numerar os melhores temas de 2012? Hummm.. esqueçam.

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10. Kill for Love, Chromatics

9. The Money Store, Death Grips

8. Channel Orange, Frank Ocean

7. Miguel, Kaleidoscope Dream

6. Lonerism, Tame Impala

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5. Blues Funeral, Mark Lanegan


Quanto era puto tentava ficar o máximo de tempo possível sem engolir saliva para tornar a voz rouca. Certamente que o Mark Lanegan nunca precisou disso. E não recebe lições de ninguém no que toca a misturar blues e rock.

4. Roque Popular, Diabo na Cruz


Sou um fã devoto da guitarra-enxada.

3. Celebration Rock, Japandroids


Ponteiro da velocidade no máximo. Condução extrema(mente) segura.

2. Landing on a Hundred, Cody ChesnuTT


O bom do Cody tem sorte: nota-se mais que tira do coração o que canta porque tem uma voz abençoada. Por Landing on a Hundred se constanta que a soul já não é o que era - e não há qualquer drama nisso, é novo, bom.

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1. Tramp, Sharon Van Etten


A miúda saiu de um namoro e, desfeita em cacos, deu-nos o conjunto de canções mais irresistíveis de 2012. (Acontece muito).

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Coisas que se bastam

É uma desordem, é violento, aperta, aperta, é o piano do Chopin (fechar os olhos), o violino do Tiersen (abri-los!), o golo do Sporting (confusão, confusão), nunca perde, só cresce, só cresce.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

On the Road: operação de resgate da 'minha' história


Já leram o On The Road? É belo, incansável e simples – alguém amargurado chamar-lhe-á ingénuo – e recupera-nos a procura do “uau!” como mote de vida e utiliza expressões como American Saint e tem pouco, pouquinho a ver com o mau filme pornográfico, se é que os há bons, que o Walter Salles se lembrou de fazer, mas, que diabo, talvez lhe agradeça ter-me motivado a salvar a história que cá dentro construíra, nas duas vezes que devorei o livro, com a terceira leitura que está em andamento tipo solo do Charlie Parker pa-ra-pa-ra-pa-pa-ta-ta-ti-ta-ta-ta.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Godinho: qual é a parte do RUA que não percebes?



Já vi um ministro das finanças penhorar a sanita de uma casa de banho do estádio de um clube por dívidas ao fisco, e falo do clube que ao mesmo tempo era folgado de tesouraria o suficiente para oferecer “fruta” e “chocolate” aos árbitros de modo a construir a hegemonia que hoje tem no futebol português.

Já vi o clube do outro lado da rua erigir uma capelinha onde se pudesse orar antes dos jogos, e falo do clube que pagou o Futre com dinheiros públicos para depois andar a mendigar junto dos respectivos adeptos, a bem da sobrevivência.

Mas não, nunca vi uma coisa assim, um boneco que tresanda a mofo, infinitamente incompetente, estar não só apostado em destruir um dos grandes clubes desportivos que o mundo já conheceu como confiar que o vai conseguir - tudo o indica, por este caminho. Ganha vergonha na cara e sai, palerma.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Um Castelo na Escócia Song Awards 2012


Numerar a lista das minhas músicas preferidas do ano, ou daquelas que mais ouvi - dá no mesmo, certo? -, é um bocado parvo. Perdi a inocência. Acontece. (Mas os meus cereais favoritos continuam a ser Chocapic).

Por ordem mais ou menos alfabética:

Adorn, Miguel



Elephant, Tame Impala



Get got, Death Grips



Gray goes black, Mark Lanegan



Feels like we only go backwards, Tame Impala



Fronteira, Diabo na Cruz



Her Fantasy, Matthew Dear



Lady, Chromatics



Leonard, Sharon Van Etten



Kill for love, Chromatics


Myth, Beach House



Ruins, Portico Quartet



Serpents, Sharon Van Etten



Sete Preces, Diabo na Cruz



Sleeping Ute, Grizzly Bear



St. Louis Elegy, Mark Lanegan



The house that heaven built, Japandroids



Thinking about You, Frank Ocean