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segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Aqui oficial esmerado: quer fumar, vá para outro lado

Momento solene: sr. Luís a colar-me as botas

Paredes meias com uma drogaria e de frente para uma loja de artigos de equitação é possível encontrar a oficina do sr. Luís. Ao contrário de outros sapateiros de Portimão, mais folgados, o sr. Luís está sempre disposto a cozer, apertar ou endireitar, serviços que não compensam o trabalho que dão, mas, também por isso, segundo se diz, até de Monchique o procuram.

A oficina é afunilada e permite-lhe movimentar-se na medida de três passos para a frente e dois para os lados. Nós, os clientes, podemos rodar sobre nós próprios. O resto será pisar clientes. Sabe quem já lá foi que à terceira pessoa da fila já caberá um dos pés na rua, e, nos dias de maior procura, os mais desprotegidos da sociedade aproximam-se da entrada sob a ilusão de que estará alguém por ali a oferecer dinheiro - não encontram outra explicação para tanta gente junta.

A decoração do espaço reflecte o carácter interessado do sr. Luís. A cercar pilhas de sapatos, leis de bom senso dominam as paredes laterais; a parede dos fundos é controlada pelo olhar fixo da loira do mês de Dezembro; um casal de periquitos assobia à entrada.


O Sr. Luís vê num povo ignorante um povo inútil. É um comunicador e um agitador. Tão certo será vê-lo aceitar todo o tipo de encomendas como a não ter tempo de as aviar no prazo devido, tal o tempo que lhe levam os insistentes apelos à consciência colectiva, contra o poder da sociedade conservadora. Interessou-se por mim quando lhe mostrei as minhas botas e respectivas mazelas. Acrescentei que era jornalista. Sugeriu-me que pensasse mais no associativismo, pois só assim poderia a imprensa resistir ao patronato corrompido, e daí saltou para a valorização de uma boa leitura destes tempos com base na Revolução Francesa. Já o sr. Luís acabava com o Estado Novo quando uma cliente que esperava há três dias por um par de botas lhe perguntou se estaria a ser gozada por ele, tal o atraso na entrega. Foi secundada por um senhor até aqui pacientemente sentado à entrada.

"Ó homem deixe lá o Salazar e arranje as botas!", pediu o senhor sentado, que depressa se virou para mim e aplicou-me um safanão de cotovelo. "Não vê, não vê que ele fala com os dedos?".

A cliente insistia em pedir explicações ao sr. Luís pela demora, o que deixou o sapateiro menos animado para discorrer sobre a Revolução Francesa do que para cozer e endireitar. A reprimenda surtiu efeito e em menos de nada tinha as minhas botas de volta, como novas. O custo de tanto cortar, apertar e colar: 4,5 euros.

Despedi-me com afecto, às cabeçadas com a minha consciência colectiva.

domingo, 11 de novembro de 2012

Nunca tivemos Paris

Penso nas tuas pernas todos os dias. Há pouco vi-as na empregada de limpeza lá de casa e só não lhe pedi que ficasse para jantar porque nunca tiveste bigode. Lembras-te daquele corredor escuro? Nunca fomos tanto como naquela fuga de mãos dadas e em bicos de pés até à casa de banho, nus, com vontamedo de sermos vistos. Ter-te-ia falado no recorde do mundo da visita ao Louvre se soubesses quem é o Godard, claro, montada nessas coxas de cinema serias menina para o bater. Era da maneira que teríamos Paris.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Esqueci-me de me lembrar do caminho para o Portinho

Pertenço àquela espécie de primata vulgarmente conhecida por 'homem' e, claro, separo as cores entre branco, amarelo, laranja, vermelho, rosa, azul, verde, castanho, cinzento e preto, mas os olhos da C. pediram tanta atenção na noite em que a conheci que, mais tarde, demorei-me um bom bocado na Net à procura da cor perdida, pois justiça não lhes fazia as que conhecia. Percebi que são ambar. Isto já tem o seu tempo, mas cada dia a miúda está mais bonita. É luz de ferir vista. Ao jantar, esta noite, um rapaz da mesa da frente, virado para a televisão, quase de costas para nós, passou mais tempo a forçar as estritas leis do pescoço do que propriamente a ver o 'tikinaccio' prevalecer em Donetsk. Fui incapaz de o censurar - teria feito o mesmo.

Combinámos ir à praia no sábado, e à última hora ganhámos a companhia do D., rapaz descabelado de bom coração e gostos vários, desde o teatro à medicina chinesa. O D. deve ser daquelas pessoas com poucos mas bons amigos, pois fala primeiro e pensa depois. Dispõe, igualmente, de um dos estômagos mais inquietos de que tenho memória. Ao almoço viu-me comer meia sopa - "estou farto disto" - e uma empada de vitela sem, ele próprio, esboçar intenção de morder coisa alguma, mas bastou uma vintena de minutos de viagem para começar a sofrer em voz alta, como as crianças. Depois de algumas negas acabei por lhe fazer a vontade e ei-lo a correr para um Pingo Doce, de onde voltou a acabar um travesseiro, carregando ainda um saco com pão, uma embalagem de fiambre de frango e gomas. 

Era a quarta ou quinta vez que dava um pulo ao Portinho da Arrábida, mas, ao contrário do que aconteceu até à data, investi abundantemente por caminhos que até podiam ter valor mas nada tinham a ver com o nosso destino, de modo que duplicámos o normal tempo de trajecto até conseguirmos meter os pés na areia, já depois das 17:00, julgando ter papados quilómetros suficientes para estacionar no Algarve. A água do mar parecia porreirinha de início, quando molhámos os pés, mas na hora de nos misturarmos nela houve um pleno consenso de que estava "fria como a merda". Aproveitámos um pouco do bom sol. O D. tinha exame de medicina chinesa a curto prazo e de nós fazia cobaias para exemplificar o mérito de diversos e intensos tratamentos manuais. Eu roubei o Cem anos de Solidão à C. e fui citando passagens de uma demência gloriosa. A C. era o centro das atenções e ria-se com frequência, a todos iluminando quando deixava abertos os pequenos e simétricos postes de iluminação em formato cilíndrico. 

Não demorou muito até o sol esconder-se nas costas da Arrábida, atirando com os banhistas para os carros ou as esplanadas dos cafés, sendo este o nosso caso. Pedi três cervejas e um prato de caracóis porque me apetecia comer caracóis, a C. concordou porque queria passar torradas no molho e o D. fez cara feia porque não gostava do petisco - por outras palavras, nunca o tinha provado. De início bateu o pé, que não queria, que não estava para comer 'nhenha', mas em menos de nada já tentava arrancar os caracóis da respectiva casota, ajudado por um palito. "Isto não sabe a nada!", declarou, ao provar o primeiro, fazendo um trejeito de nojo que não convenceu. Concordei em parte com o diagnóstico, embora lhe fizesse ver que, por isso, pela falta de sabor, não vinha o mal ao mundo. Expliquei-lhe que uma caracolada é uma coisa social e que pede cerveja, pão torrado, amigos e calor, além de que o caracol, em todo o caso, "come-se". Contudo, naquele caso, também pedia muito mais molho - o petisco estava com o sal preciso, picante q.b., mas seco, reconheci. Quando os caracóis voltaram à mesa, já vagamente ensopados, ideais, o D. esqueceu-se do tal sabor "a nada" e mudou de conversa sem parar de comer. Foi ele que limpou o prato. Hoje, quatro dias depois da primeira, vai na terceira caracolada. E a C. estava ainda mais gira do que ontem.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Girl wins

Pequenito e escondido, o Bar do T. passa despercebido em Portimão, mas, uma vez encontrado, faz por merecer estar associado à terra do tudo ou nada. À falta de oferta nocturna na cidade para um público mais exigente, o bar do T. é uma alternativa que não desilude dentro dos padrões do típico bar de "bifes". Tem karaoke e uma sala com internet e snooker. Nas paredes há plasmas onde geralmente passam DVDs de música que variam entre o interessante (Live Aid'85) e o azeite suportável do Robbie-tenham-pena-de-mim-Williams em Knebworth, 2003. Os clientes são maioritariamente estrangeiros, de férias, acomodados nos hotéis das redondezas, ou gente da terra como o Vidaul, que é agricultor e não sei ao certo se o nome dele se escreve assim, Vidaul, como o estou a fazer. À chegada ao bar, o meu irmão e eu vimo-lo rodeado de estrangeiras de meia idade, muito rosadas, muito gordas (fish and chips, fish and chips, fish and chips), na maioria casadas mas sem os maridos por perto - estes começam a beber mal acordam e à noite já não se aguentam de pé, deixando as mulheres ao abandono. Durante uma partida de snooker o meu irmão dirigiu-se ao Vidaul e perguntou-lhe se teria albicoques (damascos) no carro para vender. Prevenido, o agricultor sorriu, foi e veio em menos de pouco e o negócio fechou-se: quatro euros para ele e um saco a pingar albicoques para nós. Na verdade, por muito boa vontade que tenha, o Vidaul não se safa com as estrangeiras, não como o T., pelo menos. O T. é um bom anfitrião para um bar pequeno como aquele. De vez em quando enfeita-se com chapéus, está quase sempre bem disposto e nunca deixa de ficar bêbado. A barriga generosa não chega a enganar: o homem parece ter (e tem) a força de dois cavalos. É também fanático-religioso pelo Sporting Clube de Portugal, o que só lhe fica bem.

Numa noite recente havia duas intermináveis estrangeiras, irmãs, que lhe queriam fazer a folha, mas como uma queria mais do que a outra ficou decidido por aí quem teria a primazia. Aos ouvidos do T., bem como à restante clientela, chegou o número do quarto em voz alta, "Five O'Eight!", ao que o T. respondia, expondo os dentes desalinhados, em jeito de promessa, "Knock-knock, room service!", e a estrangeira logo se derreteu num combinado de risinhos histéricos e soluços sem que eu percebesse se o marido dela, já num hipotético sétimo sono, presumivelmente no 508, também faria parte da equação.

Se há coisa que se pode dizer dos estrangeiros que andam pelo Algarve de férias é que bebem muito, e uma das intermináveis irmãs, a mais motivada, bebeu tanto que, já sem conseguir abrir os olhos, subiu ao 508 antes do fecho do bar. O T. prometeu-lhe que iria ter com ela assim que pudesse, mas de repente todos os ventos o empurravam para a irmã, que tinha ficado por ali. Todos os ventos, menos o de uma rapariga portuguesa com um corte de cabelo punk, camisa branca aberta até ao terceiro botão e, diz-se, uma boa fama de aviar tudo o que é estrangeiras. No meio daquela confusão, o T. fazia rir uma irmã mas não esquecia a outra, e de tanto querer as duas acabou sozinho.

terça-feira, 29 de maio de 2012

A S. janta a couve do caldo verde

A S. cruzou o Atlântico até aos Açores para cobrir um torneio de golfe, modalidade de que gosta e entende tanto como eu de curling, mas a experiência correu tão bem que um responsável da organização não demorou muito a oferecer-lhe emprego na ilha. Ela adivinhou-se a ordenhar vacas como passatempo e rejeitou amavelmente: "Não sei falar açoriano". Entre escalas, a custo, a S. conseguiu meter os pés em Lisboa e deixou-se raptar por mim algumas horas antes de apanhar o voo de regresso a Nova Iorque, onde reside vai para cinco anos. Há mais de um ano que não vinha cá e a oportunidade de passar em Portugal caiu-lhe no colo sem que ela própria a visse chegar. Mais tarde, já com os lábios cor de vinho e o toque fácil, lamentou não ter tido a oportunidade de se ter reunido com os amigos - a S. deixou por cá uma legião de gente que se importa com ela e só a evoca para dizer bem. Não lhe vão perdoar quando souberem. Quando a fui buscar ao prédio dos pais, à  00h30, apareceu com as botas pretas de biqueira de aço que em tempos levou para os festivais. Confessou-me que não as metia nos pés há 15 anos. "Não tinha mais nada aqui em Lisboa!", acrescentou. Abracei-a e ela pediu-me para arrancarmos logo que possível, já que o pai estava à janela, a ver tudo. Inclinei a cabeça e procurei o vulto. Encontrei coisa nenhuma mas acenei na mesma, de tacha arreganhada. 

Vadiar a um domingo é outra coisa. O recolher não é obrigatório, mas toda a gente o pratica. Ou quase. Chegados ao Cais do Sodré percebemos que apenas um bar estava aberto, concretamente por mais quatro minutos. Pensei em alternativas e lembrei-me do Arte & Manha, no Conde Redondo na Duque de Loulé - espécie de open space das ideias povoado por almas desassossegadas numa zona onde o comércio da carne flui p'ra xuxu. Seguimos para lá e ocupámos uma das mesas grandes. Ali perto estava o António Zambujo a falar com duas miúdas giras e ocasionalmente com um barba branca de meia idade, talvez sem abrigo, que a vida apressou a disfarçar de idoso. O ambiente era acolhedor. Pedimos vinho tinto. Ao segundo copo já o JP Simões andava também pelo espaço, com aquele ar muito curioso sobre tudo de todos nós. Ao mesmo tempo a mãe da S. começou a enviar SMS sublinhando a irresponsabilidade da filha por se deixar levar por "homens da vida" como eu. Ríamo-nos muito e picávamos a mãe da S. para ver que outras pérolas dali sairíam. Em nosso redor havia cada vez mais gente. Às três da madrugada já o bar estava cheio. Um rapper anónimo de perna engessada coxeou até ao palco e improvisou ao microfone. Seguiu-se o DJ, que revelou um jeitinho tremendo para medir o ambiente e manipulá-lo. O melhor do soul e do hip-hop, delícia. Dançava-se e bebia-se em bom ritmo. Um grupo de americanos recém-chegado fazia barulho acima da média. Um português pediu a duas das americanas para se beijarem e elas fizeram-lhe a vontade. Demoradamente. Daquele grupo saltou outra americana para a pista de dança. Com gosto ouviu a cantiga do bandido entoada por um rapaz que a impressionou pelo gingar de ancas. Percebi que ela mataria por amor. O barba branca vagueava pelo bar a alta velocidade e intervinha com autoridade nos assuntos alheios. Eu ouvia atentamente a S., que naquela noite voltou a fumar, quatro meses depois do último cigarro. Ainda lhe fiz cara feia mas ela prevaleceu, hábito que se aplica a outras coisas, caso da alimentação. Naquela noite ela tinha jantado a couve do caldo verde - "não gosto do caldo" - e "uma salada muito boa, só com alface, mas com a quantidade certa". Ainda pedi "frango à Arte & Manha", que é o mesmo que dizer "Frito que dói, Foda-se", a ver se ela mordia uma coxa, mas a S. não vai por aí. O que não deixou de fazer foi encher a cara de vinho e, claro, fiz-lhe companhia. A mãe da  S. aparecia de quando em vez no telemóvel em modo letras. Perguntava se já não era suficientemente tarde para a filha estar na companhia de quem "não vai longe por viver na noite". A mãe da S. é um espectáculo. Recordámos o que nos une e fizemos planos. Lembrei-lhe o quanto a admirava enquanto oráculo. A S. fala de coisas que estão anos à frente de acontecerem. O que ela diz, escreve-se agora para compreender depois. Deve ter sido a S. que pela primeira vez classificou o Wes Anderson de génio, ela que sempre preferiu filmes de comédia muito ao contrário da grande manada dita 'alternativa', a quem chamo de 'prioritária'. Hoje toda a gente fala do Wes Anderson, mas a S. viu primeiro. Ainda havia a esperança de que ela conseguisse adiar o voo. Nesse cenário, estava em discussão a hipótese de repetir a desculpa da última vez, quando ligou para o trabalho, em Nova Iorque, a dizer que tinha de ficar em Portugal mais um dia porque tinha apanhado muito sol.

Já com a noite branca e passarinhos a cumprimentar vadios e vespertinos, desviei-me de um grande monte de merda que pontificava na calçada antes de rodar a chave na fechadura do prédio. Entrei, com jeitinho, e ao papar degraus rumo à minha porta levei as mãos ao nariz, em concha. Puxei todo o ar que pude e confirmei: o cheiro ainda estava lá. O de sempre.

domingo, 27 de maio de 2012

"Só queres saber de livros e poesia!"

O N. tem várias características boas, mas nutro um especial carinho pela capacidade de dançar como se estivesse a aviar uma moça ao pé coxinho e, mais importante, de dizer quase sempre o que pensa, a menos que se tenha de expressar num idioma que não o português. Aí retrai o discurso, não diz coisa. No máximo sai-lhe uma ou outra mentirinha, coisa hormonal, sem maldade. No dicionário do N., por exemplo, 'casaco' é sinónimo de 'empecilho' para um homem, ainda que em noites frescas. Pele tapada abaixo do cotovelo é para meninos, defende o N, dono de um pequeno ginásio em casa.

E foi no português muito próprio dele, em que faltam pernas aos bois para acompanhar a carroça, que ontem me explicou ser uma seca sair comigo. Acusa o N.: "Só queres saber de livros e poesia!". Senti-me um pouco incomodado, confesso. Não sei o que o levou a esquecer-se de mencionar o Sporting. E vinho. E orégãos. E mulheres bonitas a tentar recuperar o ar. E meter a cabeça do lado de fora da janela do carro para levar com o vento em cheio na tromba quando regresso a casa de noitadas em que me desorganizo com copos. Ontem fui de facto apanhado em flagrante delito: levei-o, juntamente com outro amigo nosso de infância, o M., a beber cerveja e ouvir Smiths no bar do Miradouro de São Pedro de Alcântara. Sentado, agarrado ao i-phone, onde começava a meter-se com uma miúda que não conhecia, via Facebook, o N. teve resposta na ponta da língua ao ser por mim confrontado com a ampla probabilidade de arder no inferno por estar a ignorar a melhor vista sobre Lisboa. "Vês, cultura!!"

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Tudo no seu devido lugar

A primeira coisa que fiz aos 29 anos foi, claro, perder o telemóvel. Diz muito de uma pessoa, isto que acabei de escrever. Há muitas razões para se perder o telemóvel. ‘Por tudo’ e ‘por nada’ são as minhas favoritas. Não necessariamente por esta ordem.
 
Gosto especialmente de perder telemóveis em taxis, e ter a exacta noção disso faz com que, hoje em dia, tenha desenvolvido um pequeno pânico quando faço sinal a um fogareiro e obtenho o assentimento para lhe invadir o Mercedes. Acreditem quando vos minto que há perigos à minha espera ali dentro. “Fala com o taxista, diz umas piadas, manda o governo à merda – ‘isto ‘tá mal’ -, mas, pá, não tires o telemóvel do bolso!” Claro que tudo é inútil. Não deixa de ter piada esta novíssima perda. Nas últimas semanas a minha família encheu-me os ouvidos para comprar um telemóvel novo e eu não tive negas a medir: “Esqueçam lá isso, gastar dinheiro por gastar? O que tenho chega bem”. Assim se prova, por a mais b, que os anos passam e sempre era verdade aquilo de que deves fazer o que os teus pais dizem.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Castelos na areia

O conde de Ségur e sua condessa tinham menos dinheiro para gastar do que seria de supor, dada a respectiva condição, de modo que se entretinham a fazer filhos, só parando ao oitavo. Foi quando deu descanso ao útero que a condessa, conhecedora de literatura para crianças, começou a contar histórias aos filhos, e depois aos netos, e somava 58 anos de idade quando assinou o seu primeiro conto, ainda a tempo de se tornar numa das referências mundiais da literatura infantil, como decerto a M. concordará.

As férias de Verão da M. eram uma animação. Ao contrário das amigas de Lisboa, ela passeava com frequência, frequentemente até Ferragudo, terra da mãe. A M. era uma miúda que dava pouco trabalho aos pais e, nessas viagens até ao Algarve, sentada no banco de trás, dividia o tempo de nariz colado ao vidro a antecipar os castelos de areia que iria construir na praia dos Caneiros ou recostada a ler “As meninas exemplares” da condessa de Ségur.

As meninas exemplares eram a Camila e a Madalena, filhas da senhora de Fleurville e, como o nome indica, nada tinham de maldade. Eram bondosas e meigas e nunca erravam a um ponto que não pudesse ser corrigido. Na verdade, quando saltavam bem cedo da cama era para salvar o mundo. Em casa ajudavam a mãe a limpar o pó, a lavar roupa e loiça, a pôr e tirar a mesa, a varrer o cocó seco de pássaro do quintal e ainda acordavam o pai para almoçar. Na escola sentavam-se sempre na primeira fila e acenavam com as melhoras notas da turma. Os professores adoravam-nas como, aliás, a restante população mundial, incluindo a M., que queria ser perfeita como elas e desse modo estar habilitada a salvar o mundo.

Um dia, à saída da escola, a M. encontrou um senhor estatelado no passeio, a dormir. A M. aprendera com as meninas exemplares que as crianças não devem falar com estranhos, mas ficou preocupada quando percebeu que o senhor em causa tinha um aspecto distinto, pois vestia de fato, e nunca lhe tinham dito ser normal que os senhores de fato dormissem na rua.

Hesitou mas decidiu aproximar-se porque naquele dia ainda não tinha salvo o mundo. Mais de perto, enquanto reparava que o fato estava maltratado por traças, viu-se forçada a tapar o nariz: do senhor emanava um cheiro intenso cuja origem desconhecia. “Deve ser veneno!”, pensou. Respirando fundo, deu um passo em frente, recuando dois logo depois de lhe tocar num ombro.

O homem acordou, mas a custo, balbuciando algo imperceptível sem olhar a M. nos olhos. A princípio tinha erguido um pouco a cabeça e chegou a olhar em várias direcções, mas nada do que viu lhe pareceu interessar e por isso deixou-se estatelar de novo na calçada.

A M. continuava preocupada. Os senhores de fato que conhecia nunca falhavam a missa ao domingo e esse indicador tornava este homem um bom filho do Senhor. Por outro lado, também ficara a saber pelo exemplo das meninas Camila e Madalena que nunca devemos desistir daquilo que acreditamos ser o Bem, que, como toda a gente sabe, é o contrário do Mal.

Insistiu e desta vez obteve uma reacção concreta.

- “O que queres, pá?” – perguntou o senhor, rude, ainda sem olhar a M. nos olhos e a tresandar ao tal veneno de forma mais intensa.

A M. achou a abordagem muito contra os bons costumes que lhe tinham sido ensinados, mas engoliu em seco, esticou a espinha, juntou os pés, respirou fundo duas vezes, rezou para dentro um pai nosso e meia avé maria e apresentou-se.

- Olá, pensei que estivesse envenenado e vim ajudá-lo.

O senhor coçou a cabeça e levantou-se. Já de pé, rodando sobre si próprio, de costas, espreguiçando-se, denunciou grandes buracos no tecido das calças que deixavam à mostra o traseiro. A M. não pôde deixar de o observar: levou a mão à boca e conteve um risinho nervoso. O homem virou-se e encontrou-a.

- Acertaste, estou mesmo envenenado. E o que eu preciso agora é de um remédio - disse, fitando-a pela primeira vez.

A M. assustou-se com os olhos do senhor, escuros onde costuma haver cor e repletos de raios vermelhos onde por norma tudo é branco. O cheiro era insuportável. Dado o cenário, nomeadamente o estado das calças do senhor, achou por bem oferecer-se para ir buscar o tal remédio. O senhor agradeceu e deu as indicações devidas: o remédio estaria dentro de uma garrafa de vidro sem cor e poderia ser comprado na maioria das lojas, não só em farmácias. A M. acumulava tanta vontade de praticar o Bem que até se ofereceu para pagar a despesa com os trocos que tinha encontrado num bolso das calças do pai, logo após virá-las do avesso para as esfregar no tanque, e que tinha guardado para que não se perdessem. O senhor agradeceu e voltou a cair redondo na calçada, não sem antes soltar um preocupado , “não te percas e volta rápido que este veneno mata!”

A conselho do senhor, a M. entrou à pressa numa dessas lojas que vendia o tal remédio e, mesmo sem altura para se assomar ao balcão de atendimento, colocou-se em bicos de pés, inclinou o pescocinho e fez o pedido a um funcionário que eventualmente estivesse lá para trás, embora a M. não o conseguisse ver. Ouviu, isso sim, muitos e muitos risos, ao fim dos quais se seguiu um breve momento de silêncio. Foi aí que sobre ela apareceu um rosto de homem, ligado ao que, pensou, poderia – ou não – ser um tronco e respectivos membros de homem. O funcionário empoleirava-se do lado de lá do balcão, divertidíssimo com a pergunta da pequena cliente.

- E para quem é esse remédio, menina?

- É para um senhor de fato que está aqui perto estendido num passeio, envenenado! – respondeu a M., levando às rugas de tanto rir a cabeça de homem possivelmente atrelada ao que também seriam tronco e membros de espécie humana.

Ao cair da noite a loja tinha uma luz muito baixa mas pouca gente. O volume da música era mais alto do que o que a M. entendia ser comum. Sentadas ao balcão, em trajes frescos, à espera que a vida acontecesse, Prazeres e Arlete falavam de tudo e de nada.

“Eu não tenho o colesterol alto mas também não tenho juízo!”, observou a menina Prazeres à menina Arlete, ambas de 50 anos de idade para cima segundo boatos nunca confirmados.

A M. não deixou de estranhar que naquela loja houvesse um cheiro muito semelhante àquele que emanava do senhor de fato maltratado pelas traças, mas aquilo que mais a surpreendeu foi ter visto o próprio pai à entrada da loja, de braços cruzados e cara de poucos amigos, enquanto a mãe passava por ele a correr, de olhos aguados para a agarrar e sacudir.

- Onde te meteste, M.?! Estávamos tão preocupados!! Que estás a fazer aqui neste bar depois da escola?! À minha frente já para casa!!

Embora tentasse a todo o custo explicar o sucedido, a M. não foi levada a sério. Ficou de castigo: naquele Verão ficaria sem o balde e a pá com que tanto gostava de erguer castelos nos Caneiros.

Nesse dia, depois de jantar, recolheu ao quarto mais cedo do que era habitual e deitou logo a cabeça na almofada. Achava-se incompreendida, sobretudo quando pensava nas meninas exemplares. “Elas teriam o feito o mesmo que eu – teriam ajudado o senhor envenenado!”, pensou, ranhosa.

Para afastar a tristeza e convocar o sono puxou d’As meninas exemplares, e foi enquanto folheava as páginas escritas pela condessa de Ségur que a M. se apercebeu pela primeira vez que não conhecia ninguém tão perfeito como as irmãs Camila e Madalena. Acto contínuo, deixou-se tomar por uma pergunta antes de fechar os olhos. "Afinal de contas quem é normal – eu ou elas?"

quinta-feira, 22 de março de 2012

Abrindo a pestana

As mulheres do Cais do Sodré querem atenção. Sabem que sabes que estão a olhar para ti. As mulheres do Cais do Sodré não temem a rejeição. “Mais perdes, palerma”. As mulheres do Cais do Sodré deixam-se ver sobretudo durante a semana, quando podem ser mais como são. Põem-se bonitas naquele tipo de desleixo vaidoso. Entram em calças pretas impossíveis de tão justas e erguem-se quase meio palmo em botas-ameaço. Raramente têm frio. Em última análise sentem-se sós e não podiam estar menos interessadas no desconcerto dos Ena Pá 2000 versão Homer Simpson sem cerveja que está a acontecer na Pensão Amor, onde entraram sem dar conta disso. Estão ali porque gostam do nome e há um fresco falso por cima do balcão do bar que compreendem ser mais belo do que tudo o que sempre lhes foi dado a conhecer por verdadeiro. As mulheres do Cais do Sodré rodopiam por cima dos esguichos de cerveja em copo de plástico amolgado que vão besuntando a pista de dança de cima do Roterdão ao mesmo tempo que passa o Eyes Wide Shut sobre a cabine do DJ, que por sua vez devora prosa profana em dimensões bíblicas no Dia Mundial da Poesia, entre Kinks e Strokes. As mulheres do Cais do Sodré gostam de te ver acompanhado e certificam-se de que te apercebes disso. Tu e quem te acompanha. Despedem-se com covas no rosto e promessas de amanhã.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Inverno



Na intimidade não há dentes a bater. Só o calor é difícil de suportar.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

As bebidas radicais jogam bem com a digestão e outras coisas mais



Ela: Já estou muito bêbada. Se continuar assim não respondo por mim.

Ele: Vamos ali ao balcão - rodada à minha conta.

sábado, 14 de agosto de 2010

eu, tu


procurar onde despejámos tudo o que não foi dito.

a minha melhor mentira, todas as vezes, para ti.

levar a sério o nosso parque de diversões.

nunca ser tarde, nunca ser tarde demais.

o meu melhor sorriso do melhor ângulo.

querer que me leias até nos apanhares.

ser eu menos vezes (um preço barato).

saberes-te beijada quando te olho.

passeares cá dentro, descalça.

tudo o que te disse sem dizer.

o peito a cavalgar sem rédeas.

levar em cheio com a tua luz.

adorar que adores a tua vida.

a tua gigantesca liberdade.

desesperar por te entreter.

perto mas longe mas perto.

demorar-me no teu retrato.

fazer-te poucas perguntas.

preferir que fosses outra.

completar as tuas frases.

o meu melhor número.

chamar-te pelo nome.

rir até poder chorar.

ver tudo mais claro.

sangrar isto tudo.

poder ser foleiro.

dizer-te que sim.

esta avalancha.

fodass.