segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Aqui oficial esmerado: quer fumar, vá para outro lado

Momento solene: sr. Luís a colar-me as botas

Paredes meias com uma drogaria e de frente para uma loja de artigos de equitação é possível encontrar a oficina do sr. Luís. Ao contrário de outros sapateiros de Portimão, mais folgados, o sr. Luís está sempre disposto a cozer, apertar ou endireitar, serviços que não compensam o trabalho que dão, mas, também por isso, segundo se diz, até de Monchique o procuram.

A oficina é afunilada e permite-lhe movimentar-se na medida de três passos para a frente e dois para os lados. Nós, os clientes, podemos rodar sobre nós próprios. O resto será pisar clientes. Sabe quem já lá foi que à terceira pessoa da fila já caberá um dos pés na rua, e, nos dias de maior procura, os mais desprotegidos da sociedade aproximam-se da entrada sob a ilusão de que estará alguém por ali a oferecer dinheiro - não encontram outra explicação para tanta gente junta.

A decoração do espaço reflecte o carácter interessado do sr. Luís. A cercar pilhas de sapatos, leis de bom senso dominam as paredes laterais; a parede dos fundos é controlada pelo olhar fixo da loira do mês de Dezembro; um casal de periquitos assobia à entrada.


O Sr. Luís vê num povo ignorante um povo inútil. É um comunicador e um agitador. Tão certo será vê-lo aceitar todo o tipo de encomendas como a não ter tempo de as aviar no prazo devido, tal o tempo que lhe levam os insistentes apelos à consciência colectiva, contra o poder da sociedade conservadora. Interessou-se por mim quando lhe mostrei as minhas botas e respectivas mazelas. Acrescentei que era jornalista. Sugeriu-me que pensasse mais no associativismo, pois só assim poderia a imprensa resistir ao patronato corrompido, e daí saltou para a valorização de uma boa leitura destes tempos com base na Revolução Francesa. Já o sr. Luís acabava com o Estado Novo quando uma cliente que esperava há três dias por um par de botas lhe perguntou se estaria a ser gozada por ele, tal o atraso na entrega. Foi secundada por um senhor até aqui pacientemente sentado à entrada.

"Ó homem deixe lá o Salazar e arranje as botas!", pediu o senhor sentado, que depressa se virou para mim e aplicou-me um safanão de cotovelo. "Não vê, não vê que ele fala com os dedos?".

A cliente insistia em pedir explicações ao sr. Luís pela demora, o que deixou o sapateiro menos animado para discorrer sobre a Revolução Francesa do que para cozer e endireitar. A reprimenda surtiu efeito e em menos de nada tinha as minhas botas de volta, como novas. O custo de tanto cortar, apertar e colar: 4,5 euros.

Despedi-me com afecto, às cabeçadas com a minha consciência colectiva.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

M

Disse-lhe ao telefone que o plano era invadir uma festa de inauguração de casa para a qual não tínhamos sido convidados. Primeiro hesitou; depois pediu-me quinze minutos. Teve vinte. Apanhámo-la à porta de casa, já depois de termos ido a uma mercearia de indianos comprar litrosas e um queijo duro, o nosso contributo. Em vinte minutos percebemos que se pôs mais bonita do que muitas mulheres conseguirão em toda a vida.

SCP



Gostava que estivesses aqui. Não estás.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Parabéns à Mãe Coelho!


Dá-se o caso de que a mais bela das mulheres que Angola viu nascer tornou-se mais tarde minha mãe. Não tem lá muito juízo, a Fatinha, mas, aqui entre nós, bem sabemos como isso é pouco importante quando se tem um coração gigante como o dela. A Mãe Coelho é uma Força da Natureza. Fosse eu personagem de banda desenhada e seria o Gastão - é muita sorte junta.

sábado, 17 de novembro de 2012

Lisboa, oito da manhã

Ao grito de comando (portas do comboio a abrirem), do outro lado da linha, uma massa humana avançava, muda, para a rua. Ouvia-se o som incoerente de passos arrastados, trabalhadores com o desconsolo de um exército em retirada. Era vê-los, curvados, acompanhando o movimento dos próprios pés, talvez não quisessem fitar o horizonte, onde o futuro fica mais nítido - a recompensa pelo trabalho tornou-se incerta e frequentemente insuficiente. Depois deles, outros. Mudos. Muitos. De onde os via pareciam-me os mesmos, mas não tinha como provar a coincidência. Cheguei a casa a compreender que nunca tinha visto junta tanta gente desencantada.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Cinema (também) é música

Muito do que gostamos num filme se deve ao poder das músicas que aqui e ali caem quando devem cair, como frutos maduros, é o imenso poder da relação som-imagem a revelar-se, poder esse apenas superado pelo admirável mundo da nossa imaginação. Um violino, uma guitarra na cena certa - eis potencialmente especial um filme vulgar. (Ainda não consegui perceber se o contrário também é lei).

Claro que há excepções, Sherlock: os filmes sem música. Mas a primeira recordação que guardo de muitos dos filmes que tiveram em mim um impacto avassalador é a da respectiva banda sonora, quase sempre apta a deixar um algarvio como eu num estado emocional constrangedor.

O piano do "Piano", facilmente um dos meus filmes top-10, não tem comparação. Venha quem vier. É lancinante cada tecla batida pelo Michael Nyman, tudo a obedecer a um título perfeito - 'The heart asks pleasure first'. SIM. 


A beleza melancólica do cinema do Wong kar-wai atinge o seu máximo esplendor neste 'In The Mood for Love', especialmente nesta cena, com este violino a pingar de cio.


O tema de Lara, que passa 578.938 vezes no maravilhoso Doutor Jivago.


Closer, cena de entrada irresistível num filme com alguns dos melhores-piores diálogos na história das relações ficcionadas, um pedaço de mau caminho no qual, por má sorte, viciei-me, que faz mal à saúde, que não aconselho a ninguém - somos assim tão maus uns com os outros?


Não aceito, não papo grupos sobre o Gran Torino - a grandeza do filme tem tudo a ver com a música-título ao piano do Jamie Cullum. Vá, e com aquele final aterrador.


Último, mas não menos importante, uma proposta que vocês não podem recusar.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

A Vingança

Juntas desde a infância
Brincavam com constância,
Viviam na mesma rua;

Eram mais os pedantes, 
Atrevidos, bem falantes,
Que à morena queriam nua;

Dizia a loira que a amava,
Mas no fundo invejava
Tanto ver ela sorrir;

Dela queria a alegria,
as formas, a sabedoria
E seu homem p'ra despir;

Certo dia tal dilema,
Transformou-se em problema:
A loira p'la madrugada...

Seduziu-lhe o parceiro,
Com preceito feiticeiro
E beijou-o, descarada.

Estranhamente, a morena,
Feita estrela de cinema,
Conservou a confiança;

Deixou arrastar o tempo,
Renovou o seu alento  
E preparou a vingança;

Tal e qual ela queria,
Ao raiar de um novo dia,
Num bar tudo aconteceu;

Afastou o parceiro,
Percorreu o bar inteiro,
Lambuzou quem entendeu.

E falando da amiga:
Morena, fera ferida,
Soube bem o que fazer;

P'ra casa levou atado,
Da loira, o ex-namorado,
E ganiram de prazer.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

O patrão é amigo

Saio do trabalho e passo pela cervejaria da ordem antes de ir jantar a casa. Outros tempos - ao patrão faz-lhe quase tanta falta um bom caixa como a companhia após um longo dia de trabalho, mas é amigo e percebe o porquê de me ver cada vez menos, eu e outros. Sento-me ao balcão e peço uma cerveja. A casa está composta, observo, óptimo. Abro o jornal e troco ideias com a filha do patrão ao mesmo tempo que um cliente da casa que tem sempre mais vontade de falar do que coisas para dizer aborda os problemas do país. Oiço-o elogiar um antigo primeiro-ministro de Portugal (Santana Lopes), maldizer aqueles que não gostam da atual (Angela Merkel) e, já abandonado pelo casal que com ele jantara, declarar que a culpa disto tudo é do 25 de Abril. "Não devíamos ter entregue as colónias. Agora anda por aí a filha do Eduardo dos Santos a construir coisas, não é? Se fosse eu metia os pretos todos num monte e regav..."

Interrompo-o: "Homem, você só diz disparates."

O cliente da casa abre os olhos, chocado. "Calado, eu? Estou a dizer alguma mentira? Que disse eu de mal?", questiona-me, inquieto. Fito-o um par de segundos: percebo a inutilidade de lhe responder. Reabro o jornal. Ignoro-o. O cliente da casa amua e vira-me as costas. Finge dar atenção ao futebol na televisão. Há pessoas a sair da cervejaria. O patrão faz de patrão e entra na conversa. "Sabem uma coisa boa que o anterior governo fez? Desceu o 115 para 112." O ambiente está mais sereno, menos pela piada do que pelo saída de pessoas. O cliente da casa vira-se para mim feito cão sem dono e insiste: "Diga lá, sr. Rui, que disse eu de errado?"

Continuo a ignorá-lo, mas o homem não desarma, parece ter perdido a memória. "Diga lá que agora quero saber!"

Dou-lhe uma segunda hipótese. "Que há de ser? Aquilo de juntar pessoas e regá-las, acha que isso é coisa que se diga?"

Responde-me: "Ah, isso?! Mas é alguma mentira? Por mim era tudo junto, guineenses, cabo-verdianos e..." - e nada, que não lhe deixei acabar. Disse-lhe: "Oiça, não temos nada a falar, não quero saber do que você tem para dizer." Paguei a cerveja, "boa noite" para quem quisesse ouvir e saí atrás do último grupo de pessoas que deixava a cervejaria. 

O cliente da casa ficou sozinho. 
Lamento pelo patrão, mas ele percebe. É amigo.

domingo, 11 de novembro de 2012

Nunca tivemos Paris

Penso nas tuas pernas todos os dias. Há pouco vi-as na empregada de limpeza lá de casa e só não lhe pedi que ficasse para jantar porque nunca tiveste bigode. Lembras-te daquele corredor escuro? Nunca fomos tanto como naquela fuga de mãos dadas e em bicos de pés até à casa de banho, nus, com vontamedo de sermos vistos. Ter-te-ia falado no recorde do mundo da visita ao Louvre se soubesses quem é o Godard, claro, montada nessas coxas de cinema serias menina para o bater. Era da maneira que teríamos Paris.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Obama


Muita coisa mudou em quatro anos. Nas fotografias e nos discursos, o Obama continua a ser o presidente que a maioria das pessoas que conheço gostaria de ter, mas perdeu a aura messiânica, foi despromovido à condição de comum mortal. É uma vitória diferente, esta, se comparada com a maravilhosa histeria colectiva que nos contagiou em 2008, que nos fez pensar no Obama como alguém que iria salvar o mundo. Tenho quase a certeza que ele julgava ter nas mãos o poder de fazer o que pensa - e acredito que pensa da forma certa. Mas não é assim que a política funciona, sobretudo nos Estados Unidos. Terá nascido no país errado. Seja como for, não tenhamos dúvidas: um democrata afro-americano que no seu primeiro mandato não invade países para "instaurar democracias" e consegue ser reeleito presidente dos Estados Unidos é coisa do além. Vou adormecer a pensar que nos próximos quatro anos estaremos num mundo menos bélico, menos mau. Vivo melhor com isso.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Vamos só ali casar e já se come o leitão

"... na saúde, na doença e nos petiscos"

Troco, sem pestanejar, uma noitada com a malta por um almoço de família em Quatrim do Norte, depois de Olhão - desde que ficou tácito ser eu o condutor. Vasculhando lá atrás, não consigo encontrar o momento em que virou lei ser eu o condutor dos Coelhos. Não sei se a coisa partiu de mim - talvez me estivesse, algures, a meter em bicos de pés - ou se se tratou de um golpe de psicologia invertida aplicado pelos meus pais, a bem de hábitos mais serenos. Certo é que a coisa pegou. Sinto-me como o Alex da Laranja Mecânica caso o tratamento Ludovico o tivesse iluminado, oh my droogs.

Havia a promessa de um leitão na casa dos meus tios, em Quatrim do Norte, depois de Olhão, e deixámos Portimão bem cedo, antes das 11:30, desfalcados do meu irmão - motivos de gestão. Até há um ano a viagem fazia-se em três quartos de hora pela auto-estrada, mas desde então que, por motivos anti-roubo e alguma adrenalina, o trajecto se faz pela rua EN125. Muita chuva, 17 mil 890 povoações e quase hora e meia depois lá chegámos a casa dos meus tios, o nosso destino - ou assim pensávamos: todo janota, camisa para dentro das calças escuras, sapatos, seco como poucas vezes, o meu tio ordenou-me que não estacionasse ali em casa, de onde saía muita gente, mas desse meia volta e seguisse-o. O destino seria outro. Logo apareceu a minha tia, sorrisão, casaco preto e camisa branca. Os dois putos deles, meus primos, traziam roupa de quem vai para a escola. 

Fiquei confuso mas projectei uma cerimónia de tomada de posse do meu tio como presidente da Junta de Moncarapacho, ele que é vice e um dia substituirá o presidente septuagenário que dança com todas as meninas da região. Sei lá, mesas com fritos e um discurso do meu tio, redondo e a terminar com o indicador e o médio em V.

Mas quem arriscou um entendimento bem audível sobre o imediato foi a minha mãe, que à falta de melhor informação descobre tudo por tentativa-erro. Pior que estragada desde que o irmão lhe pediu para aparecer às 12:45, sem falta, pois haveria lugar a uma "surpresa", ela fez o que sempre faz e chegou à verdade logo ali depois de dias a equacionar hipóteses. Sim, os meus tios iam casar-se pela igreja, 23 anos depois de o terem feito pelo civil.

A minha avó Vivi ficou satisfeita com a novidade, mas o que a deixou mesmo em estado de graça foi ter visto a caravana subir a rampa que dá acesso à igreja de São Sebastião dos Matinhos, onde fez a primeira comunhão há mais tempo do que lhe é possível lembrar. Pelas contas dela, ia para 60 anos desde a última vez que ali tinha estado - estatística não confirmada pela minha mãe, que a viu naquela igreja em tempos bem mais recentes, garantiu-me. Em todo o caso a Vivi é mulher de acreditar no que sente e mal entrou na igreja dirigiu-se ao altar para tomar conta daquilo tudo, agarrando-se aos beijos às santinhas, que receberam um banho de saudade. Já pronto para casar os meus tios com o preceito superior, o padre esperava, pacientemente, que a minha avó lhe desse o lugar. 

Subi ao altar e trouxe-a pela mão.

O casamento foi espectacular. Apresentei-me de calças de ganga, botas, t-shirt dos The Who e barba de festival e em coisa de meia hora já o prior nos mandava de volta a casa do meu tio, onde devorámos a roupinha do porco novo sem piedade. Como manda a tradição, acompanhou-se o leitão com vinho tinto espumante, fresco - a digestão agradece. A Vivi só se sentou depois de andar de canadianas a percorrer os cantos da casa na qual se tornou gente. Uma alegria infinitamente triste tomou conta dela. "Ninguém imagina o que eu trabalhei aqui!", disse, como costuma dizer, mas também ninguém conseguiria adivinhar o quanto ela comeu e bebeu à mesa. O petisco foi uma festa - tanta confusão devia fazer eco do outro lado da fronteira. Brindámos ao segundo casamento dos meus tios e à saúde de todos. O meu pai ficava com o nariz mais vermelho a cada minuto. A minha mãe embebedou-se com metade de meio copo de vinho. Apareceram amigas da minha tia, entusiastas do Tony Carreira. O estardalhaço terá atingido níveis sísmicos. Os putos dos meus tios, um deles já na Universidade, riam-se dos estranhos comportamentos dos adultos depois de terem eles sido gozados quando leram passagens da bíblia com jeitinho de camionistas. O pai da minha tia falou-me nos méritos de um senhor que vende medronho do bom a um preço do melhor e a mãe dela aturava a minha avó a custo - sentada ao lado dela, a Vivi fazia tudo menos calar-se. "Vocês estão a gozar comigo porque eu tenho o-i-t-e-n-t-a e c-i-n-c-o a-n-o-s, mas tomara que cheguem à minha idade!"

O leitão, acompanhado de broa e salada, estava uma delícia. Depois houve bolos de chocolate, medronho, vinho do porto e café. 

No regresso, já noite precoce, a Vivi perguntou-me: "Portei-me bem, filho?" Respondi: "Foste a melhor, Vivi!"

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Daqui a pouco...




A estrada e eu, de novo, sós, e papar quilómetros para me misturar com o que sou, ou fui, gente que se dá, exagerada, de coração rápido. Estar onde devo.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Podes Ser

A miúda de leste, infinitamente feliz desde que empurra um carrinho de bebé, loira, bem sardenta, peito para sobrenutrir dez filhos saliente num corpo de mãos ao barro, por mim passou bonita e vagarosa como um acorde de harpa. Contou, deve ter contado, um, dois, três e virou-se meia fracção antes do momento certo, o do desencontro - percebi, percebeu, sorri(mos).

Um idoso que apressadamente ajeitou os três fios de cabelo à janela do metro logo que a seu lado viu sentar metro e meio de mulher, corpo, alma e adereços anos 20 a evocar o tempo de outras senhoras, o seu tempo, e finalmente digno de a observar sem que ela se sentisse observada por ali ficou em permanente observatório, observei.

A moça dos olhos adormecidos, por quem os adormeceu já esquecidos.

Tu,
Eu.
Nós.

É.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

uis e ais

Ah!, o amor!,
oh!, eterna juventude!
Nas trincheiras dos lençóis
Como cresce, amiúde,

Como toma por beleza,
sem temer que um dia mude
com disfarce de tristeza
tão sincera plenitude.

Manda à fava as ideias
que entende como falsas
de ter algo de nobreza
não meter a mão nas calças,

Não ser coisa de princesa
gritar "uis" e gozar "ais!"
"pobre língua portuguesa
nunca, nunca, nunca mais!"

Ah!, o amor!
essa besta amuada
de um banquete a quatro pernas
não bate ela em retirada,

Desinventa a tristeza
E não vai querer saber
Mente a gosto, com firmeza:
"perdoei-te, vamos fuugir".


sexta-feira, 19 de outubro de 2012

O que não teríamos dado por um amor assim?


No livro Memória das Minhas Putas Tristes, de Gabriel Garcia Márquez, um jornalista que nunca se tinha deitado como uma mulher sem lhe pagar reencontra-se com a adolescente virgem com que se presenteara no dia do seus 90 anos. Nessa noite encontrou-a adormecida, cansada de cozer botões durante o dia. Estava arranjada, mas sem chegar ao ponto de não se lhe reconhecer, naquele momento, o cúmulo da inocência. "El Sabio" não a chegou a acordar, mas, a caminho do século de vida, descobria ali o amor. Quando a voltou a procurar ficou estarrecido com a nova imagem - as pestanas postiças, o tintilar das jóias que lhe cobriam o corpinho, as sapatilhas de veludo, o intenso fedor a perfume barato "que não tinha nada que ver com o amor". O jornalista adivinhou que ela já tivesse deixado de receber clientes a dormir, ou, pelo menos, que estes não a acordassem, e teve um ataque de fúria que destruiu o quarto do prostíbulo. Dona da casa, na porta, em camisa de dormir, Rosa Cabarcas exclamou: "Meu Deus! O que não teria eu dado por um amor como este!"

O mesmo não pode dizer o A., que já o tem, e bem o pode agradecer à sua Maria da Felicidade (MF), como o mundo dela a conhece. Não que, tanto quanto contou a este Castelo, a MF tenha espatifado copos, lâmpadas e jarras contra a parede, como El Sabio fez, louco de ciúme. Não: nesta história as paredes serão bem tratadas, o amor prevalece e só o plágio fica mal na fotografia. 

No final do ano passado as coisas não sorriam à MF. "Queria chegar até ele. Nessa altura tinha-me dado para trás porque achava que a nossa relação não teria futuro - porque tinha um passado muito presente na vida dele e por outros motivos que se calhar só ele saberá explicar."

Muito boa gente teria desistido, entregando-se às más energias, mas a MF sentia que o sentimento era mútuo: jogou esse destino à fava e começou a moldar o dela. Lembrou-se do seu desbloqueador de conversa favorito, "Sabes o que me apetece? Ser feliz", e associou-o uma conversa com o A. - este, questionado sobre o que queria da vida, respondeu, "Eu quero é ser feliz".

A MF percebia de street art, cortesia do próprio A., e uma coisa levou a outra - à criação de um stencil, concretamente. "Em dois dias tinha o stencil cortado. Fiz uma prova em casa. Ao terceiro dia fui pela primeira vez para a rua. De noite. E fiz o primeiro na rua dele, claro, para que o pudesse ver o mais rápido possível". 

A mensagem "Eu quero é ser feliz", à qual a MF juntou um coração, foi pintando paredes de lugares com histórias comuns - além de ganhar corpo no Facebook e na blogosfera -, mas, raios, o A. teimava em não abrir a pestana e teve de ser a própria MF a contar-lhe tudo. Levou-o ao Adamastor, a pretexto de lhe uma dar prenda de natal, conduziu-o à parede que mereceu o segundo stencil, colocou uma fita de embrulho e disse, "Feliz Natal."

"Não demorou muito até o ter junto a mim, até hoje."


Outra coisa que demorou pouco foi o mediatismo ganho pelo stencil, nomeadamente via Internet. A página do Facebook Fotos de Rua deu-lhe destaque. A MF ficou satisfeita, primeiro, surpreendida, depois, e por fim revoltada: a responsável pela página registou a marca, fez uma parceria com a Culto Decor, uma empresa de decoração, e criou uma linha de vinis decorativos à laia de stencils como o dela. Para uma mulher apaixonada foi difícil relacionar o impulso que conduziu àquela expressão artística e o facto de haver quem ande a lucrar à custa disso. 


Mas tudo ganhou outro tipo de contornos quando ela soube que o estilista Nuno Gama andava a ser aclamado nos media e redes sociais por ter colocado modelos a desfilar na passerelle da Moda Lisboa 2012 com uma t-shirt cujo desenho lhe era especialmente familiar. "Acho que nunca fui tão radical na minha vida" disse, então, Nuno Gama aos jornalistas, não ficando claro se o estilista se referia ao cariz político conferido ao desfile, ao plágio, ou a ambos, bem enroladinhos.

Contactado pela MF, Nuno Gama limitou-se a responder, "como pode verificar a imagem no global nada tem a ver com a sua, nem nunca teve..."

Maria da Felicidade não pretende invocar direitos, mas gostaria que se soubesse que "o stencil tem dono, e não é o senhor Nuno Gama." Importante, mesmo, para a MF, é saber que, pelo A., valeu a pena viver esta história. "Todos os minutos passados com ele valem a pena".

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

À atenção dos metralhas que nos governam, do bibelot de Belém, do estudante de filosofia, de toda essa rapaziada que bebe minis a 40 cêntimos nos bares da Casa do Povo











Rg


Lisboa , 17-10-2012 23:26


"Tenho 30 anos, uma licenciatura, um mestrado, dois filhos. Tenho fome. Ando a comer massa com massa há semanas. Tenho fome. E não consigo dizer a ninguém. Que tenho fome."


(SOS colocado na caixa de comentários desta notícia).

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Sporting Clube de Portugal


Há uma certeza quando se fala no Sporting: a grandeza inscrita em 106 anos de história do nosso símbolo não pode, em momento algum, ser confundida com a pobreza de espírito daqueles que, por  má sorte ou uma qualquer teoria da conspiração, assumiram o poder no clube para se servirem dele, e não o contrário. É fácil olhar para 1995, aquando da criação da SAD, e aí encontrar o ponto de viragem. A conquista no Jamor - a minha primeira -, o Figo, o Balakov, o Amunike, o Iordanov. Os craques da minha infância. Foi ali que tudo começou a ser minado, mas só o soubemos mais tarde, com duas grandiosas bebedeiras pelo meio (2000 e 2002).

Hoje, 17 anos depois, sabemos que não há dinheiro, que até para pagar despesas correntes é uma aflição, mas também sabemos como o fomos gastando enquanto o tínhamos. Sabemos que o passivo era de 30 milhões em 1995 e que hoje é de 400 milhões, com a agravante de que, agora, o clube já não tem património. Sabemos que o nosso presidente fala a verdade quando diz que a escolha do treinador não é uma prioridade, mas depois jogamos as mãos à cabeça quando pensamos que ele próprio já despediu dois em pouco mais de um ano, um deles o homem que levou uma equipa como o Braga a lutar pelo título português (2009/2010) e pela Taça UEFA (2010/2011), de modo que nos reservamos ao direito de questionar - afinal, quem é o incompetente número um?

Será que o Domingos tudo desaprendeu em sete meses? Do Sá nem falo, coitado, fez o pouco que podia.

A resposta é óbvia: claro que o problema maior do clube não é o treinador da equipa de futebol, o tal que "está perfeitamente identificado" mas ninguém sabe dele. Tenho pena do Oceano, o próximo a ser queimado, e pena tenho do que depois dele aparecer, pois voltará a estar desprotegido quando começar a somar desaires. A incompetência é total.

Temo pelo que aí vem. Não conseguimos ganhar um jogo de futebol a ninguém quando se sabe que a participação na Liga dos Campeões 2013/2014, e daí em diante, é uma urgência, literalmente um caso de vida ou morte do clube. Mas, raios, ainda acredito que é possível reerguer isto, lentamente, a partir dessa constância de receitas, a partir da qual o crescimento desportivo será possível. Estou condenado a alimentar-me dessa fé, esse jeito muito próprio de ser sportinguista.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Aviso: esta música pode fazer mal à saúde



"Man needs something he can hold on to. A nine pound hammer or a woman like you."

Quarto escuro




Ah!, quando ela cerra as pálpebras,
e entra a rodopiar naquele quarto escuro,
e tira a coleira,
e estremece com as hipóteses.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

"Goin' for gold!"

Generaliza-se muito, demasiado, e convém dizer que dos bifes são os irlandeses os que menos piada acham a piadas que metam sexo. Vem ao caso que, mal entrei num bar tradicional da Praia da Rocha, o Ireland's Eye, topei um casal de idade sábia sentado por ali; calmos e divertidos, os irlandeses, a observar os bebadozitos. "Paddy The Punk", um algarvio de gema nascido na Irlanda - está por cá a cantar na época alta, que amanhã termina -, histérico do Manchester United (hein?), animava a malta com a sua versão da versão da Amy Winehouse da 'Valerie' e outras, até que apostou num slow, e algum tipo de mérito tenha a minha memória se me lembrar que música era. Não demorou muito até o tal casal de idade sábia abrir a pista de dança. Ali perto, encostado ao balcão, a iniciar o meu Jameson com água natural, fiz-lhes txim-txim aéreo e, não satisfeito, aplaudi-lhes um passo de dança mais nobre. O senhor, que tinha o nariz muito vermelho, abriu a pestana de admiração e admirado continuou o resto da dança, fitando-me amiúde até ao último acorde, com cara de quem vai aprontar. E assim foi: mal a música acabou, aproximou-se e perguntou: "What you havin'?, ao que respondi "oh!, i'm fine - as you can see, sir, thanks!", disse apontando para o meu copo ainda cheio, e ele semi engasgou-se de propósito e já com a voz clara insistiu, "son, what YOU havin'?", e eu respondi, "this sir, this, Jameson with still water!", e ele sacou da nota que o barman pediu - "five, please" -, pagou-me o copo e cumprimentou-me com o brilhozinho nos olhos de quem se despede de um amigo em casa de quem se passou férias.

"Paddy The Punk" estava em forma e contou a anedota dos preservativos olímpicos. O marido foi às compras e trouxe para casa uma caixa. Deu a notícia à mulher, que ficou intrigada.

"What makes them so special?"
"There are three colours", explicou o marido. "Bronze, silver and gold".
"What colour are you gonna wear tonight?", perguntou a mulher, atrevida.
"Gold, of course".
Ela respondeu: "Really? Why don't you wear silver?"
Marido: "Well, it would be nice if you came second for a change."

A noite prosseguiu pelo Ireland's Eye até perto do fecho da casa, pelo menos para nós. Muito antes, o tal casal de sábios irlandeses levantou-se da respectiva mesa e, já perto da porta de saída, o marido deteve-se e gritou, alto e bom som: "goin' for gold!"

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Outubro

Um privilégio, isto de vir a casa por estes dias. Faço praia. Da boa - banhistas demorados, areia-veludo, mar a 21 graus, cá fora 26.  

Acompanho a minha mãe em viagens pelo imenso areal da nossa costa, cinco quilómetros do farol à praia do alemão, ir e vir - dez, portanto, segundo as contas da Maria Barroso, outrora cúmplice de "olá, bom dia!" da minha avó Vivi, tal como o marido Soares. Oiço a minha mãe explicar como deu nas vistas até que o meu pai a puxasse para dançar nas farras do Lobito, às quais ele, furriel do Exército, chegava sempre mais tarde - isto porque fazia o melhor uso de um salvo-conduto que todas as noites o habilitava a frequentar as sessões de cinema das 22:00 à meia noite.

Ontem à noite levaram três mangas da nossa mangueira, de modo que hoje, quando acordei, a primeira coisa que fiz foi recolher da árvore as duas que já estavam maduras. Levei-as para a mesa e, frente a frente com a minha mãe, comemo-las como macacos, mãos e dentes até ao caroço, ocupando os intervalos dos dentes de teimosos fios de fruto e os cantos da boca de sumo natural.

A manga era o despertador do meu pai em África. Pum, pum, pum, caía uma atrás da outra no jardim diante do quarto da casa dele, no Lobito. Estava a manga para o meu pai como a gaivota para mim ou o galo para a Vivi. 

Melhor do que vítimas de carros em segunda fila. (Deveria haver reuniões de terapia para terceiros anónimos).

sábado, 29 de setembro de 2012

Beirut > tanta coisa

Não fez da humanidade uma roda gigante de braço dado e a saltitar, como a Elephant Gun, mas tenho para mim que por bela e intrigante esta é a grande música dos Beirut. O que daqueles metais sai desvenda o segredo com que esta banda nos conquistou: é belo e simples, directo ao coração. E que dizer deste vídeo?

sábado, 22 de setembro de 2012

Dentro do corpo, o corpo sem corpo a ganhar corpo



0 mal do bem que isto faz é fazer bem demais. Eventualmente chegará o último acorde, e com ele o pesado silêncio, a certeza dos limites, primos de tudo o que é finito. 

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Processos defensivos e cenas


Este é o futebol em que olhar para a baliza adversária se tornou secundário. Marcar golos? Isso pode esperar. A cena agora é anular o rival. Estudá-lo à lupa para depois lhe castrarmos as virtudes. Pressionamos aqui, esperamos acolá. Neste futebol ganha o estatuto de herói da bancada aquele (Gelson) que mais correr atrás deles. Se se der o azar de nos calhar a bola, que se vire sozinho quem a tiver - urge meter pouca gente na frente, a bem dos equilíbrios. Não podemos ser apanhados desprevenidos, Deus nos acuda! 

De modo que um 0x0 ao intervalo é coisa para se aceitar sem estrebuchar muito. Temos tempo para ganhar o jogo. Temos também um recorde do mundo por defeito - dispomos de apenas um ponta de lança no plantel inteiro, o qual remata aos 23 anos com potência e técnica típicas de quem tem 15.

Para o Sá, a primeira grande injustiça do Universo é a fome das criancinhas em África, a segunda consiste na barbárie liderada pelo governo sírio contra o próprio povo e a terceira são todos os resultados desportivos do Sporting que não envolvam o confronto com electricistas dinamarqueses, o que me põe a questionar: se estamos "muito, muito fortes", como ele repete no fim de cada desaire, e não marcamos um golo a ninguém que faça do futebol a sua profissão, o que acontecerá no dia em que jogarmos, vá, "de forma não tão apreciável quanto isso"? 

terça-feira, 18 de setembro de 2012

domingo, 16 de setembro de 2012

São as pessoas, estúpido!


Não ignoras quinhentas mil pessoas - números da organização da manif anti-escravidão ontem realizada em Lisboa -, ou duzentas mil, ou o raio que parta. Não ignoras a força da senhora já na idade da ternura, que permanecia à varanda de um prédio a cair de podre da avenida de Berna, ela que batia num tacho como se se batesse pela vida enquanto o povo passava, só interrompendo a luta dela para nos enviar beijinhos, emocionada pela adoração que de todos nós mereceu. Não ignoras, Passos, não ignoras uma manifestação impoluta, de cidadãos comuns, alheia ao intenso fedor a falsidade do jogo político, uma marcha pelas ruas de Lisboa e do restante país que a todos uniu, da esquerda à direita, na luta contra a miséria. Não ignoras, Passos. Vais levar connosco até que aberrações como transferências de riqueza do bolso de trabalhadores que ganham o salário mínimo para o dos patrões se torne num mero devaneio, nunca concretizado, que em tempos mereceu dos cidadãos o maior protesto nacional de que há memória. Estamos vivos.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

"Era tão vaidosa, ela, tão vaidosa..."

Podia-se mais facilmente chegar à conclusão de que afinal a terra é mesmo quadrada, deixando as pessoas de se aventurar a mar aberto com receio de cair no inferno, do que ver a minha tia Mariazinha sair de casa sem se pôr bonita. Antes e depois de nos despedirmos dela, reunimo-nos no quarto onde deu a primeira queda, há coisa de um mês, em casa, entrando no Hospital da Universidade de Coimbra pelo próprio pé sem imaginar que já não sairia dali a respirar. O quarto era imaculado - uma espécie de capelinha branco sagrado pontuada por terços, cruzes e santinhas. Nem uma grama de pó. Encaixados num dos flancos da cabeceira, dezenas de colares com jóias tradicionais tintilavam à lei do toque. "Era tão vaidosa, ela, tão vaidosa...", lembrou a minha Tia Sofia, descrevendo a irmã mais nova, de 81 anos, com um brilhozinho nos olhos. Aos pés da cama, sobre a cómoda principal, num retrato intimista, o triunfo do amor: a Mariazinha encostava o rosto de olhos fechados ao da neta Mónica, a minha prima, no casamento desta - a Mónica que por estes dias tenta derrotar a pior das doenças na força dos trintas e da fé.

Combinei com os meus pais às 11:00, hora em que a minha mãe me surpreendeu ao telefone com voz de poucos amigos - já tinham chegado a Lisboa, vindos de Portimão, e estavam parados ali perto, mas à porta de uma oficina e não da minha casa. Encontrei-os quando a minha mãe já tinha a voz sintonizada no alarme. "Podíamos ter tido um acidente!", foi repetindo, quase em pânico, enquanto o meu pai me tentava explicar, sereno, que se tinha soltado uma peça da parte de baixo do carro já na Ponte Vasco da Gama.

O problema resolveu-se e pouco depois do meio dia já batíamos roda na A1. A boa vontade dos mecânicos, influenciada pelo relato do que nos esperava em Anadia, assim o possibilitou. O plano era, de caminho, ir buscar a Rita, minha prima e neta da Mariazinha, que vive em Vila Franca de Xira. Se tudo corresse pelo melhor estaríamos em Anadia pelas 14:30, bem a tempo de parar para almoçar, chegar, apanhar as flores encomendadas, consolar a família, assistir à missa, aguentar o enterro e amaldiçoar o universo. Por nós esperava a Rita num restaurante com um toldo laranja, ali à saída da auto-estrada. Agora sim, tudo iria correr melhor. Ou não. A poucos quilómetros de chegarmos a Vila Franca de Xira o trânsito parou na A1. Um acidente. Para desespero da minha mãe, que se descontrola com alguma facilidade - a dada altura acusou o meu pai de, no pára-arranca, investir em marcha-atrás -, tivemos de nos aguentar ali no trânsito lento uns 45 minutos. Deu para tudo, até para eu tirar o meu pai do volante, ele que já trazia 300 quilómetros em cima e está cada vez menos habituado a conduzir neste tipo de distâncias. Depois de alguns minutos perdidos a tentar perceber onde estava a Rita, demos com ela e seguimos viagem. Parámos a meio caminho para morder alguma coisa - uma sandes de leitão em Pombal custou-me seis euros - e chegámos a Anadia por volta das 15:30.

Há vários anos que não via aquela parte da minha família, composta por tios e primos que vivem acima do Mondego. Alguns não via há uns três anos; outros há uns seis, desde o casamento da minha prima Mónica, que apareceu de lencinho azul a cobrir-lhe a cabeça, adereço próprio de quem anda a receber um certo tipo de tratamentos. Super-Mulher, nem quando quis orar pela avó na missa de corpo presente ela perdeu o controlo, ainda que estivesse perto disso. Vencerá. 

Fiquei particularmente chocado com a minha tia Cândida, um coração destruído pela morte dos dois filhos em três meses, há sete anos. Vai a caminho dos 90 e já não quer saber. Está "a pele e o osso", como a própria se descreveu quando a abracei. Espera, indefesa, pela senhora de negro. Confesso que só a reconheci quando se me apresentou, como que adivinhando a minha dificuldade em conservar memórias. Na missa de corpo presente, ao lado do Carlitos, o outro filho da Mariazinha, uma senhora que compreendi ser a versão feminina do Chief do "Voando Sobre um Ninho de Cucos" olhou para mim com curiosidade. Desviei a cara como podia ter forçado um espirro ou outra coisa qualquer - não sabia quem ela era. Ou assim julgava. Tratava-se, afinal, da companheira de longa data do Carlitos, a qual, segundo me disse, foi por mim elogiada até ao firmamento quando eu era puto, já que, nas visitas ao Algarve, lá em casa, preparava batatas fritas bem fininhas, como gostava e gosto, ao contrário do que então a minha mãe fazia.

A minha tia estava como devia. Pintada, impecável. "A dormir", observou a minha mãe. Era óbvia de entender e partilhar a comoção generalizada pela perda, tanto pelos contornos que a precipitaram como pelo carácter castiço da Mariazinha. Em Angola fazia sucesso por comer malaguetas inteiras ao lanche. Era também baixinha e muito bonita. Numa sala de estar da casa onde morava com filha, genro e neta mais nova, a Bárbara, em Anadia, havia fotos do casamento dela. Aparece a sair de um carro, de branco, radiante, numa delas, "tal e qual a Elizabeth Taylor" segundo a minha mãe.

Se o 'como' e o 'quando' da morte se discutem, discuti-los-ei, porque a revolta é grande. Ao dar entrada no hospital de Coimbra, a  minha tia fez exames e recebeu ordens para lá ficar. Tinha um coágulo na cabeça e seria operada alguns dias depois. Entretanto foi ficando por uma cadeira de rodas, sozinha. Uma chatice. Quiseram fazer-lhe um curativo na cabeça e ela desviou-se: "Não me estraguem o cabelo!". Claro que a Mariazinha se tinha arranjado antes de ir para o hospital, esse discernimento não lhe faltava, mas já não tinha muita força nas pernas e voltou a cair, agora no hospital e de novo com a cabeça no chão. Foi operada de urgência e, acto contínuo, vítima de negligência: não lhe tiraram o ar da cabeça, procedimento imperativo neste tipo de cirurgias. Uma enfermeira enviou a minha tia para os cuidados intermédios em vez de a levar para os intensivos. A Mariazinha apanhou uma pneumonia e não chegou a acordar. Vamos para cima deles com um processo, garantiu-me a Rita. "Se a minha avó já não volta, pelo menos alguém, no futuro, poderá colher benefícios disto".

Deixámos Anadia hora e meia depois do funeral, arrasados e com o estômago a queixar-se. Liguei ao senhor Carlos, dono da cervejaria que interessa ao pé da minha rua, e reservei jantar para a família Coelho. Leitão para o filho, arroz de polvo para a mãe e polvo cozido para o pai. Não passou foi pela cabeça de ninguém que essas três meias doses acabassem no lixo ao fim da noite, uma vez que não chegaram a ser vendidas. (Mas, que raio, também não era preciso deitar a comida fora).

Às 19:30 já estávamos na A1 - os meus pais, a Rita e eu. Achei apropriado sintonizar o rádio na M80.  Passámos por um carro onde seguiam familiares nossos logo nos primeiros quilómetros da viagem de regresso. Iam para Castelo Branco. A minha tia Cândida fez adeus e senti um arrepio na espinha. Passámos também por um Audi A3 que estava parado na berma da auto-estrada, provavelmente com uma avaria. "Olha um primo nosso ali parado...", comentei com o meu pai, que, por sua vez, retraiu  o desabafo de que os Audi A3 só dão problemas. Imaginei um balão de pensamento por cima do cabelo dele estilo MacGyver moreno, dividido ao meio e puxado para trás com os intervalos dos dedos. Ainda tentei aventurar-me pelo relato do jogo de Portugal, mas em menos de cinco segundos a minha mãe pôs-me na linha. M80.

A Rita ainda ia trabalhar nessa noite, pelo que pisei mais a tábua do que o costume, e de Lisboa nos aproximávamos quando o motor foi abaixo. Assisti, incrédulo, ao ponteiro da velocidade descer, teimoso, até ao zero. Conduzi o carro durante os metros que pude e deixei-o no fim de uma subida íngreme. Era já noite cerrada pelas 21:00.


Desde que deixei o cabrão do Audi A3 do meu irmão a uma unha de distância do rail de protecção, até aparecer o reboque, passou mais de uma hora, tempo suficiente para passarmos de um sereno conformismo - jantar na cervejaria cancelado - ao desespero. A minha mãe sentiu-se mal. Precisa de comer com frequência, pois, de contrário, a tensão baixa, e ali não tinha grandes hipóteses de se safar. Na geleira que trouxera de Portimão já só restava água. O meu pai, afectado pela perda da irmã, só fazia disparates. Andava com frequência em redor do carro, sem norte, o que assustava a minha mãe a um ponto desnecessário, dadas as circunstâncias. Eu e a Rita tentávamos relativizar as coisas - "nem está assim muito frio" - mas a energia era tensa. A certa altura, quando já nos tínhamos lembrado de ir para o lado de fora do rail, que dava para uma ribanceira, reparei que o meu pai estava ao telemóvel e dirigia-se, no breu, na direcção do triângulo. Uai. Mesmo que o reboque já estivesse no horizonte, o que não acontecia, ele não podia tirar o triângulo lá de trás antes de seguirmos viagem. Além disso, andar pela berma da auto-estrada, ainda para mais no escuro, era, digamos, estúpido. Não sabia que raio lhe estaria a passar pela cabeça e fui atrás, e qual não é a minha surpresa quando o vejo passar para lá do triângulo, ainda ao telemóvel! Chamei-o sem obter resposta e desatei a correr pelo lado de fora, onde também não via porra nenhuma. Vi-o cair ao longe. Acelerei o passo e ao chegar perto dele tropecei também em algo, mas estiquei um pé e mantive o equilíbrio para não cair ribanceira abaixo. Gritei-lhe: "Mas que merda é esta, estás louco!?"

Não me respondeu logo, atordoado que estava, mas depois explicou-me que tinha sido a responsável da assistência em viagem que lhe tinha dito ao telemóvel para procurar o quilómetro da auto-estrada em que estávamos parados. A puta senil. Caíra ele devido ao declive da berma da auto-estrada - distraído ao telemóvel, no escuro, não o topou; estivera eu perto de cair devido ao canal de pedra que leva as águas da auto-estrada para a ribanceira. Já de pé, o meu pai sacudiu pedrinhas e pó das calças, onde ganhava forma uma pequena poça de sangue. Fez um esgar de dor. Pedi-lhe para levantar o tecido: já lá ardia uma ferida grande no joelho. O cotovelo também estava aberto. Tudo isto eram coisas a mais para a minha mãe, que, zonza, teve força suficiente para encher os ouvidos do meu pai à grande e à angolana assim que soube da história - no escuro, ao longe, pouco vira. Nunca mais o meu pai vai repetir uma brincadeira daquelas, tanto que de nós ouviu. É uma garantia. Depressa apareceu o taxi e seguimos viagem. Tínhamos o carro de substituição à nossa espera na Hertz, rent-a-car com escritório no aeroporto. Lá chegados, enquanto o meu pai foi buscar a chave do carro de substituição, fiquei com a minha mãe do lado de fora das chegadas. Antes, deixámos a Rita em Vila Franca de Xira com pedidos múltiplos de desculpa por todas as coisinhas.

Quem por nós passasse no aeroporto passava por uma mulher pálida sentada numa geleira com um guarda-chuva na mão, mulher essa que encostava a cabeça ao corpo de um rapaz, o filho, eu, que trazia um colete reflector numa mão e um sombreiro de Audi na outra - tivemos de esvaziar o cabrão do chasso, que seguiu directo para o depósito do reboque.

O meu pai apareceu de chave na mão e sangue seco a decorar as calças. Acompanhado do colete reflector e do sombreiro do carro, perguntei a três polícias por uma farmácia no aeroporto. Olharam-me de cima a baixo e responderam: "já fechou". Decidimos democraticamente que as feridas só seriam desinfectadas em Portimão, uma vez que a prioridade era comer - dois votos contra um, o meu. Descemos ao parque de estacionamento, onde seguimos no nosso novíssimo e instável Ford Focus para a Portugália, não sem antes perdermos quase meia hora para o pôr a andar - só pegava pisando a embraiagem, pormenor que, claro, a Hertz nos omitiu. Perto da uma da manhã estávamos à mesa, agradecendo à providência a imensa glória de poder devorar alimentos. O empregado que nos serviu a grelhada mista era muito afável e ficou logo a saber do enterro e afins. Era de Trás-os-Montes e contou algumas histórias. Junto da conta trouxe uma tigela da Portugália, que ofereceu à minha mãe.

Não tinha dúvidas de que iria levar os meus pais a Portimão. O plano inicial era outro, uma vez que trabalhava dali a pouco mais de 24 horas, mas eles estavam demasiado exaustos para se preocuparem a dois com mais 300 quilómetros de madrugada. A minha opção agradou-lhes muito e revelou-se certeira: mal entrámos no Alentejo, um imenso manto de nevoeiro tudo cobriu em nosso redor. Fiz grande parte do trajecto entre os 70 e 80 quilómetros/hora, com máximos, luzes de nevoeiro e quatro piscas ligados. No banco de trás, embalada pela viagem fantasma, a minha mãe adormecia e acordava com facilidade, num cansaço confuso. Numa das vezes em que acordou, gritou, "buraco!", "buraco!", e voltou a fechar os olhos. Chegámos a casa com os ponteiros a bater nas cinco da manhã. Deitei-me de seguida. Ruidosas, as gaivotas, histéricas de fome, começaram pouco depois a dirigir-se em bando para o mar, à procura de comida. Fechei os olhos e segui-lhes o voo até à praia. Encontrei lá a minha tia: estava a compor o cabelo diante de um pequeno espelho de princesa enquanto mordia uma malagueta.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Já vos conto o meu fim de semana



Até lá... música para ouvir no caminho para o trabalho.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

És tu

Não é a morena que mora ao fundo da minha rua, a que frequenta a esplanada aqui de baixo, não é ela, a que aparece todos os dias por volta das 19:00 e senta-se a beber uma coca-cola enquanto desfolha o Correio da Manhã com a pressa do desinteresse, não é ela, a que faz sotaque ruidoso para que a leia do jeito que ela quer, depois de ela me ter lido do jeito que eu quis;

Não é a que me faz sentir seguro, bem, a do sorriso traquina, que fecha os olhos quando sorri, de bons caprichos, mimosa, próxima, interessada por tanto ao ponto de balbuciar qualquer música que lhe agrade, ainda que não a conheça - não pelo faz de conta, mas pela aprendizagem instantânea;

Não é a do olhar infinitamente triste, que grita socorro ao contrário, para dentro, a que se alimenta da ideia de que já é tarde, e de tanto acreditar na tristeza nela cristalizou;

Não é a dos olhos negros, crípticos - na verdade disfarçados, porque em lava -, deslocados, a da voluntária pelos pequenos encantos, a que procura outras respostas e acredita que o coração prevalece;

Não é a que foge do conforto e da lógica, a que tem pânico do que para trás fica e cortando a eito a todos derrete, a que nunca se irá defender do que não conhece, a da imparável força de viver que gera admiradores amargos e amores eternos.

Não.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

(Não esquecer de respirar)

"Le Concert", Radu Mihaileanu (2009)

De tempos a tempos, muito espaçadamente, aparece um filme assim. Por alguma desordem do cosmos não o fui ver como deve ser, lá, no escurinho da sala grande agora pago a 1300 paus, e aconteceu ontem, por acaso, como tudo o que mais desassossega. A RTP 2 é uma boa amiga. Interpretação avassaladora da Melanie Laurent, actriz de beleza sinistra, muito à imagem da nossa Ana Moreira. Parece sempre forçado quando riem. Aqueles olhos de husky siberiano transformaram em ouro todos os filmes em que a vi tocar - “De Battre Mon Coeur s’est arrête”, “Inglorious Basterds” e este “Le Concert”, que conta a história de um antigo maestro russo do Teatro Bolshoi cuja carreira foi arruinada por defender músicos judeus, há 30 anos, e que terá uma segunda oportunidade de continuar a procurar “a harmonia perfeita”. Para um spoiler épico - cena final -, clicar aqui.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Isto é um absurdo, Tchaikovsky



Podia ser uma daquelas músicas de anúncios que agora competem ao contrário, para aferir qual a pior, desde que a do Pingo Doce ficou famosa pelos piores motivos. Todos sabemos como é: aquela pasta viscosa agarra-se aos nossos tímpanos com a teimosia do bedum de casca de banana esquecida no cesto do lixo de autocarros públicos, e depois é o bom e o bonito para nos livrarmos daquilo. Não. Tive melhor sorte. Nos últimos dias não me tem saído da cabeça o tema central do Lago dos Cisnes, indiscutivelmente o mais espectacular dos bailados que conheço, na medida em que é o único, e hoje vi-me obrigado a ouvir isto vezes sem conta numa roda viva para lá de doentia que me recordou a nossa insignificância perante alguém (Tchaikovsky) capaz de inventar algo assim, absurdo de tão belo, capaz de deixar gerações de três séculos diferentes (1876: XIX, XX e XXI) em pele de galinha.

A Orquestra Filarmónica de Israel concordará.
Os meus vizinhos também, que remédio.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Amoras frescas

Era uma tarde esplendorosa de Julho quando acordou, assomou-se à janela e condenou o desplante do sol por, radiante, não o acompanhar no seu desinteresse por quase tudo de todas as coisas. Sobrava-lhe pouco: tanto quanto se podia lembrar, apenas o gosto por amoras frescas - guardava-as sempre num cestinho sobre a mesa de cabeceira - e o canto madrugador e desconcertante dos tordos no arvoredo da rua de trás. Compreendeu nesse instante que morreria mais cedo do que lhe estaria destinado, e por conta própria. Agradava-lhe a ideia de que, se nunca tivera uma vida grandiosa, pelo menos os contornos da sua morte correriam mundo, de tão monumentais: construiria um balão de ar quente, suficientemente sólido para levantar voo mas vulnerável à primeira tempestade.

Sempre fora hábil em trabalhos manuais, pelo que a empresa do próprio fim não se revelou problemática. Reuniu os materiais necessários e trabalhou dois dias de sol a sol. Alimentava-se de fruta e bolos secos, ingerindo pequenos solvos de aguardente cabo verdiana para retemperar forças - fugindo à água, evitava corridas (e perdas de tempo) desnecessárias à casa de banho. "Morrer dá trabalho", pensou, na segunda manhã, deixando escapar um sorriso, mas num piscar de olhos recuperou a expressão de pedra que ganhara desde que assumiu a responsabilidade de tirar a própria vida.

Preparou tudo a um detalhe tal que pouco dormiu até ultimar a construção do balão, e tanto assim foi que no dia marcado se sentiu demasiado exausto para morrer, dormindo directamente da véspera da sua morte até ao dia seguinte. Acordou pela fresquinha. Foi abastecer-se ao cestinho das amoras, tirou a roupa interior e tomou um duche gelado; sentia-se com energia e saiu de casa guiado pelo canto dos tordos na rua de trás, que de resto o acordara, e ao virar da esquina não pôde deixar de se apaixonar por uma putinha mulata com nariz de batata e um sorriso bonito, que fazia manhãs; com ela viveu feliz até ao longínquo dia em que deixou de respirar devido ao veneno para ratos que o filho, já idoso, tinha colocado no cestinho das amoras por engano, ignorando serem frescas.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Soube a pouco, Matias

El Crá : 20 golos em 115 jogos pelo Sporting

Está de saída do Sporting um dos grandes craques que passaram pelo futebol português desde que me conheço. Um número 'dez' puro, que preferia ter nas costas o mais discreto e nem por isso menos simbólico '14' - Johan Cruyff gosta disto. Daquelas chuteiras chilenas sempre destilou um perfume diferente, "coisas bonitas" nas palavras do Artur Jorge. Mati é uma espécie em desuso no futebol, o sobredotado que corre menos do que os outros e a quem os adeptos perdoam a insolência como se de um filho se tratasse, na certeza de que em breve uma traquinice os irá derreter. Ao Matias faltou sempre alguma urgência nas acções: o futebol europeu é terrível, corre-se muito, não há espaços; não poucas vezes o vimos ultrapassado pelas circunstâncias - leia-se: o advento deste futebol físico, a lei de Darwin virada do avesso, que rejeita quem bonito joga e a destruição coroa. Outro senão: as lesões musculares constantes que o afectam desde que chegou ao futebol europeu no início de 2007, concretamente ao Villareal, e condicionam o tipo de jogo que apresenta, hoje mais dado aos passes mágicos de rotura e nós cegos em espaços curtos do que propriamente em cavalgadas à Maradona como esta aqui em baixo, que em 2006 lhe valeram o prémio de melhor jogador sul-americano e que, aqui em Portugal, seriam impossíveis de acontecer - El Crá já estava a comer relva à segunda revienga.


Imagino-o a gingar entre os defesas nos anos 80, solto, talvez com o '10' nas costas, construindo uma aura de ídolo no futebol mundial. Talvez tenha nascido 20 anos depois do devido, pois nada tem de lógico que o veja trocar o Sporting Clube de Portugal pelo 13.º classificado da liga italiana, a Fiorentina, longe das provas da UEFA, de tudo o que interessa, entrando num futebol ainda mais calculista e cinzento do que o nosso. 

Florença terá um novo Príncipe e o Sporting paga a factura de atempadamente não ter renovado ou vendido o jogador, deixando-o entrar no último ano de contrato e aceitando quaisquer trocos para evitar a saída a custo zero. Assim se vê partir um craque que em três anos não ganha qualquer troféu pelo clube e que, tendo sido contratado por 3,635 milhões de euros, vai sair, ao que tudo indica, sem criar mais valia financeira - dos quatro milhões que se fala é preciso fatiar 25% dos direitos económicos que foram entretanto alienados pela nossa direcção, sabe-se lá a quem e por quanto. É mais um exemplo do modus operandi das gestões à Sporting, que deixaram o clube no estado financeiramente calamitoso em que o vemos.

Não consigo deixar de me torturar a pensar que, caso tivesse aterrado no aeroporto Sá Carneiro, há três anos, o Matias Fernández estava hoje a ser vendido para um Manchester Unitedzinho por 20 ou 30 milhões. Deve ter sido pelo menos essa a promessa que os genes lhe fizeram.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Radiohead: tudo no seu devido lugar

©Laura Haanpää

Sendo estética e musicalmente brilhantes, os Radiohead nunca escolheram o caminho mais fácil desde que se tornaram numa banda à escala mundial. Quando conquistaram o mundo, tricotando a pop até à perfeição em "The Bends" (1995) e "Ok Computer" (1997), não demoraram a evaporar-se tal como então se davam a conhecer, partindo à descoberta de novas formas de expressão, sobretudo electrónicas. Tão à frente dos acontecimentos e, percebe-se hoje, com as coisas sob controlo, talvez os Radiohead o tenham então feito pela necessidade de sobreviverem enquanto banda criativa a essa grande e fedorenta bocarra com lábios de silicone que aparece encaixada no focinho da fama.

Quando deram à luz o gélido Kid A (2000), meio mundo exigiu autos de fé. Para quem tinha adoptado os dois anteriores trabalhos como álbuns de uma vida, e dando de barato que as angústias teenager do Thom Yorke no disco de estreia Pablo Honey (1993) não mudaram o mundo, o choque foi tremendo. Kid A praticamente não tinha guitarras, riffs ou refrões 'singalong'; era, antes, fértil em experimentalismos electrónicos de uma desolação mo-nu-men-tal, a banda sonora do fim de tudo à qual as rádios populares fecharam os microfones à primeira audição. No ano seguinte apareceu o irmão disforme, "Amnesiac", ainda assim mais melódico. Há quem diga - ainda ontem mo disseram - que nunca mais ouviu Radiohead pós-1997.

Mas para a banda deve ter sido um alívio poder deixar para trás o que lá atrás pertencia, deparando-se com um cenário win-win: ao mesmo que lançava o mito sobre The Bends e Ok Computer, literalmente irrepetíveis, libertava-se da pressão de ter de estar à altura do pedestal ao qual tinham subido. O virar do milénio implicaria um verdadeiro recomeço. Hoje, tanto tempo depois, dá para perceber que as respostas às nossas perguntas sobre a radical mudança de direcção do quinteto sempre estiveram ali mesmo, à nossa frente, a acenar-nos com a sua longa e bizarra cauda, tanto no título do último disco amigo da memória - Ok Computador... venceste... - como, por exemplo, no primeiro tema de Kid A, onde se avisava que tudo tinha o seu tempo e lugar devidos ("Everything in it's right place"). É mesmo assim. O passado foi lá atrás. Acompanhe-nos quem quiser.

É por isso que quem deles gosta, ama. É um combinado de admiração pelo talento e imenso respeito pela filosofia de trabalho. A cada álbum os Radiohead tentam inventar uma nova obra de culto, coisa que à descarada já conseguiram com "In Rainbows" (2007), monumental pacote de rock electrónico cujo sucessor "The King of Limbs" (2011) é ainda mais dançável, com especial incidência na percussão galopante do Phil Selway, embora talvez menos sofisticado. Isqueiros no bolso, pá.

Ontem, no primeiro concerto que assisto ao vivo da minha banda viva favorita, o alinhamento privilegiou o repertório destes dois últimos discos e os singles que recentemente foram lançados. O mesmo é dizer: foi uma festa dos diabos ao som de faixas electrizantes (ex: 'Morning Mr. Magpie' ou 'Staircase'), contrabalançadas por coisas a baloiçar entre slow e danceteria (ex: 'Reckoner)' e, claro, mimos de contemplação para-lá-de-religiosa de tempos que, em disco e na grande fatia dos concertos, já não voltam (ex: 'Exit Music - For a Film'', cujo vídeo pode ser visto em baixo). Fechar com a 'Street Spirit' foi um momento sublime, mas outros houve - todos, na verdade, desde o irrepreensível jogo de luzes e vídeo oferecido pelo quinteto inglês à figura enigmática do Thom Yorke, que, ao microfone, entre músicas, limitou-se durante mais de duas horas a balbuciar coisas imperceptíveis num estilo 'I really don't give a fuck' que cada vez me agrada mais, por oposição à tanga de nos repetirem que somos o melhor público do mundo a cada bruaá. Sejamos honestos nas coisas. E sim, o falsete do Thom é mesmo límpido, de criança, bonito que quase irrita. E sim, o estilo de dança autista do bichinho de rabo de cavalo é bestial. E sim, o alinhamento foi tremendo, mas podia facilmente ser outro, que tremendo seria. E sim, aqui à volta, onde estou, é só nuvens. Foi uma vida à espera disto.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Vontade de Deus?

Na religião agrada-me o sentido de comunidade. Identifico-me com isso - pessoas que atravessam a vida em comunhão, partilhando o bom e o mau. A bondade. Ajudar. Gosto também das igrejas. São bonitas. A paz que oferecem aos que dela mais precisam. Gosto disso.

O resto não entendo. Mais: revolta-me.

"Em tudo dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco", (1 Tessalonicenses 5.18), lê-se na Bíblia.

Então é assim, fechamos os olhos, glória a Deus e amém?

Vou aceitar que uma miúda de 31 anos seja levada daqui, assim, tão feliz, noiva e com uma filha por criar? É esta a vontade de Deus? É a isto que devemos dar graças?

De mim não esperem que me curve perante uma suposta vontade divina que se manifesta assim. Não: é chocante. Cruel.

Descansa em paz, querida J., descansa em paz embalada pela música que durante anos nos deste todos os dias.

domingo, 8 de julho de 2012

Gabo perde a memória


O melhor escritor vivo perdeu-se no seu próprio labirinto de sonho e de verdade. É o cúmulo da tristeza. Mas teremos sempre Macondo.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Noite Tunisina

Anfiteatro ao ar livre, Gulbenkian

Chegámos perto das 22:00 sob um céu mais rosado que negro, coberto de nuvens rápidas e ameaçadoras. As ramagens agitavam-se numa aflição de Outono. O frio eriçava a pele. Noites de Verão. Na Noruega.

Visitávamos a Noite Tunisina do Ciclo de Cinema Árabe a decorrer na Gulbenkian. A troco de três euros tínhamos direito a visionar duas curtas metragens e uma longa, mas também a mantinhas para aquecer o colo e outras zonas de fácil arrepio - só o percebemos já de cerveja na mão, no regresso da roulote que entretanto descobrimos assim como quem a procura.

"O Lamento do Peixe Vermelho" (Oubeyd-Allah Ayari) foi a primeira proposta e teve a duração de 12 minutos. Num só fôlego, dizer que o protagonista era um quarentão solteiro que estava a ficar cheché até que, sentado no banco de um bosque, viu uma galinha arrastar-se à sua frente dentro de uma caixa de cartão e apaixonou-se pela mulher que estava sentada na outra ponta do banco, a ler. Foi amor à primeira galinha.

Seguiu-se "Porquê Eu" (Amine Chiboub, 13 min.), que foi exactamente o que pensei quando observei alguns dos actores em acção. Salvou-se a ideia nuclear da curta: tratem-se bem, humanos.

Khorma a levantar voo 

Por fim, "Khorma, Filho do Cemitério" (Jilani Saadi, 100 min.). O primeiro plano do filme mostra um rapaz a fugir pela praia, vestido, iluminado pela luz plácida da manhã, cantando coisas sem nexo enquanto faz que voa. A câmara filma Khorma, um destravado ruivo a dar para o albino com dentes podres e que urina em direcções opostas - "Deus colocou dois buraquinhos no meu pénis". Khorma faz vida a anunciar casamentos e funerais. Parece tolo, mas sabe-a toda. Tem um mestre, Bou Khaled, que o introduz na arte do negócio. Em pouco tempo conseguirá pôr a sua comunidade a dançar ao ritmo que bem entende. Até que, pim!, acontecem coisas.

O filme, castiço, vivo, interessará a quem preferir espreitar detalhes sociais de realidades distantes, sentado num bonito anfiteatro ao ar livre, em vez de ficar a desancar no Miguel Relvas via Facebook - muito embora compreenda que esta última opção também possa ser cativante. Exemplo: percebemos rapidamente em que país muçulmano foi rodado. Líbano à parte - é um caso especial -, só na moderada Tunísia é que se poderia filmar uma rapariga a abanar-se toda para um homem enquanto esfrega a roupa no alguidar, isto além de 'crescer' para o pai, devolvendo-lhe ordens. Lembremo-nos: aqui começou a Primavera Árabe.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Esqueci-me de me lembrar do caminho para o Portinho

Pertenço àquela espécie de primata vulgarmente conhecida por 'homem' e, claro, separo as cores entre branco, amarelo, laranja, vermelho, rosa, azul, verde, castanho, cinzento e preto, mas os olhos da C. pediram tanta atenção na noite em que a conheci que, mais tarde, demorei-me um bom bocado na Net à procura da cor perdida, pois justiça não lhes fazia as que conhecia. Percebi que são ambar. Isto já tem o seu tempo, mas cada dia a miúda está mais bonita. É luz de ferir vista. Ao jantar, esta noite, um rapaz da mesa da frente, virado para a televisão, quase de costas para nós, passou mais tempo a forçar as estritas leis do pescoço do que propriamente a ver o 'tikinaccio' prevalecer em Donetsk. Fui incapaz de o censurar - teria feito o mesmo.

Combinámos ir à praia no sábado, e à última hora ganhámos a companhia do D., rapaz descabelado de bom coração e gostos vários, desde o teatro à medicina chinesa. O D. deve ser daquelas pessoas com poucos mas bons amigos, pois fala primeiro e pensa depois. Dispõe, igualmente, de um dos estômagos mais inquietos de que tenho memória. Ao almoço viu-me comer meia sopa - "estou farto disto" - e uma empada de vitela sem, ele próprio, esboçar intenção de morder coisa alguma, mas bastou uma vintena de minutos de viagem para começar a sofrer em voz alta, como as crianças. Depois de algumas negas acabei por lhe fazer a vontade e ei-lo a correr para um Pingo Doce, de onde voltou a acabar um travesseiro, carregando ainda um saco com pão, uma embalagem de fiambre de frango e gomas. 

Era a quarta ou quinta vez que dava um pulo ao Portinho da Arrábida, mas, ao contrário do que aconteceu até à data, investi abundantemente por caminhos que até podiam ter valor mas nada tinham a ver com o nosso destino, de modo que duplicámos o normal tempo de trajecto até conseguirmos meter os pés na areia, já depois das 17:00, julgando ter papados quilómetros suficientes para estacionar no Algarve. A água do mar parecia porreirinha de início, quando molhámos os pés, mas na hora de nos misturarmos nela houve um pleno consenso de que estava "fria como a merda". Aproveitámos um pouco do bom sol. O D. tinha exame de medicina chinesa a curto prazo e de nós fazia cobaias para exemplificar o mérito de diversos e intensos tratamentos manuais. Eu roubei o Cem anos de Solidão à C. e fui citando passagens de uma demência gloriosa. A C. era o centro das atenções e ria-se com frequência, a todos iluminando quando deixava abertos os pequenos e simétricos postes de iluminação em formato cilíndrico. 

Não demorou muito até o sol esconder-se nas costas da Arrábida, atirando com os banhistas para os carros ou as esplanadas dos cafés, sendo este o nosso caso. Pedi três cervejas e um prato de caracóis porque me apetecia comer caracóis, a C. concordou porque queria passar torradas no molho e o D. fez cara feia porque não gostava do petisco - por outras palavras, nunca o tinha provado. De início bateu o pé, que não queria, que não estava para comer 'nhenha', mas em menos de nada já tentava arrancar os caracóis da respectiva casota, ajudado por um palito. "Isto não sabe a nada!", declarou, ao provar o primeiro, fazendo um trejeito de nojo que não convenceu. Concordei em parte com o diagnóstico, embora lhe fizesse ver que, por isso, pela falta de sabor, não vinha o mal ao mundo. Expliquei-lhe que uma caracolada é uma coisa social e que pede cerveja, pão torrado, amigos e calor, além de que o caracol, em todo o caso, "come-se". Contudo, naquele caso, também pedia muito mais molho - o petisco estava com o sal preciso, picante q.b., mas seco, reconheci. Quando os caracóis voltaram à mesa, já vagamente ensopados, ideais, o D. esqueceu-se do tal sabor "a nada" e mudou de conversa sem parar de comer. Foi ele que limpou o prato. Hoje, quatro dias depois da primeira, vai na terceira caracolada. E a C. estava ainda mais gira do que ontem.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Girl wins

Pequenito e escondido, o Bar do T. passa despercebido em Portimão, mas, uma vez encontrado, faz por merecer estar associado à terra do tudo ou nada. À falta de oferta nocturna na cidade para um público mais exigente, o bar do T. é uma alternativa que não desilude dentro dos padrões do típico bar de "bifes". Tem karaoke e uma sala com internet e snooker. Nas paredes há plasmas onde geralmente passam DVDs de música que variam entre o interessante (Live Aid'85) e o azeite suportável do Robbie-tenham-pena-de-mim-Williams em Knebworth, 2003. Os clientes são maioritariamente estrangeiros, de férias, acomodados nos hotéis das redondezas, ou gente da terra como o Vidaul, que é agricultor e não sei ao certo se o nome dele se escreve assim, Vidaul, como o estou a fazer. À chegada ao bar, o meu irmão e eu vimo-lo rodeado de estrangeiras de meia idade, muito rosadas, muito gordas (fish and chips, fish and chips, fish and chips), na maioria casadas mas sem os maridos por perto - estes começam a beber mal acordam e à noite já não se aguentam de pé, deixando as mulheres ao abandono. Durante uma partida de snooker o meu irmão dirigiu-se ao Vidaul e perguntou-lhe se teria albicoques (damascos) no carro para vender. Prevenido, o agricultor sorriu, foi e veio em menos de pouco e o negócio fechou-se: quatro euros para ele e um saco a pingar albicoques para nós. Na verdade, por muito boa vontade que tenha, o Vidaul não se safa com as estrangeiras, não como o T., pelo menos. O T. é um bom anfitrião para um bar pequeno como aquele. De vez em quando enfeita-se com chapéus, está quase sempre bem disposto e nunca deixa de ficar bêbado. A barriga generosa não chega a enganar: o homem parece ter (e tem) a força de dois cavalos. É também fanático-religioso pelo Sporting Clube de Portugal, o que só lhe fica bem.

Numa noite recente havia duas intermináveis estrangeiras, irmãs, que lhe queriam fazer a folha, mas como uma queria mais do que a outra ficou decidido por aí quem teria a primazia. Aos ouvidos do T., bem como à restante clientela, chegou o número do quarto em voz alta, "Five O'Eight!", ao que o T. respondia, expondo os dentes desalinhados, em jeito de promessa, "Knock-knock, room service!", e a estrangeira logo se derreteu num combinado de risinhos histéricos e soluços sem que eu percebesse se o marido dela, já num hipotético sétimo sono, presumivelmente no 508, também faria parte da equação.

Se há coisa que se pode dizer dos estrangeiros que andam pelo Algarve de férias é que bebem muito, e uma das intermináveis irmãs, a mais motivada, bebeu tanto que, já sem conseguir abrir os olhos, subiu ao 508 antes do fecho do bar. O T. prometeu-lhe que iria ter com ela assim que pudesse, mas de repente todos os ventos o empurravam para a irmã, que tinha ficado por ali. Todos os ventos, menos o de uma rapariga portuguesa com um corte de cabelo punk, camisa branca aberta até ao terceiro botão e, diz-se, uma boa fama de aviar tudo o que é estrangeiras. No meio daquela confusão, o T. fazia rir uma irmã mas não esquecia a outra, e de tanto querer as duas acabou sozinho.

terça-feira, 5 de junho de 2012

O Boss dava conta do Chuck Norris

Bruce Springsteen & The E Street Band, por Laura Haanpää

O Boss é tão Boss que, acabado o Rock in Rio-Lisboa 2012, onde me estreei ao fim de cinco edições, faz sinal aos irmãos de vida da E Street Band e ei-los de volta ao palco para tocar 'Twist and Shout' dos Beatles Top Notes por cima do fogo de artifício que marca o fim de festa. Se não sabia, a pessoa que deu ordem para premir o botão do fogo de artifício ficou a saber que a festa acaba quando o Boss quiser. 

O Boss é tão Boss que, 19 intermináveis anos depois da última actuação em Portugal, no velhinho Alvalade (L), regressa num festival em que o cartaz musical só representa, na melhor das estimativas, 50% das actividades, carrega na apresentação do novo álbum (Wrecking Ball), que mereceu três das quatro primeiras músicas, e espera pelo fim para oferecer ao povão um mini best-off com as big 4, 'Born in the USA', 'Born To Run', 'Glory Days' e 'Dancing in the Dark'.

O Boss é tão Boss que não convidou uma, mas duas mulheres para fazer de Courtney Cox na 'Dancing in the Dark'.

O Boss é tão Boss que aos 62 anos passou o concerto a correr entre público e palco quando na véspera tinha tocado durante três horas em San Sebastian.

O Boss é tão Boss que fala melhor português à meia noite do que eu depois das quatro da manhã. 

O Boss é tão Boss que nunca se cansou de elogiar o talento da lendária E Street Band, composta por quase 20 músicos que produzem, de longe, o som mais arrebatador que já ouvi ao vivo.

O Boss é tão Boss que quase me esqueço como é bom ouvir 81 mil pessoas a cantar em português, mesmo que seja cada vez mais urgente para o Tim (não o Booth, o dos Xutos) estar rodeado de vozes amigas que tornem possível levar certos temas até ao fim.

O Boss é tão Boss que quase me esqueço do maluco dos Kaiser Chiefs a desaparecer colina acima para desespero dos seguranças, aparecendo depois a descer em slide, sobre a multidão, sem nunca parar de cantar a música que fisicamente abandonara.

O Boss é tão Boss que quase me esqueço do quanto gosto dos James e da maravilha que é vê-los ao vivo, da rara comunhão que conseguem ter com o público, e somos sempre poucos para cantar hinos de uma vida como a 'Laid', 'Sit Down' ou 'Sometimes'.


O Boss é tão Boss que, pela primeira vez em muitos anos de festivais, com a bexiga em suplício, deixei-me ficar nas grades durante quatro horas e meia para conservar o meu spot privilegiado - ou seja, do fim do concerto dos James ao fim do concerto do Bruce Springsteen. E sim, bebi cerveja das 16h às 22h.

O Boss é tão Boss que convidou um puto certamente com menos de dez anos para cantar o refrão da 'Waiting on a Sunny Day' perante 81 mil pessoas e depois pô-lo aos ombros e disse-lhe que a partir daquele momento passava a fazer parte da E Street Band.

O Boss é tão Boss que falou sobre a sua 'maria' - "está em casa com as crianças e manda cumprimentos" - e dos tempos difíceis que se vivem na América "e aqui", em Portugal, "onde muitas pessoas perderam os seus empregos", especificou. Ao fim destes anos todos o Boss, filho pródigo e portador do imaginário popular dos Estados Unidos, o país que ganhou o óscar vitalício para Maior Umbigo, nunca perdeu de vista o poder (e responsabilidade) que um microfone nas mãos lhe confere, e continua a tentar salvar o mundo.

O Boss é tão Boss que tomou conta de nós quando brincou, quando falou a sério, quando cantou, quando tocou e até quando, a dada altura, uivou. Tomou conta de nós. Não nos sobrava um pingo de ego. Acredito que naquela noite também ele desse conta do Chuck Norris.

O Boss é tão Boss que, na 'Spirit in the Night' espalhou a mensagem da força interior em versão pastor evangélico, fazendo uma missa a céu aberto no Parque da Bela Vista com o intuito de, disse, estimular os nossos órgãos sexuais com o poder do rock n'roll.

O Boss é tão Boss que foi três vezes às grades buscar cartazes com nomes de músicas empunhados pela malta das primeiras filas, regressava ao palco, mostrava-os à família e de seguida tocava-as. "Aqui há discos pedidos", estampava-se no sorrisão do Boss, enquanto os jornalistas atiravam o rascunho do alinhamento oficial para o cesto do lixo.

O Boss é tão Boss que chamar-lhe 'Chefe' é eufemismo. O homem é uma besta. A melhor de todas.